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21 fevereiro, 2020

Poemas & Poetas: Eugénio de Andrade


PROCURO-TE
Procuro a ternura súbita, 
os olhos ou o sol por nascer
do tamanho do mundo, 
o sangue que nenhuma espada viu,
o ar onde a respiração é doce,
um pássaro no bosque
com a forma de um grito de alegria.

Oh, carícia da terra,
a juventude suspensa,
a fugidia voz da água entre o azul
do prado e de um corpo estendido.
Procuro-te: fruto ou nuvem ou música.
Chamo por ti, e o teu nome ilumina
as coisas mais simples:
o pão e a água,
a cama e a mesa, 
os pequenos e dóceis animais,
onde também quero que chegue
o meu canto e a manhã de maio.

Um pássaro e um navio são a mesma coisa
quando te procuro de rosto cravado de luz.
Eu sei que há diferenças,
mas não quando se ama,
não quando apertamos ao peito
uma flor ávida de orvalho.
Ter só dedos e dentes é muito triste:
dedos para amortalhar crianças,
dentes para roer a solidão,
enquanto o verão pinta de azul o céu
e o mar é devassado pelas estrelas.

Porém, eu procuro-te.
Antes que a morte se aproxime, procuro-te.
Nas ruas, nos barcos, na cama,
com amor, com ódio, ao sol, à chuva,
de noite, de dia, triste, alegre - procuro-te.


Eugénio de Andrade (pseudónimo de José Fontinhas), poeta, prosador e tradutor,  nasceu na Póvoa da Atalaia, concelho do Fundão, Portugal, a 19 de Janeiro de 1923.
Estreia-se em 1939 com a obra "Narciso", torna-se conhecido em 1942 com o livro de poemas "Adolescente", afirma-se definitivamente com a colectânea "As Mãos e os Frutos" (1948).
"Marginal a grupos ou movimentos, a sua obra traduz com sobriedade os momentos de plenitude que ocorreram na vida, sejam eles de sensualidade ou de dor, sem inibições nem camuflagem, numa sinceridade contida por uma elegante reserva." Considerado um dos grandes poetas portugueses contemporâneos, tem poemas seus traduzidos em vários línguas.
Faleceu no Porto, a 13 de Junho de 2005.

"Entre lábios e lábios não sabia
se cantava ou nevava ou ardia."
(Eugénio de Andrade)

(fotos da net)

02 julho, 2019

À terça: imagens e palavras: "noite"



"Pudesse esta noite durar
não uma mas duas noites inteiras..."



Versos de Eugénio de Andrade, poeta português (1923-2005), in "Poesia e Prosa 1940-1986 - II Vol.", Ed. Círculo de Leitores, 1987
(Foto da net.)


Fui e voltei... cheia de saudades vossas!!!

31 maio, 2016

"Poesia e Prosa" - Eugénio de Andrade


ESCRITO NO MURO
Procura a maravilha.

Onde a luz coalha
e cessa o exílio.

Nos ombros, no dorso,
nos flancos suados.

Onde a boca sabe
a barcos e bruma.

Ou a sombra espessa.

Na laranja aberta
à língua do vento.

No brilho redondo
e jovem dos joelhos.

Na noite inclinada
de melancolia.

Procura.

Procura a maravilha.

DO OUTRO LADO
Também eu já me sentei algumas vezes às portas do crepúsculo, mas quero dizer-te que o meu comércio não é o da alma, há igrejas de sobra e ninguém te impede de entrar. Morre se quiseres por um deus ou pela pátria, isso é contigo; pode até acontecer que morras por qualquer coisa que te pertença, pois sempre pátrias e deuses foram propriedade apenas de alguns, mas não me peças a mim, que só conheço os caminhos da sede, que te mostre a direcção das nascentes.

Eugénio de Andrade (1923-2005), in "Poesia e Prosa (1940-1986) – I vol.", Círculo de Leitores, 1987

01 maio, 2016

Poema à Mãe


POEMA À MÃE

No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe.

Tudo porque já não sou
o menino adormecido
no fundo dos teus olhos.

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha - queres ouvir-me? –
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda oiço a tua voz::
    Era uma vez uma princesa
    no meio de um laranjal…

Mas – tu sabes – a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber.

Não me esqueci de nada, mãe,
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.

Poema de Eugénio de Andrade (1923-2005), in "Poesia e Prosa (1940-1986) – I vol.", Ed. Círculo de Leitores, 1987
(foto da net)

01 outubro, 2011

Poema de... Eugénio de Andrade


MELANCOLIA DE UM FIM DE SETEMBRO
Ó manhã, manhã,
manhã de Setembro,
invade-me os olhos,
inunda-me a boca,
entra pelos poros
do corpo, da alma,
até ser em ti,
sem peso e memória,
um acorde só
do vento e da água,
uma vibração
sem sombra nem mágoa.

Poema de Eugénio de Andrade, Portugal (1923-2005)
Pintura (Melancolia 1895) de Edvard Munch, Noruega (1863-1944)