17 setembro, 2019

À terça - imagens e palavras: "claridade"



“... por vezes é necessário atravessar as trevas para vislumbrar de novo a claridade do dia que nasce."


Philippe Claudel, escritor francês (1962), in “O arquipélago do cão”, Sextante (Porto Editora), 2019
(Foto da net.)


Voltei... cheia de saudades!
Voltei de onde? Dos Açores, o paraíso ali no meio do oceano Atlântico, onde a beleza natural é tamanha e as vacas tantas e felizes e curiosas, que chegam a fugir das pastagens verdes para o empedrado negro das calçadas. Verdade!
Amei, claro! E fotografei, muito!
Aguardem, que eu mostrarei tudo!


10 setembro, 2019

À terça - imagens e palavras: "alegria" e "felicidade"


“Há quem confunda a alegria com a felicidade. A alegria não se parece com a felicidade, a não ser na medida em que um mar agitado se parece com um mar plácido. A água é a mesma, apenas isso. A alegria resulta de um entorpecimento do espírito, a felicidade de uma iluminação momentânea. O álcool pode levar-nos à alegria – ou um cigarro de liamba, ou um novo amor – porque nos obscurece temporariamente a inteligência. A alegria, pois, tende a ser burra. A felicidade é outra coisa. Não ri às gargalhadas. Não se anuncia com fogo-de-artifício. Não faz estremecer estádios. Raras são as vezes em que nos apercebemos da felicidade no instante em que somos felizes.”


JOSÉ EDUARDO AGUALUSA, escritor angolano (1960), in “Barroco Tropical”, Ed. Quetzal, 2018
(Foto da net.)

03 setembro, 2019

Agora sim, vou de férias!

Agora sim, vou de férias. Merecidas, acreditem!
Será apenas uma rapidinha cá dentro... lá fora.
Confuso?
Prometo desvendar por onde andei, logo após o meu regresso.
Hum, será que escolhi o lugar certo para uma avó "amada, babada e amassada" descansar?
Não tenho a resposta, juro. Nunca lá estive antes!
Desde que tenha à minha espera uma cama, uma cadeira à beira-mar e outra junto da piscina... basta!
Não posso esquecer a máquina fotográfica. (Calma, Teresa, já está dentro da mochila!) Mochila?! Mas não era para levar apenas um saco de praia, biquinis e cremes bronzeadores?
Esquisito! Pelo sim pelo não vou meter na mochila uma parka impermeável e botas para caminhadas longas.
Virei de lá ainda mais cansada? Espero que não. Socorro!!!

Porque hoje é terça-feira não podia fugir para o bem-bom sem partilhar convosco algumas palavras retiradas do belíssimo romance "A mulher certa", de um dos meus escritores favoritos: Sándor Márai.
A foto é da net. (Não queriam que eu fotografasse a minha cama, pois não?!)
Na próxima terça-feira aparecerão aqui no Rol (regressado de férias) mais palavras. De quem? Depois verão!
Entretanto, fiquem bem!

 

“Depois de uma certa idade, exige-se toda a verdade, logo, também na cama, na dimensão mais física e obscura do amor. Não é importante que a pessoa amada seja bela - após um certo tempo, já nem reparas na sua beleza – nem importa que seja mais ou menos extraordinária, excitante, inteligente, bem informada, curiosa, cúpida e que te responda com o mesmo ardor. O que é importante? A verdade. Tal como na literatura e em todas as coisas de âmbito humano: a espontaneidade, surpreendermo-nos a nós mesmos com o dom maravilhoso do prazer, e, simultaneamente, apesar do nosso egoísmo e da nossa avidez, sermos capazes de dar alegria com a mesma generosidade, sem calculismos e segundas intenções, com leveza e quase distraidamente… É esta a verdade, na cama.”

ESTOU DE VOLTA, DEVAGAR, MUITO DEVAGAR, 
DEVAGARINHO.

AS SAUDADES QUE EU JÁ TINHA...

30 julho, 2019

À terça - imagens e palavras: "oração"


“Que Deus te dê para cada tempestade, um arco-íris. Para cada lágrima, um sorriso. Para cada cuidado, uma promessa, e uma bênção para cada provação. Que para cada problema, a vida te traga alguém fiel com quem dividi-lo. Para cada olhar uma doce canção, e uma resposta para cada oração."

Bênção Irlandesa.
(Foto da net.)


AGOSTO ESTÁ A CHEGAR E EU VOU DE FÉRIAS DO "ROL DE LEITURAS", COMO ACONTECE TODOS OS ANOS!
Um mês inteirinho em casa, eu o Carlos e as minhas netinhas Madalena (pertinho dos 3 aninhos) e Carolina (de oito). Se a chuva não atrapalhar, as manhãs serão de muitos banhos de mar, as tardes... logo se verá, e as noites de sono repousante... espero eu!
Sempre que tiver oportunidade passarei por aqui para saber de vós.
Beijos e abraços, de muita amizade.
Sejam felizes!
💚💛

26 julho, 2019

"eu de dia sou nulo, e de noite sou eu" - Fernando Pessoa

(Praça do Martim Moniz - Castelo de S. Jorge)

"Amo, pelas tardes demoradas de verão, o sossego da cidade baixa, e sobretudo aquele sossego que o contraste acentua na parte que o dia mergulha em bulício. A Rua do Arsenal, a Rua da Alfândega, o prolongamento das ruas tristes que se alastram para leste desde que a da Alfândega cessa, toda a linha morta e separada dos cais quedos - tudo isso me conforta de tristeza, se me insiro, por essas tardes, na solidão do seu conjunto.
(Rua do Arsenal)

(Rua da Alfândega)

Por ali arrasto, até haver noite, uma sensação de vida parecida com a dessas ruas. De dia elas são cheias de um bulício que não quer dizer nada; de noite são cheias de uma falta de bulício que não quer dizer nada. Eu de dia sou nulo, e de noite sou eu. Não há diferença entre mim e as ruas do lado da Alfândega, salvo elas serem ruas e eu ser alma, o que pode ser que nada valha ante o que é a essência das coisas. Há um destino igual, porque é abstrato, para os homens e para as coisas - uma designação igualmente indiferente na álgebra do mistério.
(Praça do Rossio)

Mas há mais alguma coisa... Nessas horas lentas e vazias, sobe-me da alma à mente uma tristeza de todo o ser, a amargura de tudo ser ao mesmo tempo uma sensação minha e uma coisa externa, que não está em meu poder alterar.
(Rua do Ouro)

Ah, quantas vezes os meus próprios sonhos se me erguem em coisas, não para me substituírem a realidade, mas para se me confessarem seus pares em eu os não querer, em me surgirem de fora, como o eléctrico que dá a volta na curva extrema da rua, ou a voz do apregoador noturno, de não sei que coisa, que se destaca, toada árabe, como um repuxo súbito, da monotonia do entardecer!"
(Praça do Comércio)

(Fernando Pessoa, 1888-1935)

Texto retirado do  "Livro do Desassossego".
(Fotos da net.)

23 julho, 2019

À terça - imagens e palavras: "fotografia"



A fotografia, que dá a ilusão de capturar o tempo, de fazer com que as coisas durem, revela-se na sua crueldade intrínseca: dá a ilusão de congelar o tempo, mas tudo o que a sua existência faz é lembrar-nos dos seus efeitos. Porque tiramos fotografias, essas feridas que nunca mais cicatrizam?”



Bruno Vieira Amaral, escritor português (1978-), in “Manobras de guerrilha”, Ed. Quetzal, 2018

(Foto de família: os meus pais, eu e a minha irmã mais nova, em Moçambique.)

19 julho, 2019

Versos de Graça Pires e... «homens de Modigliani»!

Subversivamente
o instinto me descomenda.
E a magia inconsciente
do meu corpo
é um jogo clandestino
de gestos sem eco.
Há um ritual divino
nas carícias sensuais
em que me invento.
Nada me torna inocente
dos meus próprios sentidos
quando solto
as linhas marginais
do pensamento
e me seduzo
com gostos proibidos.
Sempre são excessivos os desejos de quem sonha
a vida toda num momento.
A solidão é como o vento.
É nos olhos do mendigo 
que a noite se prolonga por mais tempo.

Poema "MARGINALIDADE" (1990) de Graça Pires (blogue "Ortografia do olhar"), publicado no livro "Poemas Escolhidos -1990-2011".
Retratos pintados por Amedeo Modigliani (1884-1920):
1º Auto-retrato, 1919
2º Paul Alexandre, 1909
3º Moïse Kisling, 1915
4º Leopold Zborovski, 1918
5º Paul Guillaume, 1916
6º Chaim Soutine, 1915
7º Jean Cocteau, 1916
8º Pablo Picasso, 1915
(fotos da net)

 Amiga Graça, não te zangues comigo!
Eu continuo a preferir as tuas "mulheres de Modigliani"!

16 julho, 2019

À terça - imagens e palavras: "lama"



“Sempre que atiramos lama para cima dos outros, o chão foge-nos mais um bocadinho 
debaixo dos pés.”



Cormac McCarthy, escritor americano (1933-), in “Este país não é para velhos”, Ed. Relógio d’Água, 2007
(Foto da net.)

11 julho, 2019

"Torto arado" - Itamar Vieira Junior

O medo atravessou o tempo e fez parte de nossa história desde sempre.
Era medo de quem foi arrancado do seu chão. Medo de não resistir à travessia por mar e terra. Medo dos castigos, dos trabalhos, do sol escaldante, dos espíritos daquela gente. Medo de andar, medo de desagradar, medo de existir.
O romance “Torto Arado”, do brasileiro Itamar Vieira Junior, venceu por unanimidade o Prémio LeYa 2018.
Por unanimidade? Curiosa, procurei-o nas livrarias. E logo li a sinopse. E logo fiquei rendida… à «procissão de lembranças» desvendadas por Bibiana e Belonísia, filhas de trabalhadores da Fazenda Água Negra, no sertão da Bahia, descendentes de escravos para quem a abolição nunca passou de uma data marcada no calendário.
São muitas e tristes as histórias do quotidiano na fazenda, quase sempre protagonizadas por mulheres. Histórias de vida, morte, medo, dor, violência, humilhações, mas também de amizade, amor e luta pela libertação, contadas à vez pelas duas irmãs, transmissoras de todas as vozes negadas, que uma tragédia na infância tornou tão dependentes que uma será até a voz da outra. São filhas de Salu e de Zeca Chapéu Grande, guia do povo de Água Negra para assuntos de trabalho, problemas de saúde, resolução de conflitos familiares e tudo o mais; e netas de Donana, a parteira de mãos pequenas «capazes de entrar no ventre de uma mulher para virar com destreza uma criança atravessada, mal encaixada, crianças com os movimentos errados para nascer». Vivem numa fazenda onde as casas e os caminhos são de terra «de barro apenas… e de onde brotava tudo que comíamos. Onde enterrávamos os restos do parto e o umbigo dos nascidos. Onde enterrávamos os restos de nossos corpos. Para onde desceríamos algum dia. Ninguém escaparia.»
Anos depois da tragédia que emudeceu uma das irmãs, chega à fazenda o tio Servó, para dar «seu suor na plantação». Chega acompanhado da mulher e seis filhos. E primeiro uma depois a outra, as duas irmãs perdem-se de amores pelo primo Severo, menino tímido de sorriso largo, que, quando homem feito tem planos de estudar na cidade e trabalhar nas sua própria terra. Bibiana, então com dezasseis anos, ouvia-o embevecida «… nunca havia conhecido ninguém que me dissesse ser possível uma vida além da fazenda». Então, um dia, «naquela terra mesmo, entranhada da secura da falta de chuva, deixamos nosso suores para que lhe servisse de alívio», e logo os enjoos passaram a diários e a fuga dos dois para a cidade foi feita no sereno de uma noite.
Os anos passaram, os donos da fazenda mudaram e, para evitar problemas com os homens da lei, passaram a chamar os escravos de trabalhadores e moradores. E Bibiana e Severo regressaram a Água Negra, decididos a lutar pelo direito à terra, melhores condições de vida e emancipação dos trabalhadores.
“Rio de Sangue” é o título do terceiro e último capítulo do livro. Por quê este título e quem é o narrador? Por respeito pela fonte do rio de sangue e lágrimas… nada revelo!

Nos momentos de forte emoção meu horizonte se embota, transbordo para os lados, não consigo reunir o que me compõe.
(Não, não são palavras minhas, mas podiam ser, tão forte era a emoção ao terminar a leitura deste fascinante romance/retrato da ruralidade brasileira no período que se seguiu à abolição da escravatura, no final do Séc. XIX.) Leia-o, por favor!

 

Itamar Vieira Junior nasceu em Salvador, Bahia, em 1979. É escritor, geógrafo e doutorado em Estudos Étnicos e Africanos (UFBA), com pesquisa sobre a formação de comunidades quilombolas no interior do Nordeste brasileiro. Publicou a colectânea de contos "A Oração do Carrasco" (2017), finalista do prestigiado Prémio Jabuti de Literatura. 

(Foto do escritor tirada da net.)

09 julho, 2019

À terça - imagens e palavras: "ruínas"

 

“Não há ruínas mais comoventes do que os rostos.”


Bruno Vieira Amaral, escritor português (1978-), in “Manobras de guerrilha”, Ed. Quetzal, 2018
(Foto da net.)

05 julho, 2019

Personagens de romances que gostei de ler (2)

Brodeck é escrivão numa aldeia perdida algures em inóspitas montanhas. Elabora relatórios para a Administração sobre o estado da flora, das árvores, das estações, da caça, da neve, das chuvas...
A vida fluí calma na pequena aldeia, até ao malogrado dia em que a guerra ali chega. Enquanto alguns habitantes tentam agradar ao invasor, Brodeck reage com passividade e, por isso, é deportado para um campo de concentração.
Quando a guerra termina o Cão Brodeck (era assim que lhe chamavam os guardas do campo) regressa a casa e ao seu trabalho de escrivão, com a concordância de todos os habitantes que expiavam a culpa do colaboracionismo com o inimigo.
Vem diferente, isola-se, faz grandes passeios e não procura a companhia dos homens da aldeia, que «têm a cabeça cheia de selvajaria e de imagens de sangue». Homens tolos, falsos puritanos, que cometerão o pior dos crimes sobre um estrangeiro que escolheu aquela aldeia para viver, um homem cordial e educado, que ocupa o tempo em longas e solitárias caminhadas, e a retratar a aldeia e os seus habitantes. Habitantes que não gostam dos seus modos estranhos, muito menos de se verem retratados por ele, e o matam, perante a passividade das autoridades.
Brodeck, o único habitante da aldeia que sabe trabalhar com as palavras, tem de elaborar um relatório oficial que branqueie o crime, sem procurar o que «não existe, ou já não existe». Aceita, contrariado e amedrontado.
À medida que escreve o relatório oficial – sempre controlado, espiado, cercado - escreve outro onde intercala na história do homem misterioso (nunca lhe perguntaram o nome e ele falava pouco, muito pouco) factos da sua própria vida. E desvenda segredos sombrios, escondidos em cada pessoa, pedra, casa, rua, árvore, daquela aldeia, onde não há inocentes. Aldeia que um dia ele também escolheu para viver. Só que nesse tempo, ninguém tinha medo de estrangeiros e foi bem recebido. Agora, o medo transformava os homens. Brodeck sabia-o. Aprendeu no campo de concentração. 
Finalizado o relatório, o seu relatório não o oficial, o escrivão entrega-o ao presidente da Câmara que depois de o ler lhe transmite: «escreves bem, Brodeck, não nos enganámos quando te escolhemos…mas tudo o que pertence a ontem pertence à morte, e o que importa é viver… é tempo de esquecer ... os homens precisam de esquecer.»
E logo, logo, Brodeck tem de fugir da aldeia. Por quê?
Eu sei! Saiba também, “ouvindo” Brodeck, narrador-personagem inesquecível de "O Relatório de Brodeck", brilhante romance de Philippe Claudel.
... às vezes é preferível não voltarmos à terra de onde partimos. Lembramo-nos do que deixámos, mas nunca se sabe o que iremos encontrar, sobretudo quando os homens foram atingidos por uma loucura duradoura.
Philippe Claudel é um escritor extraordinário. É dele "Almas cinzentas", um romance em jeito de thriller , que  se lê e dificilmente se esquece. Veja por quê:
"Inverno de 1917. Numa pequena povoação da Lorena, a poucos quilómetros do campo de batalha onde decorre uma das maiores carnificinas da história da Europa,  é descoberto o cadáver de "Lírio-do-Vale", uma menina de dez anos." 
Um jovem é acusado da morte da criança e executado, ainda que uma testemunha diga que a viu com o Procurador da terra na noite do crime
Sem condenar nem julgar alguém, mas sempre duvidando da culpa do jovem executado, o polícia da aldeia investiga e descobre que a verdade é indesejada quando os poderosos da terra estão envolvidos, e que existe algo mais forte do que o ódio: as regras sociais.
Vinte anos depois,  ele relembra o dia do crime e os acontecimentos que o precederam e que se lhe seguiram. «Não sei bem por onde começar. É bastante difícil. Há todo esse tempo passado, que as palavras não recuperarão, e também os rostos, os sorrisos, as chagas. Mas ainda assim preciso de tentar dizer. Dizer o que me vai no coração....»
E diz, diz tudo nesta história que "termina com a tomada de consciência de que, na fronteira entre o bem e o mal, todos somos a um tempo culpados e inocentes, justos e injustos, almas cinzentas e atormentadas.”
Tenho de voltar a procurar nas livrarias a escrita perfeita, meticulosa, surpreendente, viciante de Philippe Claudel.
Se não a conhece, não sabe o que perde!

(Foto do escritor tirada da net.)

02 julho, 2019

À terça: imagens e palavras: "noite"



"Pudesse esta noite durar
não uma mas duas noites inteiras..."



Versos de Eugénio de Andrade, poeta português (1923-2005), in "Poesia e Prosa 1940-1986 - II Vol.", Ed. Círculo de Leitores, 1987
(Foto da net.)


Fui e voltei... cheia de saudades vossas!!!

21 junho, 2019

"ABAT-JOUR" - poema de Paul Géraldy

Você pergunta porque eu fico sem falar...
Porque este é o grande instante em que
existe o beijo e existe o olhar,
porque é noite... e esta noite eu gosto de você!
Chegue-se bem a mim. Eu preciso de beijos.
Ah! se você soubesse o que há, esta noite, em mim
de orgulhos, ambições, ternuras e desejos!...
Mas, não, você não sabe, e é bem melhor assim!
Abaixe um pouco mais o abat-jour! Está bem.
É na sombra que o coração fala e repousa:
tanto mais os olhos se vêem,
quanto menos se vêem as cousas...
Hoje eu amo demais para falar de amor.
Venha aqui, bem perto! Eu queria
ser hoje, seja como for,
aquele que se acaricia...
Abaixe ainda mais o abat-jour. 
Vamos ficar sem dizer nada.
Eu quero sentir bem o gosto
das suas mãos sobre o meu rosto!...
Mas quem está aí? Ah, é a criada
que traz o café... Não podia
deixar aí mesmo? Não importa!
Pode ir-se embora!... E feche a porta!...
Mas o que é mesmo que eu dizia?
Quer... agora o café? Se você preferir...
Já sei: você gosta bem quente.
Espere um pouco! Eu mesmo é que quero servir.
Está tão forte!... Assim? Mais açúcar? Somente?
Não quer então que prove por
você?... Aqui está, minha adorada...
Mas que escuro! Não se enxerga nada...
Levante um pouco esse abat-jour.

Poema de PAUL GÉRALDY, dramaturgo e poeta francês (1885-1983)
Tradução de Guilherme de Almeida, advogado, jornalista, poeta e tradutor brasileiro (1890-1969)


Comecei por escolher imagens de amantes enlaçados, beijos, carícias e desejos... e acabei por publicar abat-jours. 
"Chegue-se bem a mim" e eu digo-lhe porquê!

(Fotos da net.)

Vou ali e já volto!!!


18 junho, 2019

À terça: imagens e palavras: "medo"




“Costuma dizer-se que tememos o desconhecido. Por mim, julgo que o medo surge quando um dia passamos a saber o que ainda na véspera ignorávamos.”


Philippe Claudel, escritor francês (1962-), in “Almas cinzentas”, Ed. ASA, 2004
(Foto da net.)

14 junho, 2019

Viajando e aprendendo: Resorts - dicas e sugestões!


Entre viagens mais voltadas para a descoberta de outros lugares, pessoas e culturas, feitas normalmente em grupo e com guia turístico, gostamos de escapadinhas para resorts em lugares paradisíacos, onde pouco mais fazemos que relaxar, conversar, ler, mergulhar no mar e nas piscinas, e rir muito, de tudo e de nada.
Gosto de andar todo o dia de chinelos, fato de banho e saídas de praia e caprichar à noite na maquilhagem e toilette. Geralmente começamos a noite no bar do hotel, jantamos num dos vários restaurantes, assistimos a algum espectáculo de música ou dança, passeamos e regressamos «cansados» ao quarto. Da discoteca fugimos sempre.
Resorts são, por norma, estâncias turísticas localizadas longe dos centros urbanos, razão pela qual garantem aos hóspedes comodidade, comida e bebidas (a qualquer hora do dia), actividades recreativas (ginástica dentro e fora da piscina, jogos, música, dança), desporto ao ar livre, ginásio, restaurantes informais e formais/cozinhas do mundo, que exigem reserva prévia (nós escolhemos e reservamos logo à chegada ao resort um restaurante diferente para cada jantar), muita animação.
Nós, sempre que possível saímos do resort. Num dia completo, ou apenas parte do dia,  em excursão organizada visitamos uma cidade próxima, ou apenas os dois num táxi do resort, vamos mergulhar no mar de uma praia próxima. O custo com qualquer saída do resort  nunca está incluído no pacote “all-inclusive”.
Lugares há em que é desaconselhada qualquer saída do resort. Jamaica foi um desses lugares. Visitar a violenta capital Kingston, jamais! 
O meu gosto por resorts resultou de uma primeira experiência fantástica. Outras se seguiram e, felizmente, o gosto tem aumentado. Confesso, sou adepta de resorts! Não é pelo "all inclusive" pois eu como pouco e bebo menos (comigo têm lucro), é por ter no mesmo lugar tudo o que gosto de usufruir nas férias: praia, piscina, actividades recreativas e muita diversão. Mais adeptos do que eu só os americanos. Porquê? Hum, hum... tente descobrir!
Em 2007,  estivemos no Vila Galé Marés Resort, localizado na praia de Guarajuba, Bahia - Brasil.
É pequeno, mas charmoso e a localização perfeita.
Saímos duas vezes: passámos um dia nas belas praias do Impassai e do Forte; outro em Salvador da Bahia (a 60 km do resort), onde visitámos algumas das muitas igrejas da cidade e percorrermos a pé o centro histórico, testemunho do Brasil colonial, Património Mundial da Humanidade.
Foi a nossa primeira experiência em resorts e gostei muitíssimo! Gostei tanto que voltaria todos os anos, mas... há outros para conhecer, diz o maridão.  Tem razão!









Em 2008 voámos para Cancun-Riviera Maya, no México. Ficámos instalados no  Ocean Coral & Turquesa Resort, um resort excepcional no Mar das Caraíbas. Recordo-me dos muitos mergulhos nas águas cristalinas, das muitas e animadas actividades recreativas e da excelência dos 6 restaurantes de cozinha italiana, caribenha e tradicional mexicana. Foi lá que aprendi a reservar os restaurantes logo à chegada ao resort.
Fizemos duas visitas: Chichén Itzá (a cerca de 200 km de Cancun), a cidade-templo construída pela civilização maia, considerada em 2007 uma das novas Sete Maravilhas do Mundo; Xel-Há (a cerca de 123 km de Cancun) um  impressionante parque aquático, conhecido como o maior aquário natural do mundo.
Em 2012 fomos até ao mar do Caribe e ficámos no Club Rotel Riu Ocho Rios, Ocho Rios, St. Ann - Jamaica.
De lá saímos para ir a uma feirinha próximo. Mas nem a extrema simpatia dos vendedores, nem o acessível preço dos "recuerdos" travaram o meu treme-treme no pouco tempo (que pareceu muito) que por lá andei.
Em 2015, o destino foi o Club Hotel Riu Funana, na Ilha do Sal - Cabo Verde.
Desta vez contámos com a companhia do meu filho, nora e da neta Carolina (a Madalena não era  nascida). Foi maravilhoso!
Num jipe demos a volta à ilha. E gostei do que vi em Ponta Preta, Murdeira, Monte Leão, Palmeira, Santa Maria e, claro, Espargos a maior cidade da Ilha do Sal.
Gostei da simpatia do pessoal do hotel, da excelente comida servida em vários restaurantes, da diversão diária, de aprender os passos básicos do funaná.
Não gostei do vento à noite, da água fria da piscina, do mar gelado e agitado. Ali banho só tomei de chuveiro. Verdade!
Não sei se voltarei a Cabo Verde...


Em 2018, festejámos o 70º aniversário do maridão no  fantástico resort Luxury Bahia Príncipe,  em Punta Cana - República Dominicana. 
Dentro do resort - uma bem organizada pequena cidade cheia de hóspedes e funcionários super simpáticos - há sete hotéis, totalmente independentes uns dos outros. É enorme mas ao segundo dia já não se estranha, antes se entranha. Para mim, é um amor p'rá vida toda.
Nós ficámos no Luxury Bahia Ambar Blue, hotel para adultos, mas tínhamos acesso aos equipamentos dos restantes hotéis. E conhecemos tudo!
Saímos deste magnífico resort para uma visita guiada a Santo Domingo, a encantadora capital e maior cidade da República Dominicana. Prometo um dia partilhar mais detalhes sobre esta visita.
Gostei muito da República Dominicana e deste resort em particular. Farei todos os possíveis e impossíveis para lá voltar. Haja saúde!
Curiosidades: cerca de 8.000 hóspedes por semana (não se dá por eles), durante todo o ano; 2.500 funcionários; 80% do que é servido no hotel (e que bom era tudo!) é produzido no país. Surpreendente, não?!
Se nunca esteve num "resort all inclusive", escolha um e compre já a viagem.
Na mala leve fatos de banho, saídas de praia, túnicas, shorts, chinelos, saco de praia (sem toalha dentro), toilettes para a noite, sandálias, um agasalho, artigos de higiene, protector solar, óculos de sol, livros e... basta!
Brinde à vida!

(Mais fotos das viagens ao Brasil, Cabo Verde e México aqui. Fotos da Jamaica e República Dominicana... um dia também lá estarão.)

11 junho, 2019

À terça - imagens e palavras: "paraíso"




“O Paraíso é o espaço que ocupamos no coração dos outros”.


JOSÉ EDUARDO AGUALUSA, escritor angolano (1960), in “Teoria Geral do Esquecimento” (2012), Ed. Quetzal, 2018
(Foto da net.)

07 junho, 2019

O que ando a ler devagar? Uma fotobiografia de Gandhi!

Se “já tanto foi escrito sobre Gandhi”, se “Gandhi é visto e revisto, analisado e interpretado de diferentes maneiras em cada década aproximadamente” o que trás de novo este livro?
Factos reais, detalhes surpreendentes e fascinantes da vida de Mohandas Karamchand Gandhi, "porventura o maior estadista da história, um líder nato e um revolucionário, um homem de extraordinária coragem e visão, mas também alguém que estava muitas vezes em conflito com os seus próprios ensinamentos, em conflito com os líderes e estadistas com quem trabalhava ou negociava, e em conflito com muitos aspectos da própria pessoa, sobretudo enquanto pai e marido”.
Numa narrativa cronológica cuidada, suportada em inúmeras fotografias, impressos, manuscritos  e documentos, este livro acompanha a vida de Gandhi, desde o seu nascimento, em 1869, até ao seu assassínio em 1948.
Da escola ao casamento precoce, da vida em Londres à  luta pela libertação do jugo britânico, tudo aqui é mostrado, analisado, comprovado. Nem o estranho relacionamento que teve com a família e amigos escapou ao olhar perspicaz do editor-escritor Pramod Kapoor.
Porque compartilhar tudo não posso, nem devo, deixo para reflexão algumas frases do estadista, retiradas do livro.
Gandhi, 1883
Gandhi casou, quando ainda não tinha 13 anos, com Kasturba, da mesma idade. Escreveria mais tarde: «duas crianças inocentes atiradas, contra sua vontade, ao oceano da vida».
Gandhi, 1909
«Mesmo uma política torta se endireitará se nos mantivermos fiéis a nós próprios.»
Gandhi, 1915
«A força física não é nada comparada com a força moral... esta nunca falha.»
Gandhi, 1930
«Um pequeno grupo de almas determinadas movidas por uma fé inextinguível na sua missão pode alterar o curso da história.»


Gandhi, 1948
«Para falar verdade, a morte é a eterna bênção de Deus. O corpo está gasto tomba e o pássaro que o habita voa para longe. Desde que o pássaro não morra, a questão da mágoa não se põe.»
Fotos  minhas, tiradas no exterior e interior  do museu, biblioteca e centro de pesquisa "Mani Bhavan", 
a residência de Gandhi em Mumbai, de 1917 a 1934.

Compre este livro arrebatador, delicado e cheio de detalhes  surpreendentes e leia. Rápido ou devagar, leia!
Este, ofereceram ao maridão mas eu li primeiro, e anotei, e sublinhei. Ele não se zangou!

(Restantes fotos da net.)