28 abril, 2020

"Os dias são todos iguais..." - José Saramago


1. “…a melhor maneira de fazer morrer uma rosa é abri-la à força quando ainda não passa de uma pequena promessa de botão.”

2. “… de repente percebemos que já não somos necessários no mundo, se é que alguma vez o tínhamos sido antes, mas acreditar que o éramos parecia bastante, parecia suficiente, e era de certa maneira eterno pelo tempo que a vida durasse, que é isso a eternidade, nada mais do que isso.”

3. “Os dias são todos iguais, as horas é que não, quando os dias chegam ao fim têm sempre as suas vinte e quatro horas completas, mesmo quando elas não tiveram nada dentro.”

4. “Todos os pais foram filhos, muitos filhos vêm a ser pais, mas uns esqueceram-se daquilo que foram, e aos outros não há ninguém que possa explicar-lhes o que serão.”

5. “Nenhuma doçura de hoje será capaz de minorar o amargor de amanhã…”

6. "A boca é um órgão que será tanto mais de confiança quanto mais silencioso se mantiver.”


Palavras sublinhadas no romance  "A Caverna", aqui no Rol.

24 abril, 2020

"Os Sonetos de Shakespeare" - tradução de Vasco Graça Moura


Acusa-me de descuidar-me em tudo,
sem te retribuir grandes valias,
se a  teu amor tão grande não acudo
e o laços dele amarram os meus dias;
de que desconhecidos frequentei
e ao tempo dei direito que compraste
tão caro e de que ao vento a vela icei
a levar-me de ti longe que baste.
Regista teimosia, erros que tenho,
e junta a justas provas presunções,
inclui-me no franzido do teu cenho,
mas poupa-me nesse ódio às agressões:
        pois apelando a ti, ponho em valor
        em constância e virtude o teu amor.
(Soneto CXVII)

"É provável que o principal pilar do cânone da literatura ocidental seja a obra de William Shakespeare, poeta e dramaturgo inglês nascido em 1564, em Stratford-upon-Avon, cidade onde terá morrido em 1616. Além da sua obra dramática e de alguns poemas dispersos, os seus Sonetos constituem um monumento de composição e beleza, um atlas sobre a representação do amor, da passagem do tempo e da finitude, da paixão erótica, do desejo ou da solidão."

Quando em meu mudo e doce pensamento
chamo à lembrança as cousas que passaram,
choro o que em vão busquei e me sustento
gastando o tempo em penas que ficaram.
E afogo os olhos (pouco afins ao pranto)
por amigos que a morte em treva esconde
e choro a dor de amar cerrada há tanto
e a visão que se foi e não responde.
E então me enlutam lutos já passados,
me falam desventura e desventura,
lamentos tristemente lamentados.
Pago o que já paguei e com usura.
         Mas basta em ti pensar, amigo, e assim
         têm cura as perdas e as tristezas fim.
(Soneto XXX)


William Shakespeare escreveu 154 sonetos. 
Originalmente publicados em 1609, abordam temas como  o amor, a inconstância, a proximidade da morte, a tentação, o prazer, a passagem do tempo, e a própria poesia.
Estão todos neste livro, em versão bilingue.

(But that your trespass now becomes a fee,
Mine ransoms yours, and yours must ransom me)

Torne-se um preço a ofensa que em ti vinha;
resgate a minha a tua, a tua a minha.

"A meticulosa tradução de Vasco Graça Moura transporta para a nossa língua todo o génio do poeta inglês; é Shakespeare que escreve e ecoa na nossa língua, ora com exuberância e ironia, ora com melancolia, ora com a notável visão de um génio que sobrevive ao tempo e à morte. Só um tão notável poeta poderia traduzir Shakespeare desta forma."
Vasco Graça Moura (1942-2014), foi poeta, ficcionista, ensaísta, cronista e tradutor, além de desempenhar importantes cargos de relevância pública na vida portuguesa dos últimos cinquenta anos. Entre as inúmeras distinções que lhe foram atribuídas, contam-se o Prémio Pessoa, o Prémio Vergílio Ferreira, o Grande Prémio de Romance e Novela da APE, o Prémio Eça de Queirós. A sua obra poética está reunida em dois volumes publicados em 2012 pela Quetzal (Poesia Reunida, 1 e 2).
Entre muitos autores, traduziu Shakespeare, Racine, Dante, Corneille, Molière, Rostand, Rilke, Seamus Heaney, Hans Magnus Enzensberger, Gottfried Benn, Jaime Sabines.


Compre este livro para si, compre para oferecer àquele familiar ou amigo que gosta de Poesia.
Eu, recomendo efusivamente!

Os Sonetos de Shakespeare, tradução de Vasco Graça Moura
Quetzal Ed., 2016
345 págs.

(foto de Vasco Graça Moura, da net)

21 abril, 2020

Rubem Fonseca (1925-2020)


O sucesso sempre incomoda os medíocres ambiciosos, os sonhadores incapazes, os fracassados em geral. (Rubem Fonseca)

"Eu sou um ladrão.
Como é que o sujeito se torna ladrão? A polícia sabe? Não, não sabe. O advogado criminalista sabe? Não, não sabe. O psicólogo sabe? Não, não sabe. O psiquiatra sabe? Não, não sabe. O Psicanalista sabe? Não, não sabe. (…)
Pobreza? O sujeito se torna ladrão porque é pobre? Que besteira. Tem ladrão mais rico do que ladrão pobre, está provado que quanto mais dinheiro o sujeito tem mais dinheiro ele quer ter. (…)
Distúrbio mental? Eu sou ladrão e não sou maluco, nem tenho distúrbio mental. E que merda é exatamente isso de distúrbio mental? (...)"
(Excerto do conto "Um bom trabalho")

"Meu nome é Maria da Graça e tenho 62 anos de idade. (É mentira, tenho 72, mas pareço ter bem menos,então  digo para todo o mundo que tenho 62, e ninguém duvida.)
Não pensem que fiz isso que chamam de operação plástica, ou coloquei Botox, essa coisa que todas as mulheres fazem. Me disseram que alguns camelôs fazem Botox nas regiões pobres da cidade. Eles vão pelas ruas gritando «olha o Botox, bom e barato», às vezes usam até alto-falantes. E a coisa é feita ali no meio da rua, ninguém acha nada de mais. E funciona. Dizem que é um Botox que vem da China, por isso é barato. Tudo o que vem da China é barato, mas na maioria das vezes é também uma porcaria. Por exemplo, o tal cigarro electrónico,aquela coisa que vaporiza falsa nicotina que está na moda. O palerma pensa que está fumando um cigarro com gosto de  tabaco, mas é um aerossol químico. Ainda bem que eu não fumo. Beber eu bebo um pouco, champanhe é claro, quem é que não gosta de uma champanhe? Ou é um champanhe? Preciso comprar um dicionário para eclarecer essas coisas. (...)"
(Excerto do conto "O mundo é nosso")

"Meu netinho querido, sabe por que o mundo antigamente era melhor? Sou um velho ranzinza  e gosto de fazer afirmações que certas pessoas consideram infundadas. Mas uma coisa é certa: o mundo antigo era melhor porque havia apenas ricos e pobres, só duas categorias. E sabe o que aconteceu? Os pobres, lentamente, foram deixando de ser pobres. E isso acabou por influenciar o comércio, os comerciantes passaram a fazer coisas para os pobres, uma porcaria, é claro. E pobre gosta de fazer filhos, mas antes, graças a Deus, eles morriam de doenças. Quando os pobres passaram a ter dinheiro para cuidar dos filhos, pagando médicos e dando-lhes de comer melhor, essa praga dos filhos foi aumentando. Por que a população do mundo chegou a esse nível catastrófico? São os pobres fazendo filhos.(...) Que é isso? Meu netinho, larga o meu pescoço, você está apertando com muita força, me sufocando, estou sem ar, ai... ai... estou..."
(Excerto do conto "Netinho querido")

Filho de portugueses transmontanos que emigraram para o Brasil, Rubem Fonseca nasceu em Juiz de Fora, Minas Gerais, em 1925. Faleceu no Rio de Janeiro, onde vivia desde os oito anos, no passado dia 15 de Abril.
Contista, romancista, ensaísta, guionista e «cineasta frustrado», foi galardoado com diversos prémios literários, nomeadamente com o Prémio Camões, em 2003.
Leia tudo o que encontrar sobre este «senhor contista», dono de uma escrita original, simples, irónica, inteligente, sagaz, risível.
Eu vou, com certeza, ler mais sobre o escritor que «gritava vivas à Língua Portuguesa».

Mais sobre a vida e obra de Rubem Fonseca aqui.
Mais contos aqui no Rol.

(foto da net)

17 abril, 2020

Curiosidades “Rol de Leituras”: falemos de poesia!

Continuando com as curiosidades, desvendo hoje os dois livros de poesia e os dois poemas mais visualizados no “Rol de Leituras”.
Li muita poesia nos nove anos da existência do Rol. Em livros, em blogues de poetas que sigo, aprendi a gostar por demais de palavras ditas com precisão absoluta.
Se consegui que alguém começasse a ler/gostar de poesia, não sei. Eu tentei!

Vagas e Lumes”, livro de Mia Couto  (Ler mais...)
Não me basta ser:
eu quero o transbordar de tudo,
o desassombro
que toda margem desconhece.

Não me basta morar:
quero ser habitado
por quem ao destino desobedece.

Não me basta viver:
quero a vida como febre,
o amor como lume e água.

No final, saberás:
o que se ama não regressa

O que se vive
não começa.

E o sonho
nunca tem pressa.
"Se eu pudesse trincar a terra toda", poema de Fernando Pessoa
Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
Seria mais feliz um momento…
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural…

Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva…

O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica…
Assim é e assim seja…
(Alberto Caeiro)

"Versos”, livro de Amália Rodrigues  (Ler mais...)
LÁGRIMA
Cheia de penas
Cheia de penas me deito
E com mais penas
Com mais penas me levanto
No meu peito
Já me ficou no meu peito
Este jeito
O jeito de te querer tanto

Desespero
Tenho por meu desespero
Dentro de mim
Dentro de mim um castigo
Não te quero
Eu digo que não te quero
E de noite
De noite sonho contigo

Se considero
Que um dia hei-de morrer
No desespero
Que tenho de te não ver
Estendo o meu xaile
Estendo o meu xaile no chão
Estendo o meu xaile
E deixo-me adormecer

Se eu soubesse
Se eu soubesse que morrendo
Tu me havias
Tu me havias de chorar
Uma lágrima
Por uma lágrima tua
Que alegria
Me deixaria matar
A minha dor”, poema de Florbela Espanca
A minha Dor é um convento ideal
Cheio de claustros, sombras, arcarias,
Aonde a pedra em convulsões sombrias
Tem linhas dum requinte escultural.

Os sinos têm dobres e agonias
Ao gemer, comovidos, o seu mal…
E todos têm sons de funeral
Ao bater horas, no correr dos dias…

A minha Dor é um convento. Há lírios
Dum roxo macerado de martírios,
Tão belos como nunca ou viu alguém!

Nesse triste convento aonde eu moro,
Noites e dias rezo e grito e choro,
E ninguém, ouve… ninguém vê… ninguém…


Bom fim de semana.
Protejam-se.

(fotos da net)

14 abril, 2020

"Adivinha quanto eu gosto de ti" - Sam McBratney


….por vezes, quando gostamos muito, muito de alguém, queremos encontrar uma maneira de descrever como os nossos sentimentos são grandes…mas…o amor não é coisa fácil de medir…
Adivinha quanto eu gosto de ti” é um pequenino GRANDE livro - 32 páginas - que recomendo a toda a gente.
Compre, delicie-se com a leitura e ofereça a todos aqueles que têm um lugar especial no seu  coração.
Acredite, este livrinho é maravilhoso, é inesquecível!
Eu recebi-o da minha filhota há muitos, muitos anos.

(...)
- Gosto de ti o caminho todo até ao rio - gritou a Pequena Lebre Castanha.
- E eu gosto de ti até depois do rio e dos montes - disse a Grande Lebre Castanha.
(...)
- Gosto de ti até à LUA...
- E eu gosto de ti até à Lua... E DE VOLTA ATÉ CÁ ABAIXO.


Agora, responda se quiser:
1 - O amor tem tamanho?
2 - Como se mede o amor que sentimos por alguém?
3 - E o amor-próprio, o tal amor maior, tem medida certa?


(Tradução de José Oliveira)

09 abril, 2020

Santa Páscoa!


"Deus sabe que estamos aqui. Onde quer que existencialmente estejamos, Ele sabe encontrar-nos e reencontrar-nos. Deus sabe reconhecer os nossos frágeis passos de algodão, os intermináveis corredores solitários onde a noite nos persegue, o medo que a certas horas se lê nos nossos olhos desamparados."


José Tolentino Mendonça, in "Uma beleza que nos pertence", aqui no rol.




Neste tempo de incerteza e medo, que Deus encha os vossos corações  de amor, serenidade e esperança.
Juntos, somos mais fortes!
Tenham uma SANTA E FELIZ PÁSCOA!

(fotos da net)

07 abril, 2020

"Haja saúde!"- Adília Lopes


"CÓMICA
Fui medir a tensão à farmácia. Despi uma manga do casaco de malha. É um casaco que visto pouco. Quando voltei a vestir a manga e a abotoar o casaco enganei-me por duas vezes seguidas a abotoar o casaco. Chegava ao último botão junto ao pescoço e já não tinha casa, faltava uma casa para o botão. Uma freguesa que estava na farmácia riu-se a bandeiras despregadas da segunda vez que eu não tinha casa para o botão. Como estou muito gorda, senti-me o Bucha do Bucha e Estica a fazer um gag. Tinha inventado um gag por acaso. Senti-me contente. A farmacêutica disse que, quando abotoa a bata, também lhe acontece o mesmo. Foi um momento divertido na farmácia. Nem vale a pena acrescentar que a minha tensão estava boa. Haja saúde!"

Adília Lopes, in "Estar em casa", aqui no Rol.


Já que estou aqui, acrescento que a minha tensão está boa.
O meu apetite subiu um pouco. É o bicho, o malvado bicho. Ando tão atarantado com máscaras, luvas, álcool, gel, água e sabão, para evitar/matar o bicho, que nos momentos de algum sossego ataco a comida, tal qual o bicho mais devorador.
A propósito de matar o bicho,  ao pequeno almoço comi dois kiwis e aveia e goji com leite magro. Porto-me sempre bem de manhã. Depois, o dia vai correndo, e eu... comendo!! É a vida!
Haja saúde!
Beijos e abraços (virtuais, claro!). Protejam-se! 

(Agora vou tricotar casaquinhos de lã. NÃO SABES, TERESA!!!!  Ok, vou comer...)


(fotos da net)

03 abril, 2020

"Manobras de guerrilha" - Bruno Vieira Amaral


... a maior parte do que aqui vos trago foi roubado. Se se sentirem defraudados, reclamem comigo pela escolha e com os verdadeiros proprietários pela qualidade.
Ler “Manobras de guerrilha” - com o sub-título Pugilistas, Pokémons & Génios - foi mais uma experiência encantadora. Digo mais uma, porque senti o mesmo com os dois romances anteriores do escritor: “As primeiras coisas” e ”Hoje estarás comigo no paraíso”. (ambos no Rol)
Bruno Vieira Amaral, licenciado em História Moderna e Contemporânea, escritor, crítico literário e tradutor, é senhor de um excelente poder de síntese, uma linguagem culta, impecável, acessível, intimista, cativante, que nos agarra da primeira à última página.
Desta vez reuniu em livro textos originalmente publicados em jornais, revistas, blogues, ou apresentados em conferências e em encontros de escritores – artigos, reportagens, crónicas, realidade ou ficção, num registo sério e menos sério, sobre: futebol, boxe, viagens, literatura, cinema, fotografia, música, história, sentimentos, morte, filosofia, música, e muitas outras coisas.
Quem resolve ignorar a parte do mistério essencial de todas as coisas é em prejuízo próprio que o faz.
São 26 textos, carregados de sensibilidade, distribuídos por três secções: Emboscadas (10), Avanços no terreno (6), Campo Aberto(10).
Encontramos muitas citações, referências bibliográficas, perfis de heróis e génios: Chalana, Messi, Jake LaMotta, Mike Tyson, Muhammad Ali, Susan Sontag, Nelson Rodrigues «Ao confrontar o leitor e o espectador das suas peças com a miséria escondida da humanidade, a obra de Nelson Rodrigues é moralista e catártica. Ao oferecer-se à critica e à censura, expia os pecados alheios, lava os crimes silenciosos que todos cometemos, mesmo que em pensamento (...)», Freddie Mercury, David Bowie, Mário Vargas Llosa, Eça de Queirós, Zeca Afonso, Julio Cortázar, Albert Camus, W. G. Sebald, Woody Allen, Norman Mailer, etc.
Considerações sobre viagens em Portugal, e no estrangeiro - «os meus enganos e percepções erradas acerca da comida indiana sucederam-se ao ritmo das refeições e dei por mim a optar por uma dieta de muffins de caju e água mineral»;
Reflexões sobre variados temas: o humor e o suicídio na literatura, a fotografia enquanto negação do caos da vida, a «história da corpo negro na América», a decência, etc..
«Há nos homens mais coisas a admirar que coisas a desprezar.» Nos homens, escreveu Camus. Não nos deuses, não nos santos, não nas bestas, mas nos homens. Aqueles que, em tempos de peste, escolhem a decência.

Se foge de obras longas, eu sugiro que leia este livro.
Eu não fujo de grandes e pesadões romances, mas entre um e outro gosto de ler pequenas narrativas que me maravilhem, ensinem, divirtam. Em "Manobras de guerrilha", encontrei tudo isso!
E mais não digo! Aliás, digo: se, como eu, gosta de sublinhar detalhes do texto que lê, afie já o lápis.
(não se assuste com o título)

Manobras de guerrilha, de Bruno Vieira Amaral
Quetzal, Ed., 2018
285 págs.