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10 maio, 2016

"Instruções para salvar o mundo" - Rosa Montero


Porque gostei do que li, volto ao amor de Rita e Matías:

“Durante os quase vinte e oito anos que viveram juntos, nunca disseram um ao outro uma palavra imperdoável. Claro que discutiram e se aborreceram inúmeras vezes. Tiveram temporadas melhores e piores e Rita podia ser desesperante – era amiga de discutir, mandona e teimosa. Mas não conseguiam ficar zangados durante muito tempo porque, passados alguns minutos, um deles começava a rir-se, contagiando e amansando o outro com as suas gargalhadas. E, de qualquer forma, nunca dispararam sobre o outro frases venenosas, nunca recorreram a esse chumbo verbal que alguns casais utilizam para atingir as partes fracas do outro e magoá-lo, a esses vocábulos que são tão explosivos como balas para abater elefantes e que não se utilizam para discutir nenhuma questão, mas para ferir. E, às vezes, para matar.”

Para reflectir e mudar comportamentos.
Perfeito!

06 maio, 2016

"Instruções para salvar o mundo" - Rosa Montero

… às vezes a vida aperta tanto que não deixa lugar para respirar.

A Humanidade divide-se entre aqueles que gostam de se meter na cama à noite e aqueles a quem ir dormir desassossega.
Começa assim este romance de Rosa Montero, uma história de esperança, fascinante, estranha, hipnotizante.
De entre as muitas e boas razões para a ler destaco quatro: a trama surpreendente e hipnótica; a escrita fluída, acessível e brilhante que nos prende e comove; a mistura rigorosa de humor, horror, ironia; a perfeita definição física e psicológica de quatro sobreviventes, personagens inesquecíveis cujos destinam se cruzam num cenário de escuridão, horror, catástrofe, esperança.
Os quatro têm um pesadelo recorrente: matam alguém mas não conseguem ver a vítima e quando acordam, aterrorizados, o sentimento de culpa continua colado às pálpebras, à memória, e ao coração durante muito tempo.
Os quatro frequentam o Oasis, um bar cuja clientela é constituída por desenraizados, noctívagos, putas e taxistas.
Eles são:
- Matías, 45 anos, viúvo às voltas com a dor pela perda de Rita (o romance começa com o seu funeral), é o taxista mais calado do planeta. Antes trabalhou numa empresa de mudanças, antes foi trolha e muito antes, esteve num reformatório por roubar rádios de automóveis. Quando de lá saiu, a vizinha Rita, professora, decidiu salvá-lo de si próprio. Ele tinha dezassete anos e ela acabara de fazer trinta. Amaram-se e viveram juntos vinte e oito anos. Com ela descobriu o cinema, a música clássica, a leitura. Continuou a odiar futebol. Por tudo isso, quando Rita adoeceu e faleceu, Matías reivindicou a morte dela toda para ele, tal como anteriormente tinha gozado da sua vida.
Voltará a ser feliz…
- Daniel Ortiz, 45 anos, médico, quinze anos de um casamento de mágoa e rancor, sem filhos, sem sucesso profissional, sem amigos, é viciado em jogos de computador e fascinado pelo mundo virtual de Second Life. Mesmo sabendo que é uma perversão parva, é para lá que “corre” logo que termina os turnos nos Serviços de Urgência do hospital. Às vezes parecia-lhe que a vida real era menos real que Second Life.
Certa noite, no hospital trata uma jovem negra cujo sorriso luminoso o faz sentir-se em paz consigo próprio. Será ela capaz de o ajudar a encontrar um sentido para a vida, a abandonar a mulher inclemente que o despreza, a sarar a dor que a tristeza lhe provoca?
Apesar da vergonha atroz vai procurá-la…
- Fatma, uma prostituta negra, bela e frágil. É a princesa do Oasis, mal tratada por Draco o proxeneta dono do bar que a conseguiu legalizar, arranjando-lhe os papéis no mercado negro. Fatma, a puta principesca desenraizada e solitária tem uma única amiga: Bigga, uma lagartixa protectora.
Dois homens irão mudar a sua vida…
- Cérebro, uma velha cientista, solitária e demasiado dada à bebida, é a freguesa mais fiel do Oasis. Chega ao início da noite, senta-se sempre no mesmo tamborete, bebe pausadamente vinho tinto e sai ao amanhecer sem dar sinais de estar embriagada.
A noite assustava-a e não se deitava porque se sentia tão só na cama como um morto na sua tumba.
No Oasis, o álcool e o barulho protegem-na. Ali, ninguém sabia do seu passado, dos seus amores proibidos. Ali, ninguém se atrevia a falar com ela e ela também não parecia importar-se com ninguém. Até um dia…

Que Rosa Montero é uma extraordinária contadora de histórias, eu já sabia.
Que se relem com redobrado gosto, fiquei a saber agora.
Esta é a história de uma longa noite. Tão longa que se prolongou durante vários meses.
Termina assim:
… a Humanidade divide-se entre aqueles que sabem amar e aqueles que não sabem.
Mas essa é outra história.
Leia (esta), por favor.

Instruções para salvar o mundo, de Rosa Montero
Tradução de Helena Pitta
Porto Ed., 2008
285 págs.

29 setembro, 2015

Os livros, em...


“A ridícula ideia de não voltar a ver-te”, de Rosa Montero
"Os livros nascem de um germe ínfimo, de um ovinho minúsculo, de uma frase, de uma imagem, de uma intuição; crescem como zigotos, organicamente, célula a célula, diferenciando-se em tecidos e estruturas cada vez mais complexas até se transformarem numa criatura completa e, frequentemente, inesperada."

"Abraço", de José Luís Peixoto
"Os livros, esses animais sem pernas, mas com olhar, observam-nos mansos desde as prateleiras. Nós esquecemo-nos deles, habituamo-nos ao seu silêncio, mas eles não se esquecem de nós, não fazem uma pausa mínima na sua vigia, sentinelas até daquilo que não se vê. Desde as estantes ou pousados sem ordem sobre a mesa, os livros conseguem distinguir o que somos sem qualquer expressão porque eles sabem, eles existem sobretudo nesse nível transparente, nessa dimensão sussurrada. Os livros sabem mais do que nós mas, sem defesa, estão à nossa mercê. Podemos atirá-los à parede, podemos atirá-los ao ar, folhas a restolhar, no ar, ar, e vê-los cair, duros e sérios, no chão.
(…)
Os livros, esses animais opacos por fora, essas donzelas. Os livros caem do céu, fazem grandes linhas rectas e, ao atingir o chão, explodem em silêncio. Tudo neles é absoluto, até as contradições em que tropeçam. E estão lá, a olhar-nos de todos os lados, a hipnotizar-nos por telepatia. Devemos-lhe tanto, até a loucura, até os pesadelos, até a esperança em todas as suas formas."

(Foto tirada da net)

11 setembro, 2015

"A ridícula ideia de não voltar a ver-te" - Rosa Montero

Para viver temos de narrar-nos…
Foi o que fez Marie Curie (1867-1934), uma polaca naturalizada francesa, um dos maiores génios da ciência do século XX, ganhou dois prémios Nobel: um de Física, em 1903, em parceria com o marido, Pierre Curie, e outro de Química, em 1911, sózinha. Descobriu o polónio e o rádio. A radioatividade acabou por destrui-la, mas manteve-se activa até à sua morte, aos sessenta e sete anos.
A mágoa aguda é uma alienação. Calamo-nos e fechamo-nos.
Foi o que fez Marie Curie quando lhe trouxeram o cadáver de Pierre: encerrou-se no mutismo, no silêncio, numa frieza pétrea e aparente. Estavam casados há onze anos e tinham duas filhas, a mais pequena com catorze meses. Nessa manhã, Pierre saíra a caminho do trabalho, como sempre, almoçou com colegas, ao voltar ao laboratório, escorregou e caiu diante de um pesado carro de transporte de mercadorias. Os cavalos evitaram-no, mas uma roda traseira rebentou-lhe o crânio. Faleceu de imediato.
Foi na história desta mulher, que Rosa Montero encontrou inspiração e força, para voltar à escrita depois da morte de Pablo, o marido, em 2009, seis meses depois de lhe ter ser diagnosticado um cancro.
Depois de ler o diário do luto de Marie - onde anota com obsessivo pormenor os últimos dias que viveu com Pierre, os seus últimos atos, as últimas palavras – e todas as biografias que encontrou, decidiu contar a vida dolorosa daquela mulher, “como medida” para entender a sua própria dor e acatar inquietações.
O método escolhido foi o entrelaçar das suas memórias pessoais com as memórias colectivas daquela mulher pequenina, triste, inteligente, ousada, invejada, reconhecida mundialmente.
Pablo, o companheiro de uma vida, “aparece” pouco neste livro. Sobre ele, diz ela: possuía uma inteligência enorme e originalíssima (…) era teimoso, resmungão, sedutor, honesto, escrevia muito bem e era um ótimo jornalista, além de elegante, atlético e meticuloso, e gostava tanto do silêncio como das discussões (…) julgo que não posso dizer mais nada sobre Pablo: o seu lugar fica no centro do silêncio.
É triste mas belo, este último livro de Rosa Montero.
Sobre a morte, ela aconselha: … é preciso fazer alguma coisa com a morte. É preciso fazer alguma coisa com os mortos. É preciso pôr-lhes flores. Falar com eles. Dizer que os amamos e que sempre o fizemos. É melhor fazê-lo ao vivo; senão, também o podemos declarar depois. Podemos gritá-lo ao mundo. Ou então escrevê-lo num livro como este. Pablo, que pena ter esquecido que podias morrer, que podia perder-te. Se tivesse essa consciência, ter-te-ia amado não mais, mas melhor, Ter-te-ia dito muito mais vezes que te amava. Teria discutido menos por tontices. Ter-me-ia rido mais.
Mas, avisa, e eu confirmo, este não é um livro sobre a morte. É sim, sobre a superação da dor, das relações entre homens e mulheres, do esplendor do sexo, da morte e da vida, da ciência e da ignorância, da força salvadora da literatura e da sabedoria dos que aprendem a gozar a existência em plenitude.

Habituei-me a rir com a escrita de Rosa Montero em "A louca da casa", romance que continuo a considerar, excelente, apaixonante, hilariante e muito inteligente. Ao lê-lo, ri, ri, ri.
Agora, com “A ridícula ideia de não voltar a ver-te” - bem, não chorei, mas pouco faltou - aprendi a celebrar serena e plenamente a vida com os meus entes queridos, porque... breve é o nosso dia e imensa a noite.
Celebremos, todos!

A ridícula ideia de não voltar a ver-te, de Rosa Montero
Tradução de Helena Pitta
Porto Editora, 2015-09-05
175 págs.

25 março, 2011

"A louca da casa" - Rosa Montero

“Habituei-me a ordenar as recordações da minha vida através de uma relação de namorados e de livros”.
Assim começa esta obra – romance, ensaio ou autobiografia - de Rosa Montero: uma viagem através do misterioso universo da fantasia, dos sonhos, dos medos e dúvidas da criação artística e das recordações mais secretas da autora.
Num jogo narrativo pleno de surpresas a autora mistura citações de autobiografias de outros escritores com factos da sua vida, que nem sempre são o que parecem.
Na pág. 147 explica: “Quando comecei a idealizar este livro, pensava que ia ser uma espécie de ensaio sobre a literatura, sobre a narrativa, sobre o ofício dos romancistas. Planeava redigir, enfim, mais uma dessas numerosas obras tautológicas que consistem em escrever sobre a escrita. Depois, como os livros têm cada um a sua própria vida, as suas necessidades e os seus caprichos, isto foi-se transformando numa coisa diferente, ou melhor, acrescentou-se outro assunto ao projecto original: não iria tratar apenas da literatura, mas também da imaginação”.
E ainda bem, porque resultou num livro apaixonante, hilariante e muito inteligente.

A louca da casa, de Rosa Montero
Edições ASA, 2004
Tradução de Helena Pitta
171 págs.