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30 janeiro, 2018

À terça - imagens e palavras: "tempo"


“O tempo corre. Graças a ele, em primeiro lugar somos seres vivos, o que quer dizer: acusados e julgados. Depois, morremos, e permanecemos ainda alguns anos com aqueles que nos conheceram, mas depressa se produz uma outra mudança: os mortos tornam-se velhos mortos, ninguém mais se lembra deles e desaparecem no nada.”


Frase de  Milan Kundera, escritor checo (1929-), in “A festa da insignificância”, Ed. D. Quixote, 2014
(Veja mais no blogue “Pétalas de Sabedoria”)
Foto da net.

13 junho, 2017

"A valsa do adeus" - Milan Kundera


Cada homem devia receber uma dose de veneno no dia da sua maioridade. Não para o incitar ao suicídio, mas, pelo contrário, para o fazer viver com mais segurança e mais serenidade. Viver sabendo-se senhor da sua vida e da sua morte.
Em “ Valsa do adeus” (1972) oito corações acelerados, nem sempre em sintonia perfeita, buscam a felicidade numa pequena estância termal isolada, antiquada, decadente, famosa pelos águas que tratam o coração dos homens e a esterilidade das mulheres.
Num contínuo de encontros e desencontros, homens e mulheres rodopiam ao ritmo de uma valsa-intriga, sabiamente orquestrada por Kundera com muita ironia e humor.
Toda a acção decorre no espaço de cinco dias - segunda a sexta-feira dum início de Outono.
A narrativa, rápida, inteligente, envolvente, retrata o comportamento de pessoas normais apanhadas em situações imprevisíveis. Não há verdades absolutas, antes mentiras desesperadas. E muitas contradições.
Ruzena, uma jovem e bela enfermeira da casa de banhos, e Klima, um célebre músico de jazz, estão no centro duma enorme confusão amorosa, “temperada” com pormenores hilariantes.
Ruzena e Klima conheceram-se na noite em que o jovem e charmoso trompetista actuou na estância termal. Dormiram juntos. Não voltaram a ver-se.
Dois meses depois (segunda-feira), ela liga-lhe e diz-lhe que está grávida. E ele fica paralisado de terror.
Será mesmo o pai da criança? Estiveram juntos apenas uma vez. Tem de convencê-la a abortar. Como? Com promessas e mentiras.
Klima é casado com Kamila, uma bela mulher de saúde frágil, que renunciou à carreira de cantora.
Ele ama-a infinitamente. Sente o coração despedaçar-se quando a vê triste. “Perde-se” em casos de infidelidade, mas volta para ela sempre mais apaixonado. Era capaz de dar a vida por ela.
Já Kamila ama o marido doentiamente. Torturada pelo ciúme não acredita em nada do que ele lhe diz. Tem medo de todas as mulheres que gravitam à volta dele. Silencia a sua desconfiança para não o enfurecer. Aprendeu a “jogar” com a tristeza para o atrair.
Porque não procura ela algum conforto no mundo dos homens?
Porque o ciúme possui o poder espantoso de iluminar de raios de luz intensos o ser único, mantendo a multidão dos demais homens numa obscuridade total.
(É hilariante a relação de amor/ódio deste casal. Já agora, fique a saber que , lá para quinta-feira, Kamila vai mudar …)
Às 9.00 horas da manhã do dia seguinte, Klima chega a à estância termal.
Antes de falar com a enfermeira, encontra-se com o doutor Skreta, director dos serviços de ginecologia. Tenta convencê-lo de que aquela criança não pode ser sua, que duvida até que Ruzena esteja realmente grávida.
- Examinei-a ontem. Está grávida. – disse o médico.
É um Klima apavorado e angustiado que se senta à frente de Ruzena.
Ela diz que nunca aceitará abortar. Não nunca… Ele,  perde o uso da fala… mas não da capacidade inventiva e pouco depois é uma Ruzena empolgada que confidencia às colegas: - Ele disse que me amava e que ia casar comigo… mas não quer que eu tenha já um filho.
Mas esta valsa não é só dançada por Ruzena e Klima. Outros dançarinos rodopiam no salão: Bertlef (o rendeiro americano rico louco por mulheres); Olga (a mais antiga utente da estância termal), Frantisek (o tresloucado namorado de Ruzena, que insiste que o filho é seu); Jakub (o decepcionado militante do movimento politico comunista, vítima das depurações, que pretende abandonar definitivamente o país e está na estância termal para se despedir da amiga e protegida Olga, e devolver ao doutor Skreta o comprimido de veneno que em tempos este lhe havia preparado) e Kamila (que também aparecerá por lá).
Jakub, para muitos dançarinos um mero desconhecido, vai interferir no ritmo desta valsa.
Ruzena cruza-se  com ele num café. Desagrada-lhe o seu rosto. Acha-o irónico e ela detesta a ironia. O olhar dele assusta-a. Sai apressada e esquece sobre a mesa um tubo com comprimidos. Jakub apanha-o.
Na quinta-feira o trompetista  volta a tocar na estância. A mulher, sem que ele saiba, aparece de surpresa e assiste ao concerto. Acabam por dormir na estância.
No dia seguinte, ele acorda e sai apressado do quarto. Tem de falar urgentemente com Ruzena.
Entretanto, na sala de banhos Frantisek e Ruzena discutem violentamente à frente das utentes.
Kamila, enfurecida vai à procura do marido. Num corredor encontra Jakub. Caminham lado a lado e ele fala, fala, fala. Separam-se. 
Kamila não esquece as palavras daquele desconhecido. Nem o seu rosto. Como ele, também ela vivia na cegueira. Via apenas um único ser, iluminado pelo farol violento do ciúme. Depois daquele encontro começa a sentir-se segura de si e mais bela. O marido deixa de ser o único homem do mundo. O eventual fim do seu casamento, já não lhe inspira nem angústia nem medo. 
O que lhe disse Jakub? Eu sei, mas não digo.
O ritmo desta valsa acelera e o pior acontece quando um comprimido azul pálido mata um dançarino. 
Assassínio? Suicídio? Acidente?

Este romance aborda questões sérias de uma forma deliciosamente divertida.
(Qual foi o dançarino que morreu? Ora, ora, se eu revelar perde a graça!)
Leia!

A valsa do adeus, de Milan Kundera
Tradução de Miguel Serras Pereira
D. Quixote, 1989
210 págs.

25 julho, 2015

"O livro dos amores risíveis" - Milan Kundera

Qualquer vida humana tem um significado incalculável.
Se gosta de ler pequenas histórias bem imaginadas, bem contadas, hilariantes e viciantes, tem de ler este livro de Milan Kundera, escrito entre 1958 e 1968 mas actualíssimo.
Não se deixe enganar pela ligeireza do título – “O livro dos amores risíveis” – pois o tema, comum às sete histórias, é sério e gerador de grande polêmica: o relacionamento humano.
Os títulos nada dizem sobre o conteúdo divertidíssimo das histórias:
. Ninguém se vai rir
. A maçã de outo do eterno desejo
. A falsa boleia
. O colóquio
. Que os velhos mortos deem lugar aos jovens mortos
. O doutor Havel vinte anos depois
. Edouard e Deus
Leia uma a uma, devagar, devagarinho. Saboreie o rigor da narrativa irônica e mordaz numa escrita impecável. Encontrará situações divertidíssimas, diálogos brilhantes, personagens convincentes, muita sedução, muito sexo, desejo, amor, ilusão, traição, solidão. 
Também encontrará, lá pelo meio, revelações angustiantes, menos risíveis. Não é assim a vida? Feita de amores e desamores? Feita de sorrisos amargos?
Não, não vou desvendar a trama das histórias. Vou deixar que as leia para sorrir tanto quanto eu sorri.
Bom, com “Ninguém se vai rir”, a primeira, eu não sorri, eu soltei boas e sonoras gargalhadas. É umas das histórias mais engraçadas que eu já li (e já li muitas!). Dificilmente esquecerei o azarado professor de História de arte.
De “O colóquio” retirei este diálogo de dois amantes, porque gostei:

“- Elisabeth, Elisabeth, minha querida. Trouxe estas rosas para ti.
Elisabeth olhava para Fleischman boquiaberta e disse:
- Para mim?
- Sim, para ti. Porque me sinto feliz por estar aqui contigo. Porque me sinto feliz por tu existires. Elisabeth. Talvez te ame. Talvez te ame muito. Mas é talvez mais uma razão para nos ficarmos por aqui. Penso que um homem e uma mulher se amam mais quando não vivem juntos e quando só sabem um do outro uma única coisa: que existem e que se sentem reconhecidos, um ao outro, por existirem e saberem que existem. E isto basta-lhes para serem felizes. Obrigado, Elisabeth, obrigado por existires.
Elisabeth não entendia nada mas sorria com um sorriso alvar, um sorriso estúpido, cheio de uma vaga felicidade e de uma vaga esperança.”

É assim… noventa e nove por cento das palavras que se pronunciam são palavras vãs.
Há que esquecer, rir, e seguir em frente. 
Eu ri, ri, ri com estes amores risíveis. Leia também e divirta-se.

(Comprei pela primeira vez “O livro dos amores risíveis” em 1990, numa edição da Dom Quixote. Em 1998, emprestei-o e “perdi-o” para sempre. Comprei agora esta edição da BIS (Leya). 
Por onde andará  o meu primeiro amor (risível)... perdão, livro?!)

O livro dos amores risíveis, de Milan Kundera
Ed. BIS (Leya), 2014
255 págs.

30 janeiro, 2015

"A festa da insignificância" - Milan Kundera

A insignificância, meu amigo, é a essência da existência. Está connosco sempre e em toda a parte. Está presente mesmo onde ninguém a quer ver: nos horrores, nas lutas sangrentas, nas piores infelicidades. Exige-se-nos muita coragem para a reconhecer em condições tão dramáticas e para a chamar pelo seu nome. Mas, não se trata apenas de a reconhecer, é preciso amá-la, à insignificância, é preciso aprender a amá-la.
Em 2000 Milan Kundera publicou o romance “A ignorância”. E parou. Parou de romancear.
Surpreendentemente, em 2013, com oitenta e cinco anos de idade, publicou “A festa da insignificância”, um romance “não-sério”, sobre o significado da vida, na nossa época. Divertido! Irónico!
Bem, o tema é sério mas Milan Kundera aborda-o à sua maneira: com muito humor e ironia.
O romance está dividido em sete partes. Logo na primeira, os heróis apresentam-se. São cinco amigos parisienses. Cinco personagens de um teatro de marionetas manobradas pelo “mestre” que as inventou.
São diferentes em quase tudo, mas buscam o mesmo: um sentido para a vida.
- ALAIN
Cativado pelo umbigo desnudado das jovens que vê nas ruas, reflecte: Como definir o erotismo de um homem (ou de uma época) que vê a sedução feminina concentrada no meio do corpo, no umbigo?
O umbigo lembra-lhe o último encontro com a mãe. Tinha então dez anos.
- RAMON
De novo na entrada do museu que expõe há um mês quadros de Chagall. De novo desiste sem força suficiente para se deixar transformar benevolentemente numa parte daquela interminável fila que se arrasta lentamente até à caixa, volta a deambular pelo jardim dos génios e a encontrar consolo na calma e indiferença dos passeantes.
É o mais velho dos cinco. Faz parte do exército funesto dos aposentados.
Ama a solidão.
- D’ARDELO
Faltam três semanas para o seu aniversário. Detesta aniversários. Não chega a desdenha-los, porque a felicidade de ser festejado era para ele mais importante do que a vergonha de envelhecer.
Sobe as escadas do consultório médico, onde vai saber se festejará em simultâneo o seu nascimento tão longínquo e a sua morte tão próxima. O sorriso no rosto do médico diz-lhe que a morte se desconvidara.
Mais tarde encontra Ramon. E inventa um cancro. E encomenda uma festa em sua casa.
- CHARLES
No seu vocabulário de descrente, uma só palavra é sagrada: amizade.
Poeta e dramaturgo, sem qualquer livro publicado.
Anda às voltas com uma peça para o teatro de marionetas.
Gosta de contar histórias aos amigos. Sobre Estaline. Sobre a Rússia.
Ganha dinheiro a organizar festas.
- CALIBAN
Actor desempregado. Da última vez que esteve em cena encarnou o selvagem Caliban, n’A Tempestade de Shakespeare.
Ajuda Charles na organização das festas. Troça dos convidados, fazendo-se passar por paquistanês e falando um língua que inventou.

Terminam aqui as revelações sobre o enredo.
Tem de ler para saber mais.
Talvez encontre uma portuguesa na festa do D’Ardelo. Quem sabe!
Leve, divertido, inteligente.
Uma festa!

A festa da insignificância, de Milan Kundera
Tradução de Inês Pedrosa
E. D.Quixote, 2014
152 págs.

27 janeiro, 2015

Preciso de desabafar… em “A festa da insignificância, de Milan Kundera


"- … Estou de muito mau humor. Preciso de desabafar.
- Calha bem. Eu também estou de mau humor. Mas tu, porquê?
- Porque estou zangado comigo. Porque é que aproveito todas as ocasiões para me sentir culpado?
- Isso não é grave.
- Sentirmo-nos culpados ou não. Penso que tudo se resume a isto. A vida é uma luta de todos contra todos. É sabido. (…) Ganhará aquele que conseguir tornar o outro culpado. Perderá quem confessar o seu erro.
(...)
- ... Quem se desculpa declara-se culpado. E se tu te declaras culpado encorajas o outro a injuriar-te, a denunciar-te publicamente, até à tua morte. São essas as consequências fatais da primeira desculpa.
-É verdade. Não é preciso desculparmo-nos. E, todavia, eu preferiria um mundo onde todas as pessoas pedissem desculpa, sem exceção, inutilmente, exageradamente, por nada, onde se atravancassem de desculpas…"

20 janeiro, 2015

O tempo corre... em "A festa da insignificância", de Milan Kundera



"O tempo corre. Graças a ele, em primeiro lugar somos seres vivos, o que quer dizer: acusados e julgados. Depois, morremos, e permanecemos ainda alguns anos com aqueles que nos conheceram, mas depressa se produz uma outra mudança: os mortos tornam-se velhos mortos, ninguém mais se lembra deles e desaparecem no nada; só alguns, muito, muito raros, deixam os seus nomes nas memórias mas, privados de qualquer testemunha autêntica, de qualquer lembrança real, transformam-se em marionetas…"