28 novembro, 2017

Estou de volta!


Hora a hora,
Nasce outra vez em mim a vida.
Devagar,
Como um gomo de vide a rebentar,
Cobre de verde a cepa ressequida.

É um fruto que acena?
É uma flor que há-de-ser?
- Fui eu que disse que valia a pena
Viver!

"Convalescença", poema de Miguel Torga, Portugal (1907-95)
The Murmur of the sea”, de Delphin Enjolras, pintor francês (1857-1945)


Estou de volta!!
Já sem a vesícula biliar (órgão responsável pelo armazenamento da bílis produzida pelo fígado) onde se "alojavam" várias pedrinhas (cálculos biliares) e um pedregulho de 3 cm, verdade, 3 cm, que há semanas atrás me provocaram dores terríveis na zona abdominal e costas, que me levaram ao hospital.
Exames para cá, exames para lá, o diagnóstico chegou: dores provocadas pela expulsão de pedras pequeninas; inflamação provocada pelo pedregulho.
Tratada a inflamação, avançámos para a colecistectomia (excisão cirúrgica da vesícula) por via laparoscópica. Tudo correu bem!

Sou grata por tudo. Grata pela preocupação e carinho de todos: família; amigos reais; amigos da blogosfera; conhecidos de bata branca, verde, azul.
Um beijo no coração de TODOS!

21 novembro, 2017

Vou ali e já volto!


Hoje,
Nem a vida me foge,
Nem eu fujo;
É não sei quê no sol
Que está sujo.
(Versos de Miguel Torga, Portugal (1907-95)


Vou ali e já volto!!
Esperam-me na sala de operações, para uma pequena intervenção cirúrgica. Coisa pouca.
Aguenta coração!

17 novembro, 2017

"Contos de ... Machado de Assis"


… o universo é um composto de maldades e invejas…
Comprei o meu primeiro livro de Machado de Assis numa banca no corredor dum pequeno Centro Comercial. Achei pouco e queria mais. Nada mais ali havia.
Por essa razão, comecei a ler o prestigiado escritor brasileiro pelo terceiro volume da colecção de seis volumes de contos, organizada por João Cezar de Castro Rocha, que revela um lado pouco explorado do génio de Machado de Assis e apresenta os contos agrupados cronológica e tematicamente:
Vol. 1 - Música e literatura
Vol. 2 - Adultério e crime
Vol. 3 - Filosofia
Vol. 4 - Dissimulação e vaidade
Vol. 5 - Política e escravidão
Vol. 6 - Desrazão
Machado de Assis e a filosofia
Na Introdução João Cezar de Castro Rocha esclarece que neste volume o leitor não encontrará alusões a hipotéticas filiações de Machado de Assis a este ou aquele filósofo (…) Machado de Assis não foi (e nunca almejou ser) filósofo (… ) põe em movimento uma forma especial de reflexão, um modo particular de compreender o mundo, irredutível a sistemas ou escolas.
Esclarecida, iniciei a leitura do primeiro conto “Uma excursão milagrosa” (publicado no Jornal das Famílias, em Abril e Maio de 1866), em cuja trama, Tito, vinte anos, poeta e infeliz, sem inspiração e sem dinheiro, conhece um sujeito rico, maníaco pela fama de poeta, que lhe faz uma proposta tentadora: compra-lhe por bom preço todos os versos, preferencialmente odes e poesias de sentimento, com a condição de ele os poder dar à estampa como obra sua. Tito pensou, pensou e um dia procurou-o disposto a aceitar o negócio. O sujeito, rindo-se com um riso diabólico, fez o primeiro adiantamento
Gostei do primeiro contos, avancei para os restantes dezoito contos. Destaco alguns:
- “O Sainete” (publicado em A Época, 1875), neste, o Dr. Maciel, vinte e cinco anos, foi atingido mesmo no centro do coração por uma “seta do deus alado” - ama a viúva Eulália, mas ela ignora-o, com calculada crueldade; mas só até descobir a paixão da amiga Fernanda pelo jovem médico. A viúva descobriu-lhe os méritos com os olhos de Fernanda; e bastou vê-lo preferido para que ela o preferisse. Se me miras, me miram
- “A Igreja do Diabo” (publicado em Gazeta de Notícias, 1883) - Conta um velho manuscrito beneditino que o Diabo, em certo dia, teve a ideia de fundar uma igreja. Mais, decide comunicar a Deus a sua ideia.
Deus, adverte-o:
- Tu és vulgar, que é o pior que pode acontecer a um espírito da tua espécie, replicou-lhe o Senhor. Tudo o que dizes ou digas está dito e redito pelos moralistas do mundo. É assunto gasto; e se não tens força, nem originalidade para renovar um assunto gasto, melhor é que te cales e te retires.
Humilhado, o Diabo insiste:
- Sim, sou o Diabo (...) não o Diabo das noites sulfúreas, dos contos soníferos, terror das crianças, mas o Diabo verdadeiro e único, o próprio génio da natureza, a que se deu aquele nome para arredá-lo do coração dos homens. Vede-me gentil e airoso…
- “Evolução” (publicado em Gazeta de Notícias, 1884), tem este extraordinário início:
CHAMO-ME INÁCIO; ELE, BENEDITO. Não digo o resto dos nossos nomes por um sentimento de compostura, que toda a gente discreta apreciará. Inácio basta. Contentem-se com Benedito. Não é muito, mas é alguma coisa, e está com a filosofia de Julieta: “Que valem os nomes? Perguntava ela ao namorado. A rosa, como quer que se lhe chame, terá sempre o mesmo cheiro”. Vamos ao cheiro do Benedito...
"O Imortal" (publicado em A Estação, 1882) Meu pai sabia uma infinidade de coisas: filosofia, jurisprudência, teologia, arqueologia, química, física, matemática, astronomia, botânica, sabia arquitectura, pintura, música. Sabia o diabo...

Gostei bastante destes contos filosóficos”. Tanto que vou procurar os restantes volume da colecção. (Não fosse eu louquinha por contos...)
São histórias simples, lindas, comoventes, para ler e reflectir sobre a filosofia do tempo e o mistério da vida. 
Recomendo!


Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908) nasceu no Rio de Janeiro, em pleno Período Regencial.
Filho de um pintor de paredes e de uma lavadeira (ambos sabiam ler e escrever), Machado de Assis não frequentou a universidade mas sempre mostrou um profundo interesse pelas letras.
Ganhou a confiança do Padre Silveira Sarmento, que viria a ser seu amigo, mentor espiritual e professor de latim.
Machado de Assis fez parte do grupo fundador da Academia Brasileira de Letras, e foi seu primeiro presidente.
É um dos nomes maiores da literatura brasileira. Deixou uma extensa obra como romancista, cronista, poeta, dramaturgo, jornalista, critico literário, comentador e relator dos eventos político-sociais da sua época. Obra onde expôs a visão do mundo que o mantém lembrado e celebrizado.

14 novembro, 2017

"Se um dia eu pudesse..." - Fernando Pessao


Se um dia eu pudesse adquirir um rasgo tão grande de expressão, que concentrasse toda a arte em mim, escreveria uma apoteose ao sono. Não sei de prazer maior, em toda a minha vida, que poder dormir. O apagamento integral da vida e da alma, o afastamento completo de tudo quanto é seres e gente, a noite sem memória nem ilusão, o não ter passado nem futuro.”


Fernando Pessoa, poeta português (1888-1935), in “Livro do desassossego”, Ed. Tinta da China, 2014
"Daphne", de  Frederic Leighton, pintor e escultor inglês (1830-96)

10 novembro, 2017

Poemas de... Pablo Neruda


MINHA ALMA
Minha alma é um carrossel vazio no crepúsculo.


ÁGUA ADORMECIDA
Quero atirar-me à água para cair no céu.


Poemas de Pablo Neruda, poeta chileno (1904-73), in "Crepusculário", 1923
Fotos de António Gomes, autor do blogue "Existe sempre um lugar".

07 novembro, 2017

"Crepusculário" - Pablo Neruda


AMOR
Mulher, teria sido teu filho, para beber-te
o leite dos seios como de um manancial,
para olhar-te e sentir-te a meu lado e ter-te
no riso de ouro e na voz de cristal.

Para sentir-te nas veias como Deus num rio
e adorar-te nos ossos tristes de pó e cal,
para que sem esforço teu ser pelo meu passasse
e saísse na estrofe- limpo de todo o mal -.

Como saberia amar-te, mulher, como saberia
amar-te, amar-te como nunca soube ninguém!
Morrer e todavia
amar-te mais.
E todavia
amar-te mais
                    e mais.
Pablo Neruda (pseudónimo de Ricardo Eliécer Neftalí Reyes Basoalto) é um dos grandes poetas da língua castelhana do século XX, e um dos mais lidos em todo o mundo.
Nasceu em Parral, Chile, em 1904.
Em 1923 publicou o primeiro livro "Crepusculário", com poemas escritos no período em que estudava pedagogia e francês na Universidade de Santiago. São poemas nostálgicos, de uma beleza estranha, sobre a vida, a mulher, o amor, a natureza. Revelava-se o poeta chileno da "voz original", o humanista, o poeta do amor.
O livro seguinte “Vinte poemas de amor e uma canção desesperada”(1924), consagrou-o como poeta universal.
Em 1927 iniciou uma longa carreira diplomática.
Marxista e revolucionário, defensor dos movimentos libertários, em 1945 ingressou no Partido Comunista do Chile.
Em 1945 recebeu o Prémio Nacional de Literatura do Chile; em 1953 o Prémio Lenine da Paz; e em 1971 o Prémio Nobel da Literatura.
Faleceu em Santiago, Chile, em 1973, vítima de cancro na próstata, diz a certidão de óbito. 
Em 2011 o Partido Comunista chileno exigiu em tribunal que a morte do poeta fosse investigada. Dois anos depois o corpo foi exumado e a equipa internacional de investigadores apurou que não foi o cancro que o matou. Doença ou assassínio, o mistério continua.
O filme “O Carteiro de Pablo Neruda” (Pablo Larraín, 1994) aborda aspectos da vida do poeta no final da década de 40. Se ainda não viu (duvido!!), veja. É belíssimo!

Não resisto a partilhar três versos do último poema do livro:

FINAL
...
Dizei-me, amigos, onde
esconder o silêncio, para que nunca mais outros
o sintam com os ouvidos e com os olhos.
...