24 janeiro, 2020

Espaço dos amigos (1): poemas da Graça, olhares da Gracinha!

Graça e Gracinha são duas amigas da blogosfera que eu admiro muito.
A Graça, pela sensibilidade poética e beleza dos versos que falam de amor, solidão, mar, pássaros, casas, lugares da infância, das «coisas da vida», como ela diz.
A Gracinha, pelo perspicaz olhar fotográfico, garra de viajante incansável, generosa partilha de momentos seus. Com ela já «olhei» lugares belíssimos de Portugal, e elaborei roteiros para próximos passeios meus.

(Gracinha, foto publicada dia 11/12/2019 )

Foram embora os pássaros.
Foram embora,
procurando um tempo
onde a luz deflagre em suas asas.
O seu inevitável regresso 
há-de acompanhar
a rotação dos ventos.
E quando, nos seus ombros, 
nenhum excesso de solidão
me mutilar os braços,
eles hão-de chegar, de novo,
como um incêndio.
Os pássaros.
(In "Uma extensa mancha de sonhos", 2008)

(Gracinha, foto publicada dia 24/11/2019 )

Gosto de objectos geométricos desenhados
a compasso por mãos intransigentes.
A multiplicidade dos traços povoa
e despovoa a beleza dos lugares
que nos pendem como se fôssemos árvores.
Preciso e exacto será o momento
 em que regressaremos ao silêncio
com passos de cinza.
Calados nos hão-de vigiar os deuses e os homens.
(In "O silêncio: Lugar habitado", 2008)

(Gracinha, foto publicada dia 31/10/2018)

Desenrola-se em nossos olhos
a vertigem transparente
que agride o declínio do dia
quando a lua se encosta nos vidros
e temos o nevoeiro da espera colado nos sonhos.
Há muito que sabemos como é intocável a luz
do orvalho na raiz da mágoa.
Palavras em estilhaços flutuam sobre os móveis
como fantasmas ou como as fadas
da mais antiga infância.
Respiramos devagar o sopro errante do vento.
(In "A incidência da luz", 2011)

A escolha dos poemas e olhares para esta publicação não foi tarefa fácil: todos os poemas da Graça merecem destaque; as centenas de fotos da Gracinha também.
Para quem ainda não as conhece, deixo aqui os seus cativantes blogues:
Graça - http://ortografiadoolhar.blogspot.com/
Gracinha - https://crocheteandomomentos.blogspot.com/

"O fotógrafo tem a mesma missão do poeta: eternizar o momento que passa."
Mário Quintana, poeta brasileiro (1906-1004).

Obrigada, amigas!

17 janeiro, 2020

"O papagaio de Flaubert" - Julian Barnes


O artista deve conseguir fazer a posteridade acreditar que nunca existiu. (Flaubert)
O papagaio de Flaubert”, publicado originalmente em 1984, foi o primeiro grande sucesso literário de Julian Barnes, escritor inglês vencedor do Man Booker Prize 2011, pelo romance “O sentido do fim”.
Reeditado pela Quetzal há dois meses, foi a minha última leitura de 2019. E, porque aprendi muito sobre Gustave Flaubert (1821-1880), autor de “Madame Bovary” (por muitos considerado «o romance dos romances») e me diverti com o palavreado desempoeirado do narrador protagonista (a voz do escritor), escolhi-o para primeira postagem sobre livros, de 2020.
Trata-se de um romance fascinante sobre literatura, escritores, crítica literária¸ arte, talento, ficção e realidade; sobre política, morte, amor, amizade, ciúme, adultério, dedicação, solidão, loucura, família; sobre vestidos de mulher, beleza, estilo, compotas de groselha, comboios, animais, e muito, muito mais.
Vou ser um rei, ou apenas um porco? (Flaubert)
Geoffrey Braithwaite (narrador protagonista) - médico inglês reformado, viúvo recente -, viaja para a terra natal de Gustave Flaubert com a intenção de ver o papagaio embalsamado que o romancista manteve na sua mesa de trabalho enquanto escrevia “Um Coeur Simple”, e que serviu de modelo para Lulu, o papagaio de Félicité, a personagem principal do conto. «Félicité + Lulu = Flaubert?»
Após a viagem, Braithwaite (biógrafo amador) atenua a solidão recolhendo dados sobre a vida, obra e época de Flaubert, seus desfeitos, manias, tiques, segredos, vaidades e medos. Assim preenche as horas de solidão. «Os livros não são a vida, por mais que gostássemos que fosse.»
Atraio os loucos e os animais. (Flaubert)
O resultado é este ensaio/biografia/romance genial sobre Gustave Flaubert. Uma mistura encantadora de realidade com ficção. Duas histórias de vida: do biografado e do biógrafo. Duas histórias de amor: entre Flaubert e Louise Colet; entre Braithwaite e a mulher Ellen. Um repositório fantástico de citações de Flaubert, de outros escritores e pensadores. Uma narrativa alucinante e confusa, mas ao mesmo tempo harmoniosa, feita de histórias desconexas (parecem), humor e sátira, que me manteve interessada  e divertida da primeira à última página.
Este é um livro incomum, impossível de resumir. Um livro sedutor que terminei  de ler e logo me apeteceu reler.
“Um entretenimento literário levado a cabo com muito brio”, (The New York Times Book Review).

Levar a vida a sério será magnífico ou estúpido? (Flaubert)

(“Flaubert ensina-nos a olhar para a verdade e a não temer as suas consequência; ensina-nos, como Montaigne, a dormir na almofada da dúvida; ensina-nos a não nos aproximarmos de um livro em busca de pílulas morais ou sociais; ensina a superioridade da Verdade, da Beleza, do Sentimento e do Estilo. E, se estudarmos a sua vida privada, ensina a coragem, o estoicismo, a amizade; a importância da inteligência, do ceticismo e da imaginação; a palermice do patriotismo barato; a virtude de ser capaz de ficar sozinho no quarto; o ódio à hipocrisia; a desconfiança nas teorias; a necessidade de falar com simplicidade.”) 

Recomendo, claro!
(Agora... vou reler "Madame Bovary".)

"O papagaio de Flaubert", de Julian Barnes
Tradução de Ana Maria Amador
Quetzal Editores, 2019
247 págs.

10 janeiro, 2020

O meu primeiro bloqueio criativo de 2020!

Tentei, acreditem que tentei!
Passei horas e horas e horas à procura de um tema para primeira publicação de 2020, e nada surgiu!
Passei horas e horas e horas à frente do computador, e nem uma só palavra me motivou a completar uma frase.
Passei horas e horas e horas a seleccionar um romance, mas nenhum me pareceu apropriado para ser o primeiro do novo ano. Sim, porque este novo ano é «especial» por ser o primeiro da segunda década do século XXI. Há poucos dias mudámos de ano e de década! (Terá tanta mudança desordenado o meu pensamento? Adiante!)
Dos romances saltei para a poesia e mais uma vez gastei horas e horas e horas à procura do poema, o tal, o primeiro, mas nada!
E frases? Frases reli dezenas, talvez centenas, mas não, nenhuma tinha o brilho especial que eu procurava. 
O que fazer? Melhor dizendo, o que não fazer? Stressar! Se bloqueei sem motivo algum (ando calma, calmíssima) logo, logo, irei desbloquear.
Enquanto espero (sentada, não vá a inspiração demorar), desvendo dois ou três pormenores do meu Natal e passagem de ano.

Celebrámos o Natal no Porto, e tudo correu maravilhosamente bem!
Como eu previa foi uma festa! Uma festa docinha, de família! Um festa de muita harmonia, amor e felicidade. Como se mede a felicidade? Não sei! Mas sei, porque sinto, que duas gotinhas de vida (as minhas netinhas lindas) inundaram de felicidade o meu coração de avó.
(Évora, foto da net)
A passagem do ano foi no Alentejo. No hotel Vila Galé Évora (lindo, aconselho para uma escapadinha de fim-de-semana) fizemos a festa, eu, o maridão e mais 308 desconhecidos. Numa mesa de dez pessoas, as restantes oito logo se fizeram conhecidas e a festa animou e durou até de madrugada. 
Foi pois entre desconhecidos, mesa farta e muita música pimba (a sério!) que eu «pulei» do ano velho para o ano novo, do alto duns saltos demasiado altos para tamanha animação.  Penei, claro!
Gostei? Gostei,  mas isso agora não interessa nada. Já é passado!
(Aldeia da Serra d'Ossa, foto da net)
No último dia do ano saímos da confusão das ruas de Évora e fomos almoçar ao emblemático restaurante "O Chana" (do Bernardino), na Aldeia da Serra d'Ossa, a cerca de 8 km do Redondo.
Num espaço acolhedor e com um serviço simpático, degustámos genuína comida alentejana. Do bom pão alentejano, azeite, azeitonas, queijo de ovelha curado, fígado de coentrada (entrada), à sopa de cação, cozido de grão,  sericaia com ameixa de Elvas, farófias, tudo estava divinal! Até o licor de poejo,  oferta da casa no fim do repasto.
(Não pedimos a especialidade da casa, a Sopa de Tomate, servida com farinheira, linguiça, entrecosto, lombo, bacalhau e ovo escalfado. Está a imaginar?)
Fotografei alguns dos petiscos que provámos, depois de autorizada pelo proprietário, o simpatiquíssimo senhor Bernardino. 
Se é apreciador da aromática comida alentejana (coentros, hortelã, poejos, orégãos, não podem faltar), um dia que se proporcione vá almoçar ao restaurante  "Chana". Reserve antes, não esqueça! Depois, diga-me o que achou. Eu, sem quaisquer dúvidas, voltarei.
Em Évora o nosso restaurante de eleição é "A Tasquinha do Oliveira" (estava fechado para férias). Não conhece? Acredite é: fabuloso!
Esqueça o "Fialho". A "Tasquinha do Oliveira" é mil vezes melhor!
Como a inspiração continua a não aparecer, vou devorar (agora apenas com os olhos) uma das minhas sobremesas preferidas: Sericaia com ameixa de Elvas!
Cada fatia tem (?) calorias! A sério que não não sei quantas são. Nem quero saber!
Digam lá se não é uma beleza? Devorei-a! E ainda provei as farófias, pois então!
No último dia do ano todos os excessos (gastronómicos) são permitidos!

(Uma das minhas resoluções para 2020: ignorar a balança!)

BOM ANO, docinho q.b.!

20 dezembro, 2019

FESTAS FELIZES com alegria, paz e harmonia!
















"Onde foi parar a alegria do mundo?”
(Rosa Montero, in "Instruções para salvar o mundo")


O PAPA FRANCISCO ESCOLHE O TÓPICO DA ALEGRIA PARA TRAÇO MAIOR DO SEU PONTIFICADO

"É uma arte difícil, a alegria. Por uma lado, sabemo-la próxima e acessível, como se os nossos dedos pudessem, a cada momento, e sem esforço, alcançá-la. Mas sabemos também como nos escapa, como é precária, dolorosa e inexplicável a alegria. Como nos obriga a procuras extenuantes e a desertos cujo fim não de divisa. Não admira, por isso, que muitos desistam da alegria e se metam a caminhar, vida fora, excluindo-a do seu alforge. A alegria, porém, é uma condição necessária da existência. Sempre que ela nos falta temos de interpretar isso como uma iniludível sintoma, a que é preciso atender. Temos de nos interrogar sobre o porquê do nosso viver burocrático e tristonho, o porquê do nosso passo precocemente anoitecido, do nosso errar entre o peso e a cinza de onde a alegria se ausenta.
Não raro o problema é fazer depender a alegria de motivações acidentais, que nada têm que ver com a sua essência julgamos extrair a alegria do sucesso, da abundância, da força, da afirmação, de eficácia, do poder, mas o tempo encarrega-se de demonstrar o nosso equívoco. Os mestres espirituais ensinam, por exemplo, que a alegria não depende do imediato ou conjuntural: a alegria liga-se às razões profundas do viver. De facto, ela não deve ser reduzida a uma espécie de estado de graça que nos toca em certas estações ou a uma maravilhosa isenção face à turbulência e aos contrastes do mundo. Pelo contrário. Se pensarmos bem, a maior parte do tempo, a nossa vida é a experiência de inacabamento e incompletude, é esboço e é projecto, é movimento transformante."

(Excerto da crónica "A perfeita alegria", de José Tolentino Mendonça, publicada na revista "E", do jornal  Expresso de 23 Fevereiro 2019.)



"Paz e harmonia: eis a verdadeira riqueza de uma família."
(Benjamin Franklin)




Há um ditado que diz: “cada vez que um homem ri aumenta alguns dias à sua vida".
Seja grato pela vida! Ria muito!



QUERIDOS AMIGOS, TENHAM UM NATAL ABENÇOADO 
E UM NOVO ANO ILUMINADO!
Que todos os vossos sonhos se tornem realidade.

Brindemos à Vida, uma sequência de instantes!
Brindemos à Amizade, ao Amor, à Alegria!


Volto dia 10 de Janeiro do novo ano. Até lá, sejam felizes!

(Fotos da net.)

19 dezembro, 2019

INTERAÇÃO FRATERNA DE NATAL


A convite da amiga Roselia participo pela primeira vez na Interação Fraterna de Natal, projecto encantador lançado no seu Blog Espiritual Idade https://www.idade-espiritual.com.br/ e que este ano tem por tema: Minha Noite de Natal.
Lisonjeada, agradecida e «assustada», compartilho a minha participação.
(Gesso pintado a acrílico - Teresa Dias)

Sempre gostei de celebrar o Natal em minha casa e com toda a família: pais, irmã, cunhado, três sobrinhas, marido, dois filhos. Éramos poucos, mas celebrávamos com muito amor e alegria a Festa da Família. Durava dois dias. Dois dias de alguma confusão e muita animação por toda a casa, com maior incidência na cozinha, onde mãe e irmã (duas cozinheiras de mão-cheia) preparavam os doces e salgados e o resto da família só complicava. 
Tudo mudou no ano em que uma cadeira esteve vazia durante toda a celebração: a  do meu pai.
Primeiro foi a minha irmã a não comparecer todos os anos (as filhas cresceram...). Depois os meus filhos, que foram viver para longe: ele para o norte do país, ela para outro país. E depois, uma segunda cadeira vazia : a da minha mãe.
Abalada, no ano passado decidi celebrar o Natal a dois, num hotel sobre o mar (para me animar), a poucos quilómetros de casa. Gostei da experiência? Não! Não gostei, nem recomendo! A passagem de ano já fiz em vários lugares e gosto cada vez mais, mas o Natal... não repetirei! Tendo tudo à disposição, não tinha nada! Foi amargo o meu Natal de 2018.
Este ano vou passar o Natal a casa do meu filho, junto das minhas netas, nora e família. Alegria irá haver muita, tenho a certeza. E amor.  E harmonia. E luz. E beijos e abraços. E doces e salgados. E prendinhas. E cantigas. E birras, claro, da mais pequenina.
O Pai Natal foi convidado. Vai ser uma festa!
(Fugi ao tema? Me desculpe, amiga!)

(Foto da net.)

"O Natal que eu sonhei tinha canduras suaves,
Ingenuidades cristãs, legendários amores.
Poisavam-lhe, cantando, umas divinas aves,
Caíam-lhe do céu umas divinas flores.
O Natal que eu sonhei, relumbrante de luzes,
De almas imemoriais pela casa a passar,
Encobrindo no manto as minhas negras cruzes,
Para que a Paz e o Amor viessem ao meu lar!...
Mágica evocação dum mundo branco e loiro,
Infância toda envolta em nevoeiros dispersos,
Onde o sol de Dezembro entorna um raio d'oiro,
E em cuja Árvore de luz poisam meus versos!..."
(Excerto do poema «NATAL» de Júlio Brandão (1869-1947)

(Foto da net.)

13 dezembro, 2019

Árvores e Poemas de NATAL..."up-to-date"!


NATAL UP-TO-DATE
Em vez da consoada há um baile de máscaras
Na filial do Banco erigiu-se um Presépio
Todos os pastores são jovens tecnocratas
que usarão dominó já na próxima década

Chega o rei do petróleo a fingir de Rei Mago
Chega o rei do barulho e conserva-se mudo
enquanto se não sabe ao certo o resultado
dos que vêm sondar a reacção do público

Nas palhas do curral ocultam microfones
O lajedo em redor é de pedras da lua
Rainhas de beleza hão-de-vir de helicóptero
e é provável até que se apresentem nuas

Eis que surge no céu a estrela prometida
Mas é para apontar mais um supermercado
onde se vende pão já transformado em cinza
para que o ritual seja muito mais rápido

Assim a noite passa E passa tão depressa
que a meia-noite em vós nem se demora um pouco
Só Jesus no entanto é que não comparece
Só Jesus afinal não quer nada convosco
(David Mourão-Ferreira, 1927-1996)


O ESPÍRITO DO NATAL
Ano após ano em Dezembro a
árvore artificial
deixa o encerro da cave para ser
a luz no frio. É um pinheiro da China. Quem
se deitar a fazer contas ao ágio
dessoutro negócio
(vinte e quatro mil escudos: já
lá vão nove invernos) a
coisa 
está mais ou menos por
dois contos e tal
o natal. Mau grado à sua copa (inerte
e inodora) falte
o olor a caruma dos natais da minha infância
nela escudo a floresta que ficou por abater
todo um mundo de plástico que
me sobreviverá.
(João Luis Barreto Guimarães, 1967-)


ORATÓRIA DO NATAL CÓSMICO
Natividade. Um deus rompe e sai 
sai da terra no romper da haste
seu presépio é uma flor de urânio
a vaca, tractor branco
o burro, um guindaste

carpinteiro de astronaves seu pai

reis magos em nuvem supersónica

harpas electrónicas

e o anjo que ao sol despia
o resplendor, as asas e o véu
às gentes descrentes anuncia:

- quando ele volta, livre, do cosmos
deuses morrem à míngua de céu
(Luís Veiga Leitão, 1915-1987)


Retirei os poemas do livro "NATAL... NATAIS", a Antologia de Vasco Graça Moura que reúne oito séculos de poesia  em língua portuguesa relativa ao Natal
Inclui 202 textos de 130 poetas. "Inicia-se com Afonso X, o Sábio, cujas Cantigas de Santa Maria foram escritas em galego-português no século XIII, e termina com Rui Lage e Pedro Sena-Lino, poetas que começaram a publicar em livro em 2002 e 2005."
Nesta época do ano gosto de folhear este livro. Encontro sempre pérolas poéticas encantadoras!
Como esta de José Saramago  (1922-2010), o nosso romancista distinguido com o Prémio Nobel da Literatura em 1998.

NATAL

Nem aqui, nem agora. Vã promessa
Doutro calor e nova descoberta
Se desfaz sob a hora que anoitece.
Brilham lumes no céu? Sempre brilharam.
Dessa velha ilusão desenganemos:

É dia de Natal. Nada acontece.



BOA SEMANA!

(Árvores de Natal, fotos da net.)

06 dezembro, 2019

NATAL: que não falte amor nem doçura!


A ideia para esta publicação surgiu no exacto momento em que li a palavra «teimosinha» num comentário deixado pela querida e docinha Emilia aqui no "rol". 
A «teimosinha» sou eu, euzinha, e achei tamanha graça à doce palavrinha que logo decidi partilhar umas tantas palavras igualmente docinhas, que sublinhei no romance "O inverno do nosso descontentamento", de John Steinbeck.  É um rol infindo de nomes ternurentos que Ethan (protagonista de uma história encantadora) chama a Mary, a sua mulher amada.
Eu diverti-me. Divirta-se também. Memorize alguns. Use-os. Há ocasiões em que uma simples palavrinha muda tudo para melhor!

ablativo absoluto
amor
amorzinho
botão de rosa
caracolinho
carícias


coelhinho
deliciosa mulherzinha
doçura
dorminhoca
encanto
esposa sem mácula


esquilo voador
filha de príncipe
flor dos campos
joaninha
madona
miss ratinha


mulherzinha querida
navio de luxo
pãozinho com mel
passarinho
patinho
pequenina


pequenina desavergonhada
pézinho de flor
pintainha
pintainho em flor
pomba
pombinha
pulgão


querida
queridinha
raminho de feto
rapariguinha em flor
ratinha
torrãozinho de açúcar
vossa alteza


Depois da brincadeira, vem a parte séria!
Um homem deve guiar-se pelos seus princípios ou deixar-se arrastar?
Não dou a resposta, mas aconselho vivamente a leitura de "O inverno do nosso descontentamento", um clássico da literatura mundial, extraordinária história de vida de Ethan Allen Hawley na América do pós guerra, "onde a hipocrisia e o dinheiro minavam o que no homem existia de mais puro e autêntico" .
Em que patife um homem pode tornar-se! Verdade! E eu sei tudo sobre a gradual transformação de Ethan. Sobre as manobras, esquemas e golpes sujos. Sobre a amargura, a tristeza e a infelicidade que se seguiu ao sucesso financeiro e mundano. Eu sei tudo, mas não revelo!

"O inverno do nosso descontentamento" (The Winter of Our Discontent), publicado em 1961, é o último romance de John Steinbeck (1902-68).
O título foi buscá-lo ao primeiro parágrafo do drama histórico  "Ricardo III", do dramaturgo inglês William Shakespeare: "Eis o inverno do nosso descontentamento/ Tornado verão glorioso  por este sol de York."
Outros romances do escritor americano, distinguido com o Prémio Nobel da Literatura em 1962:
A Um Deus Desconhecido (1933)
Ratos e Homens (1937)
As Vinhas da Ira (1939)
A Leste do Paraíso (1952)
A Pérola (1962)
"O inverno do nosso descontentamento" e "A Pérola" estão no "rol". Os outros, vou reler...

BOA SEMANA!

(Fotos  da net: bolo-rei, azevias, aletria, rabanadas, broas, filhós de forma, sonhos.)

01 dezembro, 2019

9º aniversário do "rol de leituras"


"Se és feliz, escreve; se não és feliz, escreve também."
MACHADO DE ASSIS

... e num abrir e fechar de olhos um ano passou e o “rol de leituras” está a celebrar mais um aniversário!
Nem tudo foi fácil, confesso. A minha relação conturbada com o "rol" chegou a atingir uma proporção difícil de gerir com lucidez. As pazes não estão de todo feitas mas eu, «abastecida» de pensamentos positivos e muito chá de camomila, vou continuar a publicar dicas de leitura, opiniões, pensamentos, fotos, e outras coisas mais…
Na «festa» do 8º aniversário partilhei o encontro que tive com a querida Graça Pires e dela publiquei um lindo poema. Pois este ano tive o privilégio de conhecer no Algarve (onde fomos passar a Páscoa com familiares) o amigo António Gomes, do blogue "Existe sempre um lugar"Um encontro previamente combinado, proporcionou uma simpática e animada conversa a quatro: eu, o Carlos, ele e a Teresa, sua mulher. De blogues, não falámos! Outro encontro será marcado logo que possível. Gostei muito do casal. É tão lindo quanto as fotos que ele no blogue publica, ou publicava, já não sei.
Ora, se da Graça publiquei um poema, do A. Gomes publico, claro, uma foto encantadora!
Este ano o "rol" deu-me outro presentão! Qual será o próximo? Quando o receber, saberão!


O que vou eu fazer a partir de amanhã? Continuar por aqui, custe o que custar!
E ler! E sublinhar! E ler! E sublinhar! E, muito importante, “conversar” mais com amigos(as) virtuais especiais, aqueles/aquelas que enchem de cor os dias cinzentos.
Obrigada a todos - os que ficam, os que apenas passam por aqui, os que respondem aos meus comentários, os que os ignoram - pelos incentivos, a simpatia, a paciência, a generosidade, o consolo e tranquilidade, a amizade, o carinho. Obrigada a todos, por tudo!
E como não há festa sem bolo, amigos(as), sirvam-se!


Beijos e abraços. Não esqueçam que “a felicidade não sé dá, troca-se”. 

(Fotos 1 e 3, da net.)

26 novembro, 2019

Aceita um chá, ou prefere uma tisana?


"Uma mulher é como um saquinho de chá; 
você nunca sabe o quão forte ele é até que esteja na água quente."
Eleanor Roosevelt, primeira-dama dos Estados Unidos, de 1993 a 1945 (1884-1962)


ACEITA UM CHÁ , OU PREFERE UMA TISANA?
Nos dias frios e chuvosos encontro aconchego num chá (ou tisana) quentinho e aromático. Com uma torrada amanteigada, um biscoito crocante, ou uma fatia de bolo fofinho, é a melhor companhia num fim de tarde cinzento.
O chá, para merecer a designação chá tem de provir da planta do chá «camellia sinensis». Como o chá verde, o chá branco (o mais raro), o preto, por exemplo, todos provenientes da «camellia sinensis», mas com tempos diferentes de secagem das folhas
Os chás de ervas, obtidos a partir de frutas, flores ou plantas, camomila, tília, limão, jasmim, etc., são tisanas, pois nada vão buscar à planta do chá.
Chás ou tisanas podem ser estimulantes, calmantes, laxantes, diuréticas, digestivas ou simplesmente reconfortantes.
Os chás de ervas são o remédio caseiro por excelência. Uma dose certa de folhinhas, flores, raízes, deitada em água na temperatura certa, alivia qualquer mal-estar.


Sugestões
A cidreira trata problemas digestivos, insónias, cefaleias, depressões.
A camomila trata perturbações do estômago, dores musculares, ansiedade, permite um sono reparador.
A tília é eficaz no tratamento da artrite, problemas digestivos, tensão nervosa.
A lúcia-lima tem um efeito calmante.
O jasmim é digestivo, relaxante e anti-depressivo.
O alecrim é excelente para recuperar da fadiga.
A hortelã-pimenta ajuda na digestão, cefaleias e descongestionamento das vias respiratórias.
A urtiga é eficaz no tratamento das alergias respiratórias.
A valeriana é excelente em casos de stress e ansiedade.


Como fazer
Chás - deite água a ferver sobre as folhas de chá (proporção de uma colher de café por cada chávena), deixe em infusão 10-12 minutos e sirva simples, ou com leite ou com limão.
Tisanas - deixe a água ferver, adicione folhas de chá, mantenha a fervura mais 2-3 minutos, deixe repousar e sirva.


Dicas
Se gosta de chá com leite, deite na chávena o chá e só depois o leite.
Eu gosto de leite com chá. Estranho? Não, delicioso! Deito leite quente na chávena e introduzo uma saqueta de chá. Chá verde, uma vez por outra; camomila, sempre!
A camomila não me acalma, nem melhora o meu sono, mas é amiga do meu sistema digestivo.
Com o chá verde tenho uma estranha relação de amor e ódio: delicio-me bebendo-o simples ou com leite ao pequeno almoço, sabendo que à noite terei por companhia uma insónia brutal.
Já para alívio de uma constipação ou uma  irritação da garganta bebo uma tisana feita com casquinhas de limão, pau de canela, gengibre e mel. Resulta!

Beba chá ou tisana. É um produto natural e tem 0 (zero) calorias!!!

"O chá é o elixir da vida."
Lao Tzu, filósofo e poeta chinês (571 a.C. - 531 a.C.)

(Fotos da net.)

22 novembro, 2019

"Que importa a fúria do mar" - Ana Margarida de Carvalho

Sinopse: “Numa madrugada de 1934, um maço de cartas é lançado de um comboio em andamento por um homem que deixou uma história de amor interrompida e leva uma estilha cravada no coração. Na carruagem, além de Joaquim, viajam os revoltosos do gole da Marinha Grande, feitos prisioneiros pela Polícia de Salazar, que cumprem a primeira etapa de uma viagem com destino a Cabo Verde, onde inaugurarão o campo de concentração do Tarrafal.
Dessas cartas e da mulher a quem se dirigiam ouvirá falar muitos anos mais tarde Eugénia, a jornalista encarregada de entrevistar um dos últimos sobreviventes desse inferno africano e cuja vida, depois do primeiro encontro com Joaquim, nunca mais será a mesma.
Separados pelo tempo, pelo espaço, pelos continentes, pela malária e pelo arame farpado, os destinos de Joaquim e Eugénia tocar-se-ão, apesar de tudo, no pelo de um gato sem nome que ambos afagam e na estranha cumplicidade com que partilham memórias insólitas, infâncias sombrias e amores decididamente impossíveis.”
A verdade pode muito bem estar enganada. É só uma questão de tempo.
Que importa a fúria do mar”, romance de estreia de Ana Margarida de Carvalho, venceu o Grande Prémio de Romance e Novela APE/DGLAAB 2013.
Três anos depois, a jornalista e escritora conquista o mesmo prémio com o segundo livro  “Não se pode morar nos olhos de um gato", romance magnífico que li em 2018 e partilhei a minha opinião aqui no Rol. E logo parti em busca do primeiro romance. Não foi fácil, demorei a encontrá-lo. Não desisti. O esforço valeu a pena. “Que importa a fúria do mar”, vou repetir-me, é um romance avassalador, dos melhores que li. Uma história brilhante, um perfeito entrançado de tramas, personagens credíveis, muito, muito bem escrita. Uma desenfreada torrente de palavras que começam por parecer sem sentido, mas logo, logo, todo o sentido fazem. A imaginação de Ana Margarida de Carvalho não tem limites e a forma como combina as palavras não tem igual. Se a história não o agarrar nas primeiras páginas, não desista. Please!
O texto que reproduzo abaixo, memórias, é longo (e se eu cortei...) mas vale a pena ser lido. Claro que podia ser outro, mais sério, sei lá, sobre a polícia de Salazar, ou o Tarrafal, ou a revolta da Marinha Grande, ou, ou,ou..., mas foi este que eu escolhi da escrita poderosa de AMC. Que tal pedir os dois livros dela ao Pai Natal? Excelente prenda, acredite!

"Mãe, eu quero desnascer.
(…) Com a separação lidou razoavelmente, sabia-lhe bem ter a casa só para si (…) Ele era tão insignificante que, na sua presença, ela se sentia já verdadeiramente sozinha.
No princípio, a sua própria serenidade até a assustou, seria mesmo destituída de sentimentos, seca, como uma maçaroca debulhada? Sentia vontade de ter vontade de chorar. Mas as lágrimas...
(...) O que se há-de fazer? A vida é assim, são ciclos, as pessoas encontram-se de passagem. E depois quando se voltam a cruzar nem se lembram de olhar para trás.
Mas as aranhas só tecem em dias nublados, sempre lhe disseram as «tias velhas». E foi num dia destes que lhe veio à cabeça o advérbio interrogativo de causa. Porquê? Porquê? E Porquê?
Eles não se davam mal (…) Por isso nunca havia tempestades, era só bonança e tédio. Acomodação, enfado e rotina. (…) Tudo corria como sempre correra, sem turbulência, sem poços de ar, sem vácuos, sem despressurização. (…) Era um casamento em piloto automático, nunca apareceu um pirata do ar entre eles. Porquê desviá-lo da rota?
Esta pergunta consumia-a. Acordava de noite, numa cama revolta de angústia. Precisava de saber.
Porquê?
E então atolava-lhe o telemóvel de mensagens. Alternava a agressividade com o carinho (o máximo até onde podia chegar). (…) Porque é que um dia ela saiu da redacção e ele não estava do outro lado da rua à sua espera? Porque é que chegou a casa e já só encontrou o cheiro dele?
(…) Vá, sê um homenzinho! Diz-me! Porquê? Tem de haver uma razão. Eu não quero reconciliação, eu não quero voltar a ver-te à frente, eu não quero saber de ti. Só preciso de saber porquê?
E um dia a resposta chegou. Pingou-lhe no e-mail. (…)
Não consigo viver com uma mulher por quem não sinto qualquer atracção física.
Era só isto que dizia o e-mail.
(…) teria preferido qualquer coisa, um amor inesperado por outra pessoa, uma revelação de homossexualidade tardia, uma confissão de desamor… Tudo menos isto.
(...) Considerava-se uma mulher banal, dessas indiferenciadas (…) Agora, além de mulher indiferenciada, ficava a saber-se mulher sexualmente inepta para provocar o interesse no sexo oposto. Ou porventura em ambos os sexos. A sensação não foi do coração a estilhaçar-se. O coração não se parte, quando cai ao chão faz «plof» e derrama algum sangue que tenha ficado alojado numa aurícula. O que lhe aconteceu produziu efeito mais ao nível do estômago, que se lhe tombou aos pés como um saco cheio de vómito.
(...) Não voltou a fazer perguntas. Estava esclarecida. Mais do que alguma vez pretendera. Passou mal, mesmo mal (…) Achou-se um ser desprezível (…)
Quem me dera poder usar burca.
E durante umas férias do emprego foi assim, na penumbra, só ela e o gato, ela e o gato, ela e o gato…
(…) Sem conseguir ler, porque as linhas tropeçavam umas nas outras, sem querer saber do mundo que se amotinava à sua volta (…) Um dia lembrou-se de que ainda não pusera nome ao gato. (...)

O mar é a mais líquida, a mais extensa e a mais habitada das metáforas.
Recomendadíssimo!

Que importa a fúria do mar, de Ana Margarida de Carvalho
Ed. Leya, 2019
239 págs.