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03 novembro, 2020

a VIDA numa só linha

"A vida é toda feita de coincidências."
JOSÉ SARAMAGO, in “O ano da morte de Ricardo Reis”

"A vida é uma farsa."
PHILIPPE CLAUDEL, in “O arquipélago do cão"

"A vida é o que fazemos dela"
FERNANDO PESSOA, in “Livro do desassossego"

"A vida é um saco muito pesado."
J.M.G. LE CLÉZIO, in “A música da forme"

"A vida é um colar."
MIA COUTO, in “O fio das missangas"

"A vida é uma luta de todos contra todos."
MILLAN KUNDERA, in “A festa da insignificância"

"A vida é o que se vê nos olhos das pessoas."
VIRGINIA WOOLF, in “Contos"


Fotos tiradas nos jardins do HOTEL VILA GALÉ COLLECTION PALÁCIO DOS ARCOS, Paço de Arcos / Portugal.

12 junho, 2020

Curiosidades "Rol de Leituras": frases e romances de José Saramago

De José Saramago li praticamente todos os romances. Alguns, cheguei a reler para poder resumir e publicar no Rol.
Em todos sublinhei muitas, muitas frases, que também fui compartilhando.
Estas são as frases e os romances de Saramago, mais visualizados no Rol de Leituras:

Frases sublinhadas no romance "Levantado do Chão":
"O que há mais na terra, é paisagem. Por muito que do resto lhe falte, a paisagem sempre sobrou, abundância que só por milagre infatigável se explica, porquanto a paisagem é sem dúvida anterior ao homem, e apesar disso, de tanto existir, não se acabou ainda.
…
Não faltam cores a esta paisagem. Porém, nem só de cores. Há dias tão duros como o frio deles, outros em que se não sabe de ar para tanto calor: o mundo nunca está contente, se o estará alguma vez, tão certa tem a morte.
…
Tanta paisagem. Um homem pode andar por cá uma vida toda e nunca se achar, se nasceu perdido."

(Ler mais...)

Os três romances mais «espreitados»:
"História do Cerco de Lisboa"
Os primeiros capítulos deste livro de José Saramago são difíceis de compreender. Que raio de enredo é este que entrelaça o passado com o presente?
Sem resposta, apetece largar o livro e esquecer de vez o revisor Raimundo Silva.
Não faça isso. Continue a ler e rapidamente vai entender que num só livro estão contadas duas histórias. É isso possível? Sim, com Saramago tudo é possível.
A história começa com Raimundo Silva, solteiro, com mais de cinquenta anos, revisor de profissão, a rever um tratado de história, com quatrocentas e trinta e sete páginas, intitulado “História do Cerco de Lisboa” – corria o ano de 1147 quando os portugueses, ajudados por cruzados, tomaram a cidade aos mouros.
No final da revisão, lê vezes sem conta a linha que afirma que os cruzados auxiliarão os portugueses a tomar Lisboa e eis que, pela primeira vez em tantos anos de profissão, infringe o código deontológico dos revisores, ao introduzir deliberadamente no texto um NÃO que altera toda a verdade histórica. (Ler mais...)

"Ensaio sobre a Lucidez"
Disse José Saramago: Este é um livro francamente terrível com o qual eu quero que o leitor sofra tanto como eu sofri ao escrevê-lo. Nele se descreve uma longa tortura. É um livro brutal e violento e é simultaneamente uma das experiências mais dolorosas da minha vida. São 300 páginas de constante aflição. Através da escrita, tentei dizer que não somos bons e que é preciso que tenhamos coragem para reconhecer isso.
Ora bem, eu não sofri tanto assim. Até sorri, diversas vezes, com a crítica mordaz que ele faz ao poder político. Uma crítica cáustica, como só ele sabe fazer. A primeira parte do livro é, verdadeiramente risível. A segunda parte, bem, é muito mais séria.
A trama é interessante: Num país qualquer é dia de eleições municipais. Na capital chove torrencialmente e durante a manhã poucos eleitores comparecem para votar. Numa determinada mesa eleitoral o presidente e os delegados dos partidos representados temem uma alta abstenção. (Ler mais...)

 "O ano da morte de Ricardo Reis"
Aqui o mar acaba e a terra principia. Chove sobre a cidade pálida, as águas do rio correm turvas de barro, há cheias nas lezírias.
Assim começa esta narrativa sobre os últimos nove meses de vida do médico Ricardo Reis, o heterónimo mais conhecido de Fernando Pessoa.
Na sua biografia consta que nasceu no Porto, em 1887 e nada é dito sobre o ano da sua morte. Saramago decide, então, criar a sua versão da história, entrelaçando factos oficiais com factos imaginados, e pôr um ponto final na vida do médico monárquico. Ricardo Reis morrerá em 1936, ano do início do longo tormento português.
Sou o ano de mil novecentos e trinta e seis, venham ser felizes comigo. (Ler mais...)


Se não leu nenhum dos romances de José Saramago, não sabe o que perdeu. 
A sua escrita inteligente e única, estranha-se primeiro mas depois... «devora-se» compulsivamente!
Confira, lendo-o!
(Conselho meu: não escolha "Memorial do Convento" para começar a ler Saramago. Escolha outro romance. Outro qualquer. Indico três: "A Caverna", "Caim", "As Intermitências da Morte".) 

(fotos da net)

28 abril, 2020

"Os dias são todos iguais..." - José Saramago


























1.“…a melhor maneira de fazer morrer uma rosa é abri-la à força quando ainda não passa de uma pequena promessa de botão.”

2. “… de repente percebemos que já não somos necessários no mundo, se é que alguma vez o tínhamos sido antes, mas acreditar que o éramos parecia bastante, parecia suficiente, e era de certa maneira eterno pelo tempo que a vida durasse, que é isso a eternidade, nada mais do que isso.”

3. “Os dias são todos iguais, as horas é que não, quando os dias chegam ao fim têm sempre as suas vinte e quatro horas completas, mesmo quando elas não tiveram nada dentro.”

4. “Todos os pais foram filhos, muitos filhos vêm a ser pais, mas uns esqueceram-se daquilo que foram, e aos outros não há ninguém que possa explicar-lhes o que serão.”

5. “Nenhuma doçura de hoje será capaz de minorar o amargor de amanhã…”

6. "A boca é um órgão que será tanto mais de confiança quanto mais silencioso se mantiver.”


Palavras sublinhadas no romance  "A Caverna", aqui no Rol.

31 março, 2020

"Nasceste? Pois vais a Itália!" - José Saramago

“A Itália devia ser (perdoe-se-me o exagero, se não tenho companheiros nele) o prémio de termos vindo a este mundo. Uma divindade qualquer, realmente encarregada de distribuir justiça, e não as penas, sabedora de artes, deveria murmurar ao ouvido de cada um de nós, ao menos uma vez na vida: «Nasceste? Pois vais a Itália!»

“Florença é o coração do mundo, mas fechado e duro.”


“… Siena, a bem amada, a cidade onde o meu coração verdadeiramente se compraz. Terra de gente amável, lugar onde todos beberam do leite da bondade humana…”

“Roma, a gigantesca, a cidade cujas portas e janelas foram feitas para homens de três metros, a cidade que não consente que a percorram a pé, a cidade que fatiga os músculos, os ossos e (seja perdoada a heresia) o espírito. Aqui deixo esta confissão humilhada: não compreendo Roma”.

“Não têm fim os museus do Vaticano. Avança-se por dezenas de enormes salas e galerias, de rotundas, de stanze, e sempre com o remorso de estar deixando para trás, talvez para sempre, o quadro, o fresco, a escultura, o livro iluminado que provavelmente nos ajudariam, à boa paz, a compreender melhor este mundo e a vida que fazemos nele.”


“De quantas cidades conheço, Veneza é a única que manifestamente morre, que o sabe, e, fatalista, não se importa muito.”

“De tão de passagem, Nápoles deixou-me a impressão de um gigantesco engarrafamento de automóveis, de gincana de doidos mansos …”

“Por minha parte, declaro que sempre entrarei em Itália em estado de submissão total, de joelhos…"

José Saramago, in "Manual de pintura e caligrafia", aqui no Rol.

13 dezembro, 2019

Árvores e Poemas de NATAL..."up-to-date"!


NATAL UP-TO-DATE
Em vez da consoada há um baile de máscaras
Na filial do Banco erigiu-se um Presépio
Todos os pastores são jovens tecnocratas
que usarão dominó já na próxima década

Chega o rei do petróleo a fingir de Rei Mago
Chega o rei do barulho e conserva-se mudo
enquanto se não sabe ao certo o resultado
dos que vêm sondar a reacção do público

Nas palhas do curral ocultam microfones
O lajedo em redor é de pedras da lua
Rainhas de beleza hão-de-vir de helicóptero
e é provável até que se apresentem nuas

Eis que surge no céu a estrela prometida
Mas é para apontar mais um supermercado
onde se vende pão já transformado em cinza
para que o ritual seja muito mais rápido

Assim a noite passa E passa tão depressa
que a meia-noite em vós nem se demora um pouco
Só Jesus no entanto é que não comparece
Só Jesus afinal não quer nada convosco
(David Mourão-Ferreira, 1927-1996)


O ESPÍRITO DO NATAL
Ano após ano em Dezembro a
árvore artificial
deixa o encerro da cave para ser
a luz no frio. É um pinheiro da China. Quem
se deitar a fazer contas ao ágio
dessoutro negócio
(vinte e quatro mil escudos: já
lá vão nove invernos) a
coisa 
está mais ou menos por
dois contos e tal
o natal. Mau grado à sua copa (inerte
e inodora) falte
o olor a caruma dos natais da minha infância
nela escudo a floresta que ficou por abater
todo um mundo de plástico que
me sobreviverá.
(João Luis Barreto Guimarães, 1967-)


ORATÓRIA DO NATAL CÓSMICO
Natividade. Um deus rompe e sai 
sai da terra no romper da haste
seu presépio é uma flor de urânio
a vaca, tractor branco
o burro, um guindaste

carpinteiro de astronaves seu pai

reis magos em nuvem supersónica

harpas electrónicas

e o anjo que ao sol despia
o resplendor, as asas e o véu
às gentes descrentes anuncia:

- quando ele volta, livre, do cosmos
deuses morrem à míngua de céu
(Luís Veiga Leitão, 1915-1987)


Retirei os poemas do livro "NATAL... NATAIS", a Antologia de Vasco Graça Moura que reúne oito séculos de poesia  em língua portuguesa relativa ao Natal. 
Inclui 202 textos de 130 poetas. "Inicia-se com Afonso X, o Sábio, cujas Cantigas de Santa Maria foram escritas em galego-português no século XIII, e termina com Rui Lage e Pedro Sena-Lino, poetas que começaram a publicar em livro em 2002 e 2005."
Nesta época do ano gosto de folhear este livro. Encontro sempre pérolas poéticas encantadoras!
Como esta de José Saramago  (1922-2010), o nosso romancista distinguido com o Prémio Nobel da Literatura em 1998.

NATAL

Nem aqui, nem agora. Vã promessa
Doutro calor e nova descoberta
Se desfaz sob a hora que anoitece.
Brilham lumes no céu? Sempre brilharam.
Dessa velha ilusão desenganemos:

É dia de Natal. Nada acontece.



BOA SEMANA!

(Árvores de Natal, fotos da net.)

14 maio, 2019

À terça - imagens e palavras: "cores"


“Não há cores por inventar. Juntando duas faço mil, juntando três um milhão, juntando sete o infinito, e se misturar o infinito reconquisto a cor primordial, para começar outra vez. Não importa que essas cores não tenham nome, que não se possa dar-lhes nome: existem e multiplicam-se.”


JOSÉ SARAMAGO, escritor português (1922-2010), in “Manual de pintura e caligrafia””, Ed. Caminho, 1983
Prémio Nobel de Literatura, 1998
(Foto da net.)

02 outubro, 2018

À terça - imagens e palavras: "mentira"



“O tempo das verdades plurais acabou. Vivemos no tempo da mentira universal. Nunca se mentiu tanto. Vivemos na mentira, todos os dias.”


Frase de José Saramago, escritor português (1922-2010)
Prémio Nobel de Literatura, 1998
Foto da net.

05 junho, 2018

À terça - imagens e palavras: "juventude"















“É bem verdade que nem a juventude sabe o que pode, nem a velhice pode o que sabe.”


Frase de José Saramago, escritor português (1922-2010), in “A Caverna”, Ed. Caminho, 2000
Prémio Nobel de Literatura, 1998
Foto da net.

24 abril, 2018

À terça - imagens e palavras: "pacto"

“Nascemos, e nesse momento é como se tivéssemos firmado um pacto para toda a vida, mas o dia pode chegar em que nos perguntemos Quem assinou isto por mim.”

Frase de José Saramago, escritor português (1922-2010), in “Ensaio sobre a lucidez”, Ed. Caminho, 2004
Prémio Nobel de Literatura 1998
(Veja mais no blogue “Pétalas de Sabedoria”)
Foto da net.

22 setembro, 2015

Para que conste, o titulo do livro nº 12 é:


Se acertou… merece um enorme aplauso.

Ponto final!
(Algo mais se seguirá. O quê, a seu tempo saberá.)

21 agosto, 2015

O beijo, em..."Manual de pintura e caligrafia" - José Saramago


“Beijámo-nos como dois adultos que muito bem sabem o que é o beijo. Beijámo-nos sabendo cada qual como dispor os lábios confortavelmente, como preparar o primeiro encontro das línguas, como dominar a respiração. E ambos soubemos em que preciso momento do beijo eu deveria inclinar-me sobre ela e ela deixar-se dobrar por mim, até nos encontrarmos semideitados no divã, de posse da nova intimidade que era a dos corpos apertando-se um contra o outro, enquanto as bocas prosseguiam o seu trabalho de provocação longínqua dos sexos já estimulados. O mais difícil é aquele em que as bocas se separam: a mínima palavra pode aí ser excessiva.”

14 agosto, 2015

Pintar e escrever, em....."Manual de pintura e caligrafia" - José Saramago


“Um verbo é uma cor, um substantivo um traço.”

“Não há cores por inventar. Juntando duas faço mil, juntando três um milhão, juntando sete o infinito, e se misturar o infinito reconquisto a cor primordial, para começar outra vez. Não importa que essas cores não tenham nome, que não se possa dar-lhes nome: existem e multiplicam-se.”


"Com a idade, aprendemos a cuidar das palavras."

“Transcrevendo, copiando, aprendo a contar uma vida, de mais na primeira pessoa, e tento compreender, desta maneira, a arte de romper o véu que são as palavras e de dispor as luzes que as palavras são.”

07 agosto, 2015

Vida e morte, em... "Manual de pintura e caligrafia" - José Saramago


“Entre morte e vida, entre grafia de morte e grafia de vida, vou escrevendo estas coisas, equilibrado na estreitíssima ponte, de braços abertos agarrando o ar, a desejá-lo mais denso – para que não fosse ou não seja demasiado rápida a queda.”

“Tudo é vida vivida, pintada, escrita: o estar vivendo, o estar pintando, o estar escrevendo: o ter vivido, o ter escrevido, o ter pintado.”

“Tenho (ou tive na adolescência, e ainda me resta) a obsessão da morte, ou não tanto da morte mas do morrer. Não sei se o diria assim cruamente, considerando que ninguém gosta de confessar cobardias, e esta é a maior de todas, precisamente porque nos acomete a sós, em silêncio e às vezes em completa segurança: antes de adormecer, quando o quarto perde as suas dimensões e nem os móveis ameaçam, sem qualquer inimigo que ali diante dos olhos nos aponte devagar uma arma ou aproxime a ponta de uma faca. Provavelmente não o diria.”


“Transcrevendo, copiando, aprendo a contar uma vida, de mais na primeira pessoa, e tento compreender, desta maneira, a arte de romper o véu que são as palavras e de dispor as luzes que as palavras são.”


“A minha vida é uma impostura organizada discretamente: como não me deixo tentar por exagerações, fica-me sempre a segura margem de recuo, uma zona de indeterminação onde facilmente posso parecer distraído, desatento, e, sobretudo, nada calculista. Todas as cartas do jogo estão na minha mão, mesmo quando não conheço o trunfo: é certo que pouco ganho quando ganho, mas as perdas também são mínimas. Não há grandes e dramáticos lances na minha vida.”

31 julho, 2015

12º (e último) - Está num livro de José Saramago. Sabe qual é?


"João Mau-Tempo está deitado. Hoje será o dia da sua morte. Estas doenças de gente pobre são quase sempre indefiníveis, vêem-se os médicos em extremas dificuldades para redigir a certidão de óbito, ou então simplificam, em geral morre-se duma dor, duma nascida, como é que se poderá traduzir isto em noções claras de classificação nosológica, nem lhes valeu a pena andar tantos anos na faculdade. Dois meses esteve João Mau-Tempo no hospital de Montemor, não lhe serviu de muito, nem o defeito seria dos cuidados que mereceu, há salvações impossíveis, trouxeram-no de lá para vir morrer a casa, não é que seja um morrer diferente, mas decerto vai ser outra serenidade, este cheiro da sua própria cama, as vozes de quem passa na rua, e o rumor da criação na capoeira quando ao entardecer se acomodam as galinhas nos poleiros e o galo agita violentamente as asas, pode haver saudades disto no outro mundo."

Se já leu, é fácil chegar lá. Vire as páginas. Releia. Deslumbre-se.
Se acertar, ganhará... um enorme aplauso!

O título do livro nº 11 é:
“A viagem do elefante”, Editorial Caminho, 2008

30 julho, 2015

Carta de Adelina… em “Manual de pintura e caligrafia”, de José Saramago


“Sei que não procedo bem dizendo-te por carta o que vou dizer-te. Pensei falar-te antes de vir aqui, e não tive coragem. E desse há oito dias que digo a mim própria que falarei contigo quando regressar a Lisboa, mas também não terei coragem. Não que eu pense que terás desgosto. Não que eu sinta que me custaria mais do que sempre estas coisas custam. Ambos já vivemos muito, ou o suficiente para não haver grandes novidades, mas a verdade é que difícil olhar para uma pessoa a quem quisemos, não importa por que razões, e dizer: «Agora já não te quero.» É isto que tinha para te dizer. Já não te quero. Podia limitar-me a estas palavras. Estão escritas e eu sinto-me muito aliviada. Ainda não pus a carta no correio, mas é como se já a tivesses recebido. Não vou voltar atrás, e por isso, se calhar, é que resolvi arrumar este assunto por escrito, por carta, de longe. Se estivesse ao pé de ti, talvez me acobardasse. Assim, tu ainda não sabes, mas eu já sei: acabámos a nossa ligação. Surpreender-te-á esta decisão? Não creio. Desde há uns tempos, ou talvez desde sempre, vejo-te fugidio, reservado, recolhido em ti mesmo, como se estivesses no meio de um deserto e quisesses estar nesse deserto. Não me queixo. Nunca me empurraste para fora da tua vida, mas, embora eu não seja muito inteligente, as mulheres pressentem e adivinham. Apertar-te nos braços e sentir que não estás lá, é uma coisa que suportei até certa altura. Não sou capaz de suportar mais. Peço-te que não fiquemos inimigos. Não precisamos de ficar amigos. Talvez eu ainda goste de ti, mas não vale a pena. Não valer a pena, acho eu, é o pior de tudo. As pessoas podem amar e sofrer muito por isso, mas valer a pena. Essas devem conservar o amor que têm, mesmo tendo de continuar a sofrer mais. O nosso caso é diferente. Tivemos uma ligação como muitas, que acaba como merece. Sou eu que decido, mas sei que também desejarias acabar. Apesar de tudo, eu tenho pena. Todas as coisas podiam ser diferentes do que são se não lhes faltasse a diferença, aquela diferença das coisas, aquilo que as distingue muito. Percebo que já estou a escrever de mais. Adeus. Adeus. P.S. – Acho que deves continuar a escrever. Desculpa. Não tenho o direito de dizer isto, uma vez que a tua vida já não me diz respeito. Mas a tua vida alguma vez me disse respeito?”

Grande, colossal, magnânimo, José Saramago!

10 julho, 2015

"Manual de pintura e caligrafia" - José Saramago

Com a idade aprendemos a cuidar das palavras.
Finalmente li “Manual de pintura e caligrafia”, de José Saramago.
Publicado pela primeira vez em em 1977 - tinha o escritor cinquenta a sete anos - este seu segundo romance chegou às livrarias trinta anos depois da publicação de “Terra do pecado”, o primeiro.
Seguiram-se “Levantado do chão”, “Memorial do convento” e “O ano da morte de Ricardo Reis”, romances que o foram afirmando como escritor, depois consagrado com o Prémio Nobel de Literatura, 1998.
Porquê só agora, se o comprei na Feira do Livro de 1993, onde consegui uma dedicatória do escritor?
Não sei explicar. Talvez o título me tenha enganado estes anos todos. Manual?! Manual de quê?
Afinal, não é um manual, não. É antes um tratado sobre pintura, escrita, viagens, amizade, amor. Um verdadeiro tratado, ou manual, como queiram, sobre a imitação da vida através da arte.
Sei muito bem quem sou, um artista de baixa categoria que sabe do seu ofício mas a quem falta génio, sequer talento, que tem mais que uma habilidade cultivada e que percorre sempre os mesmos sulcos, ou para junto das mesmas portas, mula puxando a carroça duma qualquer costumada distribuição.
Eis H. (um simples H., não mais), o protagonista desta narrativa autobiográfica, um pintor retratista desiludido, de cinquenta anos de idade, a passar por uma crise existencial, em Lisboa, nos últimos anos da ditadura salazarista.
… não gosto da minha pintura: porque não gosto de mim e sou obrigado a ver-me em cada retrato que pinto, inútil, cansado, desistente, perdido…
Mas, quem escreve? Também a si se escreverá?
Quando tenta conhecer as razões que levam as pessoas a escrever, encontra-se, e inicia a escrita de histórias sobre a gente fina que pintou; os amigos que juntou; as mulheres que fingidamente amou (como a Adelina, com quem apenas se deita, para relações sexuais, claro; os lugares por onde andou (declaro que sempre entrarei em Itália em estado de submissão total, de joelhos).
Mas... provavelmente, nenhuma vida pode ser contada, porque a vida são páginas de livro sobrepostas ou camadas de tinta que abertas ou descascadas para leitura e visão logo se desfazem em poeira, logo apodrecem…
Será?
Leia, para saber  tudo sobre o retratista que virou escritor, o tal que descobriu inesperadamente que a perfeição existe e que a realidade é intraduzível porque é plástica, dinâmica.
Quem retratou? Quem amou? Por onde andou? 
Eu sei tudo mas nada digo.
Vá lá...  leia e festeje no final da narrativa: O regime caiu. Golpe militar, como se esperava. 
Gostei muito, muito, muito, deste matizado romance.
Aconselho, claro!

Manual de pintura e caligrafia, de José Saramago
Ed. Caminho, 1983
311 págs.


30 junho, 2015

11º - Está num livro de José Saramago. Sabe qual é?


“Têm razão os cépticos quando afirmam que a história da humanidade é uma interminável sucessão de ocasiões perdidas. Felizmente, graças à inesgotável generosidade da imaginação, cá vamos suprindo as faltas, preenchendo as lacunas o melhor que se pode, rompendo passagens em becos sem saída e que sem saída irão continuar, inventando chaves para abrir portas órfãs de fechaduras ou que nunca as tiveram. É o que está fazendo fritz neste momento enquanto solimão, levantando as pesadas patas com dificuldade, um, dois, um, dois, pisa a neve que continua a acumular-se no caminho, enquanto a pura água de que ela é feita insidiosamente se vai convertendo no mais resvaladiço dos gelos.”

Se já leu, é fácil chegar lá. Vire as páginas. Releia. Deslumbre-se.
Se acertar, ganhará... um enorme aplauso!

O título do livro nº 10 é:
“Todos os nomes”, Editorial Caminho, 2000

02 junho, 2015

10º - Está num livro de José Saramago. Sabe em qual?


“Sou auxiliar de escrita da Conservatória Geral do Registo Civil, Então veio mesmo a jeito para saber a verdade sobre o talhão dos suicídios, mas antes disso terá de me jurar solenemente que nunca descobrirá o segredo a ninguém, Juro pelo que de mais sagrado tenho na vida, E que é, para si, agora, o mais sagrado que tem na vida, Não sei, Tudo, Ou nada, Tem de reconhecer que iria ser um juramento um tanto vago, Não vejo outro que valha mais, Homem, jure pela sua honra, dantes era o juramento mais seguro, Pois, sim, jurarei pela minha honra, mas olhe que o chefe da Conservatória fartar-se-ia de rir se ouvisse um dos seus auxiliares de escrita a jurar pela honra…”

Se já leu, é fácil chegar lá. Vire as páginas. Releia. Deslumbre-se.
Se acertar, ganhará... um enorme aplauso!

O título do livro nº 9 é:
“A caverna”, Editorial Caminho, 2000

05 maio, 2015

9º - Está num livro de José Saramago. Sabe qual é?

“Só me ficaram com metade do carregamento, dizem que passou a haver menos compradores para o barro, que apareceram à venda uma louças de plástico a imitar e que é isso que os clientes preferem, Não é nada que não devêssemos esperar, mais tarde ou mais cedo teria de suceder, o barro racha-se, esboicela-se, parte-se ao menor golpe, ao passo que o plástico resiste a tudo e não se queixa, A diferença está em que o barro é como as pessoas, precisa que o tratem bem, O plástico também, mas é certo que menos, E o pior é terem-me dito que não lhes leve mais louça enquanto não a encomendarem, Então vamos parar de trabalhar, Parar não (…)Não queiras desanimar-me, Só procuro ver as coisas como são, foi o pai quem disse, ainda agora, que três gerações de oleiros na família é mais do que suficiente, Não chegarás a ver a quarta geração, irás viver para o Centro com o teu marido, Deverei ir, sim, mas o pai irá comigo, Já te disse que nunca me hás-de ver a viver no Centro…”

Se já leu, é fácil chegar lá. Vire as páginas. Releia. Deslumbre-se.
Se acertar, ganhará... um enorme aplauso!

O título do livro nº 8 é:
“Caim”, Editorial Caminho, 2009

24 abril, 2015

"Ensaio sobre a cegueira" - José Saramago

Por que foi que cegámos, Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem.
Este diálogo entre o médico e a mulher do médico, aparece na última página do romance. Romance que relata um estranho fenómeno de “cegueira branca” que assola uma cidade.
Tudo começa com um homem dentro do carro parado num sinal vermelho. Quando o sinal muda para o verde ele não avança e grita: Estou cego. Fica a ser O primeiro cego.
Logo depois, cega o homem que se oferece para o levar a casa e lhe rouba o carro – o ladrão.
Depois, é o médico a quem o primeiro cego diz ver uma cor branca leitosa, densa, como se se encontrasse mergulhado de olhos abertos num mar de leite.
Depois, é a rapariga dos óculos escuros, diagnosticada pelo médico com uma simples conjuntivite.
Depois, depois, depois…
Para evitar o contágio do mal-branco as autoridades governamentais decidem isolar num mesmo local as pessoas que cegam, e também quem tivesse estado em contacto com elas. Escolhem um manicómio abandonado e isolado, com condições de segurança.
O médico e a mulher (que continua a ver mas se faz passar por cega para acompanhar o marido) são os primeiros a ser levado para lá.
Rapidamente o manicómio fica cheio de gente. Gente boa (dominada) e gente muito má (dominadora). Gente cujo comportamento a mulher do médico observa como se estivesse por trás de um microscópio. Gente que não pode saber do seu segredo - ver e não ser vista - e isso pareceu-lhe subitamente indigno e obsceno. Gente abandonada à sua triste sorte. Gente que vai viver experiências terríveis.
Se não formos capazes de viver inteiramente como pessoas, ao menos façamos tudo para não viver inteiramente como animais, diz, repetidamente, a mulher do médico. Nem todos a ouvem. Até um dia.
Tu não és cega, a mim não me enganas. Talvez eu seja a mais cega de todos…

Romance para ler, pensar e reflectir.
Sobre ele já tudo foi escrito, dito e até mostrado em filme, logo, eu fico por aqui.
Que estranha história! Estranha mas séria, sobre o comportamento do ser humano face a situações extremas. História bem imaginada e muito bem contada. Só mesmo Saramago se lembraria de uma “coisa” assim.
Ainda bem!

Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago
Ed. Caminho, 1995
310 págs.