15 outubro, 2019

Sentiste alguma vez o terror das noites...?


"A Humanidade divide-se entre aqueles que gostam de se meter na cama à noite e aqueles a quem ir dormir desassossega. Os primeiros consideram que os seus leitos são ninhos protectores, enquanto os segundos sentem que a nudez de dormitar é um perigo. Para uns, o momento de se deitar implica a suspensão das preocupações; aos outros, pelo contrário, as trevas provocam um alvoroço de pensamentos daninhos e, se fosse por eles, dormiriam de dia, como os vampiros. Sentiste alguma vez o terror das noites, a angústia dos pesadelos, a escuridão a sussurrar-te na nuca o seu hálito frio que, embora não saibas o tempo que te resta, não passas de um condenado à morte? E no entanto, na manhã seguinte a vida volta a explodir com a sua alegre mentira de eternidade."


(Rosa Montero, escritora espanhola (1951-), in “Instruções para salvar o mundo”, Porto Ed., 2008)
Responda se quiser!

(Fotos da net.)

11 outubro, 2019

Afonso Reis Cabral venceu o Prémio José Saramago 2019


Afonso Reis Cabral, escritor português de 29 anos, licenciado em Estudos Portugueses e Lusófonos, venceu em 2014 o Prémio LeYa com "O meu irmão", um corajoso primeiro romance.
Regressou em 2018 com o atordoante romance/ficção de um crime real "Pão de Açúcar", e com ele venceu, no passado dia 8, o Prémio José Saramago 2019.
Curiosamente, é de poesia o primeiro livro que publicou. Tinha 15 anos. 
E mais curioso ainda, ele é trineto de Eça de Queirós, um dos nomes maiores da literatura portuguesa.
Parabéns Afonso! Ansiosa, espero pelo terceiro romance!


Como é que se vivia assim (…) no fundo de uma cave, no fundo de uma barraca, no fundo da vida.
Pão de Açúcar”, ficciona a morte trágica, no Porto, de Gilberta Salece Júnior, brasileira, transexual, sem-abrigo, toxicodependente, com sida e outras doenças. Morte que deixou o país inteiro em estado de choque.
Em Fevereiro de 2006, os Bombeiros Sapadores resgataram o corpo sem vida de Gilberta do poço/buraco, com cerca de 10 metros de profundidade, escondido na cave de um prédio inacabado e votado ao abandonado. Nu da cintura para baixo, o corpo apresentava marcas de um espancamento brutal.
Semanas depois, os órgãos de comunicação social divulgaram que Gilberta fora agredida dias a fio por um grupo de 14 rapazes e atirada ainda com vida para o poço. Rapazes com idades compreendidas entre os 12 e os 16 anos, alguns problemáticos, retirados a famílias negligentes e acolhidos na Oficina de São José, onde o acompanhamento dos jovens não era o melhor.
«O que pode levar pessoas da minha idade, da minha cidade, a fazer isto? E a fazer isto a alguém, desamparado?» pensou incrédulo Afonso Reis Cabral, então com 16 anos, nascido em Lisboa e criado no Porto. 
Dez anos depois do horrendo crime, o autor decide investigar os factos na tentativa de compreender o que realmente se passou na cave do prédio conhecido como “Pão de Açúcar”. Durante mais de um ano pesquisou as vidas da vítima e dos agressores, percorreu as «zonas sujas» da cidade, leu decisões do Tribunal de Família e Menores do Porto, visitou a cave (o edifício continuava abandonado), leu notícias, visionou reportagens, foi a bares que a vítima frequentara, falou com amigos e conhecidos dos rapazes e de Gilberta, esteve dentro da última casa onde ela viveu, percorreu ruas, estudou trajectos. (...) meti-me ao trabalho de campo sem o qual um livro como este não se escreve (...) depois baralhei com ficção, que é como se faz um romance.
Não chegou a falar com os rapazes mas fez deles personagens meticulosamente desenhadas, e para que nada o afastasse da matriz ficcional entregou a narração dos acontecimentos a um protagonista do hediondo crime: Rafael Tiago (Rafa).
Na “Nota antes” (antes do primeiro dos 56 capítulos do romance) o autor engana o leitor (e o leitor permite o engano) quando diz ter recebido uma carta de Rafael sobre o crime, que começa com «Às vezes, a vida é uma coisa tão bela que choro de ternura e não ligo ao que dizem», ter tido com ele encontros e conversas no Porto, e que num deles lhe prometeu: «A história é tua, como se fosses tu a contá-la, mas eu escrevo-a por ti».
Rafael, 12 anos, foi o primeiro rapaz a ver Gilberta (Gi), 45 anos, na cave onde ela doente e sozinha sobrevivia. Chocado com o desamparo em que vivia na barraca que «fedia», voltou muitas vezes, com comida, água e tudo o que conseguia pilhar no trajecto da Oficina - "Pão de Açúcar". Tornaram-se amigos e confidentes. Ela era um segredo apenas seu, não o partilharia com os amigos.
Mas o dia chegou em que ele o partilhou e... na escuridão da cave seres humanos comportaram-se como monstros.
… os lugares certos na vida são os lugares errados. Como na cave, ao lado de Gi.
(reedição ligeiramente alterada)


(O primeiro romance de Afonso Reis Cabral "O meu irmão" está também aqui no Rol.)

08 outubro, 2019

Uma só manhã no Porto, mas «bi» muito, carago!

PORTO, manhã de sexta-feira, 4 de Outubro. O sol tarda em aparecer e o cinzento do céu acentua o ar melancólico da cidade do norte de Portugal, agora procurada por viajantes de todo o mundo. 
As ruas fervilham de turistas.
No céu veem-se gruas e mais gruas, utilizadas na recuperação-remodelação de inúmeros imóveis.
Aqui e ali dança-se e canta-se.  Um par de dançarinos encanta e uma tuna académica toca, canta e, claro, também encanta.
As pastelarias enchem as montras de guloseimas acabadas de sair do forno. Não entrei, não provei, juro! E também não entrei (era grande a fila) no belíssimo Café Majestic, localizado na Rua de Santa Catarina (a tal, a rua das compras, que nós mulheres tanto gostamos de percorrer para baixo e para cima...).
Não resisti e tirei da net uma foto do sumptuoso interior do histórico café, para o motivar a si a aguardar na fila, entrar e tomar um café. É uma experiência inesquecível!
O passeio terminou no Restaurante Antunes, na Rua do Bonjardim. Desta vez deliciámo-nos com um pernil assado e uma rabanada à Antunes (e só por ela, eu voltarei lá!). Fotos do almoço... não tive coragem de tirar. Acontece! Mas tirei muitas em outros locais da cidade. Um dia mostrarei, aqui.
Bora ao Porto, pessoal?!

01 outubro, 2019

Imagens e palavras: "tempo" e "homens"



Ovídio escreveu que o tempo destrói as coisas, mas enganou-se. Só os homens destroem as coisas, destroem os homens e destroem o mundo dos homens. O tempo vê-os fazer e desfazer."




















A maioria dos homens não suspeita da existência da parte sombria que, no entanto, todos possuem. Frequentemente, são as circunstâncias que a revelam – guerras, fomes, catástrofes, revoluções, genocídios. Então, quando a contemplam pela primeira vez, no segredo da sua consciência, ficam horrorizados e tremem.”


Frases de Philippe Claudel, escritor francês (1962), in “O arquipélago do cão”, Sextante (Porto Editora), 2019
(Fotos da net: Amazónia a arder, derrama de petróleo no mar e...)

24 setembro, 2019

À terça: imagens e palavras: "perda"



"Os livros sobre a perda são monumentos funerários, jazigos públicos de dores privadas. São também viagens pessoais a lugares inóspitos de onde se regressa, sim, mas com o quê? Com os mortos? Com uma ilusão consoladora mas fugaz? (...)  a literatura não traz ninguém de volta, mas ajuda os vivos a sobreviver num presente partido, mais que imperfeito."


Bruno Vieira Amaral, escritor português (1978-), in “Manobras de guerrilha”, Ed. Quetzal, 2018
(Foto da net.)

17 setembro, 2019

À terça - imagens e palavras: "claridade"



“... por vezes é necessário atravessar as trevas para vislumbrar de novo a claridade do dia que nasce."


Philippe Claudel, escritor francês (1962), in “O arquipélago do cão”, Sextante (Porto Editora), 2019
(Foto da net.)


Voltei... cheia de saudades!
Voltei de onde? Dos Açores, o paraíso ali no meio do oceano Atlântico, onde a beleza natural é tamanha e as vacas tantas e felizes e curiosas, que chegam a fugir das pastagens verdes para o empedrado negro das calçadas. Verdade!
Amei, claro! E fotografei, muito!
Aguardem, que eu mostrarei tudo!


10 setembro, 2019

À terça - imagens e palavras: "alegria" e "felicidade"


“Há quem confunda a alegria com a felicidade. A alegria não se parece com a felicidade, a não ser na medida em que um mar agitado se parece com um mar plácido. A água é a mesma, apenas isso. A alegria resulta de um entorpecimento do espírito, a felicidade de uma iluminação momentânea. O álcool pode levar-nos à alegria – ou um cigarro de liamba, ou um novo amor – porque nos obscurece temporariamente a inteligência. A alegria, pois, tende a ser burra. A felicidade é outra coisa. Não ri às gargalhadas. Não se anuncia com fogo-de-artifício. Não faz estremecer estádios. Raras são as vezes em que nos apercebemos da felicidade no instante em que somos felizes.”


JOSÉ EDUARDO AGUALUSA, escritor angolano (1960), in “Barroco Tropical”, Ed. Quetzal, 2018
(Foto da net.)

03 setembro, 2019

Agora sim, vou de férias!

Agora sim, vou de férias. Merecidas, acreditem!
Será apenas uma rapidinha cá dentro... lá fora.
Confuso?
Prometo desvendar por onde andei, logo após o meu regresso.
Hum, será que escolhi o lugar certo para uma avó "amada, babada e amassada" descansar?
Não tenho a resposta, juro. Nunca lá estive antes!
Desde que tenha à minha espera uma cama, uma cadeira à beira-mar e outra junto da piscina... basta!
Não posso esquecer a máquina fotográfica. (Calma, Teresa, já está dentro da mochila!) Mochila?! Mas não era para levar apenas um saco de praia, biquinis e cremes bronzeadores?
Esquisito! Pelo sim pelo não vou meter na mochila uma parka impermeável e botas para caminhadas longas.
Virei de lá ainda mais cansada? Espero que não. Socorro!!!

Porque hoje é terça-feira não podia fugir para o bem-bom sem partilhar convosco algumas palavras retiradas do belíssimo romance "A mulher certa", de um dos meus escritores favoritos: Sándor Márai.
A foto é da net. (Não queriam que eu fotografasse a minha cama, pois não?!)
Na próxima terça-feira aparecerão aqui no Rol (regressado de férias) mais palavras. De quem? Depois verão!
Entretanto, fiquem bem!

 

“Depois de uma certa idade, exige-se toda a verdade, logo, também na cama, na dimensão mais física e obscura do amor. Não é importante que a pessoa amada seja bela - após um certo tempo, já nem reparas na sua beleza – nem importa que seja mais ou menos extraordinária, excitante, inteligente, bem informada, curiosa, cúpida e que te responda com o mesmo ardor. O que é importante? A verdade. Tal como na literatura e em todas as coisas de âmbito humano: a espontaneidade, surpreendermo-nos a nós mesmos com o dom maravilhoso do prazer, e, simultaneamente, apesar do nosso egoísmo e da nossa avidez, sermos capazes de dar alegria com a mesma generosidade, sem calculismos e segundas intenções, com leveza e quase distraidamente… É esta a verdade, na cama.”

ESTOU DE VOLTA, DEVAGAR, MUITO DEVAGAR, 
DEVAGARINHO.

AS SAUDADES QUE EU JÁ TINHA...

30 julho, 2019

À terça - imagens e palavras: "oração"


“Que Deus te dê para cada tempestade, um arco-íris. Para cada lágrima, um sorriso. Para cada cuidado, uma promessa, e uma bênção para cada provação. Que para cada problema, a vida te traga alguém fiel com quem dividi-lo. Para cada olhar uma doce canção, e uma resposta para cada oração."

Bênção Irlandesa.
(Foto da net.)


AGOSTO ESTÁ A CHEGAR E EU VOU DE FÉRIAS DO "ROL DE LEITURAS", COMO ACONTECE TODOS OS ANOS!
Um mês inteirinho em casa, eu o Carlos e as minhas netinhas Madalena (pertinho dos 3 aninhos) e Carolina (de oito). Se a chuva não atrapalhar, as manhãs serão de muitos banhos de mar, as tardes... logo se verá, e as noites de sono repousante... espero eu!
Sempre que tiver oportunidade passarei por aqui para saber de vós.
Beijos e abraços, de muita amizade.
Sejam felizes!
💚💛

26 julho, 2019

"eu de dia sou nulo, e de noite sou eu" - Fernando Pessoa

(Praça do Martim Moniz - Castelo de S. Jorge)

"Amo, pelas tardes demoradas de verão, o sossego da cidade baixa, e sobretudo aquele sossego que o contraste acentua na parte que o dia mergulha em bulício. A Rua do Arsenal, a Rua da Alfândega, o prolongamento das ruas tristes que se alastram para leste desde que a da Alfândega cessa, toda a linha morta e separada dos cais quedos - tudo isso me conforta de tristeza, se me insiro, por essas tardes, na solidão do seu conjunto.
(Rua do Arsenal)

(Rua da Alfândega)

Por ali arrasto, até haver noite, uma sensação de vida parecida com a dessas ruas. De dia elas são cheias de um bulício que não quer dizer nada; de noite são cheias de uma falta de bulício que não quer dizer nada. Eu de dia sou nulo, e de noite sou eu. Não há diferença entre mim e as ruas do lado da Alfândega, salvo elas serem ruas e eu ser alma, o que pode ser que nada valha ante o que é a essência das coisas. Há um destino igual, porque é abstrato, para os homens e para as coisas - uma designação igualmente indiferente na álgebra do mistério.
(Praça do Rossio)

Mas há mais alguma coisa... Nessas horas lentas e vazias, sobe-me da alma à mente uma tristeza de todo o ser, a amargura de tudo ser ao mesmo tempo uma sensação minha e uma coisa externa, que não está em meu poder alterar.
(Rua do Ouro)

Ah, quantas vezes os meus próprios sonhos se me erguem em coisas, não para me substituírem a realidade, mas para se me confessarem seus pares em eu os não querer, em me surgirem de fora, como o eléctrico que dá a volta na curva extrema da rua, ou a voz do apregoador noturno, de não sei que coisa, que se destaca, toada árabe, como um repuxo súbito, da monotonia do entardecer!"
(Praça do Comércio)

(Fernando Pessoa, 1888-1935)

Texto retirado do  "Livro do Desassossego".
(Fotos da net.)

23 julho, 2019

À terça - imagens e palavras: "fotografia"



A fotografia, que dá a ilusão de capturar o tempo, de fazer com que as coisas durem, revela-se na sua crueldade intrínseca: dá a ilusão de congelar o tempo, mas tudo o que a sua existência faz é lembrar-nos dos seus efeitos. Porque tiramos fotografias, essas feridas que nunca mais cicatrizam?”



Bruno Vieira Amaral, escritor português (1978-), in “Manobras de guerrilha”, Ed. Quetzal, 2018

(Foto de família: os meus pais, eu e a minha irmã mais nova, em Moçambique.)

19 julho, 2019

Versos de Graça Pires e... «homens de Modigliani»!

Subversivamente
o instinto me descomenda.
E a magia inconsciente
do meu corpo
é um jogo clandestino
de gestos sem eco.
Há um ritual divino
nas carícias sensuais
em que me invento.
Nada me torna inocente
dos meus próprios sentidos
quando solto
as linhas marginais
do pensamento
e me seduzo
com gostos proibidos.
Sempre são excessivos os desejos de quem sonha
a vida toda num momento.
A solidão é como o vento.
É nos olhos do mendigo 
que a noite se prolonga por mais tempo.

Poema "MARGINALIDADE" (1990) de Graça Pires (blogue "Ortografia do olhar"), publicado no livro "Poemas Escolhidos -1990-2011".
Retratos pintados por Amedeo Modigliani (1884-1920):
1º Auto-retrato, 1919
2º Paul Alexandre, 1909
3º Moïse Kisling, 1915
4º Leopold Zborovski, 1918
5º Paul Guillaume, 1916
6º Chaim Soutine, 1915
7º Jean Cocteau, 1916
8º Pablo Picasso, 1915
(fotos da net)

 Amiga Graça, não te zangues comigo!
Eu continuo a preferir as tuas "mulheres de Modigliani"!

16 julho, 2019

À terça - imagens e palavras: "lama"



“Sempre que atiramos lama para cima dos outros, o chão foge-nos mais um bocadinho 
debaixo dos pés.”



Cormac McCarthy, escritor americano (1933-), in “Este país não é para velhos”, Ed. Relógio d’Água, 2007
(Foto da net.)

11 julho, 2019

"Torto arado" - Itamar Vieira Junior

O medo atravessou o tempo e fez parte de nossa história desde sempre.
Era medo de quem foi arrancado do seu chão. Medo de não resistir à travessia por mar e terra. Medo dos castigos, dos trabalhos, do sol escaldante, dos espíritos daquela gente. Medo de andar, medo de desagradar, medo de existir.
O romance “Torto Arado”, do brasileiro Itamar Vieira Junior, venceu por unanimidade o Prémio LeYa 2018.
Por unanimidade? Curiosa, procurei-o nas livrarias. E logo li a sinopse. E logo fiquei rendida… à «procissão de lembranças» desvendadas por Bibiana e Belonísia, filhas de trabalhadores da Fazenda Água Negra, no sertão da Bahia, descendentes de escravos para quem a abolição nunca passou de uma data marcada no calendário.
São muitas e tristes as histórias do quotidiano na fazenda, quase sempre protagonizadas por mulheres. Histórias de vida, morte, medo, dor, violência, humilhações, mas também de amizade, amor e luta pela libertação, contadas à vez pelas duas irmãs, transmissoras de todas as vozes negadas, que uma tragédia na infância tornou tão dependentes que uma será até a voz da outra. São filhas de Salu e de Zeca Chapéu Grande, guia do povo de Água Negra para assuntos de trabalho, problemas de saúde, resolução de conflitos familiares e tudo o mais; e netas de Donana, a parteira de mãos pequenas «capazes de entrar no ventre de uma mulher para virar com destreza uma criança atravessada, mal encaixada, crianças com os movimentos errados para nascer». Vivem numa fazenda onde as casas e os caminhos são de terra «de barro apenas… e de onde brotava tudo que comíamos. Onde enterrávamos os restos do parto e o umbigo dos nascidos. Onde enterrávamos os restos de nossos corpos. Para onde desceríamos algum dia. Ninguém escaparia.»
Anos depois da tragédia que emudeceu uma das irmãs, chega à fazenda o tio Servó, para dar «seu suor na plantação». Chega acompanhado da mulher e seis filhos. E primeiro uma depois a outra, as duas irmãs perdem-se de amores pelo primo Severo, menino tímido de sorriso largo, que, quando homem feito tem planos de estudar na cidade e trabalhar nas sua própria terra. Bibiana, então com dezasseis anos, ouvia-o embevecida «… nunca havia conhecido ninguém que me dissesse ser possível uma vida além da fazenda». Então, um dia, «naquela terra mesmo, entranhada da secura da falta de chuva, deixamos nosso suores para que lhe servisse de alívio», e logo os enjoos passaram a diários e a fuga dos dois para a cidade foi feita no sereno de uma noite.
Os anos passaram, os donos da fazenda mudaram e, para evitar problemas com os homens da lei, passaram a chamar os escravos de trabalhadores e moradores. E Bibiana e Severo regressaram a Água Negra, decididos a lutar pelo direito à terra, melhores condições de vida e emancipação dos trabalhadores.
“Rio de Sangue” é o título do terceiro e último capítulo do livro. Por quê este título e quem é o narrador? Por respeito pela fonte do rio de sangue e lágrimas… nada revelo!

Nos momentos de forte emoção meu horizonte se embota, transbordo para os lados, não consigo reunir o que me compõe.
(Não, não são palavras minhas, mas podiam ser, tão forte era a emoção ao terminar a leitura deste fascinante romance/retrato da ruralidade brasileira no período que se seguiu à abolição da escravatura, no final do Séc. XIX.) Leia-o, por favor!

 

Itamar Vieira Junior nasceu em Salvador, Bahia, em 1979. É escritor, geógrafo e doutorado em Estudos Étnicos e Africanos (UFBA), com pesquisa sobre a formação de comunidades quilombolas no interior do Nordeste brasileiro. Publicou a colectânea de contos "A Oração do Carrasco" (2017), finalista do prestigiado Prémio Jabuti de Literatura. 

(Foto do escritor tirada da net.)