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20 outubro, 2020

Versos (soltos) do poeta açoriano Antero de Quental




A tristeza do tempo... a dor dos séculos, 
Que vão, como gemidos, 
Caindo e arrastando homens e coisas... 
Não se sabe a que abismo!

O vós! - se ides em busca da Verdade! 
Olhai bem..., que essa mão, que assim vos leva, 
Bem pode ser que seja toda treva, 
Quando se aclama toda claridade!

Suspende a minha vida dos teus olhos,
Senão deixo-a cair!

Eu quero imenso horizonte
Para poder delirar!

Aquelas nuvens que vemos,
Esses poemas aéreos,
São sonhos que nós temos,
Nossos íntimos mistérios!
São espelhos flutuantes
Das nossas dores constantes
Aquelas nuvens que vemos...

O amor! Que imenso mar!


Antero de Quental, de seu nome completo Antero Tarquínio de Quental, nasceu em Ponta Delgada, na Ilha de São Miguel - Açores, em Abril de 1842. 
Foi poeta, filósofo, político e dedicou-se à reflexão dos grandes problemas filosóficos e sociais do seu tempo. Líder intelectual do Realismo em Portugal, contribuiu para a implantação das ideias renovadoras da Geração de 70, um movimento académico de Coimbra que revolucionou várias dimensões da cultura portuguesa, da política à literatura. 
Suicidou-se com dois tiros em Setembro de 1891, num banco junto ao Convento de Nossa Senhora da Esperança, na cidade onde nasceu.
Mais sobre a vida e obra, aqui.


Versos retirados dos livros: "Primaveras Românticas" e "Odes Modernas".)
Viagem aos Açores (São Miguel, Terceira, Pico, Faial), em Setembro 2019.

13 outubro, 2015

"Primaveras românticas" - Antero de Quental


Versos

As flores que nossa alma descuidada
Colhe na mocidade com mão casta,
São belas, sim: basta aspirá-las, basta
Uma vez, fica a gente enfeitiçada.

Nascem num prado ou riba sossegada,
Sob um céu puro e luz serena e vasta;
Têm fragância subtil, mas nunca exausta,
Falam d’Amor e Bem à alma enlevada…

Mas as flores nascidas sobre o asfalto
Dessas ruas, no pó e entre o bulício,
Sem ar, sem luz, sem um sorriso do alto,

Que têm elas, que assim nos endoidecem?
Têm o que mais as almas apetecem…
Têm o aroma irritante e acre do Vício!

25 outubro, 2011

Poema de... Antero de Quental

À  GUITARRA
Três cordas tem a guitarra,
Uma d’ouro, outra de prata…
Á terceira, que é de ferro,
Todos lhe chamam ingrata.

Ninguém faça ramalhetes
Com flores que hão-de murchar…
Ninguém tenha cordas d’ouro,
Se as não quer ver estalar!

Aprendam todos comigo
O que pode acontecer
A quem canta os seus amores
Num cabelo de mulher…

Das três cordas da guitarra
Só a terceira dá ais…
Bastou-me um amor na vida,
Um só amor e nada mais!

Quadras de Antero de Quental, Portugal (1842-1891)
Pintura (Velho guitarrista cego 1903) de Pablo Picasso, Espanha (1881-1973)