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06 fevereiro, 2018

À terça - imagens e palavras: "solidão"


“… a solidão, a verdadeira, conscientemente assumida, não é punição, nem uma forma ressentida e doentia de isolamento, nem uma excentricidade, mas o único estado digno de um ser humano.”


Frase de  Sándor Márai, escritor húngaro (1900-89), in “A mulher certa”, ed. Dom Quixote, 2009
(Veja mais no blogue Pétalas de Sabedoria)
Foto da net.

07 abril, 2017

Um espelho é um sortilégio...


Um espelho é um sortilégio.
Temos de nos ver muito tempo ao espelho, muitas vezes e muito tempo, antes de conhecermos o nosso verdadeiro rosto. Um espelho não é uma simples placa de prata com a sua superfície lisa, não, um espelho é profundo como um lago de montanha, e quem se debruça com toda a atenção sobre a superfície de um espelho veneziano vê subitamente o fundo, vê profundidades sempre novas, e o seu rosto reflecte-se cada vez mais longe, o seu rosto que se debruça sobre o espelho, e todos os dias uma máscara cai do rosto que se olha ao espelho (...).
Nunca ofereças um espelho à mulher que amas, (...) porque desse modo as mulheres acabam por se conhecer a si próprias, passam a ver melhor e entristecem. 
Foi por meio do espelho que um dia, algures, o conhecimento começou, quando o homem se debruçou sobre o mar, viu o seu próprio rosto no infinito, e entristeceu perguntando-se: « O que é isto?...» “

Tirei daqui: A conversa em Bolzano”, de Sándor Márai,  Ed. D. Quixote, 2014
Pintura de Fernand Toussaint, pintor belga (1883-1956)

25 março, 2017

"A conversa de Bolzano" - Sándor Márai

Advertência:
(...)Ser-me-ia difícil negar um parentesco que talvez alguns insistam em reprovar-me. O meu herói parece-se terrivelmente com o vagabundo disposto a tudo, sem pátria e todavia infeliz, que, no dia 31 de Outubro de 1756, à meia-noite, se evadiu dos Piombi de Veneza servindo-se de uma escada de corda e trocou o território da República por Munique na companhia de um frade renegado chamada Bibi. Á laia de defesa, direi somente que não foi a vida mas o caráter romanesco do herói a interessar-me.
Foi por isso que me limitei a pedir de empréstimo às célebres Memórias a data e a circunstância da fuga. Tudo o mais que o leitor poderá ler neste romance não passa de fábula e invenção.
S.M.
Advertência lida, penetramos na história do Giacomo Casanova de Sándor Márai, que começa com a chegada do famoso sedutor a Bolzano, três dias após ter escapado dos Piombi, a sinistra prisão veneziana. Acompanha-o  Balbi, o frade renegado, alcoólatra e bonacheirão, seu companheiro de fuga. 
É um Giacomo andrajoso, sem bagagem (transporta consigo apenas um punhal) e sem dinheiro, que entra na Estalagem do Veado e pede dois quartos. Um Giacomo humilhado que se faz passar por um fidalgo de Veneza assaltado na fronteira.
Entretanto, a notícia da evasão espalhava-se e toda a gente se regozijava «ali estava alguém provando que um homem era mais forte do que o despotismo, mais forte do que os Piombi, do que os esbirros e ria a bandeiras despregadas». Até o papa, que o tinha condecorado com uma ordem pontifícia, ria às gargalhadas. Até o rei se ria.
Ao escapar aos muros com um metro de espessura, ele deixara com um nariz de palmo e meio Suas Excelências, os terríveis senhores da Inquisição e, agora, tinha no seu encalço os polícias, os juízes, os esbirros e os espiões: porque não há nada mais perigoso do que um homem que não é capaz de se submeter à tirania.
À noite, dois polícias entram na estalagem, interrogam o estalajadeiro e ordenam-lhe : Queremos estar a par de tudo o que ele diga. Vigia-o bem. Recebe cartas, e de quem? Manda cartas, e a quem? Vigia-lhe todos os gestos.
É Teresa, a criadita de 16 anos, quem fica a vigiá-lo pelo buraco da fechadura. Ordens do patrão: toma cuidado com a tua virgindade e vigia-o. Hum! Hum!
Mas afinal, porque está  Giacomo em Bolzano?
Porque em Bolzano vive Francesca, a única mulher que amou e perdeu em duelo para o temível e poderoso Conde de Palma. O conde poupou-lhe a vida, com a condição de não voltar a procurá-la. Ele cumpriu durante cinco anos, mas agora, a caminho do exílio em Munique, quer vê-la pela última vez. Sabe que não será fácil pois a adolescente é agora mulher do ainda temível conde de Palma.
Conseguirá? Talvez sim. Talvez não.
Adiante. Depois de dezasseis meses detido nos Piombi e três dias fechado no quarto (nem sempre sozinho…), Giacomo, o sedutor que se quer tornar escritor, “acorda” para a vida. Começa por pedir dinheiro a um velho amigo. A seguir, chama um barbeiro. A seguir manda fazer roupa condizente com a sua pretensa condição de fidalgo. A seguir… espera, pois estar à espera é viver.
Ao oitavo dia, Giacomo ouve um trenó parar à porta da estalagem e, logo depois, uma voz de homem, conhecida, velha, quase suplicante, diz à porta do seu quarto: «Tenho de falar contigo, Giacomo.» E entra.
- Prometi-te simplesmente matar-te se alguma vez voltasses, se voltasses a rondar-nos e a levantar os olhos para a condessa (…) as ameaças deixaram de ter cabimento (…) já não sinto vontade de atacar: a agressão nada resolve entre os homens (…) Vim com outra arma, Giacomo.
- Que arma?
- A arma da razão.
É longa a conversa. No fim, o conde faz-lhe uma proposta perversa e um convite surpreendente: Esta noite irás a nossa casa porque Francesca sente que tem de te ver! Apareces disfarçado e mascarado como os demais. Depois, quando a tiveres reconhecido, rapta-a, trá-la para aqui e realiza uma obra-prima! (…) Os segredos da tua arte não me interessam. É preciso que ela passe por ti, mas de modo a regressar para mim de manhã…
O conde sai e pouco depois Giacomo ouve uma voz de mulher, conhecida e bela, dizer do outro lado da porta: - Sou eu, Giacomo (...) tenho de te ver. E entra. 
Estas duas conversas em Bolzano são, na verdade, dois monólogos (o do conde talvez demasiado extenso) sobre a paixão amorosa, o desejo, a indiferença, a vida, a velhice, a morte.
A história termina com Giacomo Casanova no quarto, já as velas tinham ardido até ao fim (lembra alguma coisa, não?), a ditar a Balbi uma carta para o conde de Palma com a resposta à proposta que ele lhe fez e um inesperado pedido. Qual? Não digo!
No grande duelo da vida, e até nos momentos decisivos, só as armas da cortesia são permitidas.

Romance soberbo.
O belíssimo monólogo do conde de Palma (páginas 141 a 193) é para ler e reler, e reler…

A conversa de Bolzano, de Sándor Márai
Tradução de Miguel Serras Pereira
Ed. D. Quixote, 2014
255 págs. 

13 novembro, 2016

"A gaivota" - Sándor Márai


As recordações pesam muito. É uma pena.
Ele é um alto funcionário ministerial, húngaro, de quarenta e cinco anos, culto, sensato, honrado e solitário.
Sentado à secretária, escrupulosamente arrumada, olha o documento que acabou de redigir e, com um lápis roxo, escreve na margem da folha: «Estritamente confidencial».
Daí a pouco seria passado a limpo pela sua assistente, metido num envelope e levado ao ministro. Tudo feito de forma estrita e confidencial. Depois, seria impresso com tinta negra, pelas rotativas das grandes máquinas de impressão, declamado na rádio, lido por milhares e milhares de pessoas e… o coração da nação começaria a bater.
Mas o que era aquilo que tinha acabado de fazer?
Era um despacho oficial de enorme significado, que iria afectar a vida de milhões de pessoas.
Sentado à secretária, na grande sala ovalada, ele tapa a cara com as mãos trémulas. Pensa na guerra e tenta imaginar o que essa palavra, na realidade, vai significar no dia seguinte, ou daí a um ano… pensa na sua própria guerra mundial, a sua própria história mundial. Sente-se estranhamente tranquilo.
Nessa noite… vai à Ópera. Vai-se vestir de gala e vai à Ópera…
Entretanto, no exterior, uma mulher jovem e bela sobe apressadamente as escadas do prédio. Vai ao seu encontro, mas ele ainda não o sabe. Também ela vai encontrar-se com um homem que nunca viu antes.
Quando ela entra no gabinete, ele levanta-se da secretária. Observam-se longamente.
«Tão pálido», pensou a mulher.
«Devo parecer pálido», pensou ele. Imóvel, com o cartão dela na mão, uma sensação de insegurança invade-lhe o corpo.
Esta mulher já nasceu e morreu uma vez.
Esta mulher já entrou, há cinco anos, no meu gabinete, exactamente da mesma maneira; media um metro e sessenta e oito e pesava cinquenta e dois quilos. Queria que morrêssemos juntos, mas eu não podia cumprir o seu desejo.
Morreu sozinha… enterrada bem fundo na sua campa. Mas eis que ela volta.
Assombrado, manda sentar a mulher desconhecida e inicia um interrogatório. Ela responde educadamente. Chama-se Aino Laine «a única onda», é finlandesa, licenciada em inglês e francês, professora, vinte anos, alta, ossuda e loira. Solicita autorização de residência e procura um emprego na Hungria.
- Posso contar com a sua ajuda, senhor conselheiro?
- Estamos em guerra, não sabe?... Volte para a Finlândia…
Aino fala fluentemente húngaro e (apenas) a sua voz não lhe faz lembrar a voz da mulher morta.
Então, contrariando a honra e o decoro das suas funções, ele pergunta à mulher:
- Quer ir comigo à Ópera esta noite?
(A resposta dela vem logo a seguir… mas no livro.)
Ele amou uma única mulher: Ili, inteligente, bonita e saudável. Suicidou-se aos vinte e dois anos, com cianeto. Era química.
Nessa manhã, no ministério, encontrou-se com o duplicado de Ili.
À noite, frente ao espelho, penteia-se, observa o rosto pálido, marcado e descarnado, e reflecte:
O que esperaste da primeira, e o que esperas agora da sua cópia? A felicidade? A felicidade não existe, meu pobre rapaz. No fundo da existência apenas há o tédio e a fraqueza. Deus, ao criar o mundo, não conseguiu construir melhor.
Depois, sai de casa. Encaminha-se para a Ópera. Está um tudo-nada atrasado. Estará «a única onda» à sua espera?
Há noites em que não importa o que se passa…

O que importa é ler. Ler, de dia ou de noite, escritores como Sándor Márai (1900-1989), senhor de uma escrita incomparável, inteligente, tocante, perfeita.
A gaivota”, mesmo não sendo o que de melhor já li dele, é… um assombro.
Encontrámo-nos e despedimo-nos…

A gaivota, de Sándor Márai
Tradução de Piroska Felkai
Ed. D. Quixote, 2016
158 págs.

27 fevereiro, 2015

"A ilha" - Sándor Márai

É ridículo. Por uma mulher…
Mas porque será ridículo? Por uma mulher?
São muitas as perguntas que perturbam Viktor Henrik Askenasi, personagem central deste romance.
Encontramo-lo no Hotel Argentina, um hotel  localizado numa pequena estância balnear do Adriático onde o calor pesado e pegajoso sufoca os hóspedes e propicia uma atmosfera de sensualidade quase palpável e impúdica. Apenas uma mulher de olhos cinzentos e cabelo loiro grisalho, com andar frágil de libélula, parece fresca.
Deixemos, por agora, esta mulher de olhos cinzentos e cabelo loiro grisalho e vejamos quem é Viktor Henrik Askenasi  e o que faz no Hotel Argentina?
Askenasi é húngaro. Vive em França. É um respeitado professor no Instituto de Estudos Orientais de Paris. Ensina grego e línguas da Ásia Menor. É católico romano. É casado e pai de uma menina. A passar pela crise da meia-idade e por uma certa intranquilidade espiritual, decide procurar fora do casamento a felicidade e o amor.
Aos quarenta e sete anos, míope e visivelmente careca, Askenasi conhece uma jovem bailarina russa. Apaixona-se. Por ela abandona uma vida disciplinada, o trabalho, a família.  Com ela rejuvenesce fisicamente e é feliz. Eliz oferecia tudo o que o corpo podia dar.
Ao ousar ir contra as convenções, Askenasi é criticado por familiares, amigos e colegas: Nós, pessoas esclarecidas, às vezes enfrentamos o mistério dos sacramentos com as dúvidas criadas pela nossa razão pecadora. Mas São Paulo disse: «O matrimónio é um grande mistério.» Reflita sobre isto.
Não consegue, mas logo percebe que Eliz lhe tinha oferecido muito, mas não o suficiente… Nesse dia foi-se embora…
Abatido, deprimido e atormentado, segue o conselho dos amigos e parte em busca de um lugar tranquilo para recuperar da depressão em que se encontra. Tem esperança de que tudo se resolverá. Cometi um erro. Tenho de recomeçar tudo.
Viaja pelo Mediterrâneo e chega ao Hotel Argentina, onde num impulso irá bater à porta do quarto de uma estranha. O quarto é o Zwoundvierzig (quarenta e dois).
Anote o número…

Leia este romance soberbo para saber mais sobre a vida do professor Askenasi e descobrir  o que foi ele fazer ao quarto da mulher de olhos cinzentos e cabelo loiro grisalho … não fui à procura da paixão. Que tolice! Já a conhecia, é um passatempo banal e como ele encontrou a verdadeira solidão no cume da ilha em frente ao hotel. Finalmente sozinho!
Magnífico!

A Ilha, de Sándor Márai
Tradução de Piroska Felkai
Ed. D. Quixote, 2012
155 págs.

31 dezembro, 2014

Viver (e ler) é formidável! Bom 2015 para todos!


Estar vivo é formidável...
"A rainha da neve", de Michael Cunningham, Ed. Gradiva, 2014

... temos de nos conformar com aquilo que somos...
"As velas ardem até ao fim", de Sándor Márai, Ed. Dom Quixote, 2001

... amanhã correremos mais depressa...
"O grande Gatsby", de F. Scott Fitzgerald, Ed. Presença, 1985

... lê os melhores livros...
"Ravelstein", de Saul Bellow, Ed. Teorema, 2001

... lendo, fica-se a saber quase tudo...
"A caverna", de José Saramago, Ed. Caminho, 2005


Foto tirada da net.

05 dezembro, 2014

"A herança de Eszter" - Sándor Márai

Não sei o que Deus ainda me reserva. Mas antes de morrer, quero escrever a história do dia em que Lajos veio ver-me pela última vez e me roubou. Há três anos que venho adiando estes apontamentos. Agora, sinto como se uma voz, contra a qual não posso defender-me, me exortasse a escrever a história desse dia - e tudo, tudo o que sei acerca de Lajos -, porque esse é o meu dever, e já não tenho muito tempo.
Poucas vezes um início de romance me atraiu tanto. Foram ainda menos, as vezes que uma história de amor me comoveu e arrebatou. E muito menos ainda, as vezes que “ouvi” uma personagem.
Acreditem se quiserem, eu ouvi Eszter  contar a história do dia em que Lajos voltou para lhe tirar a única coisa de valor que ela possuía: a casa dos seus pais, onde vive com a velha Nunu, uma casa húmida e fria, maltratada pelo tempo, onde aconteceram muitas coisas e nem sempre alegres.  E na história daquele dia coube toda a vida de Eszter. Uma vida feita de anéis de mentiras.
Estranho?
Não, porque a escrita de Sándor Márai é perfeita e mágica!
Diz a sinopse:
Durante vinte anos Eszter viveu uma existência cinzenta e monótona, fechada sobre si própria, esperando a morte e sonhando com o retorno de um amor impossível. Até ao dia em que, inesperadamente, recebe um telegrama de Lajos, o único homem que amou e graças ao qual encontrou, por um breve período, sentido para a sua vida. Grande sedutor e canalha sem escrúpulos, Lajos não só traiu Eszter como destruiu a sua família, tirando-lhe tudo o que possuía. Agora, depois de uma ausência prolongada, regressa e Eszter prepara-se para o receber comovida e perturbada por sentimentos contraditórios.
Como não quero revelar mais sobre o enredo, não encontro as palavras exactas para falar de Eszter, nem estou interessada em imitar Lajos - que no meio das suas mentiras, se extasiava e chorava, continuava a mentir com as lágrimas nos olhos, e, por fim, para grande surpresa de todos, já dizia a verdade com a desenvoltura com que, no início, mentira - fico por aqui.
Antes, porém, recomendo vivamente que leiam (ou oiçam?!) esta história.
Ou melhor, eu recomendo que leiam tudo o que Sándor Márai escreveu. TUDO!
O homem vive, e corrige, ajusta, edifica, e destrói, algumas vezes, a sua vida; mas, passado tempo, dá-se conta de que o todo, tal como está, por força dos erros e do acaso, é imodificável.
Magnífico!

A herança de Eszter, de Sándor Márai
Tradução de Ernesto Rodrigues
Ed. Dom Quixote, 2006
150 págs.

17 outubro, 2014

"As velas ardem até ao fim" - Sándor Márai

Uma pessoa prepara-se para alguma coisa durante a vida inteira. Primeiro, sente-se ofendido. Depois quer vingança. A seguir, fica à espera.
Decidi reler este extraordinário romance, ou melhor, este “tratado sobre a amizade, a paixão e a honra”, precisamente dez anos depois da primeira leitura, e voltei a deslumbrar-me com a excelência da escrita de Sándor Márai e a emocionar-me com a amizade que une Henry e Konrád. Só uma profunda amizade é capaz de sobreviver à passagem do tempo, à distância, à mentira, à traição.
Henry (filho de um oficial da guarda) e Konrád (filho de um funcionário público) conhecem-se num colégio interno localizado próximo de Viena. Têm ambos dez anos e, a partir desse dia, viverão como gémeos idênticos no útero da mãe: juntos no colégio militar, juntos nas férias e no Natal, juntos quando prestam juramento, juntos no apartamento arrendado junto da corte, nos primeiros anos de serviço.
Unia-os uma amizade séria e silenciosa, e ambos perdoavam ao outro o pecado original: Konrád perdoava ao amigo a riqueza, o filho do oficial da guarda perdoava a Konrád a pobreza.
Konrád era sereno e reservado. Gostava de música. Tocava piano com a mãe de Henry. Lia livros sobre história, sobre o desenvolvimento social. Nunca há-de ser um verdadeiro soldado, dizia o oficial da guarda ao filho.
Henry não tinha ouvido para a música e achava-a perigosa. Apenas lia livros sobre cavalos e viagens. Seguiu a carreira militar. Chegou a general.
Havia algo no relacionamento dos dois, ternura, seriedade, dedicação, algo fatal…
Fatal foi Konrád ter apresentado Krisztina, sua amiga de infância, a Henry.
Logo depois, Henry casa com Krisztina, o seu único grande amor.
A relação dois dois amigos começa a mudar e, inesperadamente, sem dar conhecimento nem se despedir dos amigos, Konrád desaparece da cidade.
Mas regressa, quarenta e um anos e quarenta e três dias depois, e logo faz chegar uma carta ao general.
No castelo, que encerra segredos, silêncios e memórias, o velho general lê e relê a carta do amigo que lhe pede para o receber no castelo. Henry fala com Nini, a velha ama que o viu nascer e amamentou, a confidente – sabiam tudo um do outro – e pede-lhe para organizar um jantar como antigamente, sem esquecer as velas azuis na mesa.
- Que é que queres deste homem? – pergunta a ama.
- A verdade – disse o general.
- Conheces bem a verdade.
- Não conheço… É mesmo a verdade que não conheço.
- Mas conheces a realidade – disse a ama numa voz aguda, ofensiva.
- A realidade não é a verdade – retorquiu o general. – A realidade é apenas um pormenor.
Na hora do encontro, os dois amigos, agora com setenta e três anos de idade, examinam-se um ou outro. Konrád sabia que outra vez tinha de voltar ali e o general sabia que um dia chegaria esse momento. Viviam por essa razão.
Na sala de jantar, onde durante vinte anos não entrou um só convidado, os dois amigos estão sentados nos dois extremos da mesa, onde se alinham candelabros de porcelana com velas azuis. A meio da mesa está uma cadeira vazia. Aquele era o lugar de Krisztina, a mulher do general, que morreu aos vinte e oito anos de idade, oito anos após a fuga de Konrád.
Depois do jantar, ainda as velas ardiam no candelabro, o general faz ao amigo as duas perguntas que o atormentaram nas últimas décadas.
Pois é, mas... as velas arderam até ao fim e eu, às escuras, não posso revelar mais sobre o enredo deste excelente romance. Posso, sim, aconselhar vivamente a sua leitura. Será inesquecível.

As velas adem até ao fim, de Sándor Márai
Tradução de Mária Magdolna Demeter
Ed. Dom Quixote, 2001
153págs.

14 outubro, 2014

Temos de suportar... em "As velas ardem até ao fim", de Sándor Márai


"Temos de suportar o nosso carácter, o nosso temperamento, já que os seus defeitos, egoísmo e avidez, não os mudam nem a experiência, nem a compreensão. Temos de suportar que os nossos desejos não tenham plena repercussão no mundo. Temos de suportar que as pessoas que amamos, não nos amem, ou que não nos amem como gostaríamos. Temos de suportar a traição e a infidelidade, e o que é mais difícil entre todas as tarefas humanas, tempos de suportar a superioridade moral ou intelectual de uma outra pessoa."

12 setembro, 2014

"A Irmã" - Sándor Márai

O que sabemos sobre a vida? Nada que seja real.
Este romance de Sándor Márai – o último que escreveu antes do exílio - divide-se em duas partes.
Na primeira parte, um escritor (narrador do romance) relata a sua estadia numa albergaria isolada nas montanhas da Transilvânia, e o reencontro com Z., o famoso Z., o célebre e laureado pianista e compositor húngaro que uma doença rara afastou dos palcos.
O mau tempo de meados de Dezembro, com avalanches de neve, uma chuva misturada com granizo e muito nevoeiro, “aprisionava” na albergaria os poucos hóspedes, apenas sete, o dono e a mulher, duas criadas e um pastor, que no inverno ajudava como criado.
Os hóspedes esperavam e desesperavam, naquele castigo forçado. Passavam o dia na sala escura e húmida a fumar, conversar, jogar às cartas, ouvir no rádio de pilhas as notícias sobre a guerra, as cidades destruídas, os milhares de mortos.
… já não havia paciência e a boa vontade também parecia esgotar-se.
Aquele isolamento, terminará no dia de Natal, o terceiro desde que começara a Segunda Guerra, depois de um casal de amantes, de meia-idade, ambos casados, com filhos, cumprir, no melhor quarto da albergaria, o triste desejo de arrumar a desordem da vida. São encontrados deitados na cama, lado a lado, serenos, ele morto, ela ainda consciente. Não resistirá.
Dias depois, já no exterior da albergaria, o escritor cruza-se com Z.. Falam sobre a estranha doença, diagnosticada no início da guerra, que o afastou dos palcos: Nunca mais vou dar consertos… Simplesmente, não posso voltar a tocar. Nunca mais.
Passados alguns meses, o escritor lê num jornal a notícia do falecimento de Z., na Suíça. Três semanas depois, recebe um envelope com o espólio de Z.. Dentro está o relato detalhado e comovente da dolorosa doença que o impediu de voltar a tocar, do longo internamento no hospital de Florença, e da sua relação com E., uma mulher casada que ambos conhecem.
A reprodução integral do manuscrito, onde Z. reflecte sobre as questões da vida e da morte, sobre as grandes emoções que movem o homem, como a fé, o amor e a paixão, é a segunda parte deste romance.
No auge da sua carreira de pianista e compositor, Z. é convidado pelo governo italiano para visitar e tocar em Florença. O convite é feito através do embaixador do país, um homem estranho que ele conhecia da casa de E, uma das casas do círculo fechado e hermético da “alta sociedade”, que ambos frequentavam. Há bastantes anos que Z. mantinha uma estranha relação com E. e o marido. Muitos viam ali um triângulo amoroso – um artista célebre, uma mulher formosa e culta e um marido diplomata, já um pouco velho. Pensaria o mesmo o embaixador e daí o convite e o encorajamento a viajar e a dar concertos?
Z. aceita o convite - depois de se aconselhar com E. e o marido - e parte.
A guerra está longe. Os jornais noticiam a queda de Varsóvia. O comboio aproxima-se da fronteira italiana e Z. é acordado às quatro horas da manhã. Senta-se no beliche. Sente uma tristeza profunda.
Já em Florença, onde é recebido com honras de convidado do estado, sozinho no quarto do hotel, como se estivesse definitivamente só no universo, continua sem perceber o que lhe aconteceu no comboio.
À noite, no concerto, não sabia se tocava bem ou não… estava no palco pela última vez, como quem morre e volta a nascer…
No final da actuação diz sentir dores atrozes. É levado ao hospital.
- Qual é a minha doença? - Vou ficar paralisado?
- A doença que tem não é nada comum mas, de certeza, um dia ficará curado…esta doença é uma prova de paciência.
Seguem-se três meses de internamento, e de contacto diário com profissionais conhecedores da sua estranha enfermidade: o médico (o professor), o médico assistente e quatro irmãs-enfermeiras.
Com o médico Z. terá intensos e interessantes diálogos:
- O senhor ... teve durante quarenta anos, uma relação extremamente íntima com a música. Nem os deuses conseguiriam aguentar isso.
- Mas o que me sugere para substituir a música?
- Vire-se para a vida…
Certa noite, no torpor de mais uma injecção de morfina, Z. escuta, ao lado da cama, uma voz feminina sussurar: “Não quero que morra”.
- Porque é que não quer que morra?
Seguiu-se um silêncio longo… um silêncio que o ajudou a entender o passado e a repensar o futuro, já que finalmente percebeu que não era completamente inocente em relação à doença….
Mattutina, Cherubina, Charissima, Dolorissa,  as ajudantes silenciosas, os anjos celestes, uma delas é a Irmã do título deste romance.
Descubra qual é e “perca-se” numa história extraordinária sobre o mistério da vida.
A vida é um veneno, quando apenas serve para a vaidade, a ambição e a inveja…
Fabuloso!

A irmã” – Sándor Márai
Tradução de Piroska Felkai
Ed. D. Quixote, 2013
213 págs.

04 julho, 2014

"A mulher certa" - Sándor Márai

A vida magoa-nos de tantas maneiras.
Se gosta de boas histórias de amor, este romance foi escrito para si. Se gosta delas com laivos de paixão, desejo, ciúme, ilusão, riqueza, pobreza, mentira, crueldade, solidão e morte, continuo a dizer que este romance foi escrito para si. Se gosta de enredos realistas e inteligentes, de apuro na descrição dos ambientes, de rigorosa caracterização das personagens, repito, este romance foi escrito para si.
Acredite em mim, esta é uma poderosa, surpreendente e inesquecível história de amor, narrada por três vozes e sensibilidades diferentes.
Confuso?
Eu explico: este romance - do mestre das paixões e dos triângulos amorosos, onde se encontram as páginas mais íntimas e arrojadas, as mais sábias, de Sándor Márai - demorou quarenta anos a ser concluído.
Em 1940, foi publicado Az Igazi (A mulher certa), um romance composto por dois monólogos.
Em 1949, o autor adicionou-lhe um terceiro monólogo, escrito durante o seu exílio em Itália.
Em 1980, reescreveu a terceira parte e juntou-lhe um epílogo.
O primeiro monólogo é de Marika. Ela está com uma amiga numa elegante cafetaria de Budapeste, e vê entrar o ex-marido. Relata, então, à amiga, como descobriu que o marido estava entregue de corpo e alma a uma paixão secreta que o consumia e como tentara, em vão, reconquistá-lo.
Tu, olha, aquele homem. Espera, não olhes agora, vira-te para mim, conversemos. Eu não gostaria que reparasse em mim, me visse, nem gostaria que me cumprimentasse… Aquele alto, pálido, de gabardina preta, que fala com a empregada loira e magra. Acabou de embrulhar casca de laranja cristalizada. Interessante, a mim nunca me comprou casca de laranja cristalizada… Já se foi? Diz-me, quando se for…. Se posso dizer-te quem era? Claro que posso, minha querida, não é segredo. Esse homem foi meu marido… há três anos que não falo com ele… Sabes quem era o meu marido? O fenómeno mais raro deste mundo. Era um homem… Sofri muito a seu lado. Mas sei que gostava dele… Talvez algumas paixões sejam mais fortes do que a vida, do que a razão, do que o tempo. Queimam e deixam tudo em cinzas? É possível… E aqui estou sentada contigo, enquanto o meu marido manda embrulhar laranja cristalizada para outra… Para quem? Ora, para outra mulher. Não me agrada pronunciar o seu nome. Com quem casou, a seguir. Não sabias que voltou a casar?
O segundo monólogo é de Péter. Na mesma cidade, uma noite, num bar, ele confessa a um amigo como deixou Marika para se casar com Judit, a mulher que desejava há anos, e como depois a perdeu.
Tu, olha aquela mulher... A loira de chapéu redondo? Não, a alta, num casaco de pele de marta – sim, a morena, a mulher alta, que não traz chapéu. Ajuda-as um homem atarracado, certo?... Aquele é o homem com quem tive esse doloroso e estúpido duelo. Por causa da mulher?... Pois claro, por causa da mulher… Se posso dizer quem é a mulher?... Posso, meu velho. Essa mulher foi minha mulher. Divorciámo-nos há três anos. Logo a seguir ao duelo… Áldozó Judit era o seu nome. Era uma camponesa. Veio com dezasseis anos para servir em casa dos meus pais… A primeira era perfeita. Não posso negar que a amei. Só tinha um pequeno defeito… era burguesa, uma mulher burguesa. Não entendas mal, eu também sou burguês. Vens tu agora dizer-me que sou um homem ressentido. Que alguém me magoou. Talvez aquela mulher, a minha segunda mulher. Ou a primeira. Algo falhou… Estou cheio de cólera. Não confio nas mulheres, no amor, na humanidade… 
O terceiro monólogo é de Judit. De madrugada, numa pequena pensão romana, ela conta ao seu amante como o seu casamento com um homem rico sucumbiu ao ressentimento e à vingança.
O que estás a ver, meu amor? Fotografias?... Sabes que te adoro. Porque és belo. Porque és um artista. Porque és único… Não quero que rias… só porque estou apaixonada por ti… É a velhice… essa ladra e assassina… tenho ainda o direito a amar-te e, como vês, não me faço rogada, devoro a felicidade que me dás… Virá o dia em que não terei direito de te amar, porque serei velha…O ventre flácido, os seios caídos… Não me consoles. Eu sei bem a lição… Verás que é assim… Aprendi que nos devemos ir embora no tempo certo… Queres saber quem me ensinou? Sim, aprendi com esse homem cuja fotografia tens na mão… O que queres saber? Se foi meu marido? Não, tesouro, não foi o meu marido. Meu marido foi o outro, aí, no canto do álbum, com casaco de pele… Os ricos são muito estranhos, meu anjo. Olha, também eu vivi uns tempos nessa espécie de riqueza… Não me envergonhava nada no meio deles, acredita. Nunca me mostrei tímida, nem púdica, e enchi bem a bolsa… Já te disse que não o amava. Houve um tempo em que o amei… em que estava apaixonada, porque não vivia com ele. As duas coisas não se dão juntas, sabias?
Segue-se o epílogo, para mim, desnecessário.
(Seleccionei frases de cada um dos monólogos e juntei-as com reticências.)

Sándor Márai nasceu em 1900, numa pequena cidade húngara, que hoje pertence à Eslováquia. Passou por um período de exílio voluntário na Alemanha e na França durante o regime de Horthy, nos anos 20, até que abandonou definitivamente o seu país em 1948, com a chegada do regime comunista, tendo emigrado para os Estados Unidos. A subsequente proibição da sua obra na Hungria fez cair no esquecimento quem nesse momento era considerado um dos escritores mais importantes da literatura centro-europeia. Foi preciso esperar várias décadas, até à queda do regime comunista, para que o escritor fosse redescoberto no seu país e no mundo inteiro. Sándor Márai suicidou-se em 1989, na Califórnia, poucos meses antes da queda do muro de Berlim.

Bem, está decidido, vou continuar a procurar o deslumbramento nos romances de Sándor Márai. O próximo será "A Irmã".
Você, leia "A mulher certa" munido de um lápis afiado. Vai precisar dele para sublinhar as palavras certas, colocadas nas frases certas. E são muitas.
Nunca se é bastante sábio para dizer por que motivo se juntam um homem e uma mulher, e porque, depois, se separam.
...porque é que na escola não se ensina nada sobre as relações entre homens e mulheres?
Não sei!

A mulher certa, de Sándor Márai
Tradução de Ernesto Rodrigues
Ed. Dom Quixote, 2007
418 págs.

13 junho, 2014

"Rebeldes" - Sándor Márai

Só quem peca se purifica.
Publicado em 1930, este é o terceiro romance de Sándor Márai (o mestre das paixões), autor do aclamado “As velas ardem até ao fim”. (Se ainda não leu, leia).
Neste romance o tema principal não é o amor, é a amizade. Aqui não há um triângulo amoroso, há um bando de rapazes, revoltados contra tudo e a tudo dispostos.
O que os une?
É muito difícil dizer o que aglutina as pessoas, especialmente na juventude, quando os interesses ainda não tecem as amizades.
A história conta as aventura e desventuras do bando, num enredo de erros e fúrias, cumplicidades e traições, sofrimentos e cobardia – de inconfessáveis atracções e de ambíguas repulsas, no final da I Guerra, numa pequena cidade húngara, longe da frente.
Enquanto esperam pelo dia em que terão de vestir a farda e partir para o turbilhão da guerra, entregues a si próprios, os rapazes distraem-se com brincadeiras, jogos, leituras, representação de histórias, passeios.
Com os pais longe, a combater, eles são livres, independentes, sem limites.
Nos primeiros tempos, não precisavam de dinheiro para as brincadeiras. A questão do dinheiro só surgiu quando a realização de certas experiências e iniciativas veio exigir recursos cada vez mais complexos.
Béla foi o primeiro a roubar. Roubou dinheiro da caixa do pai…
Muitos roubos depois… alugam um espaço, um esconderijo, fora do perímetro de acção dos pais, professores, autoridades.
Ali começam a conhecer-se e unem-se numa cumplicidade secreta, feita de descobertas, excessos, segredos, mentiras, intrigas e brincadeiras perigosas.
Ali libertam os demónios da sua revolta contra o mundo.
Ali experimentam tudo, confessam tudo, falam de tudo - nunca da guerra, isso deixam para os adultos
Esse foi o tempo das brincadeiras a sério. Essa foi a segunda infância, mais consciente da culpa, mas sem limites, mais excitante e mais doce.
Já o bando se consolidara quando Amadé - o actor - chega à cidade. É o dançarino cómico da companhia. Tem quarenta e cinco anos. Tem barriga e papada. Usa peruca. Tem a cabeça de um cavalo. Tem a mandíbula saliente. É míope. Não joga às cartas. Usa dois anéis nos dedos carnudos.
O actor vivia os movimentos verdadeiros da vida apenas quando representava; tal como eles sentiam mais verdadeira do que qualquer realidade a própria vida escondida por trás da realidade.
Certo dia os rapazes conhecem o actor. Logo na primeira hora ele propôs que se tratassem por tu. Duas semanas depois convidou-os para sua casa. Conquista-os com festas teatrais divertidas. Entra para o bando.
Quem é ele? O que pretende deles? Em que perversas tramóias os vai meter? Será trágico o fim do bando?
"Rebeldes" é um romance perturbador. Recomendo-o a adolescentes... 
Os senhores… não conhecem ainda a vida. Aprende-se devagar.
... e a adultos, claro!

Rebeldes, de Sándor Márai
Tradução de Ernesto Rodrigues
Ed. Dom Quixote, 2008
239 págs.

01 fevereiro, 2011

"Divórcio em Buda" - Sándor Márai

Foi em 2004 que descobri este autor, quando li “As velas ardem até ao fim”, ia já na 4ª edição portuguesa. Considerei-o, então, um romance deslumbrante, um hino à amizade, uma pérola que figurará na lista dos meus livros preferidos.
Posteriormente comprei (mas ainda não li) “A herança de Eszter”.
Este ano descobri / comprei / li o “Divórcio em Buda”. O autor continuou a não me desiludir.

Divórcio em Buda” é o retrato de um triângulo amoroso, feito de paixões negadas, silêncios amargos e confissões impossíveis, numa sociedade decadente às portas da Segunda Guerra Mundial.
O processo de divórcio dos Greiner era um dos muitos que chegavam à mesa de trabalho do juiz Kristóf Kómives.
No geral, num processo de divórcio cabia ao juiz confirmar que duas pessoas não se suportavam e não conseguiam viver juntos. Apenas isso.
Mas o divórcio dos Greiner é muito diferente e irá perturbar o sossego da respeitável vida burguesa deste juiz em Budapeste, neto e filho de célebres juízes, educado num espírito rigoroso, de fundo humanístico, como era tradição na família.
Imre Greiner, tinha sido seu colega de escola, mas nunca íntimo. Ela, Anna Greiner, era a jovem esquiva que o juiz conheceu no baile da Faculdade de Direito e nunca esqueceu. Anna amou-o em segredo e também não o esqueceu. Loucura ou obsessão? “O modo como os segredos ardem na alma talvez seja semelhante ao incêndio de uma mina, que vai queimando em fumo lento”.
No oitavo ano do casamento, os Greiner decidem divorciar-se. Formavam um casal perfeito. Eram um exemplo para os amigos. Divorciavam-se por “não suportarmos o que calávamos um frente ao outro”.
Na noite anterior à audiência Imre Greiner procura o juiz na sua casa, fala-lhe sobre o seu casamento e comunica-lhe o suicídio de Anna.
Tendo como pano de fundo o estalar iminente da segunda Guerra Mundial, a morte da mulher que ambos amaram dá-lhes oportunidade de reflectirem sobre vivências e sentimentos que nunca foram capazes de partilhar com ninguém e redimir os erros que os levaram à situação actual”.

Sándor Márai nasceu, em 1900, em Kassa, na Hungria.
Passou um período de exílio voluntário na Alemanha e na França e em 1948, com a chegada do regime comunista ao seu país, emigra para os Estados Unidos da América.
Foi só depois da queda do regime que a sua obra foi conhecida na Hungria e no mundo inteiro.
Sándor Márai suicidou-se em 1989, na Califórnia.

Divórcio em Buda, de Sándor Márai
Dom Quixote, 2010
Tradução de Ernesto Rodrigues
184 págs.