16 julho, 2019

À terça - imagens e palavras: "lama"



“Sempre que atiramos lama para cima dos outros, o chão foge-nos mais um bocadinho 
debaixo dos pés.”



Cormac McCarthy, escritor americano (1933-), in “Este país não é para velhos”, Ed. Relógio d’Água, 2007
(Foto da net.)

11 julho, 2019

"Torto arado" - Itamar Vieira Junior

O medo atravessou o tempo e fez parte de nossa história desde sempre.
Era medo de quem foi arrancado do seu chão. Medo de não resistir à travessia por mar e terra. Medo dos castigos, dos trabalhos, do sol escaldante, dos espíritos daquela gente. Medo de andar, medo de desagradar, medo de existir.
O romance “Torto Arado”, do brasileiro Itamar Vieira Junior, venceu por unanimidade o Prémio LeYa 2018.
Por unanimidade? Curiosa, procurei-o nas livrarias. E logo li a sinopse. E logo fiquei rendida… à «procissão de lembranças» desvendadas por Bibiana e Belonísia, filhas de trabalhadores da Fazenda Água Negra, no sertão da Bahia, descendentes de escravos para quem a abolição nunca passou de uma data marcada no calendário.
São muitas e tristes as histórias do quotidiano na fazenda, quase sempre protagonizadas por mulheres. Histórias de vida, morte, medo, dor, violência, humilhações, mas também de amizade, amor e luta pela libertação, contadas à vez pelas duas irmãs, transmissoras de todas as vozes negadas, que uma tragédia na infância tornou tão dependentes que uma será até a voz da outra. São filhas de Salu e de Zeca Chapéu Grande, guia do povo de Água Negra para assuntos de trabalho, problemas de saúde, resolução de conflitos familiares e tudo o mais; e netas de Donana, a parteira de mãos pequenas «capazes de entrar no ventre de uma mulher para virar com destreza uma criança atravessada, mal encaixada, crianças com os movimentos errados para nascer». Vivem numa fazenda onde as casas e os caminhos são de terra «de barro apenas… e de onde brotava tudo que comíamos. Onde enterrávamos os restos do parto e o umbigo dos nascidos. Onde enterrávamos os restos de nossos corpos. Para onde desceríamos algum dia. Ninguém escaparia.»
Anos depois da tragédia que emudeceu uma das irmãs, chega à fazenda o tio Servó, para dar «seu suor na plantação». Chega acompanhado da mulher e seis filhos. E primeiro uma depois a outra, as duas irmãs perdem-se de amores pelo primo Severo, menino tímido de sorriso largo, que, quando homem feito tem planos de estudar na cidade e trabalhar nas sua própria terra. Bibiana, então com dezasseis anos, ouvia-o embevecida «… nunca havia conhecido ninguém que me dissesse ser possível uma vida além da fazenda». Então, um dia, «naquela terra mesmo, entranhada da secura da falta de chuva, deixamos nosso suores para que lhe servisse de alívio», e logo os enjoos passaram a diários e a fuga dos dois para a cidade foi feita no sereno de uma noite.
Os anos passaram, os donos da fazenda mudaram e, para evitar problemas com os homens da lei, passaram a chamar os escravos de trabalhadores e moradores. E Bibiana e Severo regressaram a Água Negra, decididos a lutar pelo direito à terra, melhores condições de vida e emancipação dos trabalhadores.
“Rio de Sangue” é o título do terceiro e último capítulo do livro. Por quê este título e quem é o narrador? Por respeito pela fonte do rio de sangue e lágrimas… nada revelo!

Nos momentos de forte emoção meu horizonte se embota, transbordo para os lados, não consigo reunir o que me compõe.
(Não, não são palavras minhas, mas podiam ser, tão forte era a emoção ao terminar a leitura deste fascinante romance/retrato da ruralidade brasileira no período que se seguiu à abolição da escravatura, no final do Séc. XIX.) Leia-o, por favor!

 

Itamar Vieira Junior nasceu em Salvador, Bahia, em 1979. É escritor, geógrafo e doutorado em Estudos Étnicos e Africanos (UFBA), com pesquisa sobre a formação de comunidades quilombolas no interior do Nordeste brasileiro. Publicou a colectânea de contos "A Oração do Carrasco" (2017), finalista do prestigiado Prémio Jabuti de Literatura. 

(Foto do escritor tirada da net.)

09 julho, 2019

À terça - imagens e palavras: "ruínas"

 

“Não há ruínas mais comoventes do que os rostos.”


Bruno Vieira Amaral, escritor português (1978-), in “Manobras de guerrilha”, Ed. Quetzal, 2018
(Foto da net.)

05 julho, 2019

Personagens de romances que gostei de ler (2)

Brodeck é escrivão numa aldeia perdida algures em inóspitas montanhas. Elabora relatórios para a Administração sobre o estado da flora, das árvores, das estações, da caça, da neve, das chuvas...
A vida fluí calma na pequena aldeia, até ao malogrado dia em que a guerra ali chega. Enquanto alguns habitantes tentam agradar ao invasor, Brodeck reage com passividade e, por isso, é deportado para um campo de concentração.
Quando a guerra termina o Cão Brodeck (era assim que lhe chamavam os guardas do campo) regressa a casa e ao seu trabalho de escrivão, com a concordância de todos os habitantes que expiavam a culpa do colaboracionismo com o inimigo.
Vem diferente, isola-se, faz grandes passeios e não procura a companhia dos homens da aldeia, que «têm a cabeça cheia de selvajaria e de imagens de sangue». Homens tolos, falsos puritanos, que cometerão o pior dos crimes sobre um estrangeiro que escolheu aquela aldeia para viver, um homem cordial e educado, que ocupa o tempo em longas e solitárias caminhadas, e a retratar a aldeia e os seus habitantes. Habitantes que não gostam dos seus modos estranhos, muito menos de se verem retratados por ele, e o matam, perante a passividade das autoridades.
Brodeck, o único habitante da aldeia que sabe trabalhar com as palavras, tem de elaborar um relatório oficial que branqueie o crime, sem procurar o que «não existe, ou já não existe». Aceita, contrariado e amedrontado.
À medida que escreve o relatório oficial – sempre controlado, espiado, cercado - escreve outro onde intercala na história do homem misterioso (nunca lhe perguntaram o nome e ele falava pouco, muito pouco) factos da sua própria vida. E desvenda segredos sombrios, escondidos em cada pessoa, pedra, casa, rua, árvore, daquela aldeia, onde não há inocentes. Aldeia que um dia ele também escolheu para viver. Só que nesse tempo, ninguém tinha medo de estrangeiros e foi bem recebido. Agora, o medo transformava os homens. Brodeck sabia-o. Aprendeu no campo de concentração. 
Finalizado o relatório, o seu relatório não o oficial, o escrivão entrega-o ao presidente da Câmara que depois de o ler lhe transmite: «escreves bem, Brodeck, não nos enganámos quando te escolhemos…mas tudo o que pertence a ontem pertence à morte, e o que importa é viver… é tempo de esquecer ... os homens precisam de esquecer.»
E logo, logo, Brodeck tem de fugir da aldeia. Por quê?
Eu sei! Saiba também, “ouvindo” Brodeck, narrador-personagem inesquecível de "O Relatório de Brodeck", brilhante romance de Philippe Claudel.
... às vezes é preferível não voltarmos à terra de onde partimos. Lembramo-nos do que deixámos, mas nunca se sabe o que iremos encontrar, sobretudo quando os homens foram atingidos por uma loucura duradoura.
Philippe Claudel é um escritor extraordinário. É dele "Almas cinzentas", um romance em jeito de thriller , que  se lê e dificilmente se esquece. Veja por quê:
"Inverno de 1917. Numa pequena povoação da Lorena, a poucos quilómetros do campo de batalha onde decorre uma das maiores carnificinas da história da Europa,  é descoberto o cadáver de "Lírio-do-Vale", uma menina de dez anos." 
Um jovem é acusado da morte da criança e executado, ainda que uma testemunha diga que a viu com o Procurador da terra na noite do crime
Sem condenar nem julgar alguém, mas sempre duvidando da culpa do jovem executado, o polícia da aldeia investiga e descobre que a verdade é indesejada quando os poderosos da terra estão envolvidos, e que existe algo mais forte do que o ódio: as regras sociais.
Vinte anos depois,  ele relembra o dia do crime e os acontecimentos que o precederam e que se lhe seguiram. «Não sei bem por onde começar. É bastante difícil. Há todo esse tempo passado, que as palavras não recuperarão, e também os rostos, os sorrisos, as chagas. Mas ainda assim preciso de tentar dizer. Dizer o que me vai no coração....»
E diz, diz tudo nesta história que "termina com a tomada de consciência de que, na fronteira entre o bem e o mal, todos somos a um tempo culpados e inocentes, justos e injustos, almas cinzentas e atormentadas.”
Tenho de voltar a procurar nas livrarias a escrita perfeita, meticulosa, surpreendente, viciante de Philippe Claudel.
Se não a conhece, não sabe o que perde!

(Foto do escritor tirada da net.)

02 julho, 2019

À terça: imagens e palavras: "noite"



"Pudesse esta noite durar
não uma mas duas noites inteiras..."



Versos de Eugénio de Andrade, poeta português (1923-2005), in "Poesia e Prosa 1940-1986 - II Vol.", Ed. Círculo de Leitores, 1987
(Foto da net.)


Fui e voltei... cheia de saudades vossas!!!

21 junho, 2019

"ABAT-JOUR" - poema de Paul Géraldy

Você pergunta porque eu fico sem falar...
Porque este é o grande instante em que
existe o beijo e existe o olhar,
porque é noite... e esta noite eu gosto de você!
Chegue-se bem a mim. Eu preciso de beijos.
Ah! se você soubesse o que há, esta noite, em mim
de orgulhos, ambições, ternuras e desejos!...
Mas, não, você não sabe, e é bem melhor assim!
Abaixe um pouco mais o abat-jour! Está bem.
É na sombra que o coração fala e repousa:
tanto mais os olhos se vêem,
quanto menos se vêem as cousas...
Hoje eu amo demais para falar de amor.
Venha aqui, bem perto! Eu queria
ser hoje, seja como for,
aquele que se acaricia...
Abaixe ainda mais o abat-jour. 
Vamos ficar sem dizer nada.
Eu quero sentir bem o gosto
das suas mãos sobre o meu rosto!...
Mas quem está aí? Ah, é a criada
que traz o café... Não podia
deixar aí mesmo? Não importa!
Pode ir-se embora!... E feche a porta!...
Mas o que é mesmo que eu dizia?
Quer... agora o café? Se você preferir...
Já sei: você gosta bem quente.
Espere um pouco! Eu mesmo é que quero servir.
Está tão forte!... Assim? Mais açúcar? Somente?
Não quer então que prove por
você?... Aqui está, minha adorada...
Mas que escuro! Não se enxerga nada...
Levante um pouco esse abat-jour.

Poema de PAUL GÉRALDY, dramaturgo e poeta francês (1885-1983)
Tradução de Guilherme de Almeida, advogado, jornalista, poeta e tradutor brasileiro (1890-1969)


Comecei por escolher imagens de amantes enlaçados, beijos, carícias e desejos... e acabei por publicar abat-jours. 
"Chegue-se bem a mim" e eu digo-lhe porquê!

(Fotos da net.)

Vou ali e já volto!!!


18 junho, 2019

À terça: imagens e palavras: "medo"




“Costuma dizer-se que tememos o desconhecido. Por mim, julgo que o medo surge quando um dia passamos a saber o que ainda na véspera ignorávamos.”


Philippe Claudel, escritor francês (1962-), in “Almas cinzentas”, Ed. ASA, 2004
(Foto da net.)

14 junho, 2019

Viajando e aprendendo: Resorts - dicas e sugestões!


Entre viagens mais voltadas para a descoberta de outros lugares, pessoas e culturas, feitas normalmente em grupo e com guia turístico, gostamos de escapadinhas para resorts em lugares paradisíacos, onde pouco mais fazemos que relaxar, conversar, ler, mergulhar no mar e nas piscinas, e rir muito, de tudo e de nada.
Gosto de andar todo o dia de chinelos, fato de banho e saídas de praia e caprichar à noite na maquilhagem e toilette. Geralmente começamos a noite no bar do hotel, jantamos num dos vários restaurantes, assistimos a algum espectáculo de música ou dança, passeamos e regressamos «cansados» ao quarto. Da discoteca fugimos sempre.
Resorts são, por norma, estâncias turísticas localizadas longe dos centros urbanos, razão pela qual garantem aos hóspedes comodidade, comida e bebidas (a qualquer hora do dia), actividades recreativas (ginástica dentro e fora da piscina, jogos, música, dança), desporto ao ar livre, ginásio, restaurantes informais e formais/cozinhas do mundo, que exigem reserva prévia (nós escolhemos e reservamos logo à chegada ao resort um restaurante diferente para cada jantar), muita animação.
Nós, sempre que possível saímos do resort. Num dia completo, ou apenas parte do dia,  em excursão organizada visitamos uma cidade próxima, ou apenas os dois num táxi do resort, vamos mergulhar no mar de uma praia próxima. O custo com qualquer saída do resort  nunca está incluído no pacote “all-inclusive”.
Lugares há em que é desaconselhada qualquer saída do resort. Jamaica foi um desses lugares. Visitar a violenta capital Kingston, jamais! 
O meu gosto por resorts resultou de uma primeira experiência fantástica. Outras se seguiram e, felizmente, o gosto tem aumentado. Confesso, sou adepta de resorts! Não é pelo "all inclusive" pois eu como pouco e bebo menos (comigo têm lucro), é por ter no mesmo lugar tudo o que gosto de usufruir nas férias: praia, piscina, actividades recreativas e muita diversão. Mais adeptos do que eu só os americanos. Porquê? Hum, hum... tente descobrir!
Em 2007,  estivemos no Vila Galé Marés Resort, localizado na praia de Guarajuba, Bahia - Brasil.
É pequeno, mas charmoso e a localização perfeita.
Saímos duas vezes: passámos um dia nas belas praias do Impassai e do Forte; outro em Salvador da Bahia (a 60 km do resort), onde visitámos algumas das muitas igrejas da cidade e percorrermos a pé o centro histórico, testemunho do Brasil colonial, Património Mundial da Humanidade.
Foi a nossa primeira experiência em resorts e gostei muitíssimo! Gostei tanto que voltaria todos os anos, mas... há outros para conhecer, diz o maridão.  Tem razão!









Em 2008 voámos para Cancun-Riviera Maya, no México. Ficámos instalados no  Ocean Coral & Turquesa Resort, um resort excepcional no Mar das Caraíbas. Recordo-me dos muitos mergulhos nas águas cristalinas, das muitas e animadas actividades recreativas e da excelência dos 6 restaurantes de cozinha italiana, caribenha e tradicional mexicana. Foi lá que aprendi a reservar os restaurantes logo à chegada ao resort.
Fizemos duas visitas: Chichén Itzá (a cerca de 200 km de Cancun), a cidade-templo construída pela civilização maia, considerada em 2007 uma das novas Sete Maravilhas do Mundo; Xel-Há (a cerca de 123 km de Cancun) um  impressionante parque aquático, conhecido como o maior aquário natural do mundo.
Em 2012 fomos até ao mar do Caribe e ficámos no Club Rotel Riu Ocho Rios, Ocho Rios, St. Ann - Jamaica.
De lá saímos para ir a uma feirinha próximo. Mas nem a extrema simpatia dos vendedores, nem o acessível preço dos "recuerdos" travaram o meu treme-treme no pouco tempo (que pareceu muito) que por lá andei.
Em 2015, o destino foi o Club Hotel Riu Funana, na Ilha do Sal - Cabo Verde.
Desta vez contámos com a companhia do meu filho, nora e da neta Carolina (a Madalena não era  nascida). Foi maravilhoso!
Num jipe demos a volta à ilha. E gostei do que vi em Ponta Preta, Murdeira, Monte Leão, Palmeira, Santa Maria e, claro, Espargos a maior cidade da Ilha do Sal.
Gostei da simpatia do pessoal do hotel, da excelente comida servida em vários restaurantes, da diversão diária, de aprender os passos básicos do funaná.
Não gostei do vento à noite, da água fria da piscina, do mar gelado e agitado. Ali banho só tomei de chuveiro. Verdade!
Não sei se voltarei a Cabo Verde...


Em 2018, festejámos o 70º aniversário do maridão no  fantástico resort Luxury Bahia Príncipe,  em Punta Cana - República Dominicana. 
Dentro do resort - uma bem organizada pequena cidade cheia de hóspedes e funcionários super simpáticos - há sete hotéis, totalmente independentes uns dos outros. É enorme mas ao segundo dia já não se estranha, antes se entranha. Para mim, é um amor p'rá vida toda.
Nós ficámos no Luxury Bahia Ambar Blue, hotel para adultos, mas tínhamos acesso aos equipamentos dos restantes hotéis. E conhecemos tudo!
Saímos deste magnífico resort para uma visita guiada a Santo Domingo, a encantadora capital e maior cidade da República Dominicana. Prometo um dia partilhar mais detalhes sobre esta visita.
Gostei muito da República Dominicana e deste resort em particular. Farei todos os possíveis e impossíveis para lá voltar. Haja saúde!
Curiosidades: cerca de 8.000 hóspedes por semana (não se dá por eles), durante todo o ano; 2.500 funcionários; 80% do que é servido no hotel (e que bom era tudo!) é produzido no país. Surpreendente, não?!
Se nunca esteve num "resort all inclusive", escolha um e compre já a viagem.
Na mala leve fatos de banho, saídas de praia, túnicas, shorts, chinelos, saco de praia (sem toalha dentro), toilettes para a noite, sandálias, um agasalho, artigos de higiene, protector solar, óculos de sol, livros e... basta!
Brinde à vida!

(Mais fotos das viagens ao Brasil, Cabo Verde e México aqui. Fotos da Jamaica e República Dominicana... um dia também lá estarão.)

11 junho, 2019

À terça - imagens e palavras: "paraíso"




“O Paraíso é o espaço que ocupamos no coração dos outros”.


JOSÉ EDUARDO AGUALUSA, escritor angolano (1960), in “Teoria Geral do Esquecimento” (2012), Ed. Quetzal, 2018
(Foto da net.)

07 junho, 2019

O que ando a ler devagar? Uma fotobiografia de Gandhi!

Se “já tanto foi escrito sobre Gandhi”, se “Gandhi é visto e revisto, analisado e interpretado de diferentes maneiras em cada década aproximadamente” o que trás de novo este livro?
Factos reais, detalhes surpreendentes e fascinantes da vida de Mohandas Karamchand Gandhi, "porventura o maior estadista da história, um líder nato e um revolucionário, um homem de extraordinária coragem e visão, mas também alguém que estava muitas vezes em conflito com os seus próprios ensinamentos, em conflito com os líderes e estadistas com quem trabalhava ou negociava, e em conflito com muitos aspectos da própria pessoa, sobretudo enquanto pai e marido”.
Numa narrativa cronológica cuidada, suportada em inúmeras fotografias, impressos, manuscritos  e documentos, este livro acompanha a vida de Gandhi, desde o seu nascimento, em 1869, até ao seu assassínio em 1948.
Da escola ao casamento precoce, da vida em Londres à  luta pela libertação do jugo britânico, tudo aqui é mostrado, analisado, comprovado. Nem o estranho relacionamento que teve com a família e amigos escapou ao olhar perspicaz do editor-escritor Pramod Kapoor.
Porque compartilhar tudo não posso, nem devo, deixo para reflexão algumas frases do estadista, retiradas do livro.
Gandhi, 1883
Gandhi casou, quando ainda não tinha 13 anos, com Kasturba, da mesma idade. Escreveria mais tarde: «duas crianças inocentes atiradas, contra sua vontade, ao oceano da vida».
Gandhi, 1909
«Mesmo uma política torta se endireitará se nos mantivermos fiéis a nós próprios.»
Gandhi, 1915
«A força física não é nada comparada com a força moral... esta nunca falha.»
Gandhi, 1930
«Um pequeno grupo de almas determinadas movidas por uma fé inextinguível na sua missão pode alterar o curso da história.»


Gandhi, 1948
«Para falar verdade, a morte é a eterna bênção de Deus. O corpo está gasto tomba e o pássaro que o habita voa para longe. Desde que o pássaro não morra, a questão da mágoa não se põe.»
Fotos  minhas, tiradas no exterior e interior  do museu, biblioteca e centro de pesquisa "Mani Bhavan", 
a residência de Gandhi em Mumbai, de 1917 a 1934.

Compre este livro arrebatador, delicado e cheio de detalhes  surpreendentes e leia. Rápido ou devagar, leia!
Este, ofereceram ao maridão mas eu li primeiro, e anotei, e sublinhei. Ele não se zangou!

(Restantes fotos da net.)

06 junho, 2019

Surpresa boa!


O intercomunicador tocou e o carteiro avisou que tinha uma envelope para me entregar em mão. Hum, pensei, não deve ser coisa boa!
Enganei-me! O envelope veio de muito longe e trazia dentro uma surpresa boa e encantadora feita de amizade, carinho, flores de todas as cores, fotos, versos, citações e um «Buquê de Sorriso» da amiga remetente:

Viver e sorrir,
Amar e florir,
Doce enternecedor,
O mel aspergir,
A vida viver,
Feliz  sempre ser,
Nunca agredir,
Primavera resplandecer! 

Obrigada querida Roselia, por este miminho colorido e perfumado que derreteu meu coração.

04 junho, 2019

À terça - Imagens e palavras: "silêncio"







"... é mais fácil falarmos em silêncio se nos falta 
o que dizer."


Afonso Reis Cabral, escritor português (1990-), in “Pão de Açúcar”, Ed. D. Quixote, 2018
(Foto da net.)

03 junho, 2019

Agustina Bessa-Luís (1922-2019)



"Voltamos sempre ao local de partida.”
Afastada da vida pública há mais de uma década por razões de saúde, Agustina Bessa-Luís faleceu esta madrugada, aos 96 anos, na sua casa do Porto.
Estreou-se como romancista em 1948, com a novela “Mundo Fechado”, mas seria o romance “A Sibila”, publicado em 1954, a trazer-lhe sucesso e reconhecimento.
Deixa uma obra vasta e variada, com mais de uma centena de títulos, entre romances (alguns adaptados ao cinema pelo realizador Manoel de Oliveira), contos, biografias, peças de teatro, crónicas, memórias, ensaios.
Agustina Bessa-Luís, uma voz grande da literatura portuguesa contemporânea, foi distinguida com inúmeros prémios, nomeadamente com o Prémio Camões,  em 2004.

“Nasci adulta, morrerei criança.”
Li desta excepcional prosadora:
SIBILA, (1954); FLORBELA ESPANCA; (1976)ADIVINHAS DE PEDRO E INÊS; (1983)VALE ABRAÃO, (1991); AS TERRAS DO RISCO, (1994); SANTO ANTÓNIO, (1993); MEMÓRIAS LAURENTINAS, (1996); JÓIA DE FAMÍLIA, (2001).
Escrevi sobre todos eles aqui no "Rol de Leituras" e levei algumas frases para o "Pétalas de Sabedoria". Pétalas aveludadas e perfumadas, como estas:

"O amor é como um lenço fino, que ao acenar se esfarrapa.”
“O dinheiro paralisa o músculo do riso.”
“A amizade que se quebra e se retoma é como o caldo requentado.”
“Até o sol tem manchas e não deixa, por isso, de brilhar.”

"Eu nunca me levo a sério. É a melhor maneira de viver. Aquele que se leva a sério está sempre numa situação de inferioridade perante a vida."


Leia mais sobre a vida e a obra da escritora aqui.

31 maio, 2019

"Uma viagem pela filosofia em 101 episódios" - Nicholas Rescher

Ao longo da história da filosofia, os filósofos usaram pequenas histórias que ajudam a estabelecer grandes conclusões.
Para esta "viagem" Nicholas Rescher recupera episódios/casos interessantes e representativos de cada período histórico e de todas as áreas da filosofia e mostra-os num livro instrutivo, original, divertido, pensado e escrito para ser lido por eruditos, iniciados no estudo da Filosofia, ou simplesmente interessados nas “grandes questões acerca dos seres humanos, do mundo e do nosso conhecimento dele”.
Os 101 episódios (textos curtos numa linguagem objectiva e simples, seguidos de episódios relacionados e sugestão de leituras complementares) aqui apresentados numa sucessão lógica, coerente, são ao mesmo tempo “uma ocasião para aprender mais acerca do pensamento e a obra dos pensadores que os protagonizaram; e um convite para pensarmos nós mesmos acerca das questões em causa”. Podem ser lidos de seguida ou aos saltos. Eu li o primeiro “A torre de Babel” e logo saltei para os episódios relacionados “O navio de Teseu” e “Os paradoxos da caixa de Aldrich”. Destes saltei para novos episódios relacionados e assim continuei saltando pela história do pensamento filosófico, numa leitura prazerosa e enriquecedora.
Escolhi ao acaso um episódio, o terceiro, sob o título "Os animais teólogos de Xenófanes" para que comprove como a narrativa é informalmente aprazível e cativante .
"Xenófanes de Cólofon (ca. 575-ca 490 a.C.) um sábio dos primórdios da Antiguidade Grega, ficou conhecido na posteridade apenas devido a um punhado de breves citações. A seguinte é entre todas uma das mais destacadas: «Se os bois e os cavalos e os leões tivessem mãos e as usassem para produzir obras de arte como os homens, então os cavalos iriam pintar as formas dos deuses como cavalos e os bois como bois, e fariam os seus corpos à sua própria imagem.» Esta pequena história (...) é um exemplo paradigmático de um modo de lançar um desafio que se tornou extraordinariamente destacado em filosofia: «O que dirias se...?
A suposição de Xenófanes inaugura a doutrina do relativismo: a posição de que a verdade das coisas está nos olhos do observador ou, para ser mais preciso, nos tipos de observadores em questão. (...) põe de pernas para o ar a exposição bíblica da relação homem-Deus. Pois onde a bíblia diz que Deus criou o homem à Sua imagem, Xenófanes, na verdade, diz-nos que o homem concebeu Deus à sua imagem. (...)
Em suma, procurava Xenófanes rebaixar a nossa ideia de Deus, ou elevá-la? (...)"
A filosofia é um campo no qual a resposta a qualquer pergunta fornece materiais para fazer mais perguntas ainda...
Ficou curioso? Leia!

Uma viagem pela filosofia em 101 episódios, de Nicholas Rescher
Tradução de Desidério Murcho
Ed. Gradiva, 2018
362 págs.

28 maio, 2019

À terça - imagens e palavras: "vida"


“Se pensarmos bem, a maior parte do tempo, a nossa vida é experiência de inacabamento e incompletude, é esboço e projecto, é movimento transformante.”


JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA, teólogo e poeta português (1965-)
(Foto da net.)

21 maio, 2019

"Pão de açúcar" - Afonso Reis Cabral

Como é que se vivia assim (…) no fundo de uma cave, no fundo de uma barraca, no fundo da vida.
Quatro anos depois de  “O meu irmão”, romance vencedor do Prémio Leya 2014, Afonso Reis Cabral publica “Pão de Açúcar”, romance que ficciona factos reais: a trágica morte de Gilberta Salece Júnior, brasileira, transexual, sem-abrigo, toxicodependente, com sida e outras doenças.
Em Fevereiro de 2006, os Bombeiros Sapadores do Porto resgataram o corpo sem vida de Gilberta do poço/buraco, com cerca de 10 metros de profundidade, escondido na cave de um prédio inacabado e votado ao abandonado. Nu da cintura para baixo, o corpo apresentava marcas de brutal espancamento.
Semanas depois os órgãos de comunicação social divulgaram que Gilberta foi agredida dias a fio por um grupo de 14 rapazes e atirada ainda com vida para o poço. Rapazes com idades compreendidas entre os 12 e os 16 anos, alguns problemáticos, retirados a famílias negligentes e acolhidos na Oficina de São José, onde o acompanhamento dos jovens não é o melhor.
«O que pode levar pessoas da minha idade, da minha cidade, a fazer isto? E a fazer isto a alguém, desamparado?» pensou incrédulo Afonso Reis Cabral, então com 16 anos, nascido em Lisboa e criado no Porto. O mesmo pensou o país inteiro, em estado de choque.
Dez anos depois do horrendo crime, o autor decide investigar os factos na tentativa de compreender o que realmente se passou na cave do prédio conhecido como “Pão de Açúcar”. Durante mais de um ano pesquisou as vidas da vítima e dos agressores, percorreu as «zonas sujas» da cidade, leu decisões do Tribunal de Família e Menores do Porto, visitou a cave (o edifício continuava abandonado), leu notícias, visionou reportagens, foi a bares, falou com amigos e conhecidos dos rapazes e de Gilberta, esteve dentro da última casa onde ela viveu, percorreu ruas, estudou trajectos. (...) meti-me ao trabalho de campo sem o qual um livro como este não se escreve (...) depois baralhei com ficção, que é como se faz um romance.
Não chegou a falar com os rapazes mas fez deles personagens meticulosamente desenhadas, e para que nada o afastasse da matriz ficcional entregou a narração dos acontecimentos a um protagonista do hediondo crime: Rafael Tiago (Rafa).
Na “Nota antes” (antes do primeiro dos 56 capítulos do romance) o autor engana o leitor (e o leitor permite o engano) quando diz ter recebido uma carta de Rafael  sobre o crime, que começava com «Às vezes, a vida é uma coisa tão bela que choro de ternura e não ligo ao que dizem», ter tido com ele encontros e conversas no Porto, e que num deles lhe prometeu: «A história é tua, como se fosses tu a contá-la, mas eu escrevo-a por ti».
Rafael, 12 anos, foi o primeiro rapaz a ver Gilberta (Gi), 45 anos,  na cave onde ela doente e sozinha sobre(vivia). Chocado com a aparência dela, o desamparo em que vivia na barraca que «fedia», voltou muitas vezes, com comida, água e tudo o que conseguia pilhar no trajecto da Oficina-"Pão de Açúcar". Tornaram-se amigos e até confidentes. Ela era um segredo apenas seu, não o partilharia com os amigos. 
Mas o dia chegou em que ele o partilhou e... na escuridão da cave seres humanos comportaram-se como monstros.
… os lugares certos na vida são os lugares errados. Como na cave, ao lado de Gi.

Romance totalmente conseguido, ficção de uma história real com final infeliz.
Recomendo!

Pão de Açúcar, de Afonso Reis Cabral
Ed. D. Quixote, 2018
251 págs.

À terça: imagens e palavras: "gato", "cavalo", "porcos" e "cães""

“Deus ao criar o rato disse: já fiz asneira! E tratou de criar o gato, logo, o gato é uma errata do rato.”

VICTOR HUGO, escritor francês (1802-1885)



"Não se aproxime de uma cabra pela frente, de um cavalo por trás ou de um idiota por qualquer dos lados."

Provérbio judeu.
(Foto do amigo A. Gomes.)








“Gosto de porcos. Os cães olham-nos de baixo, os gatos de cima. Os porcos olham-nos de igual para igual.”

WINSTON CHURCHILL, político e estadista inglês (1874-1965)








“Os cães são o nosso elo com o paraíso. Eles não conhecem a maldade, a inveja ou o descontentamento.”

MILAN KUNDERA, escritor checo (1929-)

(Fotos 1-3 e 4 da net.)

17 maio, 2019

"Poema em linha recta" - Fernando Pessoa

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe — todos eles príncipes — na vida…
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
Versos de Álvaro de Campos, heterónimo de Fernando Pessoa (1883-1935)

(Primeiros versos de Fernando Pessoa, a quadra "À minha mãe", escrita em Julho de 1895.)

Sabia que (10):
1930 – (Fernando Pessoa  vive um) intenso período de criação heteronímica.
1931 – Escreve uma extensa carta a João Gaspar Simões na qual teoriza as suas opiniões quanto à «ficção» em literatura, manifestando um substancial e irónico desacordo em relação às teorias freudianas.
1932 – Em Setembro concorre com insucesso a um lugar de conservador-bibliotecário no Museu-Biblioteca Condes de Castro Guimarães, em Cascais.
Em Novembrp publica em «Fama», dirigida por Augusto Ferreira Gomes, o artigo O Caso Mental Português.
1933 – Atravessa outra profunda crise psicológica, mas não desiste do trabalho, nem do trabalho literário.
1934 – Publica Mensagem e concorre com este volume ao prémio «Antero de Quental» do Secretariado de Propaganda Nacional. É-lhe conferido o prémio Categoria B, por uma pretextuosa questão de número de páginas.
1935 – Em Janeiro escreve uma extensa carta a Adolfo Casais Monteiro na qual explica a génese da heteronímia. Publica no «Diário de Lisboa» (4 de Fevereiro) o artigo Associações Secretas contra uma proposta de lei apresentada à Assembleia Nacional para a abolição das sociedades secretas e na qual é visada sobretudo a Maçonaria.
No dia 29 de Novembro é internado no Hospital de S. Luís dos Franceses onde lhe é diagnosticada uma cólica hepática. A sua última frase, escrita a lápis, é em inglês. Diz: «I know not what tomorrow will bring.»
Morre no dia 30, às 20.30. É enterrado a 2 de Dezembro, no Cemitério dos Prazeres, no jazigo de sua avó, D. Dionísia Seabra Pessoa.”
("Fernando Pessoa, uma fotobiografia", de Maria José de Lancastre).

Não sabia? Eu também não!
O que importa é que agora sabemos mais sobre a vida  do poeta do desassossego. TUDO, nunca saberemos.
«I know not what tomorrow will bring.»



(Fotos da net.)