25 setembro, 2020

"Hotel Melancólico" - María Gainza

…não recuperamos o passado, recriamo-lo, transformamo-lo em dramaturgia. A memória adapta, vai colorir, adornar, mistura cimento com arco-íris, faz o que for preciso para que a história funcione.
Foram quatro as razões que me levaram a comprar este livro:
1 – Curiosidade em saber se o segundo romance da escritora e crítica de arte argentina María Ganza era tão fascinante quanto o primeiro “O Nervo Ótico” (2018), um livro de olhares: olhares dirigidos a pinturas e a quem as contempla, uma crónica íntima, uma incursão romanceada pela história da pintura, uma extraordinária visita guiada a um museu;
2 – A preciosidade da capa;
3 – A elucidativa e cativante sinopse:
“Cansado de a ver desocupada, o tio da narradora arranja-lhe um emprego num banco para trabalhar com uma avaliadora de obras de arte. Mas, contra todas as expectativas, o ofício torna-se absolutamente fascinante para ela, não só pelas incríveis descobertas que faz sobre falsificações, mas sobretudo pelas histórias secretas que a chefe acaba por lhe contar, uma das quais é a do Hotel Melancólico, onde viviam artistas que copiam quadros para ganhar a vida e por onde passou a misteriosa Negra, figura central deste romance, que se especializara em falsificar a obra de Mariette Lydis, que fazia retratos da alta-sociedade de Buenos Aires. Um belo dia, porém, a chefe estranhamente não aparece para trabalhar e o mais certo é que lhe tenha acontecido algo de grave; mas, se assim for, como continuar a viver sem saber o fim de todas aquelas histórias que ficam a meio?”
4 - O toque de mistério no primeiro parágrafo:
«Cheguei, por fim, ao Hotel Étoile. Um cartaz à porta de entrada anunciava que estava cheio, mas entrei na mesma e pedi um quarto. Acabaram por me atribuir um no décimo andar; tem vista para o cemitério, uma banheira de mármore italiano, uma secretária Luís XVI, uma cama da largura de uma jangada e bombons embrulhados em papel dourado, incrustados nas almofadas quais diamantes falsos de neve. Disse ao porteiro que o meu marido chegaria mais tarde com as malhas, mas o meu marido nunca virá. Não é meu hábito mentir descaradamente às pessoas, mas tratava-se de um caso de força maior.»
Não pode uma boa falsificação dar tanto prazer como um original? Num certo sentido, não é o falso mais genuíno do que o autêntico? E, no fundo, não será o mercado o verdadeiro escândalo?

María Gainza volta a ficcionar o mundo das artes visuais, neste caso a arte da falsificação, numa reflexão sobre a relação entre a arte e a vida, a imitação do real, o engano e a manipulação.
A história, uma investigação quase detectivesca levada a cabo pela protagonista (de quem pouco sabemos), é feita de histórias de vida de elementos do «bando de falsificadores melancólicos (…) que viviam à custa de enganar os ricos», e exige leitura atenta pois são muitas e bruscas as mudanças de tempos e lugares da narrativa.
Gostei? Hum, não me fascinou.
Acontece!

Hotel Melancólico (La Luz Negra), de María Gainza
Tradução de Artur Lopes Cardoso
Ed. D. Quixote, 2019
147 págs.

(foto net)

22 setembro, 2020

«Conchas de humor», apanhadas à beira-mar


"Ser impaciente é desistir de educar."
(Augusto Cury)

Hoje reedito «conchas de humor» apanhadas à beira-mar numa manhã do verão de 2012, e que logo guardei para não esquecer, no livro poisado na toalha estendida no areal.
Sentada, ou chapinhando à beira-mar, pasmei incomodada com a linguagem rasca e  a impaciência dos adultos, mas sorri fascinada com a inocência das crianças curiosas, barulhentas, traquinas. 
Por momentos, e como por magia, voltei ao meu tempo de criança feliz, travessa e igualmente curiosa, correndo numa praia de areia branca, longe, muito longe daqui, no meu país do coração.
Leia e se lhe apetecer sorria. 
Sorrisos apagam tristezas.


- Tens um chapéu muito grande.
- É da minha avó.
- Ela esqueceu-se do boné em casa e anda com o meu chapéu.
- Dá para desenrascar. Não lhe fica mal.
- Bem também não lhe fica. Os meus cornos são maiores que os dela.

- Vem para trás, Ricardo.
- Mas mãe, a água está ali à frente.
- Porra pá! Já disse para vires para trás.

- A água está porreira, mãe.
- Não se diz porreira.
- Então, como é que se diz?
....
- Como é que se diz?
- Merda, vai para a água.

- Não me molhes.
- Vem p'rá água mãe. Está fria mas boa.
- Quando eu quiser, eu vou.
- Porquê mãe?
- Carago do miúdo. Não me chateies.

- Pai, gostas do meu castelo?
- Hum!
- Pai, achas que está bem feito?
- Hum!
- Não queres fazer um castelo comigo?
- Hum!
...
- Então, João, desmanchaste essa merda?!

- Tiago, não pises as toalhas.
...
- Tiago, já te avisei duas vezes, não pises as toalhas.
....
- Tiago, porra! Se voltas a pisar a merda das toalhas vamos embora.

- Gostas do meu fato de banho?
- Gosto! Tem muitas florinhas.
- Foi a minha mãe que o comprou.
- A tua mãe deve gostar de jardins.
- Vai à merda.

- Estás a encher-me cheia de areia.
- Não é assim que se diz, mãe.
- Que merda é essa. Agora queres ensinar-me a falar?

- Aquelas meninas, mais pequeninas do que tu, não têm medo da água. Tu és um maricas.
- E tu és o quê? Também não vais à agua.
- Merda de garoto.


Por último, apanhei (sem querer) esta «concha» de dois adultos  falando à beira-mar:

- Amo-te muito.
- Sim.
- E tu, amas-me muito ou pouco?
- Sim.
- Sim, é muito ou pouco?
- Vamos à água c..... Estás a precisar de um banho gelado.

(fotos Pinterest)

18 setembro, 2020

"Uma Biblioteca da Literatura Universal" - Hermann Hesse

A leitura sem amor, o saber reverência e a cultura sem coração estão entre os piores pecados que se podem cometer contra o espírito.
Onze pequenos ensaios, sobre a importância dos livros e da leitura, estão reunidos neste livro de Hermann Hesse (1877-1962), escritor culto e leitor sôfrego, galardoado com o Prémio Nobel de Literatura em 1946.
São eles:
1. Uma Biblioteca da Literatura Universal (1929)
“Para uma relação viva do leitor com a literatura universal é, sobretudo, importante que ele se conheça a si próprio e, consequentemente, que conheça as obras que agem sobre ele de um modo particular, evitando seguir um qualquer esquema ou programa cultural. A via que ele tem de percorrer é aquela do amor, não aquela do dever. O facto de nos obrigarmos a ler uma obra-prima só porque é celebérrima e nos envergonhamos de ainda não a conhecermos seria um grave erro. (…)
Sem qualquer ideal erudito, sem qualquer pretensão de completar seja o que for mas seguindo na substância a minha pessoalíssima experiência de homem e leitor, tentarei descrever nestas páginas uma pequena biblioteca ideal da literatura universal.(…)"
2. Da relação com os livros (1907)
“Um elenco de livros cuja leitura seja absolutamente necessária e sem os quais não há saúde nem cultura não existe. Em vez disso, há para cada homem um notável número de livros nos quais precisamente ele, o indivíduo, pode encontrar satisfação e prazer. Descobrir gradualmente estes livros (…) constitui uma tarefa específica e pessoal para cada indivíduo. (…)
3. De ler e de possuir livros (1908)
“Não existem cem ou mil «livros mais belos», há, para cada indivíduo, uma escolha particular baseada naquilo que lhe é afim e compreensível, caro e precioso. Por isso, é impossível constituir uma boa biblioteca sob encomenda; cada um de nós deve seguir as suas próprias exigências e preferências, e criar, pouco a pouco, uma colecção de livros, da mesma forma que se criam as amizades.(…)"
4. Do escritor (1909)
5. O jovem poeta – uma carta para muitos (1910)
6. Sobre a leitura (1911)
“ A maior parte dos homens não sabe ler e a maioria não sabe bem porque é que lê. (…)
Não devemos ler para nos esquecermos de nós próprios e da nossa vida quotidiana, mas sim, ao invés, para que nos seja possível retomar nas mãos, com maior consciência, firmeza e maturidade, a nossa existência. (…)"
7. Serão com o autor (1912)
8. De ler livros (1920
9. Em que é que o poeta crê (1929)
10. Magia do livro (1930)
“Sem a palavra, sem a escrita e sem os livros não há história, não existe a ideia de humanidade.(…)"
11. A minha leitura preferida (1945)
“Colocaram-me infinitas vezes a pergunta: «O que é que prefere ler?»
É uma pergunta à qual, para um amigo da literatura universal, é difícil responder. Eu terei lido cerca de dez mil livros, vários deles várias vezes, alguns deles muitas vezes e, por princípio, sou contrário a excluir qualquer literatura, escola ou autor do raio da minha simpatia ou mesmo, tão-só, do meu alcance. Mas a pergunta justifica-se e, numa certa medida, pode encontrar resposta. (…)"
A literatura mundial corre um perigo, proveniente das novas edições mal e apressadamente alinhavadas, que é pouco menor do que o da guerra e das suas consequências.

Livro com pouco mais de uma centena de páginas, actualíssimo e fundamental para quem pretender: iniciar ou aprofundar o seu conhecimento na arte subtil da leitura; organizar uma biblioteca própria; sugestões de leituras; conselhos sobre o uso dos livros.
Recomendadíssimo!

Uma Biblioteca da Literatura Universal, de Hermann Hesse
Tradução de Virgilio Tenreiro Viseu
Ed. Cavalo de Ferro, 2018
109 págs.
Livraria Lello - Porto (foto net)

15 setembro, 2020

2 + 6 = 8 batidos saudáveis e deliciosos!


Eu sou fã de sumos (naturais)  e batidos. 
Faço-os combinando um líquido com frutas, legumes, frutos secos, cereais, sementes, especiarias, etc. Evito adoçá-los.
Ao contrário do sumo, que demora um tempo infinito a preparar, dá trabalho e exige uma centrifugadora - um pequeno electrodoméstico difícil de limpar após cada utilização -  o batido feito num liquidificador é simples e rápido de preparar: primeiro entram no copo os ingredientes líquidos, a seguir são os sólidos cortados em pedaços, por fim liga-se a máquina e processam-se os ingredientes durante alguns segundos.  
O batido é espesso e geralmente inclui  leite, bebida de leite (p.e. arroz, aveia, coco, soja, baunilha), iogurte, gelado. Eis duas sugestões, experimentadas e fotografadas:

Bebida de aveia, banana, cacau e gengibre
- 1/ banana madura, cortada aos pedaços
- 1 copo de bebida de aveia, sem açúcar
- 1 colher (chá) de cacau em pó
- pitada de gengibre em pó
Processe ligeiramente e beba de imediato!

Iogurte, mirtilos, canela, semente de chia
- 1 iogurte de mirtilo
- 1/ 2 copo leite meio-gordo
- 3 colheres (sopa) mirtilos congelados
- 1 colher (chá) linhaça moída
- 1 colher (chá) sementes de chia
Processe ligeiramente e beba de imediato!


Como acho que apenas duas sugestões sabe a pouco, aqui ficam mais seis, saborosas, coloridas, frescas  e nutritivos:
- manga, iogurte de coco, bebida de coco, flocos de aveia
- mistura de frutos vermelhos congelados, bebida de leite, linhaça em pó
- morangos, leite à escolha, amêndoas peladas, canela
- pêssegos, ananás, iogurte, amendoins
- iogurte grego, farelo de aveia, alperces secos, leite
- banana, manteiga de amendoim, bebida de leite, sementes de chia
(Se a fruta estiver congelada dispensa o gelo.)

Experimente estes batidos, crie os seus com outros ingredientes, compartilhe receitas.
Eu agradeço!

11 setembro, 2020

"O herói discreto" - Mario Vargas Llosa


Na vida é sempre assim. As coisas boas têm sempre o seu ladinho mau, e as más, o seu ladinho bom.
Foi a clareza da sinopse na contracapa deste livro que me motivou a comprá-lo. Vejam:
“Felícito Yanaque é um homem de cinquenta anos, respeitado pela comunidade e proprietário de uma empresa de transportes que fundou e fez prosperar na cidade de Piura, no noroeste do Peru.
Sem instrução, oriundo de uma família pobre e gestor cuidadoso dos seus bens, Felícito conquistou a pulso, de uma forma tranquila, discreta e constante, atributos que se poderiam também aplicar à sua personalidade. Casado, com filhos já adultos, Felícito Yanaqué mantém uma amante de longa data, exuberante beleza da cidade. E também outra relação – não de natureza sexual – com Adelaida, uma vidente cujos conselhos Felícito segue quase sempre, quer se trate de negócios ou de matéria puramente pessoal ou, mesmo, íntima.
Tudo corre bem na cidade, tudo normal. Só que Felícito Yanaqué começa a receber cartas anónimas de extorsão; e, quando a ameaça de represálias passa à concretização, Yanaqué decide resistir a tudo isto sem apoio, estoica e discretamente. Como um herói.”
Em casa, já com um lápis na mão, abri o livro e li o cativante primeiro parágrafo «FELÍCITO YANAQUÉ, DONO DA EMPRESA DE TRANSPORTES Narihualá, saiu de casa naquela manhã, como todos os dias de segunda a sábado, às sete e meia em ponto, depois de fazer meia hora de chi kung, tomar um duche frio e preparar o – almoço habitual: café com leite de cabra e torradas com manteiga e umas gotinhas de mel (…) tudo igual a todos os dias, desde tempos imemoriais.»,
... e logo o segundo «Com uma excepção. Naquela manhã alguém tinha afixado na velha porta de madeira cravejada da sua casa, à altura da aldrava de bronze, um sobrescrito azul em que se lia claramente em letras minúsculas o nome do proprietário: SENHOR FELÍCITO YANAQUÉ. …)»
... e cheguei à primeira das três cartas anónimas recebidas pelo «herói discreto»: 
«Senhor Yanaqué,
É um orgulho para Piura e para os Piuranos que corra tudo bem à sua Empresa de Transportes Narihualá. Mas também é um risco, pois a empresa de sucesso está exposta a sofrer depradação e vandalismo por parte dos ressentidos, invejosos e outras gentes de maus costumes que aqui abundam como o senhor deve muito bem saber. Mas não se preocupe. A nossa organização encarregar-se-á de proteger os Transportes Narihualá, bem como a si e a sua digna família de qualquer percalço, desgosto ou ameaça dos facínoras. A nossa remuneração, por este trabalho será de quinhentos dólares por mês (uma insignificância para o seu património, como vê). Contactá-lo-emos oportunamente a propósito das modalidades de pagamento.
Não precisamos de lhe chamar a atenção para a importância de que o senhor seja o mais reservado possível sobre esta questão. Tudo isto deve ficar entre nós.
Fique com Deus.»
... e continuei até à última página desta história «policial de suspense» onde não falta chantagem, ameaças de morte, desavenças familiares, amores clandestinos, bruxas, medo, amizade, coragem, intrigas, crítica social, resistência a injustiças, etc., etc..
Nunca te deixes pisar por ninguém, filho. Este conselho é a única herança que vais ter.
Felícito seguiu o conselho do pai e nunca se deixou pisar. Como irá reagir à ameaça do «chantagista da aranhita»
Investigue!

O herói discreto, de Mario Vargas Llosa
Tradução de Cristina Rodrigues e de Artur Guerra
Quetzal Editores, 2013
386 págs.


08 setembro, 2020

Leve a primavera para a varanda, dizem. E eu não vou desistir!

Mais um ano, mais uma primavera, mais um verão, mais um sonho não concretizado: ver a minha varanda cheia de flores.
Depois de anos de desânimo, desisti de vasos e vasinhos na varanda virada ao mar e ao sol, a tarde toda.  Deixei apenas duas floreiras, que quase vazias de terra me lembravam que deveria continuar a sonhar.
Pois não é que este ano, este ano epidémico, terrível, negro e triste, de repente uma flor singela e bela apareceu e encheu de cor a minha varanda? Bem cedo, numa manhã de Agosto, fixei nela o olhar e a minha alegria foi tanta que não resisti a fotografá-la.
Dias depois, voltei a sorrir e a fotografar uma segunda flor. 


E não passaram muitos dias para a terceira aparecer. E eu não sorri. Não sorri porque ao lado dela, a primeira, a flor que mais alegria me deu, estava a morrer. E ao fim da tarde lá estava ela, mortinha.


E dias depois, lá estavam as três, mortinhas. 
E eu, triste, desconsolada, desalentada, sem uma única flor na varanda até ao fim do verão, respeitei o momento, não as fotografei, e apanhei as pétalas caídas no chão da varanda.
Na verdade, o que acontece com as flores acontece connosco, seres humanos: nascemos, colorimos a existência de alguém, e morremos.
Na segunda floreira nada cresceu. Não é bem assim, não desabrocharam flores mas algo cresceu e continua a crescer: uma coisita que eu enterrei na terra exactamente no dia em que a primeira flor surgiu na outra floreira. Talvez eu procurasse companhia para a florzinha.


Consegue adivinhar o que foi que eu plantei? Olhe bem para as folhas. É fácil.
Gosto de vê-la crescer, mas cresce tanto e tão rapidamente que começo a querer  que pare.
Na verdade, eu não sei o que quero. É isso! Podes continuar a crescer, coisita doce!
Quanto à primavera na minha varanda...enquanto sonho eu vivo!
P'ró ano é que é!

04 setembro, 2020

O que ando a ler devagar? "O Corpo - um guia para ocupantes", de Bill Bryson


Desde o segundo em que começou a ler esta frase, o seu corpo produziu um milhão de glóbulos vermelhos. Já estão a acelerar dentro de si, a viajar nas suas veias, a mantê-lo vivo. Cada um destes glóbulos vermelhos dará a volta ao seu corpo cerca de 150 000 vezes, transportando repetidamente o oxigénio para as suas células, e depois, gasto e esgotado, apresentar-se-á perante outras células para ser silenciosamente liquidado em nome de um bem maior: você.

"O CORPO - Um Guia para Ocupantes", de Bill Bryson (conhecido pelos seus cativantes livros de viagens, autor de “Breve História de Quase Tudo” (2005), é um surpreendente/deleitoso passeio pelo corpo humano, um «guia turístico» cheio de histórias, estudos, números e factos, investigação e conversas com especialistas, apresentadas numa linguagem acessível, cativante e divertida, por um autor que fez toda a pesquisa - para que nós não tenhamos de o fazer.
Para ler devagar, capítulo a capítulo, tema a tema: pele e cabelo, micróbios, cérebro, cabeça, coração e sangue, aparelho digestivo, sistema imunitário, sono, gloriosa comida, doenças (quando as coisas correm mal), o esqueleto, o fim, e tantos outros.
Deixo três  excertos deliciosos:

“O corpo é frequentemente comparado a uma máquina, mas é muito mais do que isso. Trabalha 24 horas por dia, durante décadas, sem precisar (na maior parte do tempo) de reparações regulares nem da instalação de peças sobressalentes, é movido a água e alguns compostos orgânicos, é macio e bastante bonito, convenientemente móvel e flexível, reproduz-se com entusiasmo, faz piadas, sente afecto, aprecia um belo pôr-do-sol e uma brisa fresca. Quantas máquinas conhecemos capazes de fazerem tudo isso? Não há qualquer dúvida. Nós somos verdadeiramente assombrosos. No entanto, é preciso que se diga, isto também se aplica às minhocas.” (Como construir um humano)

“(…)A pele consiste numa camada interior, chamada derme, e numa epiderme exterior. A superfície mais extensa da epiderme, chamada estrato córneo, é composta unicamente de células mortas. Dá que pensar, que tudo o que nos torna belos está morto. Onde o corpo entra em contacto com o ar, somos todos cadáveres (…) Ninguém sabe ao certo quantos furos há na nossa pele, mas é certo que somos muito perfurados. (…) “
(O Exterior: pele e cabelo)

“(…) O grande paradoxo do cérebro é que tudo o que sabemos sobre o mundo nos é fornecido por um órgão que nunca viu ele próprio esse mundo. O cérebro existe no silêncio e na escuridão (…) Nunca sentiu a luz quente do sol nem uma brisa suave. Para o cérebro, o mundo é apenas uma sucessão de impulsos eléctricos, como os sons do código Morse. E, a partir desta informação básica e neutra, ele cria para si – cria, literalmente – um universo vibrante, tridimensional, sedutor e sensual. Você é o seu cérebro. Tudo o resto não passa de canalizações e andaimes. (…)" (O cérebro)

… o cérebro é um órgão curiosamente sossegado. O coração bombeia o sangue, os pulmões insuflam-se e esvaziam-se, os intestinos ondulam e gorgolejam discretamente, mas o cérebro está simplesmente ali, como um pudim, sem qualquer demonstração visível.
Explore e divirta-se!

(foto net)

01 setembro, 2020

Amor de mãe, amor de avó: um amor sem limites!

"A verdadeira felicidade está na própria casa, entre as alegrias da família."
(Liev Tolstói)


Continuo de coração cheio de gratidão (obrigada, Patrícia) e felicidade depois do reencontro com três amores meus: a Madalena, a Carolina, o Miguel.
Foram dias intensos de partilha de riso, mimos, carinho, amor, de muita emoção e festa. Celebrámos dois aniversários: o 4º da Madalena, no dia 25, e o 45º do Miguel, no dia 26. Celebrámos a Família e a Vida. Foi uma animação!
Não estávamos juntos desde o Natal de 2019.
Um vírus malvado, que desconhece o real sentido da palavra «amor» e capaz de coisas inimagináveis como impedir a convivência entre avós e netos, não permitiu um olhar, um toque, um beijo, um abraço. Foram meses de  um amar e sofrer à distância, um quase morrer de saudades.
O Covid 19 continua a infectar e a matar, em Portugal e no resto do mundo. Cientes dos perigos, resta-nos aguardar em segurança e tranquilidade a chegada de uma vacina capaz  de exterminar o «bicho».
Uma coisa é certa, não há distância, nem silêncio, nem saudade, nem «bicho» capaz de desassossegar o amor de mães e filhos, avós e netos. Um amor imenso.  Um amor sem limites!

(Em 1977, na festinha do 2º aniversário do Miguel.)

Nota: Regressei a casa  com o coração cheio de preciosas lembranças, e... com a barriga cheia de doces. E agora? Exercício, pão e água!

Beijos e abraços!!

14 agosto, 2020

"As Cores do Crepúsculo" (*)



"Vamos andando solidamente e de repente vemos um pôr-do-sol e estamos perdidos de novo."
Jorge Luis Borges, escritor argentino (1899-1986)


“A beleza não está nem na luz da manhã nem na sombra da noite, está no crepúsculo,
nesse meio tom, nessa incerteza.”
Lygia Fagundes Telles, escritora brasileira (1923-)


"Quando admiro a maravilha de um pôr-do-sol ou a beleza da lua, minha alma se expande em reverência ao Criador."
Mahatma Gandhi, líder espirital indiano (1869-1948)


"Pôr-do-sol é metáfora poética, e se o sentimos assim é porque a sua beleza triste mora em nosso próprio corpo. Somos seres crepusculares."
Rubem Alves, teólogo, pedagogo, poeta e filósofo brasileiro (1933-2014)


"Seja humilde, pois até o sol com toda a sua grandeza se põe e deixa a lua brilhar."
Bob Marley, cantor e compositor jamaicano (1945-1981)



(*) Título de um livro de Rubem Alves, teólogo, pedagogo, poeta e filósofo brasileiro (1933-2014)


11 agosto, 2020

De pétalas se faz o "Pétalas de Sabedoria"



O "Pétalas de Sabedoria" completou oito anos de existência, no passado dia 1 de Julho.
Naquele dia de 2012, eu escrevi:

Inicio hoje um novo blog.
Para mim será um enorme baú onde vou guardar frases, pensamentos, provérbios e tudo o mais que me toca e emociona.
Ao longo de muitos anos fui amontoando papelinhos em caixas e gavetas e, agora, decidi guardá-los num enorme baú.
Se por aqui passar deixe aquele pequeno texto que o tocou. Eu publicá-lo-ei com o seu nome e o seu blog. Utilize a minha caixa de email e siga o modelo das minhas publicações.
Desta forma, construiremos um jardim de memórias perfumadas.

Pétala a pétala, plantadas diariamente, o jardim cresceu fresco e viçoso, no início meio escondido, agora mais revelado.
E porque este jardim de memórias é de quem o cuida mas também de quem o visita, o explora, o perfuma com pétalas coloridas, para a festa de publicação da Pétala nº 3.000 (já amanhã) gostava de contar com uma pétala sua sobre... ESPERANÇA: uma frase ou poema original, ou uma citação. Pode enviá-la para a caixa de email do Pétalas, ou deixá-la na caixa de comentários. Prometo plantá-la e cuidá-la.
Obrigada a todas as pessoas que me ajudam a fazer do "Pétalas de Sabedoria" um jardim de palavras sábias, vivas, protegidas, iluminadas, admiradas.
 

Agora, leia ou releia as 5 pétalas mais «contempladas»:

"Nunca estrague o seu presente por um passado que não tem futuro."
DALAI LAMA, monge tibetano.

"A realidade é uma hipótese repugnante."
MANUEL ANTÓNIO PINA, jornalista e escritor português (1943-2012)

"Solidão é aquele florzinha, débil, triste e sozinha, mas que um dia, contra tudo e contra todos, ergue a cabeça, floresce e sorri ao sol logo que aparece."

4ª "Solidão é quando olhando para dentro de nós mesmas, não vemos nenhuma voz para conosco conversar, nem mais somos capazes de ver as belezas dos céus, das flores e do SOL interior... Essa é fatal!"

“A riqueza, não se mede pelos bens que se possui, mas sim pelo bem que se faz.
MIGUEL DE CERVANTES, escritor espanhol (1547-1616)


(Repararam que pétalas de duas amigas queridas - a Emilia e a Chica - estão entre as cinco mais contempladas? Muito bom!!)


(fotos da net)

04 agosto, 2020

"Viagens" - Olga Tokarczuk


Ver e olhar são um mistério, tal como um grande mistério é o facto de existirmos.
“Viagens” (livro vencedor do International Man Booker 2018, da escritora polaca Olga Tokarczuk, psicoterapeuta, formada em Psicologia, Prémio Nobel de Literatura 2018) é um livro  original, fascinante, arrebatador, que nos prende da primeira à última página 
Uma construção narrativa feita de pequenas histórias, pensamentos, citações, informações enciclopédicas, anotações, divagações, desabafos, reflexões, crónicas, factos históricos, narrativas autobiográficas, ficcionais, instruções de uso, palestras, curiosidades, etc..;
Uma exploração do sentido de ser um viajante em viagem constante através do espaço e do tempo;
Uma reflexão sobre o corpo humano, a vida, a mente, a morte e o movimento. De onde provimos? Para onde vamos ou regressamos?
Uma «viagem» contínua, «tudo o que estagna acabará por sofrer decomposição, degeneração e transformar-se-á em pó, enquanto aquilo que está em movimento consegue durar eternamente».
Um «rastrear de erros da criação e desacertos da natureza», diz a autora.
Partilho excertos de alguns dos inúmeros textos, e começo pelo primeiro, que ocupa apenas uma página (há outros mais pequenos). Atentem na capacidade imaginativa e na linguagem própria, acessível, poética.
(Existo)
“Nada acontece. (…)
Aquele final de tarde é a orla do mundo – tacteei-a por acaso e sem querer, quando estava a brincar. Descobri-o porque me deixaram sozinha por um instante e não o acautelaram. Claro está que acabei presa, numa armadilha. Tenho apenas alguns anos, estou sentada no parapeito da janela, observo o pátio frio. As luzes da cozinha da escola estão desligadas. Já se foram todos embora. As lajes de betão do pátio mergulharam na escuridão e deixei de as ver. Portas fechadas, toldos recolhidos, estores descidos. Queria sair, mas não tenho para onde ir. Somente a minha presença adquire agora contornos bem definidos, contornos que estremecem, ondulam, e isso dói. E, subitamente, descubro a verdade: não há nada a fazer – existo.”
(O Mundo na Cabeça)
“O meus pais não eram verdadeiros viajantes porque viajavam para regressar. (…) Depois, durante todo o ano, levavam uma vida sedentária, aquela vida estranha, em que de manhã se regressa àquilo que se largou à noite (…) Pelos vistos, não herdei o gene que faz com que as pessoas criem raízes, quando permanecem muito tempo no mesmo lugar. Já tentei várias vezes, mas as minhas raízes são sempre superficiais e qualquer brisa é capaz de me arrancar da terra. Não sou capaz de germinar, fui desprovida dessa faculdade vegetal. (...) A minha energia provém do movimento – da trepidação dos autocarros, da zoadeira dos aviões, da oscilação dos comboios e dos barcos."
(La Mano de Giovanni Battista)
“Existe mundo em demasia. (…)Parece que nada mais nos resta a não ser aprender a fazer escolhas até ao fim. E ser como aquele viajante que conheci num comboio nocturno e me disse que, de vez em quando, precisava de visitar o Louvre e de permanecer diante do único quadro que, na sua opinião, realmente merecia ser contemplado. Deter-se diante do quadro de João Baptista e seguir com o olhar a direcção indicada pelo dedo erguido do Santo."
(Estou)
"Cresci e evoluí. No princípio quando acordava em lugares estranhos pensava que estava em casa (…) Todavia, logo a seguir, entrei na fase que a Psicologia da Viagem designa como «Não sei onde estou». (…) A próxima etapa é a terceira, segundo a Psicologia da Viagem, é a etapa da viagem-chave, da viagem-coroa, aquela que constitui a meta final. Para onde quer que viajemos, viajamos sempre em direcção a ela. «Não importa onde estou». Onde estou – tanto faz. Estou.”

Existem dois pontos de vista acerca do mundo: a perspectiva da rã e a vista do pássaro em pleno voo. Qualquer ponto entre estes dois só serve para gerar o caos.
Este livro é diferente de tudo o que já li.
É mágico! É lindo! É perfeito!
E eu recomendo-o.

Viagens (2007), de Olga Tokarczuk 
Tradução de Teresa Fernandes Swiatkiewicz
Ed. Cavalo de Ferro, 2019
343 págs.


28 julho, 2020

PORTUGAL (Vilamoura / Algarve) - férias em tempo de pandemia Covid 19


Primeira quinzena de Julho, 2020. Férias em Vilamoura / Algarve.
Alojamento no hotel Vila Galé Ampalius, com localização privilegiada frente à praia da Falésia, a poucos metros do Casino e da Marina de Vilamoura.
Hotel com taxa de ocupação limitada para garantia da distância social e protecção de hóspedes e colaboradores. Nada, mesmo nada a apontar quanto a segurança. Claro que estranhei alguns procedimentos. Claro que não vi o rosto de nenhum dos colaboradores do hotel. Sempre de máscaras. Hóspedes e colaboradores. Acontece que os hóspedes tiravam a máscara para comer e mergulhar nas piscinas, os colaboradores, nunca!
Praia da Falésia, a dois passos do hotel, quase sem banhistas. Acreditem, não gostei de olhar/caminhar/mergulhar numa praia deserta em pleno verão.
Marina de Vilamoura, vazia de pessoas (de dia e de noite, coisa estranhíssima!), mas não de «barquinhos». Zona de muitos restaurantes, eram poucos os que estavam abertos,  e pouquíssimos os clientes. 
Casino... não sei se funcionava. Passei ao lado!
Foram diferentes estas férias. 
Sem a diversão habitual no hotel,  sem buffet de pequeno-almoço, que eu amo de paixão mas acabo por comer sempre o mesmo: fruta e cereais...
Sem saída à noite para outras zonas do Algarve.
Desta vez, talvez pela primeira vez, mergulhei mais na água doce do que na água salgada.
E nadei, nadei, nadei, e li, li, li. Deitada numa espreguiçadeira esmeradamente higienizada, eu li muito. E bronzeei, claro!
(mais fotos deste e de outros sítio algarvios por onde já andei, aqui)




21 julho, 2020

"Autobiografia" - José Luís Peixoto

"Toda a obra literária leva uma pessoa dentro, que é o autor.
O autor é um pequeno mundo entre outros pequenos mundos.
A sua experiência existencial, os seus pensamentos, os seus sentimentos estão ali."
(José Saramago, 2001)*

Autobiografia é um espelho, como nós somos um espelho.
Somos?
Sim, somos. No entanto, não confie demasiado, os espelhos distorcem.
No centro deste romance está um segredo que une José a José. O primeiro é escritor consagrado, o segundo é escritor de um só romance, que anseia pelo segundo.
Que segredo é esse? Segredo é segredo e não posso revelá-lo. Mas está lá, perto do final desta ousada narrativa protagonizada por José (Luís Peixoto) e José (Saramago). Verdade! E Pilar também aparece na trama, como personagem secundária.
O segredo que une o José jovem ao José consagrado eu sei qual é, mas o que nunca saberei é porque escreveu José Luís Peixoto um livro com uma estrutura narrativa diferente de tudo o que já escreveu, que me obrigou a uma leitura atentíssima tão ténue é a fronteira entre realidade e ficção, tão bruscas são as mudanças de espaço e tempo, tão cruzadas e ramificadas são as histórias dos dois protagonistas, e  de outros personagens com ênfase na história. Resultado: uma teia (magnífica), imensa e intrincada.
Veja se me acompanha:
Saramago escreveu a última frase do romance. (o romance é "Todos os Nomes" e começa exactamente assim “Autobiografia”)
Na realidade, José (Saramago) termina no início de Julho de 1997 o romance “Todos os Nomes”, que tem como protagonista José, um funcionário do Registo Civil.
Na ficção, “Todos os Nomes” acabou de ser escrito por José, escritor consagrado.
Na realidade, José (Luís Peixoto) escreveu “Autobiografia”.
Na ficção, José é um jovem escritor angustiado, com problemas pessoais - jogo, álcool, amores, perdas - a quem o editor encomenda uma biografia de Saramago. José, que  «nunca se imaginara biógrafo, não era biógrafo; precisava de um segundo romance escrito», hesita mas aceita, sem saber o caos que tal decisão trará à sua, já caótica, vida.

Confuso? Não! Desconcertante e surpreendente.
E mais não digo, porque esta complexa/extraordinária construção narrativa tem de ser lida por si, concentrado e sem pressa de avançar.
Vá lá... digo que no fim deste romance escrito por José, eu soube que o jovem escritor angustiado, de nome José, conseguiu, finalmente, escrever «a primeira frase do (segundo) romance». Verdade!

"A literatura é o resultado de um diálogo de alguém consigo mesmo." 
(José Saramago, 2008)*

(*) José Saramago citado por José Luís Peixoto.

Autobiografia, de José Luís Peixoto
Quetzal, Ed, 2019
300 págs.


14 julho, 2020

AMIGO é aquele que...


“Não há solidão mais triste do que a do homem sem amizades. A falta de amigos faz com que o mundo pareça um deserto." 
(Francis Bacon)


AMIGO
É aquele que ouve atentamente
Aquele que aconselha nas indecisões
Aquele que nada pede em troca
Aquele que não se intromete nem sufoca
Aquele que conforta com uma só palavra
Aquele que diz «não» quando é preciso
Aquele que adverte com um sorriso
Aquele que olha com o coração
Aquele que chama à razão
Aquele que mesmo longe está perto
Aquele que faz sorrir
Aquele que atenua medos
Aquele que guarda segredos
Aquele que respeita silêncios
Aquele que rejubila com os sucessos
Aquele que consola nos insucessos
Aquele que estimula a ir mais além
Aquele que abraça nas horas más
Aquele que alerta «por aí não vás»
Aquele que diz «estou aqui»
Sempre!
(Teresa Dias)
(fotos da net)

30 junho, 2020

"A mestra de lavores" - Fernanda de Castro


A mestra de lavores
leva, na mala de mão
estrelas, pássaros, flores.

Envelheceu a bordar
a prender em bastidores,
tudo quanto viu passar:
-- Estrelas, pássaros, flores.

Já tem os olhos cansados,
os dedos magros e picados
e sofre do coração,
mas é mestra de lavores
e tem, na mala de mão,
Estrelas, pássaros, flores.

A vida passou-lhe à porta,
passou mas não quis entrar.
Sem alegrias, sem penas,
sem a flor duma ilusão,
foi longa a vida a passar.
Mas agora que lhe importa,
Se em vez de sonhos e amores,
tem, na malinha de mão,
Estrelas, pássaros, flores?
(in "Cartas para Além do Tempo", 1990)


Fernanda de Castro (Maria Fernanda Teles de Castro de Quadros Ferro), romancista, poetisa e tradutora portuguesa (1900-1994)
Com vasta obra publicada, foi galardoada com o Prémio Nacional da Poesia, em 1969.
Nas comemorações dos cinquenta anos de actividade literária disse sobre ela o escritor David Mourão-Ferreira: "Ela foi a primeira, neste país de musas sorumbáticas e de poetas tristes, a demonstrar que o riso e a alegria também são formas de inspiração, que uma gargalhada pode estalar no tecido de um poema...".
Mais sobre a vida e obra de Fernanda de Castro, aqui.

(fotos da net, malinhas Pinterest)