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16 dezembro, 2016

"Jóia de família" - Agustina Bessa-Luís

Uma vida de família é uma cidadania em miniatura. Há leis que se aprovam, outras de que se desiste; há festas de presentes e de antepassados; há comemorações, experiências desordenadas, vícios calmos que duram uma vida, violências caladas ou manifestas, classes que se batem entre si, promoções de culturas, ruínas da alma, desejos que só a morte há-de saldar, cobiças que nem a herança resolve, culpas que decidem de mudanças.
Jóia de família” é um bom retrato da sociedade portuguesa dos anos 90. Sociedade que funciona com máscaras ideológicas, ou sexuais, ou psicóticas.
A trama - uma teia de incertezas bem urdida - aborda as mudanças nas relações familiares, o comportamento da burguesia campesina, a delinquência, o crime, a sexualidade, a infidelidade, a droga e a prostituição.
Os personagens, como na maioria dos personagens de Agustina, são bem construídos e convincentes.
António Clara, o protagonista, com dez dias de vida passa de pé descalço a herdeiro de uma fortuna grandiosa. A mãe, Celsa Adelaide, a criada feita parteira, torna-o terceiro filho de Rutinha Albergaria, quando esta desmaiada de cansaço não percebe que deu à luz um menino morto, roxo como um cravo roxo. Celsa, não hesita, esconde o nado morto e deita o seu próprio menino no berço de cambraia. Ninguém nunca suspeitará.
António “nasce” em Salto da Senhora, durante uma visita de Rutinha ao tio Simeão Albergaria, o tio rico que tinha no testamento uma cláusula que tornava seu único herdeiro o neto que nascesse em sua casa. Teria Rutinha conhecimento dessa cláusula? O velho Simeão desconfia mas…vinte anos depois, o filho da criada é um homem rico.
António é criado por governantas. Não se dá bem com os dois irmãos. Os pais estão permanentemente ausentes. Uma escoliose obriga-o a coxear ligeiramente, a abandonar os estudos, a afastar-se do trabalho. Passa a viver suspenso daquela herança como uma aranha do fio da teia.
Aos vinte e cinco anos enamora-se de Vanessa, uma bela mulher de quarenta e dois anos, no alterne desde os treze. Uma mulher ambiciosa, hostil ao mundo e fiel às paixões.
Indignada, Celsa Adelaide procura uma mulher "decente" para o filho. Encontra Camila, uma rapariga simples, acanhada, que nada exige, filha de burgueses remediados, que viam nela a salvação da decadência. Ela era a jóia da família.
O casamento com Camila  não afasta António da amante que, como amiga, passa a frequentar a casa da família. O dinheiro não faz gente.
Como vai Camila lidar com a infidelidade e a indiferença do marido, com o ciúme, com a presença constante de Vanessa?
Hum!
O perspicaz e mordaz narrador do romance diz que há vários casos de loucura na família de Camila.
Eu, já disse tudo... e tudo ficou por dizer.

Mais um romance de Agustina, mais um prémio, mais uma adaptação do cinema. “Jóia de família”, primeiro volume da trilogia O princípio da incerteza, foi distinguido em 2001 com o Grande Prémio de Romance e da Novela da APE, e adaptado ao cinema por Manoel de Oliveira.

Jóia de família, de Agustina Bessa-Luís
Guimarães Editora, 201
345 págs.

18 novembro, 2016

"Santo António" - Agustina Bessa-Luís

«A tristeza é a dor silenciosa» - diz S. António.

S. António é um confessor, um intermediário do perdão. Confessor como pregador; confessor como confidente.
Nas badanas do livro um curtíssimo texto avisa: "SANTO ANTÓNIO é a primeira obra em que Agustina Bessa-Luís transpõe os caminhos da ficção, para se deter num personagem histórico… uma biografia conduzida pela meditação... um livro como só um leigo pode escrever”.
Foi, pois, avisada, que iniciei a leitura da biografia do Santo, advogado das coisas perdidas, o protector dos casamentos.
S. António nasceu em 1190 (data provável), em Lisboa, Portugal, à época designado como o fim do mundo. Foi frade agostiniano no Convento de São Vicente de Fora, em Lisboa; aprofundou os estudos religiosos no Convento de Santa Cruz, em Coimbra; tornou-se franciscano em 1220; viajou por Marrocos, Itália, França; faleceu em 1231, em Pádua, onde repousam os seus restos mortais; foi canonizado pela Igreja Católica em 1232. 
Segundo Agustina, S. António possuiu as sete energias instauradas pela inteligência; possuiu o intelecto individual que participa da eternidade da inteligência e está acima do pensamento; possuiu a verdade, possuiu a alegria, pois a alegria brota da plenitude do conhecimento, possuiu a prova apodíctica e também a vida, porque a vida é inseparável da inteligência; possuiu a perfeição; possuiu o dom da pregação
«Vai, vende tudo o que tens e segue-me», diz-lhe o Senhor.
Assim teria feito António, herdeiro de muitos bens.
“Na vida de Jesus há dois períodos distintos um do outro. O primeiro é o tempo poético, aquele em que se desloca pela Galileia, chama os seus discípulos, convive com agente simples, gente que é pecadora, crédula e amorável. O outro é o tempo duma experiência urbana, é a entrada na cidade de Jerusalém; aí, mesmo quando não existe a hostilidade, insinua-se a difamação. E perante a grande urbe de coração seco, impenetrável ao mistério, Jesus chora. São lágrimas de um homem posto perante a vergonha dum comportamento que impõe o silêncio de Deus.
Em S. António parece haver também esses dois tempos humanos. Foi o jovem inquieto de sabedoria e glória santa, deixou os lugares familiares para ir ao encontro do que não desejava que fosse fútil nem vulgar. Depois, foi o pregador, comovido perante a planície paduana; e mais tarde foi o homem velho, aquele que, sem ter muita idade, conhece o seu coração e treme perante nenhuma verdade. E quando se torna amigo, conselheiro e chefe viril duma província espiritual, a morte chama-o, sem surpresa, porque desde há muito há nele um pacto com a morte."

Foi uma experiência gratificante e enriquecedora ler a história de SANTO ANTÓNIO escrita pela perspicaz Agustina.
Não foi tarefa fácil, pois a sua prosa é rebuscada, saltitante, difícil. Mas, há que dizê-lo, também é sensível e inteligente. 
Tenho para mim que escrever sobre a vida de uma pessoa deve ser complicado. E se essa pessoa é o Santo de todo o mundo, então, deve ser complicadíssimo. Só posso imaginar o quanto Agustina teve de consultar, escrever e reescrever até chegar à versão final desta biografia. Boa ou má, os entendidos que se pronunciem.
Eu, apenas aconselho que a leia. Sem pressa. Devagar, devagarinho, acabará por saber quem foi, por onde andou, o que fez, ensinou e pregou o "nosso Santo casamenteiro". 

«Não há nada escondido que não venha a revelar-se» - diz S. António.

Santo António, de Agustina Bessa Luís
Guimarães Editora, 1993
206 págs.

28 outubro, 2016

"Memórias laurentinas" - Agustina Bessa-Luís


… a vida é assim, o peixe mau não tem espinhas e o bom está cheio delas.
Memórias… memórias… memórias.
Este romance é um entrelaçado de memórias: privadas (a vida de uma família vulgar, na segunda metade do séc. XIX, início do séc. XX)) e públicas (valores e tradições vigentes na época).
A narrativa começa com o estranho suicídio de António Guedes Ferreira, filho de vinhateiros ricos, bacharel em leis, nascido no Lugar das Cales, em Loureiro, uma aldeia de velhos solares e casebres miseráveis, de má fama, de malfeitores. Dizia-se que lá se matavam as pessoas “por um bom dia”.
Suicídio cometido depois de uma conversa de António Guedes com Perico, um ladrão de estrada, cruel, falso e mentiroso, que fazia consertos lá em casa, pequenos recados. Não eram amigos. Respeitavam-se, apenas.
Amigo de verdade António Guedes só tinha um: António Soeiro, vizinho, da sua idade, como ele proprietário. Soeiro é um rufião, vaidoso, ambicioso, oportunista, viciado no jogo. Acontece que António Guedes, homem fraco e crédulo, só  vê virtudes no amigo e empresta-lhe elevadas somas de dinheiro. Dinheiro para sempre perdido pois Soeiro está arruinado. Perdeu no jogo a fortuna herdada do pai.
Certo dia, ao regressar de um encontro com os credores, Soeiro encontra Perico e diz-lhe: temos de falar. Falam e nos dias seguintes o malfeitor ronda a casa de António Guedes. Acaba por entrar, manso como um cordeiro, e pede para falar a sós com ele.
O que lhe disse não ficou registado nem ninguém ouviu. Mas foi uma revelação tão poderosa e demolidora que António Guedes morreu disso. Envenenou-se. Só Perico sabia as razões.
(Eu também sei, mas nada desvendo, para que você as encontre espalhadas nas páginas deste romance.)
António Guedes casa cedo com Maria Maximina, mulher inteligente e trabalhadora, filha de uma família com títulos e apelidos mas sem fortuna. Após a morte do marido Maximina fica a braços com três filhos e poucos rendimentos, dado que a maior parte dos bens vai, por direito, para Lourenço Guedes Ferreira, o filho mais velho, o morgado.
Lourenço Guedes fica rico aos dezoito anos, aos dezanove já tinha gasto quase tudo e aos vinte está arruinado. Esbanja dinheiro em casas de jogo com o filho de António Soeiro, como fizera o pai na versão antiga. Aos vinte e cinco casa com uma jovem de Santa Comba. Nascem cinco filhos, só dois sobrevivem: Lourenço, doido acabado, e Zília. Enviúva e volta a casar, com Lourença Jurado, vinte anos mais nova, filha de um dos homens mais ricos de Zamora.
Para refazer a vida vai para África, seduzido por um contrato com os caminho-de-ferro e os negócios em parceria com... Soeiro, o vizinho!
África salvo-o da penúria. No regresso definitivo, compra casa em Zamora e monta uma fábrica de moagem. Prospera. Chama, então, para junto de si, os filhos do primeiro casamento e… tudo começa a correr mal. O jovem Lourenço, para encobrir roubos de farinha que vendia às escondidas, incendeia o armazém. O pai recusa-se a internar o filho, reconstrói o armazém e volta à luta. Por pouco tempo pois o filho louco acaba por destruir a totalidade da fábrica.
Lourenço Guedes aceita aquilo como um sinal, sempre benvindo, de que devia retomar o caminho noutra direccção, e toma duas decisões: dá ao filho a parte da herança da mãe e manda-o viajar; vende o que lhe resta, indemniza os fregueses e volta para Portugal com a mulher e as filhas.
Instala-se em Matosinhos e obtém a concessão dos trabalhos do Porto de Leixões. Volta a ganhar muito dinheiro.
Lourenço Guedes, fez duas fortunas, salvou a pele, teve catorze filhos, dos quais dez inviáveis, acumulou decepções e chamou a tudo isso uma história de loucos. E escreveu um diário, que salvou do esquecimento factos marcantes da vida de três gerações da sua família.

Desvendei muito? Não! Repare que nada disse sobre as mulheres da família; nem sobre as viagens de Lourenço, o incendiário; nem sobre...
As memórias laurentinas assentam numa história de vingança que leva séculos a consumar.
Acredite que MUITO ficou por desvendar.

Se gosta de sagas familiares inteligentes, convincentes, surpreendentes, esta é para si.
Acomode-se no sofá, livro nas mãos, manta nas pernas (já apetece), um lápis para sublinhar e um bloco para criar a árvore genealógica dos Guedes Ferreira. Isto, para não se perder na intrincada trama.
Eu não me perdi, mas desisti... da árvore, claro!

Memórias laurentinas, de Agustina Bessa-Luís
Guimarães Editora, 1996
299 págs.

16 setembro, 2016

"Florbela Espanca" - Agustina Bessa-Luís


O amor é em Florbela um delírio de discordância.
“A biografia de Florbela Espanca oferece muitas dificuldades de análise, pois se trata de uma mulher, e a mulher é como a Fortuna: enquanto existe, é bendita, quando desaparece, dela se diz todo o mal.”
Biografia, estudo psicológico ou reconstituição de percurso de vida, chamem o que quiserem a este livro de Agustina que eu continuarei a aplaudir a considerável pesquisa que está por trás do retrato competente que ela fez de Florbela Espanca (1894-1930).
Qualifiquem-no de bom, medíocre ou péssimo, que eu continuarei a enaltecer o conteúdo e a leitura fácil (tendo em conta a rebuscada escrita de Agustina), agradável e muito proveitosa.
De Florbela eu conhecia apenas alguns poemas da sua extensa, bela, triste, ternurenta, e um tanto ou quanto erótica, obra. Agora, conheci a mulher brilhante, talentosa e ousada para a época.  A mulher
 de personalidade contraditória, insubmissa, depressiva, sensível, narcisista, frágil, filha de pai arredio, privada do contacto com a mãe, criada por madrastas, que ousava afirmar: “não há ninguém que de mim se tenha aproximado que me não tenha feito mal”.
Toda a vida de Florbela é uma permanente reivindicação. Nada lhe basta, nada a satisfaz, porque há uma carência anterior
Três casamentos, alguns amantes, uma "estranha relação" com Apeles, o irmão. “Lembra-te que és preciso ao meu coração, que tomou o doce hábito de te conservar um cantinho privilegiado onde mais ninguém entra.”, dizia-lhe ela.  
Em Junho de 1927, a morte (suicídio?) do irmão acentuou o seu estado depressivo “Morreu. Parece que morreu tudo, que ele não deixou cá ficar nada, parece que levou tudo… Eu choro o meu maior amor, o meu orgulho, metade da minha alma.”  Então, dominada pela amargura, ela foge de tudo e de todos.
Em Dezembro de 1930, na véspera do seu aniversário, Florbela escolhe a morte para sua derradeira fuga.
"No Mundo, passo por todos, vendo alguns; na vida esqueço-me de quase todos, esquecendo-me de mim. Quase tudo me é indiferente."

Li, gostei, aconselho vivamente. 
Desvendei pouco, para que seja muito o arrebatamento de quem decidir "ver" Florbela Espanca tratada por Agustina Bessa-Luís  "com singular afecto e consideração. Afecto poético, consideração humana”.

A MINHA DOR
(A Você)

A minha Dor é um convento ideal
Cheia de claustros, sombras, arcarias,
Aonde a pedra em convulsões sombrias
Tem linhas dum requinte escultural.

Os sinos têm dobres de agonias
Ao gemer, comovidos, o seu mal…
E todos têm sons de funeral,
Ao bater horas, no correr dos dias…

A minha Dor é um convento. Há lírios
Dum roxo macerado de martírios,
E ninguém ouve, ninguém ouve, ninguém…

Nesse triste convento aonde eu moro,
Noites e dias rezo e grito e choro,
E ninguém ouve… ninguém vê… ninguém…

(Livro de Mágoas)

Florbela Espanca, de Agustina Bessa-Luís
Guimarães Ed., 1976
221 págs.

19 julho, 2016

O que é uma mulher?


Eis a definição que encontrei numa das páginas do romance “As terras do risco” (1994), de Agustina Bessa-Luís:

“- O que é uma mulher?- disse Baltazar (…) Confesso que as vejo sempre como uma coisa de pouco valor, que nunca nos serve o bastante e povoa a nossa solidão e às vezes a degrada. Não sei de pior companhia do que a duma mulher. Faz barulho com a loiça, bate com as portas, arrasta as cadeiras, queixa-se o dia inteiro, encontra todas as maneiras de ser desagradável, tem um cheiro horrível às vezes, e quer que a gente lhe diga que a ama. Quer ser notada em casa e na rua, usa roupas impróprias no amor e no trabalho. Só aqueles brincos enormes lhe dão um ar arrepiante. São tão ignorantes! Mesmo quando fazem o liceu e um curso superior, ficam ignorantes. Não são capazes de ideologia nem de utopia nenhuma. Quanto a construírem o mundo, limitam-se a limpar-lhe o pó e a fazer constar que isso é uma regra de oiro. Eu não digo que não tenham jeito para governar, mas o que eu digo é que se enchem de complexos de culpa e fazem do governo uma atitude e não um ofício. Não sei como as hei-de tratar. Já não lhes podemos bater nem fazer-lhes filhos; nem pedir-lhes que nos façam a cama e a sopa. Respondem: “Basta de autoritarismo militar, de faxina, de continência, de galões.” São mais brutais e menos guerreiras. Querem convencer e não agradar. Como é possível?"


É fértil e incontrolável a imaginação de Agustina.
Eu, pasmei!!!

01 julho, 2016

"As terras do risco" - Agustina Bessa-luís


Arrábida quer dizer lugar de oração.
Aí se encontram as Terras de Risco.

“O que trazia o prof. Fabre d’Oliver à Serra da Arrábida com a sua bela esposa de enigmáticos olhos permanentemente sem segredos, era a curiosidade. A curiosidade era o vício do professor Fabre. Possivelmente, os outros vícios são seus primos carnais. O professor Fabre tivera contacto com um estudioso de História que lhe garantira que em Portugal tudo estava por descobrir: tesouros escondidos e espécies raras. Inclusive uma espécie de gato selvagem que dá pelo nome de Khoi, semelhante ao gato persa. Mas o que verdadeiramente o atraíra fora o instrumentos em latim do contrato de casamento de Isabel de Avis como duque de Borgonha. Que no contrato de casamento aparecessem três testemunhas que eram mercadores florentinos, isso também nada tinha de estranho, posto que os delegados banqueiros de Florença nada mais faziam ali do que garantir o dote da noiva. Mas que um deles se chamasse Heitor Sequespee, isso já era mais impressionante e digno de atenção. Como era que durante quinhentos anos ninguém reparara naquilo? O professor Fabre teve um ataque de curiosidade tão intenso que lhe caiu uma porção de cabelo e engordou seis quilos.”

Foi na minha varanda solarenga virada para o mar, que “penetrei” na densa, grandiosa, bela, labiríntica e perigosa Arrábida, lugar central da acção deste “romance de risco”.
Pensava eu que sentir o sol e mirar o mar facilitaria a leitura da escrita densa, excessiva e igualmente labiríntica de Agustina. Enganei-me!
Enganei-me e rapidamente deixei de querer saber se o Professor Martin, na companhia de Jeanne Précieuse a sua sedutora mulher linda de morrer, encontrou a chave do enigma que o levou a subir a Serra da Arrábida num velho táxi verde e preto.
Mas não desisti.
Mesmo que Agustina diga que não devemos acreditar em tudo o que nos dizem, sem cinismo prometo voltar a “As Terras do risco”. Lá para o inverno…
Perdoem-me os seus seguidores. São coisas que acontecem.
Entretanto, fico na expectativa que alguém me esclareça se a curiosidade faz mesmo cair o cabelo e engorda.
Valha-me Deus!

As terras do risco, de Agustina Bessa- Luís
Guimarães Ed., 1994
284 págs.

21 maio, 2016

"Vale Abraão" - Agustina Bessa-LuÍs

O que era o amor? Ema achava-o um derivativo duma vocação profunda e inflexível; um luxo que simboliza paisagem que a ninguém é dado ver; sonhos, apetites, manias que nada mais são do que o desejo de ser uma outra pessoa, de arrancar desses símbolos do corpo (o sexo e os olhos que primeiro pecam) a natureza da pessoa, em toda a sua difusa corrente de movimentos.(...)
Os amantes (…) não lhe serviam senão para através deles consagrar o pecado. Mas só amando se consagra alguma cosa; senão era apenas o silêncio.
Sinopse:
“A recriação duma Bovary, destinada a servir de guião para um filme de Manuel de Oliveira, trouxe à Autora a necessidade de descobrir a natureza flaubertiana que concebeu Ema e a tomou como seu espelho. “A Bovary sou eu” – disse Gustave Flaubert, no auge da incriminação que pesou sobre a sua vida de romancista. De facto, Ema é Flaubert, e o romance é uma história de paixão que tem como adversária a mediocridade. Chabrol soube tocar essa realidade que ofusca todas as outras, ao dizer: “O ser humano é estúpido. O que salva Ema é que ela se bate.”
Ema bate-se contra a rede de pequenas e formidáveis misérias que se apertam em volta dela. Heroína provinciana das insatisfações típicas do ser humano…”
Sem dúvida que a sinopse desperta curiosidade, mas… lamento, ter de dizer que ao reler “Vale Abraão” voltei a sentir enfado e desilusão. Nem a digna descrição da paisagem serena e bucólica das quintas da margem direita do Douro vinhateiro (lugar onde tudo acontece) evitou o meu drama de virar a página ou fechar o livro.
É claro que elogio a excelência da escrita e aplaudo efusivamente a caracterização física e psicológica das personagens do romance, particularmente da mulher que é o centro vivo de uma história, mas não heroína dela…
Ema, assim se chama a protagonista, é uma mulher provinciana, inteligente, bela, sedutora, ambiciosa, divertida, casada com Carlos, que não ama, um médico paciente, um santo, que tudo lhe desculpa, por considerar que ela sofre de uma depressão singular e incurável devido ao efeito da sua manqueira – um defeito na perna esquerda, desde os cinco anos, mãe de duas filhas,que ignora.
Mulher adúltera, tem vários amantes ao mesmo tempo. Não os ama, nem quer comprometer-se com nenhum. “Usa-os” para poder frequentar uma sociedade que lhe está vedada.
Desencaminhada, ou perdida, a sua vida é um constante vaivém de corridas no seu carrinho amarelo descapotável, festas, bailes, viagens. Adora comprar coisas, fazer dívidas, fumar até um pouco de erva e beber às vezes até perder toda a noção da decência.
Grande personagem esta Ema, a Bovarinha.
Agustina não poupa adjectivos para a caracterizar: caprichosa, insatisfeita, interesseira, orgulhosa, invejosa, maldosa, viril, poderosa, vingativa, cabeça louca, provinciana ensaboada, desenganadora, dona de uma personalidade malévola, mentirosa sem escrúpulos, vadia sem despudor, indigna sem preâmbulo, fútil sem vaidade, etc., etc..
Narrado no último capítulo do livro - “UM RIO CHAMA OUTRO RIO”, é triste o fim da menina que cresceu sem mãe numa liberdade demasiada, da jovem fútil que engana o marido e os amantes, da mulher solitária, doente, tristonha e sem alma. 

Quando a perfeição é monótona e repetitiva, cansa!

Vale Abraão, de Agustina Bessa-Luís
Guimarães Ed., 1991
239 págs.

15 abril, 2016

"Adivinhas de Pedro e Inês" - Agustina Bessa-LuÍs


A História é uma ficção controlada. 
“Adivinhas de Pedro e Inês” é um romance histórico feito de muita investigação e imaginação, que relata a história do amor trágico de D. Pedro e Inês de Castro.
A “voz” que tudo desvenda sobre os mais conhecidos amantes portugueses, é de uma mulher que visita lugares míticos, levanta e questiona dados biográficos, reflecte sobre a verdade histórica arrumada em arquivos, “lê” as pétalas interiores e exteriores da rosácea da cabeceira do túmulo de D. Pedro, consagradas respectivamente aos amores idílicos e aos amores punidos, desmonta mitos.
A narrativa começa assim:
Visitei há muitos anos a Quinta das Lágrimas, onde se diz que Inês foi morta. Lembro-me que se transpunha o rio atravessando uma ponte de madeira cujas tábuas gemiam e baloiçavam (…)
Depois da morte de Inês, acontecida nesses famosos lugares, andou sete meses dementado o Infante, queimando e destroçando aldeias e semeaduras; tais flagelos sangravam do seu coração (...)
E termina assim:
Porque teve Inês, na sua maturidade, um intuito tão manifesto de ser rainha? A ambição resulta da felicidade ignorada. Possivelmente ela nunca amou D. Pedro, e a sua vontade de poder era uma forma de suspirar (…)
Lido e relido, este romance não me cativou.
Nem o aviso: as adivinhas de Pedro e Inês ficam entregues à imaginação do público, dos leitores... me fez gostar duma narrativa enfadonha e repetitiva.
Lamento!

Adivinhas de Pedro e Inês, de Agustina Bessa-Luís
Guimarães & Cª Ed., 1983
239 págs.

04 março, 2016

"A Sibilia" - Agustina Bessa Luís

Quina amava o mundo… criou asas, sem jamais poder voar…
"Aos quinze anos foi acometida duma síncope grave, prelúdio de uma longa doença.
A enferma foi cercada de mimos, de mal disfarçadas venerações.
Ela, tão pouco dada a afagos…
Ela, que até ali julgara prescindir dos respeitos, das atenções, do amor, que apenas fora uma rapariguinha activa na obediência, apagada mesmo por ser demasiado exacta, por temer salientar-se, incorrer em faltas, suscitar uma crítica, um reparo nem que fosse de louvor, compreendeu como a sua natureza vibrava com o afecto, a admiração, e como se expandia em energias apaixonadas, até derramar em volta uma influência de simpatia, de força, de irrecusável imperativo. Ela compreendeu isto, não pela razão, mas pelo sentimento. Sentiu que não podia perder jamais aquele privilégio que subitamente a revelava como algo de distinto e à parte de todos os outros. A doença fez-se invalidez, estorvo para o regresso à vida normal que a devolveria à mediocridade e à sombra; adquiriu uma forma de se expressar sibilina e delicada, que deixava suspensos os ouvintes, as almas estremecendo numa volúpia de inquietação, curiosidade e esperança."

A Sibila”- Prémio Eça de Queiroz, 1954 - narra a história de três gerações da família Teixeira, agricultores  proprietários da secular casa de Vessada, na zona de Amarante,
Em dezanove capítulos, uma sucessão de acontecimentos desvenda as venturas e as desventuras da família, no período compreendido entre 1850 e 1950: o primeiro encontro e casamento de Francisco Teixeira e Maria Encarnação; a perda das três primeiras gravidezes de Maria; o incêndio da Vessada; o nascimento dos filhos Justina (Estina), Joaquina Augusta (Quina), Balbina, Abílio, João e Abel; as adversidades que levam a Vessada à falência, muito por culpa da irresponsabilidade e fanfarronice estroina de Francisco Teixeira, homem volúvel, fraco, mulherengo.
No centro da narrativa está Joaquina Augusta (Quina, a Sibila), a criança que cresce excluída de carinhos, a mulher de virtude, pequenina, tímida, de feições rudes, trabalhadora, influente, vingativa, ambiciosa, dominadora que, mesmo na condição de paralisada, readquire o património perdido, investe em novas propriedades, restaura a casa onde nasceu.
Aos cinquenta e nove anos, Quina, no apogeu das suas faculdades de administradora de propriedades e riquezas em rendosos dinheiros, solteira, apesar da grande corte de pretendentes é, por mérito próprio,  dona e senhora da casa de Vessada, Ali morrerá, aos setenta e seis anos, no mais triste isolamento. Doente, recolheu-se ao sofrimento, sem avisar a família, sem aceitar a companhia de amigos. Na casa de Vessada, para ela sempre a doce evocação do pai, nada receava.
Em testamento ela indicou Germa, a sobrinha mais amada, sua herdeira absoluta.
A Custódio coube o usufruto de duas propriedades acrescentadas ao património da família.
Mas quem é Custódio? Eu sei, mas não desvendo.
Leia o  romance e alguém lho apresentará...
- Viva a voeirinha, a sibila!

A Sibila, de Agustina Bessa-Luís
Guimarães Ed., 1954
249 págs.

23 outubro, 2012

Vale a pena ler... Agustina Bessa Luis



Agustina fez 90 anos.

A bibliografia assusta, só romances são uns 40, mas entramos e descobrimos um mundo pessoalíssimo, exigente, subtil, imenso. Agustina elevou as possibilidades da literatura e da linguagem literária, em vez de as amesquinhar, ou domesticar, ou produzir tranquilidade.
Em Agustina, até os defeitos são virtudes, as frases arrevesadas, as personagens que desaparecem sem explicação, ninguém deve lê-la à espera de romances “bem feitos” ou da bendita “história” que agora nos dizem que é sinónimo de romance.
Costumo desincentivar algumas pessoas de lerem Agustina, para que não se desiludam, leitores de paciência e horizontes curtos, ou aqueles que preferem sempre uma literatura das “massas”, tanto as massas exploradas como as massas entretidas. Não procurem aqui ficção impessoal, dogmática, superficial, classificável. Agustina nunca foi regionalista, neo-realista, existencialista, vanguardista, pós-moderna, mas sempre se mostrou enraizada numa geografia local, atenta aos humildes, inquieta com a dificuldade de viver bem, ousada no estilo, irónica.

Excerto da crónica de Pedro Mexia, publicada na revista Atual, suplemento do jornal Expresso, de 20 Outubro 2012.
Vale a pena ler na íntegra.