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17 outubro, 2017

Quando se trata de pedir favores a familiares...


Quando se trata de pedir favores a familiares sou tomado de um pudor paralisante. A família é uma empresa complicada de hierarquias confusas, obediências, silêncios, recriminações. Esforço-me por manter as relações no plano da cortesia ou da intimidade mais intuída do que praticada. No fundo, gosto de estar em família por períodos breves. Estas aproximações – para esclarecer uma dúvida, pedir um carro para as mudanças ou uma toalha de mesa para o Natal – causam-me um certo desconforto. Prefiro deixar a família a pairar com a sua autoridade tácita, lá bem no alto, onde pouco interfere com o meu quotidiano. Cada qual na sua casa segundo os seus ritmos: isso é que está certo.”


Bruno Vieira Amaral, escritor português (1978-), in “Hoje estarás comigo no paraíso”, Ed. Quetzal, 2017
Foto da net.

22 setembro, 2017

"Hoje estarás comigo no paraíso" - Bruno Vieira Amaral


Cada homem está pendurado por um fio, o abismo pode abrir-se debaixo dele a qualquer momento.
No romance de estreia “As primeiras coisas” (2013) Bruno Vieira Amaral desvenda de forma magnífica como se vivia no início dos anos 80 no Bairro Amélia, concelho da Moita, distrito de Setúbal, o problemático bairro onde o escritor cresceu.
O romance, distinguido com diversos prémios, espantou todos pelo perfeito dosear de real com ficção, e pela escrita poderosa.
Agora, neste segundo romance, o escritor pega no homicídio nunca esclarecido do seu primo João Jorge (o Joãozinho Treme, personagem de “As Primeiras Coisas”) e desenha uma investigação do assassínio e usa essa investigação como estratégia de recuperação e construção da sua própria memória: a infância, a família, o bairro e as suas personagens, Angola antes da Independência e os anos que se lhe seguiram, e a figura – ausente - do pai.
João Jorge, solteiro, pintor da construção civil, cidadão português nascido em Novo Redondo, Angola, gozão respeitador, um vadio amigo da família, acabou os seus dias num curral de porcos, brutalmente degolado por um cabo-verdiano. João Jorge veio de Angola aos treze anos e morreu na Baixa da Banheira, Portugal, aos vinte e um.
Trinta anos depois , Bruno Vieira Amaral movido pela curiosidade decide investigar tão brutal crime.
Não são os mortos que clamam por justiça ou vingança. Somos nós que imploramos por sentido, para que os nossos mortos não tenham morrido em vão, para que as nossas vidas não nos pareçam tão absurdas, esclarece o escritor/narrador.
Sem memórias vivas do primo, para reconstituição da sua personalidade, do seu percurso de vida e da derradeira noite, Bruno Vieira Amaral (sete anos aquando do crime) pesquisou arquivos da imprensa da época, consultou arquivos judiciais, explorou o passado da família em Angola, ouviu jornalistas, familiares, vizinhos e amigos. Depois, “agitou” tudo e escreveu uma comovente e nostálgica história, bem urdida e bem contada, feita com dados da investigação, segredos familiares, esquecimentos convenientes, equívocos propositados, verdades escondidas, silêncios, recordações do quotidiano no bairro, revelações drásticas sobre um Portugal com fome, desemprego, salários em atraso.
Numa mistura perfeita de ficção e realidade, de passado e presente, aqui e ali o escritor/narrador desvenda o seu quotidiano e as dificuldades e esmorecimentos que sentiu  durante  a escrita da história.
Por vezes a dificuldade de escrever é apenas isso, uma tarefa, uma actividade profana, repetitiva, banal, afastada das zonas tenebrosas da existência, das humilhações, dos desejos proibidos, das vinganças imaginadas. Então, prefiro afastar-me da escrita e montar prateleiras, furar paredes, introduzir buchas, apertar parafusos…
Interessante é ver também citados romances  de Gabriel Garcia Márquez, Cormac McCarthy, W.G. Sebald,, Mario Vargas Llosa, Javier Cerca, Julian Barnes, entre outros, que o inspiraram e motivaram.
Tudo perfeito!
Na noite em que João Jorge foi assassinado não choveu. Nem na manhã seguinte. Era terça-feira de Carnaval, céu limpo e frio…
Fico por aqui.
Leia para saber quem foi, como viveu e porque foi o João Jorge morto como um porco, com a faca para os abrir... 
Hoje estarás comigo no paraíso (Evangelho segundo Lucas, 23:39-43) é interessante mas... demasiado longo. Bruno Amaral Vieira, senhor de uma escrita cristalina, viciante e inteligente (tanto deve ter lido já este "senhor escritor" que herdou do avô o amor pelos livros e pela História), podia ter dito tudo sem se perder em excessivas minúcias.
Eu aconselho a leitura dos seus dois romances. O primeiro é o meu favorito, mas com este quase gastei um lápis... A sublinhar, claro!

ONDE É QUE A HISTÓRIA DA NOSSA FAMÍLIA contamina a nossa história individual?
Pense nisto!

Hoje estarás comigo no paraíso, de Bruno Vieira Amaral
Ed. Quetzal, 2017
363 págs.

24 abril, 2016

"As primeiras coisas" - Bruno Vieira Amaral

"No Bairro Amélia come-se de tudo: moamba de galinha, calulu de peixe, cachupa, cozido à portuguesa, enguia frita com arroz de grelos…"

QUANDO, EM FINAIS DOS ANOS NOVENTA, voltei costas ao Bairro Amélia, com os seus estendais de gente mórbida, a banda sonora incessante das suas misérias, nunca pensei que a vida me devolveria ao ponto de partida.
Começa assim o Prólogo de quarenta e sete páginas (belíssimas) do romance de estreia de Bruno Vieira Amaral, uma ficção inspirada em realidade pois o escritor (n. 1978) cresceu no Bairro de Fomento à Habitação, no Vale da Amoreira, concelho da Moita, distrito de Setúbal.
A voz que ouvimos é de Bruno Eugénio, que diz mais à frente:
Saí para o mundo convicto da vitória e regressei, cabisbaixo, com o meu fracasso. Não importa detalhar o insucesso. Direi apenas que a queda não foi tão espectacular que não me envergonhasse. Foi um fracasso ordinário e marcante.
A minha mãe acolheu-me com impecável sentido de responsabilidade e o sentimento da mal disfarçada incomodidade de quem recebe um presente que não aprecia ou de que não precisa. Resignou-se. (…)
Foi assim que me encontrei de regresso ao Bairro Amélia: desempregado, desamparado, um pouco órfão…
Quarenta e tal páginas depois, ele confidencia:
O reflexo que o espelho me devolvia era uma cópia degradada do homem que, há poucos meses, eu contemplava com satisfação. Chegara ao fim. Não era agonia. Era cansaço, desemprego existencial, lassidão dos membros, a ânsia de adormecer.
Não! Bruno não chega ao fim. É salvo por Virgílio, o fotógrafo de voz rouca que lhe bate à porta, lhe entrega um envelope, e lhe diz «tenho algumas coisas que te podem interessar». 
Coisas que lhe interessam e o salvam...
Ao Prólogo segue-se um  “dicionário incompleto” com oitenta e seis pequeninas histórias… memórias, embustes, traições, homicídios, sermões de pastores evangélicos, crónicas de futebol, gastronomia, um inventário de sons, uma viagem de autocarro, as manhãs de domingo, meteorologia, o Apocalipse, a Grande Pintura de 1990, o inferno, os pretos, os ciganos, os brancos das barracas, os retornados: a Humanidade inteira arde no Bairro da Amélia, um lugar perdido na Margem Sul do Tejo…
Se o Prólogo é belíssimo e divertido, o Epílogo é lindo, profundo e comovente.
Hoje, assinámos os papéis do divórcio. Não a via desde o dia em que saí de casa. Está bonita. Cumprimentámo-nos. Acabou. (...)
Acabou, sim, porque eu nada mais desvendo.

Há muito que não lia um romance que me empolgasse tanto. Arrebatou-me a escrita concisa, clara e fluída, a narrativa empolgante, viciante, rica em detalhes, bem doseada de graça e seriedade.
Por favor leia!

As primeiras coisas”, de Bruno Vieira Amaral (Prémio Literário José Saramago, 2015),
Quetzal Editores, 2013
301 págs.