26 fevereiro, 2019

À terça - imagens e palavras: "alma"

“Mesmo que vivamos atormentados por problemas, que sejamos doentes e pobres e feios, temos uma alma para carregar vida fora como um tesouro numa salva.”


 Alice Munro, escritora canadiana (1931-), in “O progresso do amor”, Ed. Relógio d’Água, 2013
Prémio Nobel de Literatura, 2013
Foto da net.

22 fevereiro, 2019

Bom dia, alegria!

Tenho uma relação intrigante e perturbadora com livros, revistas, jornais, lápis e tesouras: sublinho nos livros as frases de que mais gosto, recorto artigos de revistas e jornais, e guardo. Guardo tudo!
Ando há dias a (tentar) organizar caixas e gavetas apinhadas de papéis. Tiro de um lado, guardo em outro. Não passo disto. Deitar fora, que é o que devia fazer, não consigo. Gosto de tudo!
E não desisto de arrumar, desarrumando. E só sossego de tanta desatinação quando encontro o tesouro entre os tesouros. Desta vez achei várias crónicas incríveis de José Tolentino Mendonça, que logo reli e uma escolhi para partilhar no Rol. Espero que gostem tanto quanto eu gostei.

O VERBO SAUDAR
"A aldeia global tornou-nos apenas próximos: não nos apresentou aos outros. Passamos a partilhar uma quantidade colossal de informações, mas continuamos perfeitos estranhos. Quanto muito tem crescido o voyeurismo que sobrevoa a existência alheia e nos dispersa da nossa.
Às nossas sociedades hipertecnológicas faltam os protocolos de encontro, por exemplo, das sociedades primitivas.
Entre os povos do deserto, quando os desconhecidos eram aceites como hóspedes, seguia-se este ritual de aproximação: “Considera-te bem-vindo! Recebe as minhas saudações. Como prosseguem os teus dias? Como vão os filhos de Adão? E a tua família? E a tua tenda? E a tua gente? E a tua mãe? E tu, como corre a viagem que estás a realizar?"
Na Bíblia hebraica encontramos o “Quem és? De onde vens? Para onde vais?", trocado, com cordial curiosidade, entre viandantes.
Os gregos e romanos, por seu lado, vulgarizaram o aperto de mão, como se pode ver nos monumentos figurativos e sobretudo nas estelas funerárias.
As fórmulas de cumprimento tornaram-se tão sincopadas a Ocidente que perderam a sua força expressiva. A maior parte das vezes são hoje repetidas de maneira automática. 
Por isso sabe bem recordar outras possibilidades: como entre os etíopes, onde se recorre a um termo que significa “Vejo-te”, ou ente os ameríndios, que usam uma expressão que diz qualquer coisa como “Recebo agora o teu cheiro”
O protocolo de encontro tem ainda uma plasticidade visceral que demonstra a centralidade que ocupa nessas práticas sociais. Facto que soará estranhíssimo numa época como a nossa em que nos tornamos cosmopolitas, de uma hora para a outra, só porque esbarramos com mais estranhos na rua, sem aumentar o número de vezes que dizemos “bom-dia”.
As fórmulas mais belas de saudação que conheço são as trocadas entre os padres do deserto. Aqueles anacoretas, exploradores de silêncios abissais, tinham como ideal tornarem-se irreversivelmente estranhos ao modo comum de atravessar a terra, e viver exactamente “como um homem que não existe". Mas eles, que comunicavam por monossílabos e gestos para não ferir a ciência sagrada do silêncio, nas ocasiões em que se encontravam faziam-no com solenidade máxima: "Ave, guardião da manhã, montanha inacessível”; “Ave, coluna que sustentas com a tua solidão o inteiro universo”."

"Os Padres do Deserto ou Pais do Deserto foram eremitas, ascetas, monges e freiras que viviam majoritariamente no deserto da Nítria(Scetes), no Egito a partir do século III. O mais conhecido deles foi Santo Antão (ou Santo António, o Grande), que mudou-se para o deserto em 270-271 e se tornou conhecido tanto como o pai quanto o fundador do monasticismo no deserto. Quando Antão morreu em 356, milhares de monges e freiras tinham sido atraídos para a vida no deserto seguindo o exemplo do grande santo."
(Mais aqui.) 

"A oração é fruto da alegria e do reconhecimento."
(Um dos muitos Ditos dos Padres do Deserto.)


Aprender, sempre!

Excertos da crónica "O Verbo Saudar", de José Tolentino Mendonça, publicada na "E", revista do Jornal Expresso de 19 Agosto 2017.
Fotos da net.

19 fevereiro, 2019

À terça - imagens e palavras: "ditaduras"

“Não há ditaduras boas, da mesma forma que não há doenças boas. Há democracias avançadas e vigorosas e há democracias em crise, democracias frágeis, democracias necessitadas de um novo começo. O que não há com toda a certeza é democracias que possam ser substituídas com proveito por uma qualquer ditadura. Nenhuma democracia é tão má que consiga ser pior do que a melhor ditadura."


José Eduardo Agualusa, escritor angolano (1960), in “O paraíso e outros infernos”, Ed. Quetzal, 2018
(Foto da net.)

15 fevereiro, 2019

"Eu adoro todas as coisas" - Fernando Pessoa


Eu adoro todas as coisas
E o meu coração é um albergue aberto toda a noite.
Tenho pela vida um interesse ávido
Que busca compreendê-la sentindo-a muito.
Amo tudo, animo tudo, empresto humanidade a tudo,
Aos homens, às pedras, às almas e às máquinas,
Para aumentar com isso a minha personalidade.

Pertenço a tudo para pertencer cada vez mais a mim próprio
E a minha ambição era trazer o universo ao colo
Como uma criança a quem a ama beija.
Eu amo todas as coisas, umas mais do que outras,
Não nenhuma mais do que outra, mas sempre mais as que vou vendo
Do que as que vi ou verei.

Nada para mim é tão belo como o movimento e as sensações.
A vida é uma grande feira e tudo são barracas e saltimbancos.
Penso nisto, enterneço-me mas não sossego nunca.
Versos de Álvaro de Campos, heterónimo de Fernando Pessoa (1883-1935)

Sabia que (8):
1917 – O Governo português intervém na Guerra enviando um corpo expedicionário para a frente francesa. Pessoa confia aos seus escritos pessoais as suas reflexões e as suas angústias acerca do conflito mundial.
1919 – Escreve os Poemas Inconjuntos de Alberto Caeiro, com a data fictícia de 1913-1914, por coerência diacrónica com a biografia do heterónimo, morto em 1915.
Falece em Pretória (5 Outubro) seu padrasto o Cônsul João Miguel Rosa. 
Pessoa dedica-se à ensaística política.
1920 – Publica na revista inglesa «The Athenaeum” o poema Meantime, e em «Ressureição» o soneto Abdicação.
Em Março conhece Ophélia Queiroz com a qual estabelece uma relação sentimental.
Sua mãe e seus irmãos regressam a Portugal. Vai viver com eles.
Participa frequentemente, com o nome de A.A. Crosse, nos concursos charadísticos do «Times».
Em Outubro atravessa uma grande depressão psíquica e pensa internar-se numa casa de saúde.
Em Novembro interrompe a relação com Ophélia.
1921 – Funda a Editora «Olisipo» onde publica os seus English Poemas I e II e A invenção do Dia Claro de Almada Negreiros.”
("Fernando Pessoa, uma fotobiografia", de Maria José de Lancastre).

Não sabia? Eu também não!
O que importa é que agora sabemos.
Prometo partilhar mais informações sobre a vida do poeta do desassossego.
(Foto da net)

14 fevereiro, 2019

"Dá-me mil beijos..." - a matemática do AMOR!


"Dá-me mil beijos, a seguir cem, depois outros mil, a seguir mais cem, a seguir mil, depois cem; por fim, quando tivermos somado muitos milhares, baralharemos a conta para não a sabermos e para que nenhum invejoso nos possa lançar mau olhado quando souber que nos demos tantos beijos."

Beijem e namorem muito! Hoje, amanhã... todos os dias!

Isabel Allende, in "Afrodite – Histórias, Receitas e outros Afrodisíacos".
Fotos da net.

12 fevereiro, 2019

Á terça - imagens e palavras: "dor verdadeira"


“A morte de uma criança é a única
 dor verdadeiraÉ com esta dor, única, que se comparam todas as outras.”


Sándor Márai, escritor húngaro (1900-89), in “A mulher certa”, ed. Dom Quixote, 2009
(Foto da net.)

08 fevereiro, 2019

"O paraíso e outros infernos" - José Eduardo Agualusa

Vivendo em grandes cidades, estamos cercados de náufragos, cada qual na sua ilha deserta. Dessas ilhas eles avistam o mundo; o mundo é que não os vê. Não conheço pior solidão.
(Náufragos na cidade)

Se foge de obras longas e encontra prazer na leitura de pequenos textos, “O paraíso e outros infernos” é o livro certo para si pois reúne 180 textos “reescritos a partir de crónicas publicadas no jornal brasileiro O Globo e no jornal electrónico angolano Rede Angola” e diversas entradas do diário do autor.
São muitas as crónicas e variados os temas abordados: política, religião, critica social, amor, literatura, poesia, cinema, lusofonia, detalhes da vida do autor, etc.. Como a prosa deste escritor angolano é simples, irreverente e viciante, os pequenos textos “devoram-se” num ápice. Mas atenção, alguns são para ler, reler e reflectir.
Gostei muito, muito, muito de ler este livro.
Leia também, para saber porque gostei eu muito, muito, muito de o ler.
Se não o ler nunca saberá, por exemplo, o que escreveu JEA sobre Angola, Brasil, Moçambique, Portugal. Ou sobre Jorge Luis Borges. Ou sobre Jorge, o Pensador. Ou sobre o cabelo da filha. Eu, sei tudo!
Deixo-lhe excertos de algumas crónicas, para despertar a sua curiosidade:
Gosto de pensar que sendo África o continente-mãe, o berço da Humanidade, persista no coração de cada africano um desejo de abraçar a Terra toda. Mais do que isso, a capacidade de perceber em cada homem a Humanidade inteira, exilada pelo Mundo. Ou isso, ou eu sofro de um perigoso excesso de romantismo. É bem provável.
(Maravilhosa apropriação cultural)
Acredito nas propriedades mágicas da poesia. Leio Adélia Prado como se rezasse (…)
Enquanto leio, sei que em algum lugar, lá, onde todos os sonhos se formam, terá começado a erguer-se um novo dia. E nesse dia novo, cuja luz mal enxergamos, o Brasil começou já a reconciliar-se com o Brasil, e está voltando a conquistar o mundo através da sua alegria e das suas canções.
Amén.
(Em caso de emergência solte a poesia)
Quando a paixão nos toma, somos maiores do que nós. Somos, de alguma maneira acertada e misteriosa, a Humanidade inteira.
(Aquele preciso instante de glória)
A minha avó preveniu-me muitas vezes: «Nunca te cases, menino, mas se, por infelicidade, isso acontecer, então nunca te separes. Só há um erro pior do que o casamento – o divórcio.”
(Drama particular, comédia pública)

Recomendo, claro!
(Leia, com um lápis afiado na mão.)

O paraíso e outros infernos, de José Eduardo Agualusa
Ed. Quetzal, 2018
335 págs.

05 fevereiro, 2019

À terça - imagens e palavras: "família"


“Há imensas coisas na história de uma família que são pura fantasia: qualquer família. As histórias vão passando de geração em geração
 e a verdade vai-se perdendo”.


Cormac McCarthy, escritor americano (1933-), in “Este país não é para velhos”, Ed. Relógio d’Água, 2007

Leia mais sobre este violento mas magnífico romance aqui.
(Foto da net.)

01 fevereiro, 2019

"Green Book - Um guia para a vida " - filme



Green Book – um guia para a vida” (EUA, 2018, 130 min.), comédia dramática sobre direitos civis, realizada por Peter Farrelly e protagonizada por Vigo Mortensen e Mahershala Ali, é um retrato sociológico/denúncia da América profunda retrógrada e racista dos anos 60.
Inspirado em factos reais, o filme conta a enternecedora e envolvente história de Don Shirley (Mahershala Ali), conceituado pianista de música clássica, elitista, poliglota, «um príncipe» solitário, que em Dezembro de 1962 decide fazer uma torunée de oito semanas pelo sul racista dos Estados Unidos.  Consciente dos problemas que irá enfrentar, o pianista decide contratar um motorista branco capaz de resolver “todos” os problemas. Escolhe Tony (Lip) Vallelonga (Vigo Mortensen – engordou 20kg para o papel), um italiano grosseiro, preconceituoso, bom chefe de família, segurança desempregado que... odeia negros.
Será uma longa, solitária e atribulada viagem. E inspiradora para dois homens de «mundos diferentes» que absurdas contradições de um país aproxima e une para sempre. Será uma viagem de aprendizagem: o homem negro ensina boas maneiras ao homem branco, o homem branco ensina o homem negro a ser negro.
O título do filme - “Green Book” – foi retirado do «The Negro Motorist Green Book», um guia de viagens destinado a negros, com indicação de hotéis, restaurantes e outros locais que podiam frequentar naquele território americano de maioria branca e rica.
Com cinco nomeações aos Óscares 2019 - Melhor Filme, Melhor Actor (Vigo Mortensen), Melhor Actor Secundário (Mahershala Ali), Melhor Montagem, Melhor Argumento Original) “Green Book” foi entretanto distinguido com vários prémios, nomeadamente o de Melhor Filme do Sindicato dos produtores (PGA), e três Globos na 76ª Edição dos Globos de Ouro: Melhor Argumento Original, Melhor Filme na categoria Musical ou Comédia, Melhor Actor Secundário na mesma categoria (Mahershala Ali)
Este é sim, um belo filme. Veja e fique atento à extraordinária interpretação de Mahershala Ali.
Eu dou nota 5.