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18 maio, 2018

"O nervo ótico" - María Gainza

Dizem que é preciso parar perante uma tela de Rothko como em frente de um amanhecer.
O nervo ótico”, primeiro romance da crítica de arte argentina María Gainza, é um livro de olhares: olhares dirigidos a pinturas e a quem as contempla. Um livro, crónica íntima, incursão romanceada pela história da pintura, crítica de arte, visita guiada a um museu, que tem por narradora uma jovem mulher cuja vida desde cedo se ligou à pintura: o meu primeiro grande amor sucedeu na adolescência e à primeira vista: apaixonei-me por uma paisagem marinha pintada por Courbet…
Mulher divorciada, ovelha-negra de uma família tradicional de Buenos Aires em tempos abastada e agora remediada cuja vida tem, como um museu, obras-primas, mas também pequenos quadros escondidos em corredores escuros e estreitos. Mulher que em momentos de crise corre para um museu, como na guerra as pessoas corriam para os abrigos anti-bomba.
Em 11 capítulos, que no início parecem desligados, ela vai entrelaçando, num registo que oscila entre a comédia e a ironia, histórias de si mesma e da sua família «A minha mãe, que sempre teve grandes aspirações (...) acusava o meu pai de sofrer de pequnitice, uma doença crónica que não lhe permitia desenvolver plenamente o seu potencial. Segundo ela, tudo o que ele fazia fazia-o com facilidade, mas em pequenino».
… com explicações sobre quadros que olha amiúde e que exercem sobre ela um poder magnético: olharmos a pintura de El Greco é lutarmos contra nós próprios.
… com pequenas histórias de pintores que admira: «Numa noite de tempestade, quando (Rothko) saía do prédio, o porteiro disse-lhe que tivesse cuidado porque a rua estava perigosa. Rothko respondeu: Há uma única coisa com que tenho de ter cuidado, que é um dia o preto poder engolir o vermelho.»
E mais, aqui e ali cita escritores que leu,  T.S. Elliot, p.e., que disse «Quanto mais perfeito é o artista, mais completamente separados estarão nele o homem que sofre e o espírito que cria.»
Gostei muito desta “ biografia em pinturas”, uma visita guiada a que voltarei para me extasiar frente a este ou aquele quadro, neste ou naquele museu do mundo.
Propositadamente, pouco divulgo para que a leitura deste nervo óptico (com "p") arrebate os amantes da arte em geral e da pintura em particular. E da escrita, acrescento!
 …suponho que é sempre assim: escrevemos uma coisa para contar outra.
RECOMENDO (gritei com todas as cores de uma paleta, mas saiu a preto e branco...)!!!

O nervo ótico, de María Gainza
Tradução de Maria do Carmo Abreu
Ed. D. Quixote, 2018
167 págs.

15 maio, 2018

À terça - imagens e palavras: "realidade"


"Definitivamente, estou mal preparada para enfrentar a realidade; sou um exército de um só homem que apenas a alguns metros do inimigo se apercebe de que se esqueceu da baioneta."


Frase de María Gainza, crítica de arte e escritora argentina, in "O nervo ótico", ed. D. Quixote, 2018
Foto da net.