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25 julho, 2014

TOLSTOI em "O enredo conjugal" de Jeffrey Eugenides

"… Tolstoi contava uma fábula russa sobre um homem que, perseguido por um monstro, se lança para dentro de um poço. Todavia, quando vai a cair pelo poço abaixo, o homem vê que está um dragão no fundo, pronto para comê-lo. Nesse momento, o homem repara num galho que se destaca da parede, agarra-se a ele e fica pendurado. Assim evita cair nas mandíbulas do dragão, ou ser comido pelo monstro que o persegue, mas nessa altura surge um pequeno problema. Dois ratos, um preto e um branco, correm pelo galho, que vão roendo à volta. É apenas uma questão de tempo até roerem o galho todo e o homem cair. Enquanto pensa no seu destino irremediável, o homem repara noutra coisa: do extremo do galho a que está agarrado escorrem umas gotas de mel. O homem estende a língua para lamber o mel. 
É esta, dizTostoi, a sina do ser humano: somos o homem agarrado ao galho. A morte espera por nós. Não podemos fugir-lhe. E por isso distraímo-nos lambendo qualquer gota de mel que esteja ao nosso alcance."

21 julho, 2014

"O enredo conjugal" - Jeffrey Eugenides

O mal de amor é muito engraçado para toda a gente menos para quem dele sofre.
Estarão as grandes histórias de amor do século XIX mortas? Ou existirá uma história nova, escrita para os nossos dias e atenta às realidades do feminismo, da liberdade sexual, das convenções antenupciais e do divórcio?
Depois do empolgante e extraordinário “Middlesex” (2002), decepcionou-me este romance de Jeffrey Eugenides. Reconheço que ele continua a escrever muito bem, mas o enredo desta história de amor, que poderia ser simples e cativante, é massudo, intrincado e desinteressante. Do total das 500 páginas, cativaram-me as primeiras 166 e mais algumas lá para o fim. As restantes, bem, as restantes… enfastiaram-me por completo.
A história começa no dia da cerimónia de formatura dos jovens estudante da Universidade de Brown, em Providence, que concluíram os respectivos cursos. Está-se no início na década de 1980. O país está numa recessão profunda e a vida, depois da universidade, é mais dura do que nunca.
Logo nos primeiros parágrafos conhecemos Madeleine Hanna. Ela é filha de pais cultos e ricos. Uma aluna aplicada de Estudos Ingleses – a opção de quem não sabia que opção tomar - e uma romântica incurável. Está no quarto, deitada na cama, com uma almofada a tapar-lhe a cara. Tenta dormir, depois de uma noite de excessos. Os pais, Alton e Phyllida, tocam à campainha do apartamento que ela partilha com duas raparigas. Chegaram cedo de Nova Jérsey, para a verem receber o diploma. Querem comemorar não apenas o sucesso da filha mas também o seu próprio sucesso de pais.
O problema é que ela… tinha perdido a fé no significado do dia e naquilo que ele representava.
Madeleine adora ler. No quarto tem a obra completa de Henry James, todos os romances de Edith Wharton, muito Dickens, um cheirinho de Trollope, boas doses de Austen, George Elliot, Brönte, os romances de Colette. Leu-os a todos. Alguns várias vezes. Também lá está a primeira edição de Casais Trocados, pertença da mãe, que Madeleine usa como apoio textual na sua tese de bacharelato sobre o enredo conjugal na literatura inglesa.
Em assuntos do coração Madeleine era contra a ideia do sexo sem compromisso mas extremamente gratificante e seguia algumas regras: não andava com rapazes que não gostassem dos pais… não gostava de rapazes nervosos... não namorava rapazes que iam a psiquiatras.
Teve alguns “casos” com colegas até se apaixonar por dois rapazes que “furam” todas as regras: Mitchell Grammaticus e Leonard Bankhead.
Mitchell é um rapaz inteligente, com fraca auto-estima. Apaixonado por  Madeleine só pensa: “Vou-me casar com esta rapariga.”
No final do curso de estudos religiosos, depois de um verão de tédio, sem o amor de Madeleine e alguns empregos de último recurso, viaja durante quatro meses por nove países diferentes. Numa espécie de peregrinação, ele tenciona encontrar o significado das várias religiões e respostas sobre o sentido da vida.
Começa por Paris, segue-se Atenas, depois… muitas peripécias depois (contadas em muitas, muitas páginas) Calcutá, a cidade mais pobre do mundo, onde faz voluntariado.
Quatro meses depois regressa e encontra o país ainda em recessão e Madeleine casada com o rival Leonard.
Leonard, é filho de pais alcoólicos, um aluno brilhante de ciências, introvertido, frenético, carismático. Quer seguir investigação. Aos dezoito anos, no primeiro ano de faculdade, foi-lhe diagnosticada uma doença que não tinha cura, uma doença que só se podia “gerir” - psicose maníaco-depressiva. Eu sou mercadoria estragada, dizia ele.
Quando Madeleine descobriu já estava apaixonadamente envolvida e nem a leitura diária das desconstruções do amor, de Barthes ajudavam a diminuir o seu amor por ele.
E mais não conto.
Como irá Madeleine resolver o seu próprio “enredo conjugal”?
Leia e saiba que as pessoas não salvam outras pessoas. Salvam-se a si próprias. 
Leia e encontre a padaria portuguesa e a peixaria portuguesa que vendia sardinhas e lulas.
A sério!

O enredo conjugal, de Jeffrey Eugenides
Ed. D. Quixote, 2014
500 págs.

24 março, 2012

"Middlesex" - Jeffrey Eugenides

Começarei por dizer que nasci duas vezes: primeiro, como menina bebé, num dia invulgarmente limpo na cidade de Detroit, em Janeiro de 1960. Depois, outra vez, como rapaz adolescente, numa sala de urgências perto de Petoskey, Michigan, em Agosto de 1974.
Com um primeiro parágrafo destes, alguém resiste a seguir a fantástica história de um gene que atravessa três gerações de uma família de gregos americanos, até florescer no quinto cromossoma de um hermafrodita, uma menina que ao crescer se revela no seu contrário?
Não!
Então preparem-se para a viagem longa, atribulada, apaixonante, alucinante, divertida e repleta de segredos, dum gene raro que, escondido durante duzentos e cinquenta anos na linha de sangue da família Stephanides, floresce no corpo da jovem Calliope (era assim que estava registada na certidão de nascimento) e desencadeia a série de acontecimentos que levaram Cal (é este o nome assinalado na carta de condução do diplomata, em Berlim) a escrever, aos 41 anos, a sua história.
E que história…
Como Tirésias, fui primeiro uma coisa e depois outra. Fui ridicularizado por colegas, usado como cobaia por médicos, apalpado por especialistas e investigado. Fui conduzida para uma batalha urbana por um tanque do exército; tornei-me um mito numa piscina; deixei o meu corpo a fim de ocupar outros – e, tudo isto, antes de fazer 16 anos.
Promete, não?!
O interessante neste livro é a forma intimista como Cal nos conta a sua própria história, falando das mutações do seu corpo, das peripécias na infância, da adolescência conturbada, dos amores ingénuos e dos amores adultos que teimavam em acabar antes de começar, tudo isto encadeado de forma magistral nas oito décadas de vida da sua família e nos factos políticos, sociais e culturais que mudaram países e mentalidades: o desmoronamento do Império Otomano (provoca a fuga dos avós da Grécia para a América, em 1922), os gloriosos tempos de Detroit industrial nos anos vinte, a Depressão de 1929, a Segunda Guerra Mundial, os motins raciais de 1967, etc.
São muitos os cenários da acção desta saga familiar: Grécia; Detroit e Middlesex, na América; Berlim, na Alemanha – esta cidade, outrora dividida faz-me lembrar a minha própria pessoa.
São muitos e inconfessados os segredos desta família: Sourmelina não era apenas minha prima germana em segundo grau, era igualmente minha avó. O meu pai era sobrinho da sua própria mãe (e pai). Para além de já serem meus avós, Lefty e Desdemona eram meus tio e tia-avós, respectivamente. Os meus pais seriam meus primos segundos de primeiro grau e o Capítulo Onze seria meu primo em terceiro grau, bem como meu irmão.
Confuso?
Li pela primeira vez este livro em 2004. Agora, as tristes notícias na imprensa sobre o declínio da cidade de Detroit impuseram que voltasse a ele. A leitura ou releitura de grandes livros é sempre agradável – não me arrependi.
As coisas mais importantes nunca dependem de nós. O nascimento, a morte. E o amor, diz Cal.
Infelizmente, digo eu.

Middlesex, de Jeffrey Eugenides
Dom Quixote, 2002
Tradução de Pedro Serras Pereira
521 págs.