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28 maio, 2017

Vale a pena ler... José Tolentino Mendonça


“Cada vez mais se ouve pais hesitantes do seu papel que perguntam se a tarefa que lhes cabe é a de serem pais para os seus filhos ou simplesmente grandes amigos. Tornarem-se amigos dos filhos, vencendo a distância simbólica que a parentalidade estabelece, aparece hoje a mães e a pais como uma solução tentadora que os colocaria melhor na órbita existencial dos filhos, cúmplices das etapas que estes percorrem, confidentes privilegiados das suas vivências e, desse modo, com maior capacidade de influenciar e de intervir. Será verdade? (…)
Os pais precisam aceitar que cada filho é uma vida distinta e autónoma, ao mesmo tempo gerada por eles e inacessível, à maneira de um segredo que protegem mas cujo conteúdo está destinado a escapar-lhes. (…)
A tarefa da vida dos filhos é fazerem-se criativos herdeiros de um dom recebido que também eles não entendem até ao fim ou não entendem logo. Ora, ser herdeiro não significa apenas receber a parte de bens que lhe corresponde, mas construir em diálogo com essa vida recebida uma identidade original. (…)
Mas uma função inalienável dos pais é recordar que a vida humana é fundada em limites e sinalizá-los. Precisamente o contrário da promessa consumista das nossas sociedades, onde tudo aparece pronto para ser adquirido, devorado e esquecido.”

Excerto da crónica “Pais ou amigos dos filhos?”, de José Tolentino Mendonça (presbítero e poeta português, n. 1965), publicada na “E”, revista do jornal Expresso de 27 Maio 2017
Vale a pena ler na íntegra.

Pintura “A sagrada família do passarinho”, do espanhol  Bartolomé Murillo (1617-82)

05 abril, 2017

Vale a pena ler... José Tolentino Mendonça


“Conversava com uns amigos preocupados com o filho que anda agora pelos 17 anos. São ambos professores, os corredores de casa parecem uma biblioteca, mas o filho não lê um livro. Às vezes, dão por si a olhá-lo como se olha um estranho cuja língua e hábitos se ignoram. Não sabem como se formou o muro cultural que os separa. Veem-no horas e horas retido no ecrã do telemóvel, obsidiado por aquele retângulo brilhante, aos olhos deles fazendo nada. Lamentam o que lhes parece ser uma dependência, mas sentem-se impotentes. Quando tentam explicar-lhe que o ecrã é uma gaiola de vidro onde se deixa aprisionar, o filho levanta a cabeça, olha-os também sem entendê-los, mas sem intenção de substituir o que o ocupa por um livro qualquer. A primeira coisa de que me recordei – e que lhes disse – foi uma frase do escritor Gianni Rodari: “O verbo ler não suporta o imperativo”. Ler é uma atividade indissociável da curiosidade e do desejo. É preciso aprender a senti-la como uma necessidade interior, um gosto, uma alegria que pode até ser frívola e profunda ao mesmo tempo, um encontro a que nos dispomos sem porquê. Não basta uma ordem ou um conselho repetido. (…)"


Excerto da crónica “Quando os filhos não leem”, de José Tolentino Mendonça (presbítero e poeta português, n. 1965), publicada na “E”, revista do jornal Expresso de 1 Abril 2017
Vale a pena ler na íntegra.

(Foto da net)

03 fevereiro, 2017

Vale a pena ler… Gérard Depardieu


Tem uma filmografia extensa. Participou em pelo menos 200 filmes. Quais são os que contam verdadeiramente?
Os filmes não me interessam. Não sei responder-lhe. É verdade. Estou-me nas tintas.
Lamenta alguma coisa que tenha ou não tenha feito no passado?
Não, até ao momento não tenho tempo sequer de pensar nisso. De facto, e para falar a sério, não acho que se deva lamentar nada. Passamos sempre ao lado de certas coisas mas, a partir do momento em que fazem parte do passado, mesmo que saibamos o que fizemos de errado ou que negligenciámos, só temos a hipótese de fazer um exame de consciência.
(…)
É um homem livre?
Tento ser.
E a solidão não acompanha a liberdade?
A solidão é uma chatice mas existe a meditação. De resto, a solidão só existe nas cidades. Existe quando há todo aquele movimento à nossa volta e nos sentimos perdidos. Quando há demasiado barulho e nós nos tornamos surdos, aí podemos experimentar a solidão. Mas no espaço, quando atravessamos o deserto, quando vamos à Mongólia, mesmo no Alentejo ou em Faro, não a sentimos. Quando olhamos para o mar de Portugal e vemos aquela espécie de horizonte que nos agarra, não conseguimos desligar-nos da história de todos aqueles que partiram. É como ir à Lua, viajar no espaço, ir a Marte, não sei. São coisas que foram abstratas num determinado momento, quando a Igreja dizia que não se podia ir para ocidente porque se cairia nos abismos, quando as pessoas que sabiam que a Terra era redonda e girava à volta do Sol, como Galileu, eram queimadas vivas. É que o desconhecido mete medo. Por trás do desconhecido se calhar há outros fascínios. Não podemos ouvir o que o nosso pai ou a nossa mãe nos diziam, só se for para não os magoarmos. O que é preciso é termos a nossa própria ideia sobre as coisas.
(…)
Gostaria de ter vivido noutra época?
Não, esta serve-me porque vivo noutra época mesmo nesta época.

Frases soltas:
- Gosto mais de livros do que de imagens. A imagem limita.
- Nascemos numa época em que só se fazem selfies, procuramos a nossa própria imagem.
- Cada época tem os seus defeitos, cada época tem os seus doidos.
- A História repete-se mas é sempre encantadora.
- Tenho medos dos estúpidos… porque os estúpidos podem desestabilizar.
- Temos em nós uma ideia que nos reconforta porque Deus está em nós.
- Não sou religioso, mas acredito no xamã e no xamanismo.
- A cozinha portuguesa é muito boa. A arte da mesa em Portugal é muito boa.

Excerto da entrevista concedida a Alexandra Carita – a propósito da estreia do filme “O Divã de Estaline, realizado por Fanny Ardant e protagonizado pelo actor - publicada na “E”, revista do jornal Expresso de 28 Janeiro 2017

Vale a pena ler na íntegra.

06 janeiro, 2017

Vale a pena ler... José Tolentino Mendonça




"(...)Entre um ano que acaba e um ano que começa, a contas com o tempo que corre fora e dentro de nós, sentindo-nos talvez de forma mais sensível modelados por esse oleiro invisível que é o tempo, percebemos que a nossa vida é uma vida exposta. É impossível não detetar as marcas do tempo em nós: linhas de fragilidade, sombras, estremecimentos, erosões, zonas mais desvitalizadas, desvios. A unidade interior é um trabalho imenso. Parece-se ao manto que Penélope tecia durante o dia e desmanchava durante a noite, na sua espera quase sem esperança. Mas não podemos desistir de construir essa unidade de ser. Só aquilo que amamos com o extremo do amor não nos será tirado.(...) Dizer por exemplo, que a vida é marcada pela vulnerabilidade é reconhecer quando ela está exposta à possibilidade de ser ferida. (...) A vulnerabilidade é um acontecimento total. Descobrimos, no entanto, que através dela nos chega também o que nos redime. Só a vulnerabilidade nos eleva à altura do infinito à maneira de uma dança, onde a gravidade é vencida pela graça. E a dança não conhece fronteiras. O seu vocabulário é infinito pois é a emoção humana que ressoa no movimento. Tudo dança, tudo é dança. Os nossos olhos dançam, os nossos corpos rodopiam, a natureza (a nossa e a das coisas) manifesta-se num deslizar que se calhar não vemos.(...) E recorda Marta Graham: "A dança é a linguagem escondida da alma, é uma canção do corpo, um sopro de alegria e de dor. Importa apenas isto: levanta-te e dança". 

Excerto da crónica “Levanta-te e dança”, de José Tolentino Mendonça (presbítero e poeta português, n. 1965), publicada na “E”, revista do jornal Expresso de 30 Dezembro 2016
Vale a pena ler na íntegra.

(Foto da net)

28 setembro, 2016

Vale a pena ler... Mario Vargas Llosa

(…)
Penso que foi em Madrid, em 1958, quando estava a fazer o doutoramento (sobre o poeta Rubén Dario) e a escrever o primeiro romance, “A Cidade e os Cães”, que tomei a decisão de estruturar a minha vida de maneira a poder dedicar-me à escrita. Foi nesse momento que decidi consagrar a maior parte do meu tempo e da minha energia a escrever. Porque essa é a única forma de ser-se um escritor e não a caricatura de um escritor.
Portanto, acredita no trabalho.
Por uma razão muito simples: porque eu não tenho facilidade para escrever, preciso de trabalhar muito para poder acabar um livro. Há escritores que se sentam e para eles tudo flui. Não é o meu caso. Eu tenho que refazer, penar, reescrever. Por isso, preciso de uma grande disciplina.
(…)
Ouvindo-o falar, percebe-se que Mario Vargas-Llosa, apesar de ter escrito uma trintena de livros, não é nem nunca foi um homem fechado na sua obra, na sua literatura. É importante para si participar do mundo, pensá-lo?
Sim, claro. A literatura vem da vida, do que nos marca, do que a memória audazmente seleciona. Tudo é matéria-prima. No imaginário popular o Nobel significa o fim de um escritor. Um fim glorioso, mas um fim. Pensa-se que depois disso não há nada, que o escritor está morto. Eu tentei combater isto desde o princípio, não parando de escrever, de viajar, de pensar a realidade. Não me tornando na estátua em que o Nobel por vezes transforma os escritores.”

Excerto da entrevista concedida a Luciana Leiderfarb, publicada na “E”, revista do jornal Expresso de 24 Setembro 2016
Vale a pena ler na íntegra.

(Foto da net)

27 setembro, 2016

Vale a pena ler... Arturo Pérez-Reverte


Por que razão um homem que viajou por todo o mundo como repórter prefere, como temas dos seus romances, a História à actualidade?
A História permite-nos compreender melhor o presente. O novo não é mais do que o passado que já esquecemos. Tudo já aconteceu. Quem não leu a Guerra de Tróia não compreende Sarajevo, quem não leu Xenofonte não compreende a guerra dos mercenários em Angola, em 1978. Sem História somo órfãos e incapazes de compreender. Por isso uso nos meus romances a História como mecanismo de compreensão, como chave para o presente.
(…)
Acha que essa vida aventurosa, como a de uma personagem dos seus próprios romances, contribui para o êxito? Ao fazer com que o leitor se projecte no escritor como alguém que tem uma vida apaixonante?
A minha vida não é apaixonante por ser escritor. O que torna uma vida apaixonante são as viagens que fizemos, as aventuras que vivemos. Os livros são apenas um resultado disso.
Mas a literatura está em crise…
Eu não estou em crise.
Qual é a sua explicação para isso?
Às vezes pego num livro e penso: este tipo, para que escreve ele? A quem importa saber que ele se levantou de manhã, que tem uma vida triste, que a mulher o deixou, que o seu filho é drogado, que se sente asfixiado pela vida. Para isso, não vale a pena ler. Basta olhar em volta. O que eu quero é que me contem histórias interessantes, que me façam reflectir, pensar, sonhar. Que mudem a minha vida. Se quando terminar a leitura de um livro a minha vida não tiver mudado para melhor, ou é um mau livro ou eu sou um mau leitor. Um livro que não muda o olhar do leitor é uma merda de livro. E o mundo está cheio de merda de livros que não mudam nada. São apenas fruto da vaidade onanista de autores que não têm nada para dizer.
(…)
A literatura é para todos?
Sim.
Mas a maioria não lê.
Não lê porque não sabem como é bom ler. Porque não se educa para a leitura. Os planos de estudos são feitos por gente que não lê e que não sabe o que dar às crianças para ler. Mas quando uma pessoa encontra algo de que gosta…
(…)

Excerto da entrevista concedida a Paulo Guerra, publicada no jornal Público de 21 Setembro 2016.
Vale a pena ler na íntegra.

(Foto da net)

23 dezembro, 2015

Vale a pena ler... Valter Hugo Mãe

“A nossa imprensa está a estreitar-se. Fico a pensar que estreitamos o pensamento,estreitamos o país.
Recebemos cada vez mais as grandes matérias em traduções do que se pesquisa em outras latitudes, a dimensão portuguesa, ou o modo como Portugal vê o mundo, caminha tragicamente para um circuito que se fecha num universo mais e mais académico.
Talvez o pais se torne algo cada vez mais teórico, uma questão progressivamente do foro da discussão filosófica e menos aferível no quotidiano de cada um. Subitamente, vivemos territorializados, medidos como consumidores e pagadores de impostos, mas não como um colectivo detentor de uma qualquer identidade.
Viver assim é, de certo modo, estar ao desabrigo. Perigando as forças e mantendo ao nível da sobrevivência os objectivos. O problema é que a humanidade começa um pouquinho depois da fome. Até à fome somos bichos como outros quaisquer."

Excerto da crónica “Desabrigo”, publicada na “2”, revista do jornal Público de 20 Dezembro 2015.
Vale a pena ler na íntegra.

22 dezembro, 2015

“O crente e o não-crente para quem JESUS SABE BEM"


A pretexto do recente lançamento de O Livro Aberto – Leituras da Bíblia (edição Cotovia), de Frederico Lourenço - um “ex-católico à procura de uma conciliação entre o pensamento racional e a figura de Jesus” - o jornalista Carlos Vaz Marques desafiou Frei Bento Domingues para uma conversa com o escritor.

"Ao lerem a Bíblia, lêem ambos o mesmo livro ou a fé, que um tem e o outro não, altera substancialmente a leitura?

Frederico Lourenço – A fé pode alterar, naturalmente, o olhar sobre os livros. Se tivermos fé, e sobretudo se estivermos a ler o livro de acordo com a crença e a prática de uma qualquer modalidade do cristianismo – pode ser católica, luterana, protestante – estamos condicionados para ver um sentido que, se não tivermos fé, não somos obrigados a ver.

Frei Bento Domingues – O que é importante, antes de mais, é o facto de a Bíblia ser a biblioteca de um povo: de épocas muito diferentes, com géneros literários e problemáticas também muito diferentes."


Excerto do excelente artigo de Carlos Vaz Marques, publicado na “2”, revista do jornal Público de 20 Dezembro 2015.
Vale a pena ler na íntegra.

Foto tirada a net.

21 dezembro, 2015

"Celebrar o Natal para quê?" - Frei Bento Domingues


Existem várias e boas razões para celebrar o Natal. Em muitos casos é a festa da família e este é um dos seus frutos.
Se contribuir para refazer ou fortalecer os laços familiares, a Sagrada Família torna-se mais numerosa: fazer família com quem não é família é continuar a revolução de Jesus de Nazaré, do mundo todo.
Bom Natal.”


Excerto da crónica de Frei Bento Domingues, publicada o jornal Público de 20 Dezembro 2015.
Vale a pena ler na íntegra.

Foto tirada da net.

16 outubro, 2015

Vale a pena ler ... "Conta-me histórias..."


A atividade cerebral dos mais novos aumenta quando ouvem histórias de embalar, garante um estudo científico de John S. Hutton, investigador do Centro Médico Hospital Infantil de Cincinatti, EUA.

Crescer com livros, ler em voz alta para as crianças são atos que ajudam ao desenvolvimento da linguagem e ao sucesso escolar, está comprovado.

Para o psicólogo clínico Eduardo Sá, «o sistema nervoso funciona como um músculo que precisa de ser estimulado, sob o risco de, ao não suceder assim, atrofiar. (…) porque o acesso à palavra nos permite vestir em palavras aquilo que sentimos, crianças que melhor verbalizam, podem tornar-e mais felizes. (…) As histórias juntam imagens e palavras, ajudam a pensar. Crianças que mais precocemente acedem às histórias são mais aptas para a matemática, para a língua materna, para a representação, e para a relação. Mais histórias significa crianças mais saudáveis e crianças mais inteligentes».”


Excerto da crónica de Katya Delimbeuf, publicada na “E”, revista do jornal Expresso de 10 Outubro 2015.
Vale a pena ler na íntegra.

08 setembro, 2015

Vale a pena ler... Valter Hugo Mãe


O senhor Emílio

"A vida é uma originalidade. Por mais planos que façamos, estaremos, subitamente, num ponto mudado, até irreconhecível. Seremos constantemente confrontados com a necessidade de dar provas, a começar perante nós mesmos, acerca da manutenção da dignidade e da boa vontade. Quando as coisas mudam, vemo-nos desamparadamente novos, vagos na identidade, porque afinal as convicções eternas morrem. Tendemos a ver demasiado o presente como se fosse tudo. Mas o presente a todo o tempo morre também. Nós somos sobretudo o ímpeto entre isto e outra coisa."


Excerto da crónica de Valter Hugo Mãe, publicada na “2”, revista do jornal Público de 30 Agosto 2015.
Vale a pena ler na íntegra.

01 setembro, 2015

Vale a pena ler (e ouvir)... Buddy Guy

Está permanentemente a rir nas fotografias. Está sempre assim tão satisfeito com a vida?
Estou sim senhor! E era tão bom que o mundo inteiro fizesse o mesmo. A música obriga-nos a sorrir. Quando se ouve música, estamos a sorrir mesmo que não nos apercebamos disso. Se fosse sempre assim, não nos zangaríamos com pessoas que nem sabemos quem são. Eu nunca conseguiria estar arreliado consigo. Não o conheço! Amo todos os seres humanos do mundo. E amo todos os animais. Que aproveitemos todos a vida curta que temos. Ouçamos música, dancemos e batamos palmas. Uma pessoa tem de se divertir enquanto é tempo porque ninguém sabe o dia de amanhã.

Buddy Guy, é um dos mais reconhecidos músicos de blues, rock e jazz livre. Nasceu nos Estados Unidos da América, em 1936.


Excerto da entrevista concedida a Luís Guerra, publicada na “E”, revista do jornal Expresso de 22 Agosto 2015.
Vale a pena ler na íntegra.

21 abril, 2015

Vale a pena ler... Umberto Eco

Quando descobriu em si o impulso narrativo, a vontade de contar?
Escrevi a primeira novela aos 15 anos. E passei a adolescência a escrever novelas, que começava e não acabava porque era tão meticuloso que queria que parecessem impressas. Fiz também alguma banda desenhada e escrevi poesia, mas isso não conta porque a poesia entre os 16 e os 20 anos é como a masturbação. De facto, tive sempre este impulso narrativo e quando apresentei a minha tese de doutoramento – sobre a Estética de São Tomás de Aquino – um dos meus professores disse que havia nela algo de curioso: quando alguém faz uma pesquisa, chega a certas conclusões e fixa-as no papel. Eu, pelo contrário, estava a contar a história da minha pesquisa como se fosse uma história de detetives. Para ele isto era uma falha para mim é uma virtude. Todos os meus ensaios tinham esta estrutura narrativa e, num sentido, estava a escrever romances sem o saber. Provavelmente comecei a escrever romances porque os meus filhos cresceram e já não podia contar-lhes histórias. Arranjei outra maneira.

Só aos 48 anos publicou “O Nome da Rosa”.
Adiei o momento de contar histórias porque tinha outras coisas para fazer. Só depois de ter feito tudo o que queria – o meu lugar na universidade, os ensaios publicados, dois filhos – perguntei-me: “O que vou fazer agora?”. Vou contar histórias.


Na entrevista concedida a Luciana Leiderfarb, e publicada na “E”, revista do jornal Expresso de 18 Abril 2015, Umberto Eco fala sobre a  infância, a escrita, a Europa e... o novo romance "Número Zero" (sobre os limites do jornalismo), em Maio nas livrarias portuguesas. 
Vale a pena ler na íntegra.

31 março, 2015

Vale a pena ler... Valter Hugo Mãe

Cuidar dos pais

A minha mãe é a minha filha. Preciso de lhe dizer que chega de bolo de chocolate, chega de café ou de andar à pressa. Vai engordar, vai ficar eléctrica, vai começar a doer-lhe a perna esquerda.

Cuido dos seus mimos. Gosto de lhe oferecer uma carteira nova e presto muita atenção aos lenços bonitos que ela deita ao pescoço e lhe dão um ar floral, vivo, uma espécie de elemento líquido que lhe refresca a idade. Escolho apenas cores claras, vivas. Zango-me com as moças das lojas que discursam acerca do adequado para a idade. Recuso essas convenções que enlutam os mais velhos. A minha mãe, que é a minha filha, fica bem de branco, vermelho, gosto de a ver de amarelo-torrado, um azul de céu ou verde. Algumas lojas conhecem-me. Mostram-me as novidades. Encontro pessoas que sentem uma alegria bonita em me ajudar. Aniversários ou Natal, a Primavera ou só um fim-de-semana fora, servem para que me lembre de trazer um presente. Pais e filhos são perfeitos para presentes. Eu daria todos os melhores presentes à minha mãe.

Excerto da crónica de Valter Hugo Mãe, publicada na revista 2, do jornal Público de 29 Março 2015.
Vale a pena ler na íntegra.

(Pintura de Afonso Pinhão Ferreira - foto tirada da net)

16 novembro, 2014

Vale a pena ler... José Pacheco Pereira


"Vale a pena ler livros novos?
Todas as vezes que lemos um livro deixamos de ler outro. É mesmo assim, positivo e negativo, para os poucos milhares de livros que podemos ler, mesmo sendo grandes leitores. Já uma vez fiz este cálculo e na melhor das hipóteses, numa vida de grande leitor, dificilmente se pode ultrapassar os 4000-5000 livros e já a contar por cima.
Vale a pena ler livros novos? Ou dito de outra maneira, se não temos tempo para ler o património fundamental da literatura dos últimos 2500 anos, vale a pena perder tempo a ler livros “novos”, a esmagadora maioria dos quais desaparece da memória literária a alta velocidade, porque, no fundo, nada tinham a acrescentar de novo ao património anterior?
Não está tudo já escrito e reescrito com qualidade já testada e com real ligação com o que de mais indispensável existe na nossa história cultural? Como podemos viver sem Ibsen, Molière, Bocaccio, Stendhal, Cervantes, Safo, Virgílio, mesmo quando já não temos tempo para os ler como merecem sem também já escolhermos entre Proust ou Claudel, ou Dickens e Conrad, ou Nabokov e Updike?
É um problema que tem sentido colocar, porque, sendo nós finitos, estamos limitados e temos de fazer escolhas. Se eu pudesse ler tudo, não havia problema. Tem de existir por isso argumentos a favor de o “novo” por testar e perder assim algo do antigo já testado."

Vale a pena ler excelentes crónicas, como esta publicada no jornal Público de 15 Novembro 2014

(foto tirada da net)

03 outubro, 2014

Vale a pena ler...


P: Continua a ler os clássicos portugueses?
R: Continuo. Já estou numa fase de releitura, a começar pelo meu “amigo” Padre António Vieira.
Quando comecei a querer escrever, perguntei ao meu pai o que devia fazer. E ele disse: “Leia o Padre Vieira.” Depois perguntei: “E o segundo?” “Leia o Padre Vieira.” “E o terceiro?” “Leia o Padre Vieira.” 
Foi uma profecia. Passei a vida lendo o Padre Vieira…”

Excerto da entrevista concedida por José Sarney (31º Presidente do Brasil) a Manuel Carvalho, publicada no jornal Público de 28 Setembro 2014.
Vale a pena ler na íntegra. 

20 novembro, 2012

Vale a pena ler...Monge Matthieu Ricard

Matthieu Ricard nasceu em França, em 1946. Cientista de sucesso, na área da Filosofia, em 1972 abandonou a carreira e dedicou-se ao Budismo Tibetano.
De bem com a vida, respondeu assim à jornalista:
P: Os cientistas consideram-no o homem mais feliz do mundo. Qual é o segredo?
R: Isso é um exagero, não acho que seja bem assim. Mas posso dar alguns conselhos. Primeiro, há que reconhecer que se quer se feliz e não negligenciar as emoções, o nosso interior.
Egoísmo, arrogância, agressividade são tudo sentimentos que nos fazem sentir mal, que controlam as nossas mentes e impedem a felicidade. Não são sentimentos que nos sejam impostos, somos nós os responsáveis por eles, e todos sabemos o mal que fazem. A verdade é que podemos treinar a mente. Cá fora, o nosso controlo é limitado, já no cérebro só depende de nós.
P: E quais são os primeiros passos a dar para o conseguirmos fazer?
R: Primeiro, devemos olhar para dentro e ver o que nos proporciona felicidade. Como o amor altruísta, por exemplo. É preciso controlar o excesso de desejo. E como o fazemos? Simples: libertando-nos dessa ansiedade de querer ter tudo. Como é que podemos dissipar a raiva? Como amor, afeição. É preciso reconhecer que precisamos de mudar de atitude, e depois não basta fazê-lo um dia ou um mês. É algo para a vida. E se o fizerem, acreditem, vão sentir mudanças.
P: Mas temos de pôr de lado os prazeres mundanos para sermos felizes?
R: [risos] Não há mal nenhum no prazer. Mas o prazer não tem nada a ver com felicidade.
Excerto da entrevista concedida a Paula Cosme Pinto, publicada na Revista, do jornal Expresso de 28 Abril 2012
Vale a pena ler na íntegra.

23 outubro, 2012

Vale a pena ler... Agustina Bessa Luis



Agustina fez 90 anos.

A bibliografia assusta, só romances são uns 40, mas entramos e descobrimos um mundo pessoalíssimo, exigente, subtil, imenso. Agustina elevou as possibilidades da literatura e da linguagem literária, em vez de as amesquinhar, ou domesticar, ou produzir tranquilidade.
Em Agustina, até os defeitos são virtudes, as frases arrevesadas, as personagens que desaparecem sem explicação, ninguém deve lê-la à espera de romances “bem feitos” ou da bendita “história” que agora nos dizem que é sinónimo de romance.
Costumo desincentivar algumas pessoas de lerem Agustina, para que não se desiludam, leitores de paciência e horizontes curtos, ou aqueles que preferem sempre uma literatura das “massas”, tanto as massas exploradas como as massas entretidas. Não procurem aqui ficção impessoal, dogmática, superficial, classificável. Agustina nunca foi regionalista, neo-realista, existencialista, vanguardista, pós-moderna, mas sempre se mostrou enraizada numa geografia local, atenta aos humildes, inquieta com a dificuldade de viver bem, ousada no estilo, irónica.

Excerto da crónica de Pedro Mexia, publicada na revista Atual, suplemento do jornal Expresso, de 20 Outubro 2012.
Vale a pena ler na íntegra.

09 outubro, 2012

Vale a pena ler... Ian McEwan

Cito excertos da interessante conversa de Ian McEwan com Isabel Coutinho, em Paraty, aquando do lançamento do livro “Mel”:
Quando escreveu Expiação teve de “tentar entrar na pela de uma mulher de 30 anos como era lembrada por uma mulher de 78 anos”. Agora, em Mel, como Serena, teve de “viver como uma jovem mulher imaginada por um jovem homem”. Não lhe custou?
Acho que é preciso estabelecer um contexto na nossa imaginação e depois todas as personagens e percepções o seguem. Uma vez feito, deixa de ser um esforço constante. Quando tomamos a decisão e ajustamos a nossa mente a um certo formato, depois é só deixar ir.
Tal como o pintor vai desenhando o retrato, traço a traço, o romancista a determinada altura vê a personagem.
Às vezes, uma personagem tem personalidade e não precisa de um rosto. Alguns dos meus personagens crescem a partir de uma frase.
Como leitor, Ian McEwan sabe que é preciso ter muita paciência para se ler um romance que durante oito a 36 horas precisa da nossa atenção contínua. Enquanto à nossa volta existem tantas coisas que nos atraem e nos desviam da leitura.
Por isso acho que os escritores devem um serviço aos leitores em termos de clareza. Sei que não estou sozinho nisto, a quantidade de romances que comecei a ler e não acabei… Muitas vezes o que me motivou a não continuar com a leitura foi a falta de clareza nas páginas iniciais de uma obra. Parece-me crucial que se convidamos o leitor a entrar em nossa casa, não há grande vantagem em sermos obscuros.

Excerto da crónica de Isabel Coutinho, publicada na revista Ípsilon, suplemento do jornal Púbico, de 5 Outubro 2012.
Vale a pena ler na íntegra.

11 setembro, 2012

Vale a pena ler... António Cândido Miguéis


Em busca do Graal da felicidade

De um modo ou de outro verificamos que, no decorrer da história da humanidade, o homem sempre porfiou a felicidade como promessa de satisfação infinita. Nessa eterna busca, alguns crêem que encontraram essa mesma felicidade no desfrute de bens materiais. E quanto mais, melhor.

Porém, nem sempre foi assim. Basta recordar aquele famoso conto sobre um rei que buscava um homem feliz e quando o encontrou, comprovou, surpreendido, que o afortunado apenas dispunha de uma camisa e calças puídas para se cobrir. Talvez que a felicidade, ao fim e ao cabo, radique num trabalho gratificante que ocupe a nossa existência e nos faça sentir bem. No entanto, para outros a felicidade poder-se-á alcançar, por instantes, ingerindo drogas que transportam, os utilizadores, para paraísos indescritíveis e abrem a porta para outros horizontes. Desgastantes, tenebrosos, letais.

A felicidade poder-se-á, outrossim, entender como um anelo constante do ser humano e, como tal, deveria estar reconhecida nas leis das nações.

Excerto da excelente crónica de António Cândido Miguéis, publicada no jornal Público, de 26 Agosto 2012
Vale a pena ler na íntegra.

(Foto tirada da net)