... a maior parte do que aqui vos trago foi roubado. Se se sentirem defraudados, reclamem comigo pela escolha e com os verdadeiros proprietários pela qualidade.
Ler “Manobras de guerrilha” - com o sub-título Pugilistas, Pokémons & Génios - foi mais uma experiência encantadora. Digo mais uma, porque senti o mesmo com os dois romances anteriores do escritor: “As primeiras coisas” e ”Hoje estarás comigo no paraíso”. (ambos no Rol)
Bruno Vieira Amaral, licenciado em História Moderna e Contemporânea, escritor, crítico literário e tradutor, é senhor de um excelente poder de síntese, uma linguagem culta, impecável, acessível, intimista, cativante, que nos agarra da primeira à última página.
Desta vez reuniu em livro textos originalmente publicados em jornais, revistas, blogues, ou apresentados em conferências e em encontros de escritores – artigos, reportagens, crónicas, realidade ou ficção, num registo sério e menos sério, sobre: futebol, boxe, viagens, literatura, cinema, fotografia, música, história, sentimentos, morte, filosofia, música, e muitas outras coisas.
Quem resolve ignorar a parte do mistério essencial de todas as coisas é em prejuízo próprio que o faz.
São 26 textos, carregados de sensibilidade, distribuídos por três secções: Emboscadas (10), Avanços no terreno (6), Campo Aberto(10).
Encontramos muitas citações, referências bibliográficas, perfis de heróis e génios: Chalana, Messi, Jake LaMotta, Mike Tyson, Muhammad Ali, Susan Sontag, Nelson Rodrigues «Ao confrontar o leitor e o espectador das suas peças com a miséria escondida da humanidade, a obra de Nelson Rodrigues é moralista e catártica. Ao oferecer-se à critica e à censura, expia os pecados alheios, lava os crimes silenciosos que todos cometemos, mesmo que em pensamento (...)», Freddie Mercury, David Bowie, Mário Vargas Llosa, Eça de Queirós, Zeca Afonso, Julio Cortázar, Albert Camus, W. G. Sebald, Woody Allen, Norman Mailer, etc.
Considerações sobre viagens em Portugal, e no estrangeiro - «os meus enganos e percepções erradas acerca da comida indiana sucederam-se ao ritmo das refeições e dei por mim a optar por uma dieta de muffins de caju e água mineral»;
Reflexões sobre variados temas: o humor e o suicídio na literatura, a fotografia enquanto negação do caos da vida, a «história da corpo negro na América», a decência, etc..
«Há nos homens mais coisas a admirar que coisas a desprezar.» Nos homens, escreveu Camus. Não nos deuses, não nos santos, não nas bestas, mas nos homens. Aqueles que, em tempos de peste, escolhem a decência.
Se foge de obras longas, eu sugiro que leia este livro.
Eu não fujo de grandes e pesadões romances, mas entre um e outro gosto de ler pequenas narrativas que me maravilhem, ensinem, divirtam. Em "Manobras de guerrilha", encontrei tudo isso!
E mais não digo! Aliás, digo: se, como eu, gosta de sublinhar detalhes do texto que lê, afie já o lápis.
(não se assuste com o título)
Manobras de guerrilha, de Bruno Vieira Amaral
Quetzal, Ed., 2018
285 págs.






