23 abril, 2019

À terça - imagens e palavras: "livros"



"Só tem medo de um livro, com o argumento de que pode contagiar negativamente quem o lê, quem não está seguro da sua própria razão.
 Livros são sempre territórios de debate. Não são os livros que fazem nascer nazis. A falta de diálogo, a falta de leitura, a falta de livros, é que pode fazer nascer nazis."


Frase de José Eduardo Agualusa, escritor angolano (1960), in “O paraíso e outros infernos”, Ed. Quetzal, 2018
(Foto da net.)

16 abril, 2019

Páscoa feliz e... doce!

Segundo a tradição, o cabrito e o borrego têm lugar de destaque à mesa dos portugueses (de norte a sul do país)  no almoço/convívio familiar do Domingo de Páscoa. 
Então, lembrei-me de compartilhar duas receitas minhas, experimentadas, fáceis e rápidas de Cabrito e Borrego assado. E como não há duas sem três, compartilho outra receita, a do meu divinal Bolo de Tâmaras
Espero que gostem! 

CABRITO ASSADO, COM TOQUE DE MOLHO INGLÊS
Ingredientes:
Cabrito aos pedaços, vinho branco, vinho tinto, molho inglês, tomilho, cravinho, azeite, banha, sal, colorau, alhos esmagados, louro, salsa, piripiri.
Preparação:
Na véspera deite num tabuleiro todos os temperos e misture bem. Massaje o cabrito com a mistura obtida e leve ao frigorífico toda a noite, tapado com película.
No dia seguinte, aqueça o forno antes de colocar dentro o tabuleiro com o cabrito. Deixe assar até alourar. É rápido, demora pouco mais de uma hora.
Quando a carne estiver quase pronta, espalhe à volta batatas novas (com a pele), previamente cozidas em água com sal. Deixe que ganhem cor.
Quando tudo estiver pronto, retire a carne do forno, deixe repousar uns minutos e corte em pedaços.
Coloque a carne e as batatas numa travessa e espalhe por cima o molho do assado.
Sirva com grelos salteados.

BORREGO ASSADO,  COM CAPA DE ESPECIARIAS
Ingredientes:
Borrego, vinho branco, conhaque, cebola, alho, tomilho, louro, piripiri, azeite, manteiga, raspa de limão, sal, especiarias (gengibre, cravinho, cominhos, colorau, pau de canela, noz moscada, açafrão, sementes de coentros).
Preparação:
Tempere a carne com o azeite, vinho, conhaque, raspa de limão, sal, louro, tomilho, alhos picadinhos, piripiri e todas as especiarias.
No dia seguinte coloque a carne num tabuleiro, em cama de cebolas cortadas às rodelas, e regue com parte da marinada. Espalhe nozinhas de manteiga.
Deixe assar lentamente, regando com o próprio molho.
Depois da carne assada, deixe-a descansar uns minutos e corte-a em pedaços.
Junte o resto da marinada aos sucos da carne que ficaram no tabuleiro e leve ao lume para apurar e derrame sobre a carne.
Sirva com batatinhas assadas à parte.

BOLO DE TÂMARAS COBERTO COM CALDA DE CARAMELO GULOSO
Ingredientes:
Bolo
. 250 g tâmaras (sem caroço)
. 150 g açúcar amarelo
. 220 g farinha
. 3 ovos
. 1 colh (sopa) gengibre em pó
. 1 colh (chá) bicarbonato de sódio
. 1 colh (chá) fermento
. 200 ml de água quente
Caramelo
. 1 cháv. açúcar
. ½ cháv. natas
. 75 g manteiga
. uma pitada de gengibre em pó
Preparação:
Comece por cortar as tâmaras em pedacinhos e cubra-as com a água quente. Reserve.
Bata o açúcar com a manteiga até obter um creme fofo.
Continue a bater e adicione os ovos, um a um, o gengibre, a farinha e o fermento.
Por fim junte as tâmaras e a água.
Deite a massa numa forma untada e polvilhada e leve ao forno, aquecidoa 160º, cerca de 40 minutos.
Enquanto o bolo coze prepare a cobertura.
Leve a lume brando um tacho com o açúcar.
Quando chegar ao ponto de caramelo dourado, junte a manteiga e mexa com varas.
Retire do lume, adicione as natas e o gengibre e continue a mexer até obter uma calda cremosa e brilhante.
Deixe arrefecer, antes de cobrir o bolo.
(A calda pode ou não levar gengibre. Eu junto e gosto.)


SANTA PÁSCOA para todos!

Mais receitas na minha "Cozinha de Afectos".
(Primeira e última foto, da net.)

12 abril, 2019

Viajando e aprendendo: Estados Unidos da América e Canadá (2)


Continuando…

De Williamsport, na Pensilvânia, seguimos para Niagara Falls (Cataratas do Niágara), na fronteira entre os E.U.A (estado de Nova Iorque) e o Canadá (província de Ontário). Em frente às cataratas ficam duas cidades com o mesmo nome Niagara Falls, uma de cada lado da fronteira, ligadas pela Rainbow Bridge (Ponte do Arco-Íris).
Ficámos alojados no lado canadiano, em Welland, pequena cidade a cerca de 26 minutos de Niágara. O lado canadiano é mais animado e tem a mais bonita vista para as cataratas.
As famosas e belas Cataratas do Niágara são formadas por 3 cataratas distintas: a americana, a canadiana e a pequenina Bridal Veil (véu de noiva). Impressionam não pela altura da queda de água, aproximadamente 52 metros (a americana tem apenas 21 metros antes de cair sobre rochas depositadas na base por uma avalancha) mas pela largura: a americana com 323 metros, a canadiana com 792.
À noite, depois do jantar em Niagara, assistimos a um espectáculo fabuloso e inesquecível: as cataratas iluminadas por luzes coloridas, com cada país a exaltar as cores da sua bandeira. (fotografei mas nada aproveitei)
Na manhã do dia seguinte, durante 20 minutos pudemos admirar de muito perto toda a beleza das Cataratas do Niágara: o barco “Maid of the Mist” levou-nos até bem perto (demasiado, dizia eu) da queda de água canadiana. Uma experiência assustadora? Não, ruidosa, molhada (apesar da capa oferecida), incrível, inesquecível!
À tarde, despedimo-nos daquela maravilha da natureza e partimos em direcção a Toronto. No caminho fizemos uma pequena paragem na encantadora vila de Niagara-on-the-Lake.
Foi curta a estada em Toronto, a maior cidade e maior centro financeiro do Canadá. Chegámos à tarde, dirigimo-nos à CN Tower (torre de comunicações com 553 metros de altura, o principal e mais lucrativo ponto turístico de Toronto) e subimos ao Skypod (plataforma de observação envidraçado, a 447 metros de altura). O susto foi grande, mas valeu pela impressionante vista da cidade e arredores.
Mas um susto maior estava para vir...
Seguiu-se um giro de autocarro por outros pontos turísticos da cidade e instalação no hotel.
Em Toronto residem muito emigrantes portugueses. O jantar foi exactamente num restaurante português, no centro da cidade. A seguir ao jantar - hotel. A partida para Ottawa seria cedo para percorrermos 450 kms.
(O susto maior foi quando o guia (português) contou o grupo no hall do  hotel, e deu pela falta de um elemento. Ter-se-à perdido no trajecto que fizemos a pé do restaurante para o hotel. A esposa alarmada só se apercebeu da falta do marido, no hotel. Alguns "cavalheiros" juntaram-se ao guia e saíram à sua procura. Nada! Apareceu de madrugada... O que aconteceu? Talvez um dia eu conte.  Sim, porque o guia português descobriu TUDO!)
Percorridos 262 km parámos em Kingston para almoço e visita ao arquipélago das Thousand Islands (Mil Ilhas), no rio São Lourenço, mais um atracção turística na fronteira E.U.A.- Canadá. Na verdade o arquipélago tem cerca de 2.000 ilhas de diversos tamanhos, repartidas entre os dois países.
De barco, durante 90 minutos pudemos contemplar as belíssimas ilhas canadenses, umas com casinhas simples, outras com mansões, outras ainda com verdadeiros castelos. Todas obedecem a rígidos critérios: ficar todo o ano acima do nível do mar; ter uma área superior a 0,092 m2 e plantada pelo menos uma árvore. Fabuloso!
A viagem continuou para Ottawa (Otava), a capital do Canadá, uma cidade pequena (pouco mais de um milhão de habitantes), muito bonita, com grande oferta cultural, acolhedora, localizada na margem sul do rio Ottawa, perto dos estuários do Rio Rideau e do famoso Canal Rideau. Uma cidade fácil de conhecer caminhando e foi isso que fizemos, em grupo.
Ficámos alojados em Hull, cidadezinha em frente a Ottawa, do outro lado do rio. Dormimos lá apenas uma noite. A viagem tinha de continuar e depois da manhã livre em Ottawa partimos  para o Quebec, onde estivemos 4 dias. Vimos tudo? Quase!
Quebec City, ou Ville du Quebec, é a capital da província canadiana do Quebec, a capital da cultura francesa, a mais antiga cidade do Canadá. Uma cidade encantadora, charmosa, com casario antigo bem conservado, ruas limpíssimas, arborizadas, floridas, ruas empedradas, galerias de arte, igrejas e capelas, esplanadas, restaurantes tradicionais (onde se assiste a espectáculos de folclore), etc., etc.
Recordo a visita ao Museu do Quebec, onde se encontram importantes colecções de arte do Québec desde o Séc. XVII até aos nossos dias; a La Citadelle, fortaleza construída no Séc. XVI para proteger o Quebec de um possível ataque norte-americano; a excursão a St. Anne-de Beaupre, com paragem nas no parque de la Chute-Montmorency para admirarmos a imponente queda de água; a visita a Huron Village, uma aldeia índia (para turista ver...).
Recordo, oh se recordo, o último jantar no Quebec, no restaurante “La Cabane à Pierre", do Lago Beauport, onde se encontra o museu de “Erable” (xarope resultante da seiva açucarada existente no cedro canadiano).
E, como muita pena minha, chegou o dia da partida. Desta vez para Montréal, com paragem na vila típica de Antan.
Montréal (Montreal, em português) está localizada em grande parte na Ilha de Montreal, é a maior cidade da província de Quebec, e a segunda mais populosa do país. Importante centro de comércio, tecnologia aeroespacial, finanças, produtos farmacêuticos, tecnologia, design (nomeada cidade do design pela UNESCO), educação, cultura, realização de eventos internacionais, turismo, jogos, cinema, etc., foi na década de 70 superada em população e força económica por Toronto. Juntamente com Washington D.C. e Nova Iorque, abriga a Organização das Nações Unidas. 
De tudo o que vi na cidade destaco a belíssima  Basílica Notre-Dame.
Montreal é uma das mais seguras cidades do continente americano.
Aqui dormimos duas noites e tivemos o jantar de despedida do grupo, guia e motorista. Muita e boa comida, bebida (hum!), dança, animação. Inesquecível!
Dia 12 de Setembro (dia do meu aniversário) saímos de Montreal directamente para o Aeroporto Internacional de Newark, no estado de New Jersey, E.U.A.. Chegava ao fim uma viagem fenomenal.  No autocarro o grupo brindou-me com um cantar (afinado) de parabéns, mil beijos e abraços. Um "compagnon de route" ofereceu-me um postal-fotografia de um painel de azulejos pintado pelo próprio. Amei!
Viajar é sempre muito bom, mas quando se tem a sorte de o fazer com um grupo como este é maravilhoso!

(Dois anos depois, dia 11 de Setembro, as Torres Gémeas colapsaram após o embate de dois aviões de passageiros desviados por terroristas. Nesse dia o Mundo mudou.)

Mais (muitas) fotos aqui.
(a primeira foto desta postagem  e as fotos da Basílica Notre-Dame, são reproduções de postais comprados no local) 

09 abril, 2019

À terça - imagens e palavras: "casamentos"


“Os casamentos… tendem a transformar-se cada vez mais em feiras de vaidade, onde quase tudo é falso, a começar nas juras de amor eterno. Enquanto os noivos se beijam, os advogados preparam os papéis de divórcio.”


José Eduardo Agualusa, escritor angolano (1960), in “O paraíso e outros infernos”, Ed. Quetzal, 2018
(Foto da net.)

05 abril, 2019

Viajando e aprendendo: Estados Unidos da América e Canadá (1)


"Viajar é mudar o cenário da solidão."
Mário Quintana, poeta brasileiro (1906-94)

Em 1999 viajámos para os Estados Unidos da América (Nova Iorque, Washington, Williamsport) e Canadá (Niagara Falls, Welland, Toronto, Ottawa, Quebec, Montreal), integrados num grupo de 41 pessoas. À partida de Lisboa não conhecíamos ninguém. No regresso já todos éramos amigos de longa data. Foi um grupo especial. Nem o "grupo especial" da China o bateu!
Após pouco mais de 8 horas de voo, aterrámos no Aeroporto Internacional J.F. Kennedy , Nova Iorque, e juntou-se ao grupo uma guia (fluente em espanhol) e um motorista, ambos canadianos. De 41 o grupo passou a 43 e juntos percorremos várias centenas de quilómetros, num autocarro canadiano, claro!
Seguimos para o hotel, no centro de Manhattan. Depois da distribuição de quartos a guia deu-nos 15 minutos e logo saímos para uma curta caminhada surpresa.
Em grupo, caminhámos pela 5ª Avenida, chegámos ao mítico Empire State Building, subimos ao topo dos 102 andares e na plataforma de observação, com um raio de visão de 360º, observámos um impressionante pôr-do-sol sobre Nova Iorque. Aquela vista insuperável, que me molhou os olhos e quase me tirou o fôlego, ficou gravada na minha memória. (Fotos só tenho uma, no átrio do edifício. A máquina fotográfica levei-a comigo, mas o rolo ficou no hotel...).
No dia seguinte, por ser perto do hotel iniciámos a visita à cidade pela St. Patrick’s Cathedral (templo católico estilo neogótico), dali caminhámos até Rockefeller Centre (importante complexo de negócios, localizado no centro de Manhattan), continuámos caminhando até ao edifício da ONU (apenas vimos por fora), e ao Grand Central Terminal (impressionante terminal ferroviário, com um hall «Vanderbilt Hall» com mais de 1.100 metros quadrados e tecto decorado com belíssimas pinturas astronómicas), passámos pela Wall Street (rua do Distrito Financeiro da cidade onde se localiza a Bolsa de Valores, a mais importante do mundo), passeámos no Central Park (o simbólico parque urbano de Nova Iorque de mais de 340 hectares, com lagos artificiais, cascatas, monumentos, memoriais, restaurantes, etc., etc.).
Ao fim da tarde a guia deu-nos a escolher: visita às Torres Gémeas ou viagem de ferry até à Staten Island (um dos cinco distritos da cidade), com aproximação à Estátua da Liberdade. Nós ficámos no grupo que optou pela viagem de ferry nas águas do rio Hudson para dali admirarmos a Estátua da Liberdade e os arranha-céus de Manhattan banhados por um belíssimo pôr-do-sol.
À noite caminhámos por Chinatown (bairro no Lower East Side com a maior comunidade de chineses, fora do oriente), Times Square (um dos principais pontos turísticos de Manhattan) e Broadway (avenida famosa pelos seus 43 teatros).
(Não, eu não subi às Torres Gémeas... estive lá perto... preferi a magnífica panorâmica de  Manhattan vista do rio, uma experiência fantástica!)
Na manhã do dia seguinte caminhámos sem destino pelas ruas de Manhattan e tentámos o impossível: caminhar nos passeios olhando o topo dos arranha-céus; contar os táxis amarelos que passavam por nós (centenas, colados uns aos outros); descobrir porque caminhava apressada toda a gente; admirar mulheres elegantemente vestidas e com ténis (os sapatos vão na carteira ou estão na gaveta da secretária, dizia a guia).
Visitar Nova Iorque, a cidade mais densamente povoada dos Estados Unidos da América, a cidade com a maior diversidade linguística do mundo, a cidade que nunca dorme, foi uma experiência inolvidável!
E chegou o dia da partida  para Washington.

Washington D.C. (Washington em homenagem ao Presidente George Washington , D.C. abreviatura de District of Columbia), é a capital e o distrito federal dos Estados Unidos da América.
Situada no leste do país, na margem norte do Rio Potomac e em terras doadas pelos estados de Maryland e Virginia, Washington D.C., com uma população de pouco mais de 700 mil habitantes, é a sede do governo dos Estados Unidos. É  lá que estão sediadas diversas instituições nacionais e internacionais como o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial e a Organização dos Estados Americanos.
Tínhamos dois dias para visitar uma cidade repleta de monumentos históricos, edifícios governamentais, universidades, museus. Começámos pela White House (Casa Branca), a residência oficial e gabinete executivo do Presidente dos Estados Unidos, um imponente edifício de arenito esbranquiçado, no estilo georgiano; Capitol Hill, local onde se concentra o poder político dos Estados Unidos: Capitol (Capitólio) onde funciona o senado e a câmara dos deputados, a Library of Congress (Biblioteca do Congresso), a maior biblioteca do mundo; a sede da Suprema Corte, principal órgão judicial dos Estados Unidos; Lincoln Memorial, onde numa das três câmaras se encontra a imponente estátua de Abraham Lincoln, 16º Presidente dos Estados Unidos, que aboliu a escravidão no país; Washington Monument, um obelisco com 169 metros de altura localizado no centro do Constitution Gardens, memorial a George Washington, primeiro presidente dos Estados Unidos.

Visitámos ainda o Vietnam Veterans Memorial, tributo aos soldados que combateram na Guerra do Vietnam, construído em 1982 e constituído por três partes distintas: Three Soldiers Statue (representado por três soldados : um branco, um negro, um hispânico), Vietnam Womens’s Memorial (tributo às mulheres falecidas na guerra), Vietnam Veteran’s Memorial Wall (muro-memorial aos veteranos da guerra); 
Korean War Veterans Memorial
Arlington National Cemetery, o cemitério militar dos Estados Unidos); 
Washington CathedralThe George Washington University (fundada em 1821).
E adeus Washington, chegou a hora de arrancar para Niagara Falls (Cataratas do Niágara).  Mas, antes de lá chegarmos, almoçámos numa aldeia Amish (encantadora) e dormimos em Williamsport, pequena cidade localizada no estado de Pensilvânia.
Eu com um guarda florestal, no Vietnam Veterans Memorial.

Continua...
Mais fotos (muitas) aqui.

02 abril, 2019

À terça - imagens e palavras: "exigência de amor"



“O amor é um egoísmo desenfreado. Não sei se haverá muitos que suportem a terrível tirania do amor sem sofrer danos irreparáveis. Olha à tua volta, observa das janelas, olha as pessoas nos olhos, ouve as suas queixas e encontrarás em todo o lado a mesma desesperada tensão. Não conseguem suportar a exigência de amor que respiram no ar. Por um tempo toleram-na, mercadejam-na e cansam-se. Segue-se a acidez do estômago. A úlcera gástrica. A diabetes. Perturbações cardíacas. A morte.”


Sándor Márai, escritor húngaro (1900-89), in “A mulher certa”, ed. Dom Quixote, 2009
(Foto da net.)

29 março, 2019

"As bolas de sabão..." - Fernando Pessoa



As bolas de sabão que esta criança
Se entretém a largar de uma palhinha
São translucidamente uma filosofia toda.
Claras, inúteis e passageiras como a Natureza,
Amigas dos olhos como as coisas,
São aquilo que são
Com uma precisão redondinha e aérea,
E ninguém, nem mesmo a criança que as deixa,
Pretende que elas são mais do que parecem ser.
Algumas mal se veem no ar lúcido.
São como a brisa que passa e mal toca nas flores
E que só sabemos que passa
Porque qualquer coisa se aligeira em nós
E aceita tudo mais nitidamente.
Versos de Alberto Caeiro, heterónimo de Fernando Pessoa (1883-1935)

Sabia que (9):
1924 – Sai em Outubro o primeiro número da revista mensal «Athena», que Pessoa dirige com o pintor Ruy Vaz.
1925 – No dia 17 de Março falece em Lisboa a mãe do Poeta.
1926 – Sai em Janeiro o primeiro número da «Revista de Comércio e Contabilidade» que Pessoa dirige com seu cunhado (… ) e onde publica o artigo A Essência do Comércio.
A 28 de Maio verifica-se o golpe militar que põe fim à Primeira República e instaura a ditadura. Por coincidência neste mesmo fia o «Jornal do Comércio e das Colónias» publica uma resposta de Pessoa a um inquérito de natureza política.
Publica em «O sol», nº 1, Narração exacta e comovida do que é o Conto do Vigário, e em «Contemporânea» (nº 1, 3ª série) o poema O Menino de sua Mãe.
1927 – Em Junho inicia a sua colaboração em «presença» com o poema Marinha.
1928 – António de Oliveira Salazar é nomeado Ministro das Finanças.
Pessoa publica o panfleto O Interregno. Defesa e Justificação da Ditadura Militar em Portugal e o artigo O Provincianismo Português («Notícias Ilustrado» de 12 de Agosto).
1929 – Organiza com António Botto uma Antologia de Poetas Portugueses Modernos. 
Entretanto um motivo aparentemente fútil (…) reacende a amizade sentimental com Ophélia.
Sai o primeiro estudo crítico sobre a poesia de Pessoa, da autoria de João Gaspar Simões."
("Fernando Pessoa, uma fotobiografia", de Maria José de Lancastre).

Não sabia? Eu também não!
O que importa é que agora sabemos.
Prometo partilhar mais informações sobre a vida do poeta do desassossego.
(Foto da net)

26 março, 2019

À terça: imagens e palavras: "anedota"


"Aguentas uma anedota que não é lisonjeira 
para as mulheres?"


Philip Roth, escritor norte-americano (1933-2018), in "Teatro de Sabath", Ed. Dom Quixote, 2000.


responda se quiser
(Fotos da net.)

22 março, 2019

"A mulher de cabelo ruivo" - Orhan Pamuk

O meu desejo era ser escritor. Mas, depois dos acontecimentos que vou narrar, estudei engenharia geológica e tornei-me empreiteiro da construção civil. Mesmo assim, o facto de eu estar a contar a história agora não deveria levar os leitores a pensar que ela acabou, que pus tudo para trás das costas. Quanto mais recordo, mais fundo caio dentro dela. Talvez vós me sigais também, atraídos pelo enigma de pais e filhos.
Com um primeiro parágrafo destes, não resisti a querer “ouvir” a envolvente história de amor e mistério de Cem, protagonista-narrador de “A mulher de cabelo ruivo”, décimo romance do escritor turco Orhan Pamuk, Nobel da Literatura em 2006.
A primeira parte da história tem lugar em 1984: o adolescente Cem, filho único de uma família da classe média, entra para a escola secundária; o pai, dono de uma pequena farmácia, é uma vez mais detido por actividades políticas subversivas e nunca mais volta a casa; dificuldades financeiras obrigam Cem a trabalhar para pagar os estudos, primeiro numa livraria (lê muito nesse verão de 1985) depois, como guarda do pomar de cerejeiras e pereiras de um tio, de onde espreita, curioso, um homem de meia-idade escavar um poço no jardim ao lado do pomar. Quando finalmente a água jorra do poço o mestre escavador convida-o para ir com ele escavar outro poço num terreno baldio perto de uma pequena cidade nos arredores de Istambul… e a vida do jovem Cem vai mudar para sempre.
«Não vais ser escavador de poços. Vais para a universidade», diz-lhe a mãe. «Se não me deixares ir, fujo». Não foi necessário, e no dia da partida com o mestre Mahmut, ele promete à mãe «Não te preocupes, não irei nunca descer ao poço». Vai descer, sim, descer e subir. Já o mestre, vai descer  mas quanto a subir…
No terreno baldio o mestre escolhe o sítio onde lhe parece haver água e no dia seguinte começam ambos a escavar o poço, metro a metro, «debaixo de um Sol em chamas». Segundo o mestre Mahmut, quanto mais fundo cavássemos, mais perto chegaríamos da esfera de Deus e dos seus anjos.
À medida que escavam cresce uma forte ligação entre o mestre tagarela e o aprendiz que absorvia tudo o que ele dizia. Como se fossem pai e filho, respeitam-se, estimam-se «aquele poço era o nosso projecto comum». O mestre Mahmut... contava-me histórias e ensinava-me lições; nunca se esquecia de perguntar se eu estava bem, se tinha fome, se estava cansado.
Depois de cavarem o dia inteiro, gostavam de ir juntos à povoação mais próxima, a quinze minutos a pé do poço, comprar provisões e procurar diversão. Foi ali que os olhos de Cem se cruzaram com os de uma mulher alta, sedutora, de sorriso doce e cabelo ruivo, a estrela de uma companhia de teatro itinerante, a Mulher de Cabelo Ruivo. Fascinado, Cem procura todas as noites a atraente ruiva de trinta e três anos (soube depois), que nunca mais verá depois de uma noite de amor. A sua primeira noite de amor.
Desorientado pelo desaparecimento da amada, Cem baixa o mestre para dentro do poço e desastrado deixa cair sobre ele o balde que se solta do gancho. Ouve um gemido profundo de dor. Assustado, sem consciência do que fizera, foge do local, abandonando o mestre ferido a vinte e cinco metros de profundidade. Foge sem pedir auxílio, foge para junto da mãe, em Istambul. Mas seria possível fingir que nada acontecera?
Trinta anos depois, segunda parte da história, Cem é um homem feliz, casado, sem descendência, empreiteiro de sucesso. Volta a encontrar o pai e apenas nalgumas noites sonha com o mestre Mahmut. A vida corre-lhe bem, até ao exacto momento em que a sua riqueza atrai o passado e as consequências são dramáticas.
«O meu pai deixou-nos!»
«Então é porque não era um pai... arranja um novo pai. Todos temos muitos pais neste país. A Pátria, Alá, o exército, a máfia... Ninguém aqui alguma vez devia ser órfão de pai.»

E mais não desvendo para você ler e descobrir como foi o reencontro de Cem com a Mulher de Cabelo Ruivo e com… hum, não digo. Nem que me atirem para dentro de um poço, não digo!
Estranho, intrigante, irresistível.
Recomendo!

A mulher de cabelo ruivo, de Orham Pamuk
Tradução de António Sousa Ribeiro
Editorial Presença, 2018
246 págs.

21 março, 2019

Dia mundial da POESIA


"Não procures o poema, me disseste. 
Deixa que ele venha por sinuosos trilhos, 
ou pelo riso das crianças, ou pelo cantar dos pássaros, ou pelo nome rasurado dos mortos, 
ou pelo transparente caminho do coração."



Graça Pires, poeta portuguesa (1946-), in "Caderno de Significados", ed. Lua de Marfim, 2013
(A querida Graça do blogue "Ortografia do Olhar".)
Foto da net.

20 março, 2019

Dia internacional da FELICIDADE


“A partir de certa altura compreendemos que o mais importante é a simplicidade. O mesmo quanto à vida. Cortando tudo quanto é artifício ficamos mais livres e, talvez, mais próximos da felicidade."


José Eduardo Agualusa, escritor angolano (1960), in “O paraíso e outros infernos”, Ed. Quetzal, 2018


(Fotos da net.)

19 março, 2019

Dia do Pai


Na sina que me foi lida,
Este dia é sempre assim;
Sol na paisagem da vida,
E sombra dentro de mim.

Versos de Miguel Torga (1907-95), in "Poesia Completa", Dom Quixote, 2000



(Fotos da net.)

15 março, 2019

"Correio de Droga (The Mule)" - Filme

"Correio de Droga", título original «The Mule», (EUA, 2018, 116 min.), realizado por Clint Eastwood, com argumento de Nick Schenk, e protagonizado por Clint Eastwood, Bradley Cooper, Diane Wiest, marca o regresso do realizador/actor, de 88 anos, à representação, dez anos depois do aclamado “Gran Torino”.
Neste extraordinário filme dramático (com laivos de comédia), inspirado numa história real, é dele, e só podia ser dele, o papel principal: Earl Stone, veterano de guerra, frágil, envelhecido, cultivador de flores do Illinois, conservador radical, divorciado, uma filha e uma neta.
Na sequência da ruína do seu negócio, Earl vê-se de súbito sem casa e sem dinheiro. Então, mete na velha pick up os parcos haveres e ruma a casa da filha, onde decorre a festa de noivado da neta. É acolhido com sorrisos pela neta, ignorado pela ex-mulher e expulso pela filha, que o acusa de ter abandonado a família.
Quando se dirige para a pick up um convidado aborda-o e entrega-lhe um cartão que, diz, lhe proporcionará um trabalho fácil e bem remunerado, como condutor. Dias depois, Earl faz a primeira de várias travessias do Estado do Michigan, com um estranho saco na bagageira. À chegada ao local da entrega do saco as ordens são para estacionar,  afastar-se da viatura e aguardar uma hora. Quando regressa tem para si no porta-luvas um envelope com notas, muitas notas.
Duas, três viagens depois a curiosidade vence, Earl abre o saco e constata que anda a transportar droga de um cartel mexicano. Cartel que acha piada ao velho motorista, mesmo não seguindo ele as rotas predefinidas.
As viagens continuam sem sobressaltos, o velho  Earl, "correio de droga" competente, reconquista o seu estatuto social, volta a sorrir, a esbanjar dinheiro. Mas... tudo se complica quando passa a trabalhar para um traficante controlador e extremamente violento, numa das viagens é abordado por um elemento da DEA, a agência norte-americana antinarcóticos, o FBI investiga e começa a vigiar as suas longas e solitárias viagens.
Earl apercebe-se de que o fim está próximo e prepara a sua última fuga. Como e para onde? Não digo!
Vá lá, digo que  no fim Earl  recupera as suas  duas paixões: família e flores. Como o consegue? Não digo!
Destaco as grandiosas interpretações de Clint Eastwood (Earl) e Diane Wiest (ex-mulher de Earl).
E dou nota 5, claro!
Cinco magníficos filmes realizados e interpretados por Clint Eastwood, que merecem igualmente a minha nota 5:
Gran Torino, 2008
Million Dollar Baby, 2004
The Bridges pf Madison County, 1995
-  A Perfect World, 1993
Unforgiven, 1992

Veja!


12 março, 2019

À terça - imagens e palavras: "fracos"


“Não temos o direito de ser fracos
A vida esmaga-nos num segundo e ninguém ouvirá os nossos gritos.”



Owen Matthews, escritor inglês (1971-), in “Filhos de Estaline”, Ed. Dom Quixote, 2008
(Foto da net.)