01 dezembro, 2019

9º aniversário do "rol de leituras"


"Se és feliz, escreve; se não és feliz, escreve também."
MACHADO DE ASSIS

... e num abrir e fechar de olhos um ano passou e o “rol de leituras” está a celebrar mais um aniversário!
Nem tudo foi fácil, confesso. A minha relação conturbada com o "rol" chegou a atingir uma proporção difícil de gerir com lucidez. As pazes não estão de todo feitas mas eu, «abastecida» de pensamentos positivos e muito chá de camomila, vou continuar a publicar dicas de leitura, opiniões, pensamentos, fotos, e outras coisas mais…
Na «festa» do 8º aniversário partilhei o encontro que tive com a querida Graça Pires e dela publiquei um lindo poema. Pois este ano tive o privilégio de conhecer no Algarve (onde fomos passar a Páscoa com familiares) o amigo António Gomes, do blogue "Existe sempre um lugar"Um encontro previamente combinado, proporcionou uma simpática e animada conversa a quatro: eu, o Carlos, ele e a Teresa, sua mulher. De blogues, não falámos! Outro encontro será marcado logo que possível. Gostei muito do casal. É tão lindo quanto as fotos que ele no blogue publica, ou publicava, já não sei.
Ora, se da Graça publiquei um poema, do A. Gomes publico, claro, uma foto encantadora!
Este ano o "rol" deu-me outro presentão! Qual será o próximo? Quando o receber, saberão!


O que vou eu fazer a partir de amanhã? Continuar por aqui, custe o que custar!
E ler! E sublinhar! E ler! E sublinhar! E, muito importante, “conversar” mais com amigos(as) virtuais especiais, aqueles/aquelas que enchem de cor os dias cinzentos.
Obrigada a todos - os que ficam, os que apenas passam por aqui, os que respondem aos meus comentários, os que os ignoram - pelos incentivos, a simpatia, a paciência, a generosidade, o consolo e tranquilidade, a amizade, o carinho. Obrigada a todos, por tudo!
E como não há festa sem bolo, amigos(as), sirvam-se!


Beijos e abraços. Não esqueçam que “a felicidade não sé dá, troca-se”. 

(Fotos 1 e 3, da net.)

26 novembro, 2019

Aceita um chá, ou prefere uma tisana?


"Uma mulher é com um saquinho de chá; 
você nunca sabe o quão forte ele é até que esteja na água quente."
Eleanor Roosevelt, primeira-dama dos Estados Unidos, de 1993 a 1945 (1884-1962)


ACEITA UM CHÁ , OU PREFERE UMA TISANA?
Nos dias frios e chuvosos encontro aconchego num chá (ou tisana) quentinho e aromático. Com uma torrada amanteigada, um biscoito crocante, ou uma fatia de bolo fofinho, é a melhor companhia num fim de tarde cinzento.
O chá, para merecer a designação chá tem de provir da planta do chá «camellia sinensis». Como o chá verde, o chá branco (o mais raro), o preto, por exemplo, todos provenientes da «camellia sinensis», mas com tempos diferentes de secagem das folhas
Os chás de ervas, obtidos a partir de frutas, flores ou plantas, camomila, tília, limão, jasmim, etc., são tisanas, pois nada vão buscar à planta do chá.
Chás ou tisanas podem ser estimulantes, calmantes, laxantes, diuréticas, digestivas ou simplesmente reconfortantes.
Os chás de ervas são o remédio caseiro por excelência. Uma dose certa de folhinhas, flores, raízes, deitada em água na temperatura certa, alivia qualquer mal-estar.


Sugestões
A cidreira trata problemas digestivos, insónias, cefaleias, depressões.
A camomila trata perturbações do estômago, dores musculares, ansiedade, permite um sono reparador.
A tília é eficaz no tratamento da artrite, problemas digestivos, tensão nervosa.
A lúcia-lima tem um efeito calmante.
O jasmim é digestivo, relaxante e anti-depressivo.
O alecrim é excelente para recuperar da fadiga.
A hortelã-pimenta ajuda na digestão, cefaleias e descongestionamento das vias respiratórias.
A urtiga é eficaz no tratamento das alergias respiratórias.
A valeriana é excelente em casos de stress e ansiedade.


Como fazer
Chás - deite água a ferver sobre as folhas de chá (proporção de uma colher de café por cada chávena), deixe em infusão 10-12 minutos e sirva simples, ou com leite ou com limão.
Tisanas - deixe a água ferver, adicione folhas de chá, mantenha a fervura mais 2-3 minutos, deixe repousar e sirva.


Dicas
Se gosta de chá com leite, deite na chávena o chá e só depois o leite.
Eu gosto de leite com chá. Estranho? Não, delicioso! Deito leite quente na chávena e introduzo uma saqueta de chá. Chá verde, uma vez por outra; camomila, sempre!
A camomila não me acalma, nem melhora o meu sono, mas é amiga do meu sistema digestivo.
Com o chá verde tenho uma estranha relação de amor e ódio: delicio-me bebendo-o simples ou com leite ao pequeno almoço, sabendo que à noite terei por companhia uma insónia brutal.
Já para alívio de uma constipação ou uma  irritação da garganta bebo uma tisana feita com casquinhas de limão, pau de canela, gengibre e mel. Resulta!

Beba chá ou tisana. É um produto natural e tem 0 (zero) calorias!!!

"O chá é o elixir da vida."
Lao Tzu, filósofo e poeta chinês (571 a.C. - 531 a.C.)

(Fotos da net.)

22 novembro, 2019

"Que importa a fúria do mar" - Ana Margarida de Carvalho

Sinopse: “Numa madrugada de 1934, um maço de cartas é lançado de um comboio em andamento por um homem que deixou uma história de amor interrompida e leva uma estilha cravada no coração. Na carruagem, além de Joaquim, viajam os revoltosos do gole da Marinha Grande, feitos prisioneiros pela Polícia de Salazar, que cumprem a primeira etapa de uma viagem com destino a Cabo Verde, onde inaugurarão o campo de concentração do Tarrafal.
Dessas cartas e da mulher a quem se dirigiam ouvirá falar muitos anos mais tarde Eugénia, a jornalista encarregada de entrevistar um dos últimos sobreviventes desse inferno africano e cuja vida, depois do primeiro encontro com Joaquim, nunca mais será a mesma.
Separados pelo tempo, pelo espaço, pelos continentes, pela malária e pelo arame farpado, os destinos de Joaquim e Eugénia tocar-se-ão, apesar de tudo, no pelo de um gato sem nome que ambos afagam e na estranha cumplicidade com que partilham memórias insólitas, infâncias sombrias e amores decididamente impossíveis.”
A verdade pode muito bem estar enganada. É só uma questão de tempo.
Que importa a fúria do mar”, romance de estreia de Ana Margarida de Carvalho, venceu o Grande Prémio de Romance e Novela APE/DGLAAB 2013.
Três anos depois, a jornalista e escritora conquista o mesmo prémio com o segundo livro  “Não se pode morar nos olhos de um gato", romance magnífico que li em 2018 e partilhei a minha opinião aqui no Rol. E logo parti em busca do primeiro romance. Não foi fácil, demorei a encontrá-lo. Não desisti. O esforço valeu a pena. “Que importa a fúria do mar”, vou repetir-me, é um romance avassalador, dos melhores que li. Uma história brilhante, um perfeito entrançado de tramas, personagens credíveis, muito, muito bem escrita. Uma desenfreada torrente de palavras que começam por parecer sem sentido, mas logo, logo, todo o sentido fazem. A imaginação de Ana Margarida de Carvalho não tem limites e a forma como combina as palavras não tem igual. Se a história não o agarrar nas primeiras páginas, não desista. Please!
O texto que reproduzo abaixo, memórias, é longo (e se eu cortei...) mas vale a pena ser lido. Claro que podia ser outro, mais sério, sei lá, sobre a polícia de Salazar, ou o Tarrafal, ou a revolta da Marinha Grande, ou, ou,ou..., mas foi este que eu escolhi da escrita poderosa de AMC. Que tal pedir os dois livros dela ao Pai Natal? Excelente prenda, acredite!

"Mãe, eu quero desnascer.
(…) Com a separação lidou razoavelmente, sabia-lhe bem ter a casa só para si (…) Ele era tão insignificante que, na sua presença, ela se sentia já verdadeiramente sozinha.
No princípio, a sua própria serenidade até a assustou, seria mesmo destituída de sentimentos, seca, como uma maçaroca debulhada? Sentia vontade de ter vontade de chorar. Mas as lágrimas...
(...) O que se há-de fazer? A vida é assim, são ciclos, as pessoas encontram-se de passagem. E depois quando se voltam a cruzar nem se lembram de olhar para trás.
Mas as aranhas só tecem em dias nublados, sempre lhe disseram as «tias velhas». E foi num dia destes que lhe veio à cabeça o advérbio interrogativo de causa. Porquê? Porquê? E Porquê?
Eles não se davam mal (…) Por isso nunca havia tempestades, era só bonança e tédio. Acomodação, enfado e rotina. (…) Tudo corria como sempre correra, sem turbulência, sem poços de ar, sem vácuos, sem despressurização. (…) Era um casamento em piloto automático, nunca apareceu um pirata do ar entre eles. Porquê desviá-lo da rota?
Esta pergunta consumia-a. Acordava de noite, numa cama revolta de angústia. Precisava de saber.
Porquê?
E então atolava-lhe o telemóvel de mensagens. Alternava a agressividade com o carinho (o máximo até onde podia chegar). (…) Porque é que um dia ela saiu da redacção e ele não estava do outro lado da rua à sua espera? Porque é que chegou a casa e já só encontrou o cheiro dele?
(…) Vá, sê um homenzinho! Diz-me! Porquê? Tem de haver uma razão. Eu não quero reconciliação, eu não quero voltar a ver-te à frente, eu não quero saber de ti. Só preciso de saber porquê?
E um dia a resposta chegou. Pingou-lhe no e-mail. (…)
Não consigo viver com uma mulher por quem não sinto qualquer atracção física.
Era só isto que dizia o e-mail.
(…) teria preferido qualquer coisa, um amor inesperado por outra pessoa, uma revelação de homossexualidade tardia, uma confissão de desamor… Tudo menos isto.
(...) Considerava-se uma mulher banal, dessas indiferenciadas (…) Agora, além de mulher indiferenciada, ficava a saber-se mulher sexualmente inepta para provocar o interesse no sexo oposto. Ou porventura em ambos os sexos. A sensação não foi do coração a estilhaçar-se. O coração não se parte, quando cai ao chão faz «plof» e derrama algum sangue que tenha ficado alojado numa aurícula. O que lhe aconteceu produziu efeito mais ao nível do estômago, que se lhe tombou aos pés como um saco cheio de vómito.
(...) Não voltou a fazer perguntas. Estava esclarecida. Mais do que alguma vez pretendera. Passou mal, mesmo mal (…) Achou-se um ser desprezível (…)
Quem me dera poder usar burca.
E durante umas férias do emprego foi assim, na penumbra, só ela e o gato, ela e o gato, ela e o gato…
(…) Sem conseguir ler, porque as linhas tropeçavam umas nas outras, sem querer saber do mundo que se amotinava à sua volta (…) Um dia lembrou-se de que ainda não pusera nome ao gato. (...)

O mar é a mais líquida, a mais extensa e a mais habitada das metáforas.
Recomendadíssimo!

Que importa a fúria do mar, de Ana Margarida de Carvalho
Ed. Leya, 2019
239 págs.

19 novembro, 2019

E qual é a palavra, qual é? SOLIDÃO, pois então!


Hoje são 7 + 1 as frases desta publicação.
As seis primeiras sublinhei-as em livros que li.
A sétima é minha (logo se nota, pois me falta saber, engenho e arte para dar voz a sentimentos).
A oitava será a sua frase, se aqui a quiser deixar. Prometo, que lá de baixo voará para o meu jardim de  "Pétalas de Sabedoria".
E qual é a palavra, qual é? Solidão, pois então!


1. "Há dois géneros essenciais de solidão: a de não termos encontrado ninguém a quem amar, e a de termos sido privados das pessoas que amávamos. A primeira é pior."
(Julian Barnes, escritor inglês (1946-), in “Os níveis da vida”, Ed. Quetzal, 2013)


2. "O amor salva-nos da solidão, a pior condenação da velhice."
(Isabel Allende escritora chilena (1942-), in “De amor e de sombra”, Ed. Difel, 1984)


3. "A característica daquilo a que chamamos loucura é a solidão, mas uma solidão monumental."
(Rosa Montero, escritora espanhola (1951-) in “A ridícula ideia de não voltar a ver-te”, Porto Editora, 2015)


4. "O ser humano não é mais do que solidãoUma solidão rodeado de solidões."
(Milan Kundera, escritor checo (1929-), in “A festa da insignificância”, Ed. D. Quixote, 2014)


5. "Associa-te às pessoas mais nobres que puderes encontrar; 
lê os melhores livros; convive com os poderosos; 
mas aprende em solidão a ser feliz."
(Saul Bellow, escritor americano (1915-2005), in “Ravelstein”, ed. Teorema, 2001)
Prémio Nobel de Literatura, 1976


6. "solidão é difícil de evitar. Seja em que sítio for."
(Michael Cunningham, escritor norte-americano (1952-), in “Uma casa no fim do mundo”, Ed. Gradiva, 2001)


7. "Solidão eu não defino, mas sinto. Rói meu coração!" 
(Teresa Dias)


8. ....
"Solidão é quando olhando para dentro de nós mesmas, não vemos nenhuma voz para conosco conversar, nem mais somos capazes de ver as belezas dos céus, das flores e do SOL interior... Essa é fatal!"  

"Quando a noite acontece nos meus olhos e uma estrela vem morrer na minha mão acendo os sonhos e canto a enganar a solidão enquanto não amanhece. No olhar de uma mulher a lua não adormece…"
(Graça Pires, http://ortografiadoolhar.blogspot.com/)

"A solidão nem sempre reflete a ausência de pessoas, mas sim a falta de conexão com elas. Por isso algumas pessoas se sentem sós no meio de uma multidão."
(Catarinahttp://contempladoraocidental.blogspot.com/)

"Solidão é aquela florzinha, débil, triste e sozinha, mas que um dia, contra tudo e contra todos, ergue a cabeça, floresce e sorri ao sol logo que aparece."
(Emília Pintohttp://comecardenovopt.blogspot.com/)

"Quando estamos de bem com nós próprios, a SOLIDÃO é a benção de um deus desconhecido... e de grande criatividade‼"
(Teresahttp://ematejoca-ematejoca.blogspot.com/)

"A solidão é lugar de duas faces. Há solidão apetecida, o tempo de silêncio só nosso, lugar, mental ou real, onde descansamos do mundo e de nós no mundo. Essa é a solidão fértil, que equilibra e potencia, de onde renascemos. E há a solidão vulgar do desapreço e esquecimento, solidão que não dói apenas por ser sozinha; é o facto de ser perene e excluir a esperança que a envenena. É o lado da tristeza sem horizonte."
(Beahttp://erva-principe.blogspot.com/)

"Solidão da alma é uma morte prematura da alegria de viver."
(Roselia Bezerra, https://espiritual-marazul.blogspot.com/)

"(Solidão) A pior "doença" do Mundo !!!"
(Ricardo Santoshttps://opactoportugues.blogspot.com/)

"Solidão é a sensação de amputação de um órgão que me faz limitar."
(Toninhohttps://mineirinho-passaredo.blogspot.com/)


(Fotos da net.)

15 novembro, 2019

O mar de SOPHIA (1919-2019)



"A coisa mais antiga de que me lembro é dum quarto em frente do mar dentro do qual estava, poisada em cima duma mesa, uma maçã enorme e vermelha. Do brilho do mar e do vermelho da maçã erguia-se uma felicidade irrecusável, nua e inteira. Não era nada de fantástico, não era nada de imaginário: era a própria presença do real que eu descobria. (...)"


BIOGRAFIA
Tive amigos que morriam, amigos que partiam
Outros quebravam o seu rosto contra o tempo.
Odiei o que era fácil
Procurei-me na luz, no mar, no vento.

MAR SONORO
Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim,
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho,
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só para mim.

EXÍLIO
Quando a pátria que temos não a temos
Perdida por silêncio e por renúncia
Até a voz do mar se torna exílio
E a luz que nos rodeia é como grades

LUSITÂNIA
Os que avançam de frente para o mar
E nele enterram como uma aguda faca
A proa negra dos seus barcos
Vivem de pouco pão e de luar.

MAR
De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua,
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.

INSCRIÇÃO
Quando eu morrer voltarei para buscar
Os instantes que não vivi junto do mar

Sophia de Mello Breyner Andresen, um dos nomes grandes da poesia portuguesa do século XX, nasceu no Porto a 6 de Novembro de 1919, no seio de uma família aristocrática. De origem dinamarquesa por parte do pai, a sua educação decorreu num ambiente católico culturalmente privilegiado, que irá influenciar traços fundamentais da sua personalidade. Frequentou o curso de Filologia Clássica da Faculdade de Letras de Lisboa, que não chegaria a completar.
Estreou-se na poesia com o volume Poesia (1944), colectânea onde se anunciam já os grandes temas da sua obra: o mar, a casa, o amor, a claridade, a transparência. Outros volumes se seguiram. Ao "Livro Sexto (1962) foi atribuído o Grande Prémio de Poesia da Sociedade Portuguesa de Autores, 1964. Outros prémios se seguiram.
Sophia de Mello Breyner Andresen distingui-se também como contista: Contos Exemplares (1962), Histórias da Terra e do Mar (1982); autora de literatura infantil: O Rapaz de Bronze (1956), A Menina do Mar (1958), A Fada Oriana (1958), etc.; de ensaios (Cecília Meireles (1958, Poesia e Realidade (1959); artigos; teatro; traduções.
Foi a primeira mulher portuguesa a receber o mais importante galardão literário da Língua Portuguesa, o Prémio Camões, em 1999.
Faleceu no dia 2 de Julho de 2004, em Lisboa.  O seu corpo está desde 2014 no Panteão Nacional.

Texto e poemas retirados do livro "Obra Poética I, Círculo de Leitores, 1992
(Foto de Sophia  retirada da net.; restantes fotos tiradas por mim no paredão de Cascais.)

12 novembro, 2019

Imagens e palavras: "borboletas"


Leilão de Jardim
Quem me compra um jardim com flores?
borboletas de muitas cores,
lavadeiras e passarinhos,
ovos verdes e azuis nos ninhos?

(Cecilia Meireles, jornalista, escritora e professora brasileira (1901-64))



"Não haverá borboletas se a vida não passar por longas e silenciosas metamorfoses."

(Rubem Alves, teólogo, pedagogo, poeta e filósofo brasileiro (1933-2014)


(Fotos de A. Gomes. Obrigada, amigo!)

08 novembro, 2019

Conselhos para uma vida saudável...



Há muitos anos, tantos que não recordo quantos, li, gostei e guardei estes conselhos para uma vida saudável, do japonês Michio Kushi (1926-2014), à data líder da comunidade macrobiótica internacional:

"Dar um passeio ao ar livre; deitar-se antes da meia-noite; beber água fresca. 
E cantar uma canção. Todos os dias. Em voz alta!"

Sigo-os? 
Hum, ando a passo apressado no paredão (dia sim, dia não, não, não, dia sim...); deito-me pouco depois da meia-noite (demoro a adormecer); bebo água fresca que baste;  mas cantar...não canto não!  
Não canto porque não sei, mas oiço música todos os dias. Alto! Neste exacto momento estou a ouvir Melhor de mim, cantada por Mariza. Muito alto!


Obviamente, eu tento manter-me fisicamente saudável, com uma dieta equilibrada em todos os nutrientes essenciais; tento fazer uma hora de exercício físico pelo menos 3 vezes por semana (já passei a idade das 5 vezes por semana, que fiz, acreditem!); tento dormir bem.
Eu tento, mas mesmo tentando tanto, a minha barriga está longe de estar lisa; as articulações chiam; o cabelo perdeu o brilho; os olhos perderam tamanho; a pele começa a encarquilhar; as unhas partem; as insónias não param de me atormentar; e por aí fora... Um drama!
Tenho em casa dois objectos medonhos: o espelho e a balança. Para o espelho deixei de olhar. A balança tolero-a (mas odeio-a)! Sabem que ela se ri de mim? É, mas eu vingo-me atirando-me cada vez mais pesada para cima dela. E quando olho para baixo, e vejo o que não gosto de ver, o meu riso enraivecido abafa o da malvada. Uma vez por semana olho-a de cima para baixo e nem 500, nem 400, nem 300, nem 200, nem sequer 100 g  de peso perdido ela me mostra. Já 100 g de peso a mais (basta eu comer um simples pastel de nata) ela mostra-o descaradamente. Claro que na semana seguinte privo-me de guloseimas e lá perco os 100 g.
Esta luta dura há vários anos! Sorte, sorte minha, é que estou aprendendo a aceitar este meu  EU! Mas não é fácil, acreditem!
Análises e exames médicos dizem que está tudo bem. E isso devia bastar-me, mas não, quero caber em roupa de há dez anos, actualíssima agora, pois então! Nem os pés me cabem nos sapatos do ano anterior pois incharam e cresceram, engordaram, eu sei lá!
Que vida esta! Por mais que caminhe, salte, pedale, me baixe e levante; por mais frutas e verduras e cereais e frutos vermelhos que eu coma, o peso não diminui uma graminha. Então, frustrada,  desanimada e cansada, derramo-me no sofá e ataco pastéis de nata!
Manter-me mentalmente saudável é mais fácil: RIR é o meu melhor remédio. Rir de tudo, de todos, mas principalmente de mim! E eu riu, riu, riu. (E choro, também!)

Charlie Chaplin dizia «um dia sem rir é um dia desperdiçado". Eu, estupidamente desperdiço alguns. E você?


Agora eu ri, oh, se ri!!!
Ria também!
(Já agora, conselhos para uma vida saudável eu aceito todos. E pastéis de nata, também!)

(Fotos da net.)

05 novembro, 2019

"A origem de (quase) tudo" - New Scientist

Qual a origem de tudo?
Ao longo da nossa história, a única resposta plausível para a maioria das pessoas era «foi Deus que fez isto». Durante muito tempo até a ciência evitou esta pergunta.
Este livro, de autoria da Revista New Scientist, é uma espécie de viagem no tempo até à origem de (quase) tudo: Universo, O nosso planeta; Vida, Civilização, Conhecimento, Invenções. Felizmente, (…) dispomos agora de ferramentas para nos dar as respostas: a ciência.
A Introdução é de Stephen Hawking (1942-2018), físico teórico e matemático britânico, doutor em Cosmologia, fundador do Centro de Cosmologia Teórica da Universidade de Cambridge; o Prefácio e texto de Graham Lawton, bioquímico e mestre em Comunicação Científica, director-executivo da revista New Scientist.
Numa linguagem simples, empolgante, acessível a todos os leitores, em cada uma das seis partes do livro deparamo-nos com questões, informações e revelações interessantes e inesperadas sobre mitos e mistérios da nossa existência.
Eis algumas questões:
Como tudo começou? (O universo)
De onde vêm os buracos negros? (O universo)
Porque estamos no terceiro calhau a conta do Sol? (O nosso planeta)
Porque é que a Terra tem terra e oceanos? (O nosso planeta)
Como é que o nosso planeta se encheu de petróleo? (O nosso planeta)
Como começou a vida? (Vida)
Porque fazemos sexo (além da razão óbvia)? (Vida)
Porque fazemos amigos? (Vida)
De onde vêm o cotão do umbigo? (Vida)
Quando começámos a viver em cidades? (Civilização)
Quando começámos a enterrar os mortos? (Civilização)
Quando começámos a embriagar-nos? ( Civilização)
Quem inventou o papel higiénico? (Civilização)
Quando começámos a escrever? (Conhecimento)
Como descobrimos o nada? (Conhecimento)
Quando começámos a discutir política? (Conhecimento)
Porque foi preciso tanto tempo para inventar a roda? (Invenções)
Como foi a sorte para aqui chamada? (Invenções)
Como nos tornámos o destruidor de mundos? (Invenções)
Como conquistámos o espaço? (Invenções)
(...) somos os únicos seres capazes de fazer estas perguntas?
Não sabemos onde nem como a vida começou. Mas sabemos o suficiente para arriscar um palpite.

Agora, dê uma vista de olhos ao seu umbigo. Algum cotão?
Confesse, come os macacos do nariz? Vamos, não tenha medo de o admitir.
Sabia que os dinossauros dormiam? E que os olhos são órgãos notáveis, mas possivelmente o mais notável é o de um animal unicelular chamado Erythropsidinium. Sabia?
Não? Eu também não! Confesso até que desconhecia muito do que li neste livro. Sobre algumas questões irei pesquisar mais… A ideia é aprender até morrer!
Recomendo!

A origem de (quase) tudo (The Origin of (almost) Everything , 2016), da Revista New Scientist
Tradução de Francisco Silva Pereira
Marcador Editora, 2019
263 págs.

04 novembro, 2019

Parabéns, filhotinha!



"Com palavras amo.
(Eugénio de Andrade)

Penso ter-vos já dito que sou mãe de dois filhos: o Miguel, 44 anos e a Susana, 38 feitos hoje, sim hoje, porque a esta hora já tinha nascido. E sou, também, avó de 2 netas queridas (filhas do Miguel), a Carolina, 8 anos, e a Madalena, 3 anos. Pois hoje a minha Susana, a minha Xuxu (é assim que a trato desde o primeiro minuto de vida, quando me disseram que era uma menina e eu, que já lhe tinha escolhido o nome, balbuciei por entre lágrimas, «deixem-me ver a minha Xuxu»), como aniversariante, e longe de mim, vai estar o dia todo no meu pensamento. (Como se mãe de filho/a ausente não tivesse 24 horas o pensamento focado...). E sem ela saber (não te zangues, Xuxu!) trouxe-a comigo para o meu "Rol de Leituras".


Filhotinha do meu coração, mais um aniversário passamos separadas; mais um dia, mais um a somar a tantos outros feitos de saudades, tristezas e cuidados. Já nos vamos acostumando a amar à distância, com palavras escritas em vez de ditas. A vida assim quis!
Amo-te muito, tu sabes, és e serás sempre a minha menina amorosa, preocupada, voluntariosa, lutadora, trabalhadora, determinada, generosa... teimosa, refilona, desassossegada, doceira, gulosa... Eu te amo assim, inteira, se não fosses tudo isto não serias a minha Xuxu de alma luminosa e coração doce.
Filhotinha, no dia de mais um aniversário, promete a ti mesma ser feliz . Pensa que se eu te souber feliz, feliz também serei.
Promete que nos veremos no início do próximo ano.
Promete que hoje e todos os dias brindarás (com sumo, eu sei!) à vida, ao amor, à família.
Promete!

Parabéns, filhotinha! Festeja este dia o melhor que puderes e souberes.
Happy birthday! God bless you! Love!


(Desenhos - fotos da net.)

02 novembro, 2019

Estranhei a diferença...

No retrato que me faço
- traço a traço -
Às vezes me pinto nuvem
Às vezes me pinto árvore...
Mário Quintana (1906-1994)


Encontrei-a numa rua em Matosinhos.
Estranhei a diferença, 
Olhei, mirei, contornei, fotografei,
Em silêncio, sem pedir licença.
Entalada entre viaturas
Ao cimento encostada
Perfume não tinha, flores também não,
Apenas folhagem de vários verdes,
Quadrada, em vez de redonda.
Ainda assim, gostei de a conhecer.
Não a elogiei, nem afaguei
Ela deixou-se fotografar.
Penso que só por acanhamento
Angústias não confessámos
Nem ela a mim as suas
Nem eu a ela as minhas.
Mas...
Num silêncio absoluto 
Em rua de movimento
O nome ela não disse,
E eu não lho perguntei.
Se você souber
Por favor, desvende.
Eu, claro, agradeço!


Bom sábado. Fiquem bem!
Respeitem as árvores. Eu não danifiquei, apenas fotografei!

01 novembro, 2019

Em busca de algum conforto...


Há dias em que sentimentos como saudade, tristeza, desgosto, perda, consolo, se misturam e provocam em mim uma dor desigual, uma dor imensa, que nem a lembrança do amor que recebi dos que já perdi atenua. Hoje é um desses dias.
E só por isso, escolhi preencher este espaço com frases e imagens que recolhi aqui e ali, em busca de algum conforto
Encontrei, claro! Nos livros encontro sempre! Conforto, sabedoria, e algum alívio de preocupações, medos, ansiedades e tristezas. Reparem que eu disse "algum". O que falta para o "todo" está dentro de mim. Mas eu nem sempre consigo desatar amarras. Coisas da vida!
Sejam felizes! Eu sou feliz! Mas hoje estou tristinha! 


“Há uma eternidade que não chorava, tinha ensinado a saudade a ter os olhos secos.”
(Herta Müller, escritora romena (1953-), in “Tudo o que eu tenho trago comigo”, Ed. D. Quixote, 2010
Prémio Nobel de Literatura, 2009)


“A tristeza é a dor silenciosa.” 
(Santo António, citado por Agustina Bessa-Luís, escritora portuguesa (1922-), in “Memórias Laurentinas”, 
Guimarães Ed., 1996)


“O desgosto é uma condição humana e não médica e, se há comprimidos para nos ajudar a esquecê-lo – e tudo o resto – não há comprimidos para o curar.” 
(Julian Barnes, escritor inglês (1946-), in “Os níveis da vida”, Ed. Quetzal, 2013)


“… acreditava que a morte era apenas um fenómeno do corpo; mas agora sei que é meramente uma função da mente – e das mentes daqueles que sofrem a perda.” 
(William Faulkner, escritor americano (1897-1962), in “Na minha morte”, Ed. Dom Quixote, 2003 Prémio Nobel de Literatura, 1949)


“A verdadeira dor é inefável, deixa-nos surdos e mudos, está para além de qualquer descrição e qualquer consolo.” 
(Rosa Montero, escritora espanhola (1951-) in “A ridícula ideia de não voltar a ver-te”, Porto Editora, 2015)



(Flores - fotos da net.)

29 outubro, 2019

Sem "derramar" lágrimas!


Desta vez não foi uma fotografia nem uma música a transportar-me para bons momentos do passado, foi o comentário que uma querida amiga deixou na minha postagem sobre "Joker", o filme. 
Diz ela, no final do comentário:
" (...) Vou pedir pela TV, sou o contrário da nossa Emília, gosto de sair para outras coisas, filmes me esparramo no sofá"
E respondi eu:
"(...) Eu, viciada em filmes (vício bom!), vejo mais agora derramada no sofá.
Tais, tu esparramas-te no teu sofá, eu derramo-me no meu. Coisa boa!
(Aprendi a «derramar-me» no sofá, com um dos meus escritores favoritos. Um dia destes digo-te quem é ele.)"


E aqui estou eu a dizer-te, querida amiga, que  o tal escritor que derrama o verbo "derramar" na sua escrita inteligente, poderosa, violenta, viciante é: Cormac McCarthy (1933-)
Deixo alguns exemplos retirados do seu romance "A travessia":
"… onde o regato se derramava para sul.
… em cujo seio o mundo audível se derramava.
… olhou para ele à luz que se derramava da porta aberta.
… a luz do meio-dia se derramava sobre os campos.
… o cabelo escuro dela derramava-se sobre o ombro do irmão…
… examinou aqueles mundos derramados nas suas pálidas ignições sobre a noite sem nome…
…cabelo claro que ele já não cortava há muito tempo derramado em volta dele…"

Mas... também me encontrei com o verbo "derramar" no livro "Contos", de Virginia Woof (1882-1941):
"… refulgiam róseas e de novo refulgiam alaranjadas quando o sol, derramando-se pelas macieiras, incidia nelas. (No pomar)
… quando Miss Milan lhe pusera o espelho na mão e Mabel se olhara com o vestido novo, finalmente pronto, uma felicidade extraordinária se derramara no seu coração. (O vestido novo)
… o ramo de uma árvore à sua frente embebia-se e penetrava a sua admiração pelas pessoas daquela casa; derramava-se em gotas de outro; ou permanecia erecto como uma sentinela. (Resumo)
… Sasha já não se sentia capaz de derramar por cima do mundo inteiro a sua nuvem de ouro. (Resumo)
… o espelho começou a derramar sobre ela uma luz que parecia fixá-la, que parecia um ácido corroendo o acessório e superficial para deixar apenas a verdade. (A senhora no espelho: uma reflexão)"


Há uns anos diverti-me a sublinhar, a guardar e a publicar estas mesmas frases aqui no Rol.
O teu comentário, amiga, transportou-me àqueles momentos de boas leituras e gostosas partilhas. Obrigada!

Brincadeirinha à parte, brindemos à (nossa) amizade. Sem "derramar" lágrimas!





(“Derramar”, do inglês spill, shed, pour in)
(Fotos da net.)

25 outubro, 2019

"O Arquipélago do Cão" - Philippe Claudel

O que é a vergonha e quantos a sentiram? É a verdade que liga os homens à humanidade? Ou limita-se a sublinhar que estão irreversivelmente afastados dela?
“Cobiçais o ouro e espalhais as cinzas.
Manchais a beleza, corrompeis a inocência.
Por toda a parte deixais escorrer grandes correntes de lama. O ódio é o vosso ambiente, a indiferença, a vossa bússola. Sois criaturas do sono, sempre adormecidas, mesmo quando julgais estar acordadas. Sois o fruto de uma época mergulhada num sono profundo. As vossas emoções são efémeras, borboletas que nascem rapidamente, calcinadas de imediato pela luz dos dias. A vossa solidão devora-vos. O vosso egoísmo engorda-vos. Voltais as costas aos vossos irmãos e perdeis a vossa alma. A vossa natureza fermenta com o esquecimento.
Como julgarão os séculos futuros o vosso tempo?
A história que ides ler é tão real quanto vós sois. Passa-se aqui, tal como teria podido desenrolar-se ali. Seria demasiado cómodo pensar que aconteceu noutro lugar. Os nomes dos seres que a povoam pouco importam. Poderiam ser alterados. Pôr os vossos no lugar deles. Assemelhais-vos tanto, procedendo do mesmo molde inalterável.
Estou certo de que, mais cedo ou mais tarde, fareis a vós próprios uma pergunta legítima: terá ele sido testemunha do que nos conta? A minha resposta é: sim, fui testemunha disso. Tal como vós fostes, mas não quisestes ver. Nunca quereis ver. Eu sou aquele que vo-lo recorda. Sou o importuno. Sou aquele a quem nada escapa. Vejo tudo. Sei tudo. Mas não sou nada e quero continuar a não ser. Nem homem nem mulher. Sou apenas a voz. Será da sombra que vos contarei a história.
Os factos que vou narrar aconteceram ontem. Há alguns dias. Há um ano ou dois. Não mais. Escrevo «ontem», mas parece-me que deveria dizer «hoje». Os homens não gostam de ontem. Os homens vivem no presente e sonham com os amanhãs.
A história passa-se numa ilha. Uma ilha qualquer. Nem grande nem bela. Que não fica de modo algum longe do país de que depende, mas que este esqueceu, e está perto de outro continente a que pertence, mas que ignora.
Uma ilha do arquipélago do Cão.”

Começa exactamente assim este livro/thriller/parábola negra sobre o comportamento humano perante a tragédia das migrações mediterrâneas de hoje. No primeiro capítulo o narrador fala com o leitor, no segundo capítulo tem início a história - que o narrador não situa em tempo ou lugar algum - com a descoberta de três corpos que deram à costa da única ilha habitada do arquipélago do Cão. Ilha dominada por Brau, o vulcão que depois de milénios a vomitar lava descansa emitindo ruídos surdos através da cratera escondida num «edredão de brumas». As gentes do Cão vivem da agricultura e da pesca. Todos se conhecem. 
A Velha (professora reformada que ensinou a ler todos os habitantes da ilha), o Spadon (que trabalha para o presidente da Câmara, o principal patrão de pesca da ilha) e o Amérique (meio vinhateiro meio homem dos sete ofícios) foram os primeiros a avistar os corpos de três homens negros, na praia de seixos vulcânicos. Spadon foi de imediato buscar à cidade o presidente da Câmara (magro como um filetes de anchova). Com eles trouxeram também o médico (gordo, atarracado, com uma imagem de marca, um espesso bigode pintado de preto). Os cinco olham intrigados para os corpos e escutam uma voz repetir «Meu Deus!». Era o professor que substituíra a Velha, e que fazia na praia a habitual corrida matinal. «Não era da ilha. Era estrangeiro.»
Eram oito horas da manhã. Ninguém dizia uma palavra. Todos sentiam um frio estranho. De repente o presidente Câmara quebra o silêncio: "- Estamos aqui seis pessoas. Seis que sabem. Seis que devem calar-se até logo à noite. Encontramo-nos às nove horas na Câmara. Vou pensar o que há a fazer. (…) se até lá, algum dos presentes falar disto a quem quer que seja ou não comparecer logo, pego na minha espingarda e ajusto conta com ele.»
Então, os afogados são enrolados em tela plástica, colocados numa carroça e levados para a cidade.
À noite, para espanto de todos, o padre junta-se ao grupo. «- Uma pessoa abriu-se comigo no segredo da confissão (…)»  
A reunião termina sem saberem o que fazer com os cadáveres, entretanto colocados num câmara de congelação de peixe. O presidente da Câmara pede segredo «uma cruz que devemos carregar por eles» e promete que vai continuar a pensar no que fazer. Sem avisar a polícia. Não quer ver jornalistas a desembarcar na ilha. «Da noite para o dia a nossa ilha transformar-se-ia na ilha dos afogados.»  E pensa... e pensa...
Dias depois, os corpos dos três homens que morreram no mar quando fugiam da miséria, da guerra, do caos, são deitados para… Não, não, não posso revelar! Mas acreditem, são tratados como lixo, como despojos de animais.
Maldição do Brau ou não, «os mortos iriam obrigar os vivos a pagar pela sua indiferença.» E tudo começa com a chegada à ilha de um  falso policial (chegou, viu, emborcou, emaranhou, desapareceu). E um fedor intenso a carne podre. E a morte de um inocente. E o peixe a morrer no mar. E a fuga de várias famílias. E a descoberta de que ali viviam «negreiros, mercadores de corpos, traficantes de tabaco e de sonhos, ladrões de esperanças» (...) «homens assassinos de outros homens».
O homem é muito ingénuo ou muito orgulhoso, quando pensa que se podem compreender todos os mistérios e resolver todos os problemas.
E fico por aqui. E muito já disse.
E como também já muito disse sobre a escrita de Philippe Claudel... leia-o!
Magnífico!

O Arquipélago do Cão, de Philippe Claudel
Tradução de Artur Lopes Cardoso
Porto Editora, 2019
181 págs.
Foto tirada da minha varanda (1.10.2019)