E POR VEZES
E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos. E por vezes
encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes
ao tomarmos o gosto dos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos
E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos
Em "Obra Poética - 1948-1988", de David Mourão-Ferreira, ed. Presença, 1996
(Xana, é este o tal soneto.)
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05 maio, 2014
29 novembro, 2013
Poema de... David Mourão-Ferreira
DESPOJO
Já depois de colhido
pela mão do segredo,
o amor foi cortado
com a faca do medo.
Das metades mordidas
na vertente das fugas,
tão-somente ficaram:
remorsos, raivas, rugas.
Já depois de colhido
pela mão do segredo,
o amor foi cortado
com a faca do medo.
Das metades mordidas
na vertente das fugas,
tão-somente ficaram:
remorsos, raivas, rugas.
18 maio, 2012
"Um amor feliz" - David Mourão-Ferreira
… sempre me fez a maior impressão o raio de semelhança que existe entre a palavra «adulto» e a palavra «adúltero».
Adultos, adúlteros. Curioso!
David Mourão-Ferreira (1927-96) era já autor consagrado com vários contos, novelas, textos para teatro, ensaios e poesia publicados, quando, na década de oitenta, se estreia no romance e publica “Um amor feliz”.
No ano da sua publicação, 1986, este romance conquistou vários prémios e o reconhecimento dos leitores e críticos, que o consideraram um dos mais belos romances publicados em língua portuguesa no séc. XX.
Li pela primeira vez este romance em 1990, na tranquilidade de umas férias junto ao mar, e recordo que estranhei a narrativa original, arrojada e por vezes despudorada, utilizada pelo autor para contar uma história de amor.
Recordo que estranhei, ainda mais, a forma nua e crua, mas ao mesmo tempo fantástica, como é retratado o universo feminino.
Sabendo nós que a imagem de sedutor sempre se colou à pele de David Mourão-Ferreira – poeta dos amores e dos sentidos – entendemos o conhecimento e aplaudimos a subtileza.
O romance é feito de memórias desfolhadas pelo narrador / personagem, um artista plástico, próximo dos sessenta anos, casado, à mulher que lhe confiou a fórmula de certas circunstâncias indispensáveis à existência de “um amor feliz”: uma pessoa casada… só com outra pessoa casada.
Memórias de vários amores e desamores, encontros e desencontros, destacando-se a história de amor vivida com uma mulher estrangeira – a quem chama simplesmente Y – vinte e um anos mais nova e também ela casada.
Tal como o nome, ainda menos que o nome, também a idade não deveria ter grande importância. Mas tem. Oh, se tem!
Mas enganem-se os que pensam que este romance se limita a descrever simples relações adúlteras.
Não!
O autor faz um retrato impiedoso de Lisboa e do país: a crise de valores, a opressão social e política, a crise económica e muito, muito mais.
Como é triste Lisboa
em tempos de amores vivos!
… fala de forma enternecedora sobre a família, os amigos, a vida, a doença e a morte, os segredos, a alegria e a tristeza, a arte e a cultura: a relação com a mulher, pediatra; a relação com a mãe, doente; o regresso aos amigos do passado; o enfado com os conhecidos do presente.
… descreve de forma poética o trabalho e os encontros adúlteros no espaço do atelier – onde o Amor era o centro do Mundo - poesia que, aliás, perpassa por todo o livro.
Os amores felizes não têm história.
Será?
Vou lembrar e guardar para reler de novo este extraordinário romance, escrito em português.
Se ainda não leu... corra a ler!
Se ainda não leu... corra a ler!
Um amor feliz, de David Mourão-Ferreira
Presença, 1986
299 págs.
22 novembro, 2011
Poema de... David Mourão-Ferreira
TERNURA
Desvio dos teus ombros o lençol,
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do sol,
quando depois do sol não vem mais nada…
Olho a roupa no chão: que tempestade!
Há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
onde uma tempestade sobreveio…
Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo…
Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós!
Poema de David Mourão-Ferreira, Portugal (1927-1996)
Pintura (A sesta 1939) de Almada Negreiros, Portugal (1893-1970)
Desvio dos teus ombros o lençol,
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do sol,
quando depois do sol não vem mais nada…
Olho a roupa no chão: que tempestade!
Há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
onde uma tempestade sobreveio…
Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo…
Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós!
Poema de David Mourão-Ferreira, Portugal (1927-1996)
Pintura (A sesta 1939) de Almada Negreiros, Portugal (1893-1970)
10 janeiro, 2011
"Obra poética 1948-1988" - David Mourão-Ferreira
Escada sem corrimão
É uma escada em caracol
E que não tem corrimão.
Vai a caminho do Sol
mas nunca passa do chão.
Os degraus, quanto mais altos,
Mais estragados estão.
Nem sustos nem sobressaltos
servem sequer de lição.
Quem tem medo não a sobe.
Quem tem sonhos também não.
Há quem chegue a deitar fora
o lastro do coração.
Sobe-se numa corrida.
Correm-se p’rigos em vão.
Adivinhaste: é a vida
a escada sem corrimão.
Este belissimo poema (pág. 158) é um dos muitos que encontramos neste livro de David Mourão-Ferreira. Como diz Eduardo Prado Coelho na introdução "apuro e maestria de uma arte das palavras".
Obra poética 1948-1988, de David Mourão-Ferreira
Presença, 1988
427 págs.
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