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07 setembro, 2011

"O último homem na torre" - Aravind Adiga

Um homem não se reduz à opinião que os vizinhos fazem dele.
Do autor de “O tigre branco”, Booker Prize 2008, chegou às bancas este verão “ O último homem na torre”.
A acção deste novo romance passa-se em Bombaim (actual Mumbai), a mais activa, cosmopolita e povoada cidade da Índia com cerca de 15 milhões de habitantes, amontoados em 430 Km2.
Os preços das casas são elevadíssimos. Os ricos vivem em subúrbios luxuosos. A classe média mantém-se nas habitações de renda baixa, apesar do estado de degradação dos prédios e da pressão das empresas de construção civil. Os mais pobres vivem literalmente na rua, despojados de tudo, ou em enormes bairros de barracas tapadas por plástico, sempre de cor azul.
Isto foi o que eu vi, quando lá estive em 2010. Vi uma cidade, aliás um país, de enormes e chocantes contrastes: uma pobreza abjecta e uma riqueza chocante.
Depois disto, é fácil perceber o quanto me tocou esta nova obra de Aravind Adiga.
Vamos então ao romance, um retrato duro do quotidiano dos residentes duma cooperativa de habitação, que é o reflexo da vida na própria cidade de Bombaim, a personagem principal deste romance.
Tudo se passa nas torres da Cooperativa de Habitação Vishram, localizada entre o degradado bairro Vakola, e um aeroporto doméstico. São duas torres A e B mas a Torre A é aquilo que a vizinhança considera ser a “Cooperativa Vishram” - calorosa, humana, familiar, a camada de queratina protectora que tinham vindo a segregar a fim de se salvaguardarem das provações da vida.
A vida decorre pacata nas duas torres até o empresário e construtor civil Dharmen Shah oferecer aos moradores uma generosa indemnização pelo abandono dos apartamentos para ali construir um complexo habitacional de luxo.
O empreiteiro é o único homem em Bombaim que nunca se dá por vencido.
Na Torre B, habitada por jovens executivos, a proposta é aceite pacificamente.
Na Torre A, um edifício de 5 pisos, 15 apartamentos, muito degradado, parecido com os seus residentes - classe média até à medula - a proposta é inicialmente recusada por todos, depois aceite por alguns, depois por muitos, depois instala-se o caos e a “guerra” começa.
Até à altura da proposta, o relacionamento entre os vizinhos era cordato, cúmplice, solidário – um por todos, todos por um.
A partir daí, a perspectiva de um futuro radioso, conseguido à custa do dinheiro sujo do empreiteiro mafioso, transforma  os vizinhos  em inimigos perigosos, em assassinos.
Para o negócio se concretizar é necessária a concordância de todos, mas há um morador que não aceita: Yogesh Murthy, mais conhecido por Masterji, professor, conservador, um dos primeiros residentes da torre e o último a sair.
Como? Não posso contar.
Leiam que vale a pena. É um livro duro mas fabuloso.
Nada pode deter uma criatura viva que teima em ser livre.

O último homem na torre, de Aravind Adiga
Editorial Presença, 2011
Tradução de Alice Rocha
467 págs.

25 fevereiro, 2011

"Entre os assassinatos" - Aravind Adiga

Aravind Adiga é o autor do famoso “O tigre branco”, vencedor do Man Booker Prize, de 2008.
Esta sua primeira obra, é uma sátira mordaz à corrupta classe dominante, num país em que o povo é imobilizado pelo sistema social de castas.

Em 2010 aparece nas bancas o seu segundo romance "Entre os assassinatos".  Não o considero tão “poderoso” como o primeiro mas… vale pelo retrato das transformações que acontecem no seu país.
São catorze histórias vividas numa cidade imaginária, situada na costa sudoeste da Índia, durante o período que decorreu entre os assassinatos de Indira Gandhi e do seu filho Rajiv.
Nesta obra, o autor volta a muitos dos temas presentes no seu primeiro livro (do qual já dei a minha opinião), mas agora recorre a vários narradores de castas, religiões e até línguas diferentes.

Entre os assassinatos, de Aravind Adiga
Editorial Presença, 2010
Tradução de Alice Rocha
305 págs.

06 dezembro, 2010

"O Tigre Branco" - Aravind Adiga

O Tigre Branco”, romance de estreia de Aravind Adiga, premiado com o Man Booker Prize 2008, é um retrato duro, sarcástico e mordaz do sistema social de castas na Índia.
É com muito humor negro que o protagonista/narrador, Balram Halwai, conhecido como Tigre Branco, ou, como ele se intitula “indiano mal-amanhado, empresário autodidacta, homem de acção e de mudança”, vai relatar a história da sua vida ao primeiro-ministro chinês, pouco dias antes de uma visita deste a Bangalore “para aprender como criar uns quantos empresários chineses”, dando-lhe a conhecer o segredo do sucesso da sua vida empresarial e a verdade sobre o “milagre económico” indiano, na era da globalização.
“Ao que consta, senhor, vocês os chineses, encontram-se muito adiantados em relação a nós em todos os aspectos, à excepção de não terem empresários. E a nossa nação, apesar de não ter água potável, nem electricidade, nem sistema de esgotos, nem transportes públicos, nem regras de higiene, nem disciplina, nem boas maneiras, nem pontualidade, verdade seja dita que empresários não lhe faltam. São aos milhares”.
“Se eu estivesse a construir um país, começava pelas canalizações dos esgotos, passaria depois à democracia e só então andaria por aí a distribuir panfletos e estátuas de Gandhi às pessoas”.
Balram, nado e criado na “Índia da Escuridão”, o interior miserável da Índia, não se conforma com o papel que lhe está destinado e parte em busca de uma nova vida na “Índia da Luz”. No trajecto da aldeia para a cidade trabalha numa casa de chá onde faz um “trabalho com uma desonestidade, uma falta de dedicação e uma falsidade quase absolutas” que se revelará “uma experiência profundamente enriquecedora”.
Em Deli torna-se motorista de uma família rica, comete um crime, apodera-se do dinheiro do patrão e dali em diante “a história irá tornar-se muito mais escura” – narrando como “fui corrompido e, de idiota gentil e inocente da aldeia, me transformei num indivíduo citadino a tresandar a deboche, depravação e maldade”.
Vislumbra, então, uma oportunidade de negócio. Monta uma empresa de aluguer de automóveis para transporte dos empregados das empresas de subcontratação, que à noite trabalham na Índia para os americanos através do telefone.
Tem a cabeça a prémio, suborna a polícia, sabe que “ser apanhado é sempre uma possibilidade a ter em conta” na Índia. “Podemos dar aos polícias todos os envelopes… se eles quiserem podem sempre lixar-nos”.
“Tudo o que queria era a oportunidade de ser um homem – e para isso um homicídio bastou-me. O que me reserva o futuro?”
Fabuloso!

O Tigre Branco, de Aravind Adiga
Presença, 2009
Tradução de Alice Rocha
242 págs.