25 setembro, 2018

À terça - imagens e palavras: dor moral

“A dor moral é praticamente infinita. Quando se julga ter chegado ao último limite, há sempre novos tormentos. Vai-se de abismo em abismo. “


Frase de W. G. Sebald, escritor alemão (1944-2001), in “Os emigrantes”, Ed. Teorema, 2005
Foto da net.

20 setembro, 2018

Em Ibiza pensando em Portugal


Eis-me de regresso às lides bloguistas, após uma semana de férias fora do país.
O destino escolhido, desta vez apenas por mim (a aniversariante teve direito a escolher…), foi Ibiza, uma ilha do arquipélago das Ilhas Baleares, no mar Mediterrâneo.
A viagem foi curtinha mas mexidinha. Em números, foram mais as tremelicadas do avião do que os noventa minutos de voo. Nem a escrita de Mário Vargas Llosa acalmou o meu nervoso miudinho.
Porquê Ibiza, se já lá estive em Agosto de 2003? Pela internacionalmente famosa vida nocturna, em festas e discotecas apinhadas até manhã adentro?
Nada disso! Apenas porque nunca esqueci aquele mar de águas paradas, quentes e cristalinas. Porque o desejo de lá voltar aumentava de ano para ano. Porque quanto mais o Carlos se decidia por outros destinos mais eu lembrava e falava, e falava, e falava de Ibiza.
Quinze anos depois voltei(ámos) a Ibiza. E desta vez, o bom de ter voltado foi… o NUNCA mais querer voltar.
O hotel foi outro, a localização na ilha outra, a praia outra, esta de areal sujo e água quase fria. Foram vários os dias  em que grandes nuvens escuras, que teimosamente apareciam de manhã, ou à tarde, encobriam o desejado sol. E uma vez por outra, caíam bátegas de chuva fria. 
Diziam os simpáticos funcionários para nos animar: «Setembro é altura de muitas “tormentas”, mas o sol vai brilhar».
No hotel a animação não podia ser pior. À noite, esganiçados cantores mais pimbas do que o maior pimba português “assassinavam” velhíssimas/belíssimas canções inglesas, num palco montado próximo da piscina. O barulho até dentro do quarto era insuportável.
Na verdade, foi uma tormenta esta semana em Ibiza. Valeu pelos muitos banhos na piscina, e por um (único) banho no mar de água quente e cristalina de uma prainha de areia branca em Formentera, uma pequena ilha acessível por ferry. Devido ao meu medo de andar de barco pusemos de parte a viagem de 40 minutos à ilha. Acabámos por fazê-la na véspera do nosso regresso a casa, convencidos por um jovem casal brasileiro que já lá tinha ido e se preparava para voltar. Ainda bem que nos cruzámos com eles. Ainda bem que eles se dirigiram a nós quando nos ouviram falar português. Estivemos apenas uma tarde em  Formentera mas o gostoso e demorado banho de mar  deu um sabor diferente à semana de férias.
Enquanto lia à beira da piscina, o pensamento voava teimosamente para as praias maravilhosas do meu Portugal.
As praias algarvias, algumas das mais belas do mundo, tantas que conheço e amo. As praias da costa alentejana, que lamentavelmente conheço mal. As praias da linha de Cascais, aqui a dois passos de casa. Das praias do norte fujo devido à água gelada mas conheço algumas lindíssimas. As encantadoras praias fluviais espalhadas de norte a sul do país, cada vez mais reconhecidas internacionalmente.
Então, o que me leva a procurar praias fora de Portugal quando tenho tantas e belas cá dentro?
O gosto da descoberta (há tanto para descobrir cá dentro); o prazer de um mergulho em águas cristalinas e quentes (entro facilmente em águas mornas/frias); as mordomias de um hotel (é grande a oferta hoteleira); o deleite das viagens (há roteiros fabulosos para fazer de automóvel).
Esta viagem - sobre a qual contarei em outra altura pormenores hilariantes - valeu por me  convencer  de que Portugal, o meu país, é LINDO! 
(Fotos tiradas minutos antes da saída do hotel para rumar ao aeroporto.)

18 setembro, 2018

À terça - imagens e palavras: matrimónio




“Em sua maior parte, o matrimónio é um maltrimónio. Os dois pensando somar, afinal, se traem e subtraem.”


Frase de Mia Couto, escritor moçambicano (1955-), in “Contos do nascer da terra”, Ed. Caminho, 1997
Foto da net.

14 setembro, 2018

"Não, não é cansaço…" - poema de Fernando Pessoa


Não, não é cansaço…
É uma quantidade de desilusão
Que se me entranha na espécie de pensar
É um domingo às avessas
Do sentimento,
Um feriado passado no abismo…

Não, cansaço não é…
É eu estar existindo
E também o mundo,
Com tudo aquilo que contém,
Com tudo aquilo que nele se desdobra
E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.

Não. Cansaço porquê?
É uma sensação abstracta
Da vida concreta –
Qualquer coisa como um grito
Por dar,
Qualquer coisa como uma angústia
Por sofrer,
Ou por sofrer completamente,
Ou por sofrer como…
Sim, ou por sofrer como…
Isso mesmo, como…

Como quê?...
Se soubesse, não haveria em mim este falso cansaço.

(Ai, cegos que cantam na rua,
Que formidável realejo
Que é a guitarra de um, e a viola de outro, e a voz dela!)

Porque oiço, vejo.
Confesso: é cansaço!...

Poema de Álvaro de Campos, heterónimo de Fernando Pessoa (1883-1935)

Sabia que (4):
1903 – Em Novembro faz o exame de admissão à Universidade do Cabo da Boa Esperança. Obtém uma classificação relativamente baixa, mas é-lhe conferido, entre 8999 candidatos, o prestigiado prémio «Queen Victoria Memorial Prize» pelo melhor ensaio de estilo inglês.
1904 – Ingressa novamente na Durban High School (…)
Lê Shakespeare, Milton, Byron, Shelley, Keats, Tennyson e Poe. Interessa-se por Carlyle. Aprofunda a cultura clássica.
Escreve poesia e prosa em inglês. Surgem os heterónimos Charles Robert Anon e H.M.F. Lecher.
Faz o «Intermediate Examination in Arts» na Universidade do Cabo, obtendo bons resultados. Com este exame termina os seus estudos na África do Sul."
("Fernando Pessoa, uma fotobiografia", de Maria José de Lancastre).

Não sabia? Eu também não!
O que importa é que agora sabemos.
Prometo partilhar mais informações sobre a vida do poeta do desassossego.
(Foto da net)

11 setembro, 2018

À terça - imagens e palavras: beijar


“Beija-me pela última vez, e depois beija-me de novo. Não sabes como eu gosto de beijar pela última vez. As últimas vezes são ainda melhores do que as primeiras.”


Frase de JOSÉ EDUARDO AGUALUSA, escritor angolano (1960), in “Barroco Tropical”, Ed. Quetzal, 2018
Foto da net.

09 setembro, 2018

"Preciso do teu rosto esta manhã" - José Tolentino Mendonça

Não resisti! Não resisti a publicar hoje um excerto da crónica do teólogo e poeta José Tolentino Mendonça, publicada na revista “E”, do jornal Expresso de ontem.

Começa assim:
“Retornemos às Bem-Aventuranças.
É o grande discurso de Jesus. Bem-aventurados os pobres em espírito, os que choram, os mansos, os que têm fome e sede de justiça, os misericordiosos, os puros de coração, os construtores da paz, os perseguidos… Santo Agostinho dizia tratar-se do Evangelho breve, a síntese de toda a boa nova. Mahatma Gandhi, que não sendo cristão se apaixonou pelas Bem-Aventuranças quando estudante, declarou esta coisa espantosa: se, por uma calamidade, se perdesse toda a literatura e apenas permanecesse esta página das Bem-Aventuranças, teríamos o fundamental daquilo que foi dito, escrito, procurado, sonhado… Permaneceria vivo o melhor da humanidade.”

E mais adiante:
“ «A experiência de bem-aventurança é a de que a vida é, ou pode ser, completa e plena. Quem não deseja ser feliz? (…) fomos criados para a felicidade, essa é a nossa verdade. E quando não a experimentamos sentimos que não somos, que algo de fundamental faltou, julgamo-nos vazios e náufragos. É como se a vida tivesse falhado.”

E lá para o fim, ficamos a saber onde foi buscar o espantoso título  da crónica - a uma página diarística do escritor norte-americano Jack Kerouac:
“Ó Deus, preciso do teu rosto esta manhã, preciso de entrever o teu rosto através dos vidros empoeirados da janela, entre o fumo e o furor; preciso de escutar a tua voz acima do grande ruído da metrópole. Sinto-me exausto, ó Deus.»”

E termina com uma frase soberba:
"... temos de reconhecer, o coração humano é uma jangada em chamas na direcção do infinito."

VALE A PENA LER NA ÍNTEGRA.
Bom domingo!
(Foto da net.)

07 setembro, 2018

Viajando e aprendendo: Cuba


“Aquele que retorna de uma viagem não é o mesmo que aquele que partiu.”
Provérbio chinês.

Em 1997 voámos para a República de Cuba, um arquipélago no mar do Caribe formado por várias ilhas e ilhotas. As maiores são a Ilha de Cuba (maior e mais populosa ilha das Caraíbas, descoberta em 1492 por Cristovão Colombo) e a Ilha da Juventude.
Cuba é uma nação comunista cheia de história, com uma superfície aproximada de 110 860 km2 e mais de 11 milhões de habitantes.
Aterrámos em Havana, a capital e maior cidade de Cuba. Ali permanecemos três dias e depois partimos à descoberta de Guama, Trinidad, Ancón, Cienfuegos e Varadero.
Cuba cativou-me pela extraordinária beleza, pelas praias de areia branca, águas tépidas e cristalinas, pela simpatia e contagiante alegria do seu povo (uma mistura de populações espanholas, africanas e indígenas), pela música que se ouve em todo o lado, pelo cheiro a café, rum e tabaco.
Do esplendor colonial de Havana (chegou a ser uma das mais ricas cidades do mundo) à grandeza decrépita do início do século XX, o centro de Havana Velha está repleto de fortalezas, catedrais, palácios, mansões e edifícios coloniais. Tudo muito degradado. A sensação que se tem é que Havana, melhor dizendo, Cuba, parou em 1959, ano do início do embargo americano ao país.
Visitámos a Catedral de La Habana (1777), a Plaza de Armas, a Praza de la Revolución, o Museo de la Revolución, o Palácio de los Capitanes Generales e o Museo de la Plata.
Claro que entrámos em La Bodeguita del Medio, o café-restaurante cubano preferido do escritor Ernest Hemingway. Entrar naquele espaço pequenino de paredes rabiscadas com mensagens deixadas por turistas de todo o mundo, emociona.
E passeámos no Malécon, a avenida marginal de Havana (em seis faixas circulavam coloridos carros americanos dos anos 50, impecavelmente mantidos por mecânicos milagreiros) ladeada de imponentes e charmosos edifícios oitocentistas em ruínas.
Nas ruas de Havana inúmeros garotos pediam canetas e caramelos. Não pediam dinheiro. Avisada, levei comigo dezenas de canetas e pacotes de caramelos. A alegria dos garotos deixava-me os olhos rasos d'água.
No trajecto Havana – Trinidad visitámos Guamas, uma aldeia típica muito bonita localizada na península de Zapata, e logo seguimos para o Hotel Ancón (o maior hotel onde já dormi), localizado na Playa Ancón, a sul de Trinidad.
Chegámos ao hotel às 23.00 horas e de imediato corremos para a praia iluminada apenas pela luz do interior do hotel e mergulhámos num mar de água calma e quentíssima! Nunca, jamais, esquecerei o meu primeiro banho de mar nocturno, na misteriosa Cuba.
No dia seguinte nada nem ninguém nos afastava da areia branca e fina, do azul-turquesa do mar, do verde das palmeiras, mas… havia que visitar Trinidad.
A cidade de Trinidad, localizada num colina a cerca de 20 minutos de Ancóm, foi fundada em 1514 por Diego  Velázquez e considerada Património da Humanidade pela UNESCO, em 1988. As ruelas empedradas e as casas cor pastel pouco mudaram desde o século XVIII, quando Trinidad enriqueceu com o comércio de escravos e de açúcar. Na Plaza Mayor, a praça principal da cidade, encontra-se uma catedral, o Museu Romântico, o Museu Histórico, o Antigo Convento de San Francisco de Assis, várias galerias de arte e  feiras de artesanato.
Visitámos uma Fábrica de Charutos e vimos homens e mulheres de rosto cansado e triste enrolar charutos sem parar. Nenhum nos dirigiu um breve olhar. Em fundo, uma voz masculina lia sem parar uma lenga-lenga com a produção de cada um deles no dia anterior. Terrível!
Nas ruas de Trinidad as crianças não pediam dinheiro, nem canetas nem caramelos, pediam sabonetes. 
Sobre isto não tinha sido avisada mas resolvi o problema com os sabonetinhos do hotel. Nas duas visitas a Trinidad distribui sabonetes, canetas e caramelos. Uma alegria!
Mulheres jovens pediam roupa. Roupa?!
E chegou o dia de deixar Ancón e rumar a Cienfuegos, cidade costeira da região central fundada em 1819 por colonos franceses, capital da província com o mesmo nome, e um dos maiores portos do país.
O traçado da cidade é perfeito, com ruas direitas à volta da Plaza de Armas (ou Parque Martí), ladeadas de belos edifícios coloniais e mansões do fim do século XIX em bom estado de conservação e muito, muito, verde.
Cienfuegos, com aproximadamente 150 mil habitantes, é bonita, limpa, um museu ao ar livre. Merece ser visitada caminhando, sem pressa. Sombras há muitas, para descansar e observar os passeantes.
Lamentavelmente, caminhámos pouco e o que vimos da cidade foi através do vidro do mini-bus que nos transportava.
E lá seguimos para Varadero, a principal estância balnear de Cuba.
Durante uma semana andámos integrados num grupo de catorze pessoas: 12 turistas portugueses, a guia (uma cubana que estudou no Malawi e aprendeu português em Moçambique) e o motorista (um advogado obrigado a mudar de profissão para poder sustentar a família).
Em Varadero o grupo despediu-se com emoção e tristeza da guia e do motorista e foi distribuído por vários hotéis.  No nosso, um 5 estrelas em regime tudo incluído, apenas ficámos nós dois. Enfim, apenas nós!
Em Varadero tudo era diferente: bons hotéis, serviço excelente, piscinas, praias de areia branca, águas serenas, límpidas e quentes. 
Para além dos muitos e demorados mergulhos no mar e na piscina, a calma convidava a leituras demoradas, sonecas repousantes, mimos prolongados, cocktails frescos, jantares delicados e um pezinho de dança na discoteca sempre apinhada de corpos bronzeados e ondulantes. Demasiado ondulantes, em alguns casos…
Quatro dias depois fizemos o trajecto Varadero – aeroporto de Havana, num táxi conduzido por um médico, sim um médico, humilde, simpático, conversador, pai de duas crianças em idade escolar que, dizia, «tinha de alimentar».
Com ele ficámos a conhecer um pouco mais da Cuba de Fidel, e a saber das dificuldades de vida do povo cubano, apesar de a educação e a saúde serem gratuitos.
(o que ouvimos, espantados, ficou para sempre dentro daquele táxi)
Da Cuba de 1997 trouxe a mala vazia (fui deixando roupa em todos os hotéis, dei todos os medicamentos que tinha comigo à guia, e poucas lembranças consegui encontrar para comprar) mas o coração cheio de admiração pelo seu povo humilde, simpático, culto (a taxa de alfabetização é de 99,8%), muito, muito alegre.
Foi uma viagem excelente e marcante. Quero, queremos, repeti-la para verificar o que por lá mudou.
Uma coisa já sabemos: Cuba não é Varadero. Estâncias turísticas com hotéis lotados e barulhentos há pelo mundo fora, já Cuba há só uma. E merece que a visitem.
Aconselho!
(Mais fotos aqui.)

04 setembro, 2018

À terça - imagens e palavras: "gentileza"



"«Não há suficiente gentileza no mundo.»
Qual é o nosso problema? Por que razão não somos mais gentis? O escritor George Saunders explica-o assim: porque cada um de nós se deixa capturar por uma série de equívocos congénitos. Primeiro, achamos que somos o centro do mundo e que a nossa história é a mais importante, interessante, quando não mesmo a única que conta. Segundo, porque nos vemos desligados do Universo: existimos nós e, depois, a outro nível coexiste confusamente tudo o resto. Terceiro, porque vivemos na prática como se fôssemos eternos sobre a Terra. Sabemos que a morte existe, mas para os outros, não para nós. Ora, estes equívocos levam-nos a construir a nossa existência antepondo (ou sobrepondo) as nossas necessidades às necessidades de todos os demais."

Excerto da crónica "Algumas notas sobre a gentileza" de José Tolentino de Mendonça, teólogo e poeta português(1965-)
Foto da net.

31 julho, 2018

À terça - imagens e palavras: "vida"

“- Adia tudo. Nunca se deve fazer hoje o que se pode deixar para amanhã. Nem mesmo é necessário que se faça qualquer coisa, amanhã ou hoje.
- Nunca penses no que vais fazer. Não o faças.
- Vive a tua vida. Não sejas vivido por ela. Na verdade e no erro, na dor e no bem-estar, sê o teu próprio ser. Só poderás fazer isso sonhando porque a tua vida-real, a tua vida humana é aquela que não é tua, mas dos outros. Assim, substituirás o sonho à vida e cuidarás apenas em que sonhes com perfeição. Em todos os teus atos da vida-real, desde o de nascer até ao de morrer, tu não ages: és agido; tu não vives: és vivido apenas.
Torna-te para os outros, uma esfinge absurda. Fecha-te, mas sem bater a porta, na tua torre de marfim. E a tua torre de marfim és tu próprio.
E se alguém te disser que isto é falso e absurdo, não o acredites. Mas não acredites também no que eu digo, porque se não deve acreditar em nada.
- Despreza tudo, mas de modo que o desprezar te não incomode. Não te julgues superior ao desprezares. A arte do desprezo nobre está nisso.”

Palavras de FERNANDO PESSOA, poeta português (1888-1935), in “Livro do desassossego”, Ed. Tinta da China, 2014

(Leiam mais frases/pensamentos no meu "Pétalas de Sabedoria".)
Agosto chega já amanhã e eu vou de  férias do meu "rol de leituras".
Voltarei em Setembro.
Abraço muito amigo para todos.
Leiam, leiam MUITO!

27 julho, 2018

"O Ministério da Felicidade Suprema" - Arundhati Roy

Como contar uma história destroçada?
Tornando-me lentamente todos.
Não.
Tornando-me lentamente tudo.
Finalmente acabei de ler "O Ministério da Felicidade Suprema", segundo romance de Arundhati Roy, publicado vinte anos após o enorme sucesso de “O Deus das Pequenas Coisas”, Booker Prize, 1997.
É um romance intenso, denso, duro, "pesado". Uma viagem íntima pelo subcontinente indiano, desde os bairro superlotados da Velha Deli e os centro comerciais reluzentes da nova metrópole às montanhas e os vales de Caxemira.
Na trama narrativa, salpicada de detalhes autobiográficos, encaixam 12 histórias de amor e provocação, contadas num sussurro, num grito, com lágrimas e gargalhadas. Histórias mágicas marcadas por personagens inesquecíveis apanhadas pela maré da História, que carregam consigo uma forte carga de sofrimento e buscam um porto seguro. Como Anjum, uma transexual que vive num cemitério e dorme no tapete persa puído que desenrola entre duas campas; ou o doutor Azad Bhartiya, "tão magro que quase se podia dizer que era bidimensional", em greve de fome contra "o Império Capitalista, e contra o Capitalismo dos EUA, Terrorismo Estatal Indiano e Americano/Todo o tipo de Armas Nucleares e Crime..."; ou Tilo, uma mulher sozinha, uma lutadora pela independência de Caxemira que quer ter "a liberdade de morrer de forma irresponsável, sem aviso e sem razão", ou... ou...
Da terceira história "A Natividade" retirei o  excerto que compartilho para entusiasmar quem por aqui passar para a leitura de um romance avassalador, que a autora dedica a «Os Desconsolados».

“Ela apareceu de repente, pouco depois da meia-noite. Não houve anjos a cantar, nem sábios nem oferendas. Mas um milhão de estrelas nasceu a leste para anunciar a sua chegada. Num momento não estava lá e no momento seguinte… ali estava ela, no pavimento de betão, num berço feito de lixo; pratas de maços de tabaco, alguns sacos de plástico e pacotes vazios de Uncle Chipps. Estava deitada numa poça de luz, sob uma coluna de mosquitos esvoaçantes iluminados pelos neons, nua. A sua pele era negro-azulado, reluzente como a de uma foca bebé. Estava acordada, mas perfeitamente imóvel, coisa invulgar em alguém tão pequenino. Talvez, naqueles primeiros curtos meses de vida, já tivesse aprendido que as lágrimas, pelo menos as lágrimas dela, eram inúteis. (…)
À sua volta, a cidade estendia-se por quilómetros. (…) Os corpos adormecidos dos sem-abrigo cobriam os passeios altos e estreitos, cabeça com pés, cabeça com pés, até desaparecerem à distância. Havia velhos segredos escondidos nas dobras da pele solta e fina da cidade. Cada ruga era uma rua, cada rua uma feira de diversões. Cada articulação artrítica era um anfiteatro em ruínas, onde se representavam há séculos histórias de amor e loucura, de estupidez, de prazer e crueldade indizíveis. Esta, porém, seria a alvorada da sua ressurreição. (…)
Foi aí, ao lado das Mães dos Desaparecidos, que a nossa bebé silenciosa apareceu. As Mães demoraram algum tempo a dar por ela, porque era da cor da noite (…) As Mães dos Desaparecidos não sabiam o que fazer com um bebé que tinha aparecido.
Especialmente um bebé preto.
Kruhun kaal
Especialmente uma menina preta.
Kruhun kaal hish
Especialmente uma menina preta enrolada em lixo.
Shikas ladh
De quem é esta criança?
Silêncio.
O que fazer com a bebé?
Talvez consciente de que se tornara o centro das atenções, ou por estar assustada, a bebé silenciosa começou finalmente a chorar. (…)"

Onde é que os pássaros velhos vão morrer?
Sabe a resposta?

Sensacional!
E mais não digo. Leia, por favor!

O Ministério da Felicidade Suprema, de Arundhati Roy
Tradução de Elsa T. S. Vieira,
ASA Ed., 2017
463 págs.

24 julho, 2018

À terça - imagens e palavras: crueldade


"A crueldade tem coração humano; a inveja, cara humana; o terror, corpo humano; 
os segredos, a roupagem dos humanos.”


Frase de William Blake, poeta e pintor inglês (1757-1827)
Foto da net.

20 julho, 2018

Viajando e aprendendo: Brasil (de Natal a Fortaleza)

“Viajar é nascer e morrer a todo o instante”.
Victor Hugo, escritor francês (1802-1885)

Em 2002 viajámos para o nordeste do  Brasil. 
Ali, esperava-nos "uma emocionante aventura": fazer Natal - Fortaleza de jipe, sobre o areal de 85 praias paradisíacas. Uma aventura plena de luz, cor, sabor, ritmo, cultura e deslumbrantes cenários naturais.
Natal é a capital do estado do Rio Grande do Norte.
A cidade, que cresceu nas margens do rio Potenji e do Forte dos Reis Magos, no extremo nordeste do Brasil, é a terceira capital de estado com melhor qualidade de vida e a mais próxima do continente europeu. Tem cerca de um milhão de habitantes.
Foi aqui que iniciámos a aventura pelas praias do Rio Grande do Norte e Ceará (e não só!), cerca de 800 quilómetros percorrido quase na totalidade sobre o areal de exóticas  e luxuriantes praias de areia branca e água límpida e quente.
O grupo era reduzido: eu, o Carlos e um casal de jovens do norte de Portugal, que não conhecíamos mas com quem gostámos de partilhar a aventura.
O jipe foi conduzido por dois guias simpáticos e competentes, que souberam mostrar-nos os locais  e indicar-nos os momentos de maior deslumbramento, como o magnífico pôr-do-sol que vi sentada numa duna, em Canoa Quebrada, e que nunca será esquecido.
Admirámos Genipabu e as suas lagoas situadas entre as dunas.
Passámos pelo Cabo de São Roque (ponto mais próximo do Continente Africano), Caraúbas (exuberante com os seus coqueirais), Maracajaú (com água cristalina), deserto de Alagamar, Dunas do Rosado.
Chegámos à Ponta do Mel, onde o sertão chega ao mar. As suas dunas móveis e falésias gigantes deixaram-nos extasiados.
Descobrimos a exótica e mística Canoa Quebrada, onde a animação é permanente e a beleza natural uma inesgotável fonte de inspiração. Gostei particularmente "desta canoa". 
Degustámos o melhor peixe e marisco, em esplanadas no areal.
Deixámo-nos embalar pelo ritmo do forró.
Dormimos em pousadas rústicas mas acolhedoras.
Em função das marés,controlámos o tempo das paragens para fotografar, mergulhar e almoçar . 
Subimos e descemos dunas de buggy (o que eu gritei…).
Brincámos em dunas de areia branca e fina.
Admirámos arquitectura colonial.
Percorremos, sózinhos, quilómetros e quilómetros no areal de praias desertas. Sem medos, e só por isso esta viagem é inesquecível!
Sempre que o litoral era demasiado acidentado desviámos para estradas de asfalto.
Num desses desvios parámos em Mossoró (principal cidade do interior nordestino, a 280 km de Natal) e dormimos, uma noite, no Thermas Hotel & Resort. O que nos divertimos nas 12 piscinas de águas termais, cada uma delas com temperatura  da água e tema de diversão diferente. Na piscina dos 51 graus nenhum de nós entrou. Claro!
Entre Canoa Quebrada e Fortaleza conhecemos 21 belas praias. Destaco Morro Branco, Diogo e das Fontes, onde nascentes de água fresca se lançam das falésias rosadas sobre o mar.
Por fim chegámos a Fortaleza.
Fortaleza, capital do estado brasileiro do Ceará, está localizada no litoral Atlântico.
Com uma superfície de 313,8 km2 é a capital com maior densidade geográfica do país - tem cerca de 2,5 milhões de habitantes.
Ali o medo não deixou que saíssemos do perímetro de segurança do hotel, localizado frente à praia.
A visita à cidade foi rápida e poucas vezes saímos do jipe.
Passeámos no movimentado calçadão, em frente ao hotel,  e comprámos artesanato numa feirinha de simpáticos vendedores.
De Fortaleza voámos Natal.
Restavam dois dias de aventura.
De Natal demos um saltinho a Pirangi, para admirar o maior cajueiro do mundo, com uma copa superior a um campo de futebol. Isto porque os galhos crescem para os lados e não para cima e ao tocarem no chão criam novas raízes. O cajueiro de Pirangi foi plantado por um pescador, em 1888.
Extra programa visitámos a famosa Praia da Pipa, localizada a cerca de 85 quilómetros de Natal. Foi um dia bem passado: mergulhos no mar, almoço de marisco no areal, compras na lojinha de artesanato de um português...  Saímos da Praia da Pipa desejando lá voltar.
Esta "emocionante aventura", extremamente bem organizada, deixou saudades. 
Recomendo!

(Mais fotos aqui.)

17 julho, 2018

À terça - imagens e palavras: "mar"


"A dentadas de sal e de espuma
o mar apaga-me os últimos passos..."


"Pablo Neruda, poeta chileno (1904-73), in "Crepusculário", 1923
Prémio Nobel da Literatura, 1971
Foto da net.

13 julho, 2018

"Os Loucos da Rua Mazur" - João Pinto Coelho

Os judeus contavam-se já às centenas e ocupavam a praça inteira. A toda a volta, estava o resto da cidade, os gentios que se apertavam para não deixar escapar ninguém. Na primeira fila, os cristãos mais valentes, homens e rapazes munidos com bastões; logo atrás, em maior número, os curiosos mais os gritos de incentivo...
É poderoso o segundo romance de João Pinto Coelho, justamente distinguido, em 2017, com o Prémio Leya - prémio atribuído a uma obra inédita escrita em língua portuguesa.
Poderoso pela forma diferente e inteligente como trata um assunto controverso: a perseguição e assassínio de judeus, na Polónia da Segunda Guerra Mundial.
O escritor parte de um caso real - o massacre de 600 a 1600 judeus fechados e queimados vivos por vizinhos cristãos, numa cidade de 2.500 habitantes (nunca identificada no romance) do nordeste da Polónia, em Julho de 1941 - e cria uma história extraordinária feita de pequenos/grandes apontamentos do quotidiano de cristãos e judeus de uma comunidade polaca. Um quotidiano pacífico apesar das desigualdades sociais e religiosas, que se torna violento depois da invasão de alemães e soviéticos. Do nada, um rasto de brutaliade varreu as ruas da cidade: os gentios acusavam os judeus, os judeus culpavam os cristãos, e as denúncias arremessadas de um lado ao outro da cidade apanhavam sempre alguém, enchendo com mais inocentes as salas do manicómio e meia dúzia de caves escolhidas pelos russos para lhes soltar a língua.
Tudo o que ali se passou antes, durante e depois da guerra, é desvendado por dois amigos de infância, Yankel, judeu e Eryk, católico, que próximo do fim da vida, depois de muitos anos sem se verem, se encontram em Paris para mergulhar no passado, recuperar memórias e escrever um livro sobre o que realmente se passou na cidade de cristãos e judeus, de sãos e de loucos, onde não ardeu um celeiro, mas ardeu um manicómio.
Em Paris, a cidade onde Yankel, só mais um judeu a escapar das cinzas, o livreiro cego, que pedia às amantes que lhe lessem na cama, gostava de morrer, resumia todos os dias a sua vida mas nela não incluía os anos de juventude nem a tragédia que o fizera fugir.

Esta história é assombrosa, bem engendrada, extremamente bem escrita (é espantoso o conhecimento que o escritor tem da língua portuguesa), e com um leque de personagens credíveis e inesquecíveis, mas…
… lê-la não é tarefa fácil, dada a seriedade do tema, a densidade da trama e os constantes saltos narrativos por lugares e tempos diferentes : Paris (2001 e 2002) e Nordeste da Polónia (1934 a 1941).
Como não é uma história para ser contada mas sim lida, fico por aqui.
Se recomendo? Claro, vivamente!
… a Rua Mazur era acanhada, todos se conheciam...

(A minha amiga F. tem na mesa de cabeceira um dicionário da língua inglesa, pois eu, depois de ler este livro, envergonhada, vou colocar na minha um dicionário da Língua Portuguesa.)

Os Loucos da Rua Mazur, de João Pinto Coelho
Ed. Leya, 2017
311 págs.

10 julho, 2018

À terça - imagens e palavras: tempo


Uma semana!
Durante uma semana fui avó a tempo inteiro da minha pequenina de 22 meses.
Por ela, retornei à infância e brinquei, cantei, dancei, pulei, rebolei. 
E mimei, mimei muito a pequenina. Mimei e fui mimada, com beijos babados, abraços apertados e risinhos de alegria.
Por ela, alterei rotinas, cozinhei papinhas, vi desenhos animados, escondi livros, canetas, lápis. A rapariga não lê mas rasga, não escreve mas enche de "grafites" portas, paredes, mesas e sofás.
E olhei, minuto a minuto, por ela e para ela. Olhava embevecida aquele ser pequenino, e sentia o coração pular de gratidão. 
A semana passou e logo os papás e a mana a vieram buscar. E a casa silenciou e entristeceu.
Então, agradeci a Deus a semana maravilhosa e pedi-lhe TEMPO, tempo para ver crescer a Madalena.
Ser avó é bom demais!

06 julho, 2018

"O sono que desce sobre mim" - poema de Fernando Pessoa


O sono que desce sobre mim,
O sono mental que desce fisicamente sobre mim,
O sono universal que desde individualmente sobre mim –
Esse sono
Parecerá aos outros o sono de dormir,
O sono da vontade de dormir,
O sono de ser sono.

Mas é mais, mais de dentro, mais de cima:
É o sono da soma de todas as desilusões,
É o sono da síntese de todas as desesperanças,
É o sono de haver mundo comigo lá dentro
Sem que eu houvesse contribuído em nada para isso.

O sono que desce sobre mim
É contudo como todos os sonos,
O cansaço tem ao menos brandura,
O abatimento tem ao menos sossego,
A rendição é ao menos o fim do esforço,
O fim é ao menos o já não haver que esperar.

Há um som de abrir um a janela,
Viro indiferente a cabeça para a esquerda
Por sobre o ombro que a sente,
Olhos pela janela entreaberta:
A rapariga do segundo andar de defronte
Debruça-se com os olhos azuis à procura de alguém,
De quem?,
Pergunta a minha indiferença,
E tudo isso é sono.

Meu Deus, tanto sono!...

Poema de Álvaro de Campos, heterónimo de Fernando Pessoa (1883-1935)

Sabia que (3):
1899 - Em Abril (Fernando Pessoa) ingressa na Durban High School onde permanecerá durante três anos, revelando-se um dos melhores alunos do curso. (...)
Cria o heterónimo Alexander Search.
1901 - Em Junho é aprovado com distinção no seu primeiro exame o «Cape School Higher Certificate Examination».(…)
Primeiras poesias em inglês.
Em Agosto parte com a família para Portugal em viagem de férias.
1902 - Em Maio visita com a mãe, o padrasto e os irmãos, a Ilha Terceira, nos Açores, onde vive a família materna. Escreve a poesia Quando ela passa.
Em Junho regressam a Durban a mãe, o padrasto e os irmãos (…)
Em Setembro Fernando Pessoa volta sozinho para a África do Sul no vapor alemão Herzog.
Matricula-se na Commercial School. Tenta escrever romances em inglês.”
("Fernando Pessoa, uma fotobiografia", de Maria José de Lancastre).

Não sabia? Eu também não!
O que importa é que agora sabemos.
Prometo partilhar mais informações sobre a vida do poeta do desassossego.

(Foto de Pierre Verger, fotógrafo franco-brasileiro (1902-1996)

03 julho, 2018

À terça - imagens e palavras: "professor"


"O professor medíocre descreve, o professor bom explica, o professor óptimo demonstra e o professor fora de série inspira."


Frase de William Arthur Ward, escritor norte-americano (1921-1994)
Foto da net.

29 junho, 2018

Cartas... de amor e dor!

“… sinto saudades do tempo em que as pessoas se correspondiam, trocando cartas, cartas autênticas, em bom papel, ao qual era possível acrescentar uma gota de perfume, ou juntar flores secas, penas coloridas, uma madeixa de cabelo. Sofro uma nostalgia miúda desse tempo em que o carteiro nos trazia as cartas a casa, e da alegria, do susto também, com que as recebíamos, com que as abríamos, escolhíamos as palavras, medindo-lhes o peso, avaliando a luz e o lume que ia nelas, sentindo-lhes a fragrância, porque sabíamos que seriam depois sopesadas, estudadas, cheiradas, saboreadas, e que algumas conseguiriam, eventualmente, escapar à voragem do tempo, para serem relidas muitos anos depois.”
José Eduardo Agualusa, in “O Vendedor de Passados”, Ed. Quetzal, 2017


Este excerto do livro de José Eduardo Agualusa fez-me recuar no tempo e lembrar as duas vezes que escrevi cartas. Cartas de amor e de dor.
Na década de noventa, do século passado, uma ausência prolongada do meu marido em Moçambique, em trabalho, deixou-me perdida. Nem as minhas idas lá de seis em seis meses, nem as vindas dele cá, me recompunham.
Semanalmente, enviava-lhe na mala da empresa uma encomenda e uma carta. Na encomenda inseria jornais (semanários e desportivos) e mimos. Na carta, em forma de diário descrevia a  minha semana, numa escrita que misturava dor, saudade e muito amor.
Uma colega e amiga querida, que semanalmente me acompanhava à empresa onde entregava tudo, dizia como muita graça «essas cartas pingam amor».
Em 1975, “retornei” a Portugal com o pai do filho de 4 meses que trazia dentro de mim.
No aeroporto de Lisboa conheci a minha outra família e na madrugada fria de Março, que enregelou até o vazio da minha alma, rumámos à casa dos meus sogros, onde vivemos até ao nascimento do Miguel.
Na Lisboa dessa época, que eu achei feia, cinzenta, triste, chorei rios de lágrimas de saudade dos meus pais e irmã, que continuaram em Moçambique por mais dois anos.
Um mês depois de chegarmos a Lisboa o marido começou a trabalhar e eu, sozinha, fechava-me no quarto e escrevia para os meus pais cartas sem fim. Em envelopes metia 20-30 páginas carregadas de saudade, molhadas por lágrimas que teimavam em cair, e muita, muita dor. Dor daquela que não se explica mas se sente roendo por dentro. Eu apenas queria abraços: do meu pai (que dava abraços gostosos), da minha mãe (que não sabia abraçar, mas tentava), da minha irmã (que refilava, mas encostava o seu coração ao meu). Se na altura conhecesse a minha amiga S., ela diria «essas carta pingam dor».
Tinha o meu filho um mês, já na casa de nós três as cartas para Moçambique deixaram de levar dentro lágrimas e passaram a levar alegria: muitas fotos do primeiro neto e sobrinho, para que lá longe avós e tia acompanhassem, à semana, o crescimento do pequenino. E logo, logo, passei eu a receber cartas molhadas por lágrimas salgadas.
Muitos anos passaram. Agora, escrevo cartas misteriosas, sem destinatário... em sonhos!
A vida é isto!

(Foto da net.)

26 junho, 2018

À terça - imagens e palavras: "morte"








“Ninguém sabe o que é a morte, mas não faz muita diferença, porque também nunca sabemos o que é a vida.”


Frase de António Lobo Antunes, escritor português (1942-)
(Foto cedida por ANTÓNIO GOMES, do blogue "Existe Sempre um Lugar". Obrigada, amigo!)

22 junho, 2018

Viajando e aprendendo: Índia (2)

Continuando...

No estado de Uttar Pradesh, um dos maiores e mais habitados estados da Índia, banhado pelos grandes rios Yamuna e Ganges, visitámos Agra, a cidade do Taj-Mahal, Khajuraho e Varanasi, a cidade mais antiga do mundo, o local sagrado do Hinduísmo.
Em Agra dormimos duas noites mas tivemos apenas um dia para visitar a cidade. Soube a pouco, mas foi o suficiente para  realizar um sonho: entrar, admirar, fotografar o Taj Mahal,  o majestoso mausoléu que o imperador Shah Jahan mandou construir em memória de Mumtaz Mahal, a sua esposa favorita falecida em 1631, no parto do 14º filho.
Estima-se que 20 000 operários franceses, persas, italianos e turcos trabalharam durante 17 anos na construção do Taj Mahal  - uma miragem, um poema de amor em mármore branco, incrustado com pedras semipreciosas, e uma cúpula "costurada" com fios do mais puro ouro - um dos mais famosos monumentos do mundo, classificado pela UNESCO como Património da Humanidade e desde 2007 uma das Novas Sete Maravilhas do Mundo.
Saímos cedo do hotel para a visita ao Taj Mahal. Envolto em neblina, o famoso mausoléu era ainda mais espectacular. O sol apareceu depois e a emoção que senti quando entrei no magnífico túmulo e percorri os jardins que o ladeiam é inenarrável. 
Destaco a Câmara Tumular; o Biombo filigranado, esculpido num único bloco de mármore; os jardins exteriores; a Fonte de Lótus, com o reflexo do túmulo nas suas águas.
No período da tarde visitámos o Forte de Agra, construído pelo imperador Akkar entre 1565 e 1573. Localizado na margem ocidental do rio Yamuna, as suas imponentes muralhas de arenito vermelho rodeiam um enorme complexo de edifícios palacianos. Jahangiri Mahal, o grande palácio dentro do forte, remonta ao reinado de Akkar.
(Em cada uma das cidades do itinerário fomos acompanhados por simpáticos e competentes guias locais. Já o motorista, andou connosco de Deli a Varanasi.)
À noite, o motorista levou-nos a um teatro local onde assistimos a um belíssimo espectáculo de música e dança. Gostei!
Na manhã do dia seguinte viajámos de comboio de Agra para Jhansi, uma viagem de aproximadamente três horas.  Na estação de Jhansi esperava-nos o motorista "que nos abandonou" na estação de comboios de Agra (um exemplo da pobreza do país), e nos levou, por estrada, para Khajuraho
(Sobre a viagem de comboio, não encontro palavras para descrever o que senti numa carruagem de 1ª classe primitiva, apinhada de gente. Talvez a experiência tivesse piada se viajássemos inseridos num grupo, agora apenas nós dois, com bagagem, foi inacreditável!
Porque fomos nós de comboio? Estradas péssimas a esconder de turistas? Pois eu preferia ter viajado de "montanha russa", desviando de vacas e búfalos, do que de comboio. Sim, porque viajar de comboio na Índia é uma experiência do outro mundo...)
No caminho parámos em Orchha, cidade fundada em 1531 e eleita capital pelos reis de Bundela até 1738, quando foi abandonada. Localizada num ilha rochosa do rio Betwa, Orchha mostra-se agora num conjunto de palácios em ruínas. É lastimável o estado de abandono, degradação e sujidade visível em todo o lado, nomeadamente no Jahangiri Mahal, construído pelo rei Bir Singh Deo de Bundela, que passou ali apenas uma noite. É um palácio imponente, quadrado em arenito vermelho, com 132 divisões espalhadas por vários pisos, um pátio central e subterrâneos. É o único palácio visitável. Eu tentei entrar, mas não consegui passar do pátio. O intenso cheiro a um produto desinfectante (creolina?) incomodava e afugentava.
A viagem continuou para Khajuraho. 
Chegámos ao fim da tarde a mais um hotel de 5 estrelas rodeado de barracas e cães a remexer montes de lixo.  Do quarto, a vista para os cuidados jardins à volta da piscina faziam esquecer, por algumas horas, o que de menos belo tínhamos visto.  
No dia seguinte, acompanhados por mais um guia local visitámos os famosos Templos de Chandela, erguidos nos séculos IX e X pela dinastia Chandela, que na altura dominava a Índia. O magnífico conjunto de templos, famosos pelas suas escultura eróticas, é Património Mundial da Humanidade.
O mais admirável é o Templo de Kandariya Mahadev, que representa o apogeu da arte e arquitectura do norte da Índia.
A seguir ao almoço arrancámos com destino a Varanasi, a mais sagrada das cidades hindus, com um legado religioso e espiritual que remonta a cerca de 3 000 anos. 
Também conhecida por Kashi (Cidade da Luz) ou Benares, Varanasi situa-se na margem oeste do rio Ganges. Nos 90 ghats (escadas na margem do rio), numa extensão de cerca de 6 km), e nas águas sagradas assiste-se a um contínuo ciclo das práticas religiosas hindus. A cremação de cadáveres é feita aqui e ali nos degraus da escadaria e as cinzas são depois deitadas ao rio. 
(Tudo se deita ao rio. Tudo se faz no rio. Todos se banham no rio, animais incluídos.)
 
Chegámos a Varanasi ao fim da tarde e saímos logo para um passeio na companhia do guia local. De rickshaw percorremos as ruas estreitas e apinhadas de gente da cidade, atravessámos mercados e por fim chegámos às margens do rio Ganges para assistir, no rio, dentro de um pequeno barco, à cerimónia "Ganga Aarti" que decorre na escadaria e observar centenas de velas e flores a flutuar no rio, à medida que o sol se põe.
Na manhã do dia seguinte, ainda antes do pequeno almoço, saímos para um passeio de barco pelo rio para contemplar os palácios, a escadaria e os peregrinos a banharem-se nas águas escuras (e sujas...) do Ganges. Assistimos ao nascer do sol e sem quaisquer dúvidas, o passeio pelo Ganges valeu a pena.
(De Varanasi vou lembrar para sempre a imagem real de inúmeros idosos, moribundos, magríssimos, abandonados, deitados por todo o lado. Segundo explicação do guia, são pessoas comuns que  querem exalar o último suspiro na cidade sagrada. Arrepia, não? )
À tarde dissemos adeus ao motorista e partimos de avião para Delhi, de onde no dia seguinte voámos para Goa.
Goa é um pequeno estado na costa oeste da Índia, dividido em dois distritos; Goa Norte e Goa Sul.
Antiga colónia portuguesa anexada pela União Indiana em 1961, os 400 anos de domínio português deixaram marcas profundas na língua, religião, culinária e forma de vestir das suas gentes.
As praias idílicas (que se estendem ao logo de mais de 106 km), o excelente clima, as pitorescas paisagens,  e o povo hospitaleiro, fazem de Goa um dos maiores destinos de férias da Índia.
Aqui, fomos acompanhados por um guia competente, simpático, descendente orgulhoso de portugueses, apreciador de bacalhau, que nos mostrou os grandes palácios coloniais da nobreza que prosperou nos séculos XVIII e XIX. Levou-nos à famosa Velha-Goa (classificada como Património Mundial da Humanidade pela UNESCO e considerada o coração espiritual do Cristianismo na Índia) para admirarmos a belíssima Basílica do Bom Jesus, venerada por católicos de todo o mundo por guardar os restos mortais de São Francisco Xavier e a grandiosa Sé Catedral, a maior igreja da Ásia, com um altar extraordinário em talha dourada.
No dia seguinte percorremos ruas e locais onde observámos a impressionante herança portuguesa, sempre acompanhados pelo experiente guia que tudo sabia sobre a nossa presença naquele lugar paradisíaco.
Em Goa não há confusão de automóveis, não há sujidade, respira-se ar puro e ouve-se o silêncio: tudo está limpo e ordenado. As ruelas estreitas, com casas pintadas de cores vivas, lembram o Portugal distante. Ali não faltam bares, cafés, restaurantes, mercados e gente que fala português.
O excelente hotel onde ficámos alojados estava a dois passos do areal de uma praia de areia branca e águas calmas mas uma chuva miudinha impediu um banho de mar.
Goa, é um destino turístico a considerar.
Depois de duas noites em Goa voámos para a última etapa da viagem: Mumbai (Bombaim).

Foi curtíssima a estada em Mumbai, uma cidade de enormes e chocantes contrastes: a riqueza ostensiva em viaturas, residências e condomínios ao lado de milhares (ou milhões?) de barracas tapadas com plástico azul, obrigam-nos a engolir em seco vezes sem fim.  
Chegámos de manhã e voámos na madrugada do dia seguinte para Lisboa. O que vimos foi numa visita panorâmica pelo cidade, com um guia local. Destaco o "Dhobi Ghat" uma lavandaria gigante ao ar livre, única no mundo, onde centenas de homens lavam por dia milhares de peças de roupa, a maioria de hotéis locais.
No centro da cidade, mesmo ao lado da lavandaria, de um enorme forno crematório encoberto por árvores frondosas sai em contínuo fumo de uma alta chaminé e dezenas de abutres sobrevoam o local. Não é bonito de ver, não!
Depois da agonia veio a emoção: entrámos na residência-museu de Ghandi, o Pai da Nação. Era ali que Ghandi se instalava quando se deslocava a Mumbai. Até o colchão no chão, onde dormia, ali está.
Continuámos para Malabar Hill e os Jardins Suspensos. Passeámos em frente à Porta da Índia (símbolo de Mumbai) e em tempos porta de entrada na cidade; admirámos o famoso (pelos bons e maus motivos) Hotel Taj Mahl; e "gastámos tempo" na avenida à beira rio, conhecida por "colar da rainha".
Num hotel do aeroporto jantámos, descansámos e aguardámos a hora do regresso a casa.
Foi uma viagem intensa, cansativa, incrível. Apesar de alguns sustos, gostei. 
Recomendo (apesar de tudo)! 
Como sinto que tudo ficou por dizer, "leia" mais nas fotos (muitas) aqui.