Mostrar mensagens com a etiqueta Patrick Süskind. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Patrick Süskind. Mostrar todas as mensagens

04 abril, 2012

"A história do senhor Sommer" - Patrick Süskind

No tempo em que eu ainda trepava às árvores – há muitos, muitos anos, há dezenas de anos atrás, media apenas pouco mais de um metro, calçava o número vinte e oito e era tão leve que podia voar – não, não estou a mentir, naquele tempo eu podia de facto voar – ou pelo menos quase...
Assim começa este livrinho encantatório que entrecruza histórias de um rapazinho / narrador e do senhor Sommer, que se instalou na aldeia pouco depois da guerra.
Pouco ou nada se sabe sobre o senhor Sommer, mas todos o conhecem, pois é visto a caminhar apressadamente por montes e vales, estradas, bosques, de aldeia em aldeia, do nascer do dia ao pôr do sol, todos os dias do ano. Caminha apoiado num cajado e nas costas transporta uma mochila com o lanche e uma capa de borracha com capuz, que usa quando a chuva o surpreende. Quando alguém lhe dirige a palavra limita-se a abanar a cabeça, mal humorado. Ao rapazinho parece que ele move os lábios, como se falasse para si próprio, enquanto caminha.
Já o rapazinho, frequenta a escola, aprende a andar de bicicleta, tem aulas de piano, tem segredos, enfrenta injustiças e dificuldades, até ao dia em que decide despedir-se da vida, despenhando-se do topo de uma árvore na floresta.
Fechei os olhos e contei: um... dois... e de repente apareceu o senhor Sommer, que ofegante se deitou debaixo da árvore e soltou um longo suspiro, um queixume suplicante, como vindo de um doente atormentado com dores, depois lanchou e afastou-se rapidamente.
De repente deixei de ter vontade de saltar para o abismo.
Seis anos depois o rapazinho tem outro encontro com o senhor Sommer. Foi o último.
Numa noite fria de Outono vê-o caminhar lago adentro, sem hesitações, a afundar-se até desaparecer completamente.
De uma vez por todas, deixem-me em paz!
A recordação desta frase implorante que ouviu num dia de muita chuva ao senhor Sommer, e o queixume suplicante na floresta, mantiveram-no quieto e calado, deixando partir em paz um homem que passara toda a sua vida a fugir da morte.
Que maravilha de livrinho e de ilustrações, que nos fazem voar (e pensar) da primeira à última página.

A história do senhor Sommer, de Patrick Süskind
Ilustrações de Sempé
Sextante editora, 2007
Tradução de Maria Castro Dias
102 págs.

11 novembro, 2011

"A pomba" - Patrick Süskind

Meu Deus, meus Deus, porque me abandonaste? Porque me castigas assim? Pai nosso, que estás no céu, salva-me desta pomba. Ámen!
Quando se fala de Patrick Süskind pensamos logo no primeiro livro do autor “O perfume”, publicado em 1985.
Há alguém que ainda não tenha lido este romance de culto? Não acredito!
Dois anos depois o autor publicou uma pequena, pequenina maravilha: “A pomba”, uma novela com 89 páginas.
Só a li em 1996. Li e não mais esqueci.
Quando lhe aconteceu isto da pomba, que de um dia para o outro mudou radicalmente a sua existência, já Jonathan Noel estava com mais de cinquenta anos, havia uns bons vinte anos que levava uma vida igual e sem incidentes…pois não gostava de acontecimentos e detestava em particular aqueles que lhe abalavam o equilíbrio interior e perturbavam a ordem externa da vida.
Jonathan trabalha como guarda num banco, em Paris, e vive num quarto minúsculo sem grandes comodidades.
Aquele quartinho é o refúgio seguro onde se abriga das desagradáveis surpresas da vida, a sua ilha segura no mundo inseguro.
Jonathan partilha a sua monótona existência entre o seu quarto e o banco onde trabalha: às oito e quinze em ponto está à porta do banco;  às dezassete e trinta sai, compra o jantar e corre para o seu refúgio. É feliz.
A vida decorre sem incidentes, até que, numa sexta-feira, ao abrir a porta do quarto vê, a menos de vinte centímetros da soleira, uma pomba ferida.
Jonathan apanha um susto de morte, que  durante alguns segundos o deixa petrificado, incapaz de avançar ou retroceder.
O que fazer?
O caos instala-se, quando um simples pássaro ferido põe à mostra a miséria da sua existência.
Maravilhoso!

A Pomba, de Patrick Süskind
Presença, 1987
Tradução de Teresa Balté
89 págs.