06 março, 2020

Espaço dos amigos (2): um Céu sem limites, um Rio... de poemas!

Chica e Jaime,  dois amigos que encontrei na  blogosfera.
A Chica é aquela amiga que todos os dias, bem cedo, nos manda palavras perfumadas, carinhosas e motivadoras, escolhidas como flores frescas. A amiga generosa, que recorda datas importantes, participa em todos os desafios, manda mimos quando percebe que algo nos preocupa. A amiga que fotografa céus, mares, raízes, plantas... (e até férias praianas...), e escreve frases e versos encantadores. A amiga que gosta de dar destaque ao que publicam os amigos (eu já  por lá vi céus e mares meus).  Muitas vezes me interrogo: como consegue a Chica publicar tanto e dar-se tanto, a tantas amigas e amigos?
(Diz-me só a mim, querida amiga, qual é o teu segredo. Já deves ter percebido que eu a «gerir» comentários sou um zero, um zerinho!)
O amigo Jaime é mais recatado, um avô babado (é tudo o que eu sei dele), um criador poético inspirado e inspirador. Semanalmente, brinda-nos com versos ricos em ritmo e emoção, que exigem a nossa atenção e instigam a nossa imaginação. Poetiza sobre vários temas, mas é o amor o seu «amor de perdição». (Hoje, aqui, eu confesso que por mais que investigue lendo e relendo verso a verso dum mesmo poema, ainda não descobri se naquele tanto amor o poeta a si se revela...)
Uma coisa não me sai da cabeça: porque não publica ele os seus poemas em livro?
(Se preferires, oh meu amigo diz agora, só para mim, aqui que ninguém nos ouve!)


                                                            ( Chica,  blogue "Céus da Chica", 12 Fevereiro 2020)

"Brilhos que nos chegam  aos pedacinhos..." (Chica)
"Nada melhor para os olhos e coração do que o lindo mar de perto ou longe admirar!" (Chica)
"Por mais tortos e enroscados que seja nossos "galhos", sempre poderemos com eles conviver!!!" (Chica)

                                                                   (Chica,  blogue "Mares da Chica", 26 Setembro 2019 )

VERSOS NA AREIA
A noite
é uma lua diurna sem chama.
O meu rio
é um mar de estrelas sem praia.
O silêncio
é um remanso sem rua de palavras.
A nova que se renova,
mas não mostra a outra face.
No chão,
vejo-a nua na distância
do seu véu de luz usual.
A noite ofega
e a lua nega-se cheia, sem ânsia.
O mar, com tanto isco,
mareia sem moliços no papel.
As estrelas, já orvalhadas,
dançam na rua feia sem nada.
Corro o risco, mas arrisco,
risco estes versos na areia
(Jaime, 19 Julho 2018)
                                                                         (Chica,  blogue "Fincando raízes...", 12 Agosto 2019)

UMA PLANTA, FRÁGIL QUE SEJA
Uma planta, frágil que seja,
move-se,
agita-se,
retorce-se e pode até perder folhas e ramos,
mas aproveita acção do vento
para afundar as raízes no solo
e ganhar mais equilíbrio,
enfrentando-o sempre mais forte.

Cambaleias e dobras-te
no vendaval dos lençóis escuros da insónia,
com o sabor adormecido na boca em desejo,
e maldizes os cardos que o teu corpo
teima em abrir na solidão do teu peito.
Magoas-te desgrenhada no sonho
à procura do equilíbrio,
mas cresces.

Enquanto isso acontece,
nada mais devo fazer que fabricar prateleiras
para que organizes
a tua lucidez e os teus gestos.
(Jaime, 14 Junho 2018)

Se não os conhece (duvido!), espreite os blogues:

Agora, peço que atentem no magnífico poema meu (!) feito com títulos de nove poemas do Jaime, publicados em 2015 e 2016.

Os poemas podem ser
O eco do silêncio
A seiva que nos percorre
O oposto do sol-posto
Madrugadas de pétalas marinhas
Um beijo sonante
Dança de pássaros
Cravos vermelhos
(Um) Rio sem margens

Hum, talvez lhe falte um bom título! 
(Não te zangues, poeta!)

Obrigada, amigos!

03 março, 2020

Palavras sublinhadas: Rosa Montero


"Não há  mudez mais absoluta que a dos corpos nus que não são capazes de comunicar. (...) Ah, o triste silêncio dos corpos fartos de se verem. Dos corpos que se ignoram por completo."



Rosa Montero, escritora espanhola (1951-), in “Instruções para salvar o mundo”, Porto Ed., 2008


(foto da net)

28 fevereiro, 2020

Curiosidades "Rol de leituras" - os 5 livros mais "espreitados"

"O homem que não lê bons livros não tem nenhuma vantagem sobre o homem que não sabe ler."
(Mark Twain)

Durante os nove anos de existência do "Rol de Leituras" foram muitos os livros que li (ou reli) e aqui postei. A estratégia usada para convencer alguém a lê-los foi: texto simples mas convincente, não desvendar toda a trama, não abusar das citações.
onsegui? Não sei, mas tentei!
Estes são os 5 livros mais visualizados:

1º "A História do senhor Sommer", de Patrick Süskind
«No tempo em que eu ainda trepava às árvores – há muitos, muitos anos, há dezenas de anos atrás, media apenas pouco mais de um metro, calçava o número vinte e oito e era tão leve que podia voar – não, não estou a mentir, naquele tempo eu podia de facto voar – ou pelo menos quase...»
Um livrinho encantatório que entre-cruza histórias de um rapazinho (o narrador) com histórias do senhor Sommer, o estranho que chegou à aldeia pouco depois da guerra.
Pouco ou nada se sabe sobre o senhor Sommer, mas todos o conhecem, pois é visto a caminhar apressadamente por montes e vales, estradas, bosques, de aldeia em aldeia, do nascer do dia ao pôr do sol, todos os dias do ano. Caminha apoiado num cajado e nas costas transporta uma mochila com o lanche e uma capa de borracha com capuz, que usa quando a chuva o surpreende. Quando alguém lhe dirige a palavra limita-se a abanar a cabeça, mal humorado. Ao rapazinho parece que ele move os lábios, como se falasse para si próprio, enquanto caminha...  (Ler mais...)

2º "Homem Invisível", de Ralph Ellison
«(...) sou um homem invisível!!. E, contudo, não sou nenhuma aberração da natureza nem da história. Não me envergonho de os meus avós terem sido escravos. Só me envergonho de mim próprio por em certa altura me ter envergonhado.»
“Invisível para os brancos racistas, para os brancos emancipados, e para os próprios negros radicais, o protagonista desta obra deseja apenas ser como é. E não como realmente acontece, ou seja, um “homem invisível”, já que realmente todos vêem o que o rodeia e não a ele próprio.
Homem Invisível revela a dor da existência do homem negro num mundo branco."  (Ler mais...)

(Sobre este livro recebi já várias mensagens pedindo mais informação sobre a trama e indicação das livrarias onde se vende. Já houve até quem quisesse adquirir o meu exemplar.)

3º "O Retorno", de Dulce Cardoso
«Descemos as escadas do avião e a minha irmã disse, estamos na metrópole. (...) Foi esquisito pisar na metrópole, era como se estivéssemos a entrar no mapa que estava pendurado na sala de aula.»
Corria o ano de 1975, Portugal vivia em pleno processo revolucionário e assistia ao ruir do império.
Em poucos meses, mais de meio milhão de portugueses foi forçado a abandonar as colónias e a regressar à metrópole. Eram os “retornados”.
Este fantástico romance é o relato emocionado do retorno à metrópole de uma família que vive em Luanda, onde o pai tem um negócio de transportes. O pai que “foi para África para fintar a pobreza”. O pai que “sempre tratou bem dos pretos”.  (Ler mais…)

4º "Contos Escolhidos", de Guy de Maupassant
«Haverá na mulher sentimento mais vivo que a curiosidade (…) quando a sua curiosidade impaciente desperta, será capaz de cometer todas as loucuras, todas as imprudências, todas as audácias, não recuará diante de nada.» (“Uma aventura parisiense”)
Um livro extraordinário com 42 contos, que o poeta português Pedro Tamen selecionou (de entre mais de trezentos), traduziu e organizou em três grupos:
Contos mundanos, amorosos, eróticos e galantes (24)
Contos inquietantes, de horror e de mistério (9)
Contos exemplares (9)
Um clássico intemporal , uma prosa leve, surpreendente e hilariante.  (Ler mais…)

5º "Olhos Azuis, Cabelo Preto", de Marguerite Duras
«Uma noite, ele descobre que ela o olha através da seda preta. Que ela olha com os olhos fechados. Que ela olha sem olhar.»
Este é um livro pequenino apenas no número de páginas (96). O conteúdo é enorme e misterioso: a história de amor de dois amantes perdidos.
O enredo é a paixão desesperada de dois desconhecidos - o homem elegante e a mulher esbelta – por um estrangeiro de olhos azuis e cabelo preto, que viram no átrio de um hotel perto do mar.
(Ler mais...)


Que livros/autores visualizaria eu no Rol, se eu não fosse eu?
Não posso dizer mas... a verdade verdadeira é que chegaria até eles por outros caminhos e atalhos.
LEIAM!

21 fevereiro, 2020

Poemas & Poetas: Eugénio de Andrade


PROCURO-TE
Procuro a ternura súbita, 
os olhos ou o sol por nascer
do tamanho do mundo, 
o sangue que nenhuma espada viu,
o ar onde a respiração é doce,
um pássaro no bosque
com a forma de um grito de alegria.

Oh, carícia da terra,
a juventude suspensa,
a fugidia voz da água entre o azul
do prado e de um corpo estendido.
Procuro-te: fruto ou nuvem ou música.
Chamo por ti, e o teu nome ilumina
as coisas mais simples:
o pão e a água,
a cama e a mesa, 
os pequenos e dóceis animais,
onde também quero que chegue
o meu canto e a manhã de maio.

Um pássaro e um navio são a mesma coisa
quando te procuro de rosto cravado de luz.
Eu sei que há diferenças,
mas não quando se ama,
não quando apertamos ao peito
uma flor ávida de orvalho.
Ter só dedos e dentes é muito triste:
dedos para amortalhar crianças,
dentes para roer a solidão,
enquanto o verão pinta de azul o céu
e o mar é devassado pelas estrelas.

Porém, eu procuro-te.
Antes que a morte se aproxime, procuro-te.
Nas ruas, nos barcos, na cama,
com amor, com ódio, ao sol, à chuva,
de noite, de dia, triste, alegre - procuro-te.


Eugénio de Andrade (pseudónimo de José Fontinhas), poeta, prosador e tradutor,  nasceu na Póvoa da Atalaia, concelho do Fundão, Portugal, a 19 de Janeiro de 1923.
Estreia-se em 1939 com a obra "Narciso", torna-se conhecido em 1942 com o livro de poemas "Adolescente", afirma-se definitivamente com a colectânea "As Mãos e os Frutos" (1948).
"Marginal a grupos ou movimentos, a sua obra traduz com sobriedade os momentos de plenitude que ocorreram na vida, sejam eles de sensualidade ou de dor, sem inibições nem camuflagem, numa sinceridade contida por uma elegante reserva." Considerado um dos grandes poetas portugueses contemporâneos, tem poemas seus traduzidos em vários línguas.
Faleceu no Porto, a 13 de Junho de 2005.

"Entre lábios e lábios não sabia
se cantava ou nevava ou ardia."
(Eugénio de Andrade)

(fotos da net)

14 fevereiro, 2020

"Uma beleza que nos pertence" - José Tolentino Mendonça


Porque hoje é dia de de São Valentim, dia de celebração do amor, decidi partilhar seis pequenos textos sobre o Amor de José Tolentino Mendonça, seleccionados neste que é há dias o meu livro de cabeceira.  
Trata-se de uma compilação de textos breves (aforismos) sobre 60 temas (palavrinhas), retirados de obras de JTM publicadas no período  de 2004 a 2018 (obras essas enumeradas em «Nota do editor», no fim do livro).
No fim do livro surge ainda o índice temático ordenado alfabeticamente, e os índices onomásticos de «personagens bíblicas» e de «autores e santos» referidos ou citados na obra.
Porque gosto de palavras e frases inspiradoras e gosto (muito) de as partilhar, é certo e sabido que este livro encantador irá saltar mais vezes da minha mesa de cabeceira para o Rol. 
Compre para si, ofereça, leia-o sozinho ou acompanhado, hoje, amanhã, todos os dias!
"O amor é mais uma exposição do que uma posse; é mais uma súplica do que um dado; é mais uma sede do que uma barragem; é mais uma conversa de mendigos do que um diálogo de triunfadores."

"Não gostamos, não amamos. E somos infelizes."

"Amar é dar o nosso amor ao outro sem controlar aquilo que o outro pode fazer com o nosso amor."
"O que nos salva não é uma negociação. O que nos salva é um excesso de amor, uma dádiva que vai para lá de todas as medidas. É essa a bem-aventurança que nos salva. É esse assombro de amor que nos relança. Não é um acordo, um pacto. Isso é para os negócios."

"No amor, dizemos uns aos outros: «Guardar o teu segredo é o meu segredo.»

"Respirar, viver, não é apenas agarrar e libertar o ar mecanicamente: é existir com, é viver em estado de amor."


Agora... vou namorar!
Namorem também. Muito!!!

Uma beleza que nos pertence, de José Tolentino Mendonça
Quetzal Ed., 2019
213 págs.

((corações... da net)

07 fevereiro, 2020

Memórias recuperadas: moda e fotografia!

                                                                           (blusa estampada, 1990)

"Não pense muito nas tendências. Não deixe que a moda a possua, mas decida o que você é e o que prentende expressar através da maneira como se veste e da maneira como vive a sua vida."
Gianni Versace, designer de moda italiano (1946-1997)

Se dúvidas eu tivesse, estas fotografias (e muitas outras) de «euzinha», tiradas nos anos noventa e esquecidas numa caixa de cartão no fundo de um armário, comprovam que foi no estilo marcante da década de noventa que se inspiraram os criadores da moda actual.
Foi um encantamento encontrar-me com elas e comigo, pois então! Recordei o instante exacto de cada disparo da máquina fotográfica, quando foram tiradas, onde foram tiradas, quem as tirou. Recordei, deliciada, instantes da minha vida pessoal e profissional (que marcas boas deixou em mim aquele mês de trabalho na Guiné-Bissau...).
Fotografias são uma prova de vida. E estas são sim fragmentos da minha vida, livres de quaisquer efeitos da passagem do tempo.
Sem pingo de nostalgia, mas com uma certa tristeza (confesso), por momentos quedei-me hirta pensando no quanto mudei, momentos apenas, pois logo gritei (a sério que gritei): VIVA! Continuo viva, saudável, fiel aos meus valores, e feliz!  (continuei gritando...) E não sou,  nem nunca fui, fanática por moda!
(Vá, a memória  já me prega algumas partidas, natural, não?!)
Pois então, foi para «memória futura» que decidi digitalizar estas fotografias (poderiam ser tantas outras) e «estampá-las» aqui no Rol. Talvez me inspirem a perder pelo menos metade dos quilos que ganhei. As rugas não me incomodam, são páginas do meu livro de vida, lembranças doces ou amargas, marcas do tempo, e o tempo é precioso!
Uma das fotografias é prova de uma lembrança doce e amarga: a doce celebração do meu 40º aniversário; a amarga ausência do maridão, longe, muito longe. A trabalhar, claro!
E, sem falha de memória, garanto que naquele exacto dia eu pesava: 51 quilos. Saudades daquele peso? Nunca, jamais, saudades eu só tenho dos que amo e do tempo que  não vivi intensamente.
Olhar fotografias antigas é gostoso demais. Verdade!
         
  (saia estampada, blusa cavada, 1990 / casaquinho estampado, 1990)
                                
(calça legging, 1990)

(calça legging, 1991 / saia de malha plissada, 1991)

(blazer com enchumaços, 1992 / saia calção, 1992)

(vestido abotoado à frente, 1993)

(vestido lycra, 1994 / casacão xadrez, 1995)

(calções compridos com cintura subida, 1995)

(macacão, 1997)

Deixei esta fotografia para o fim e propositadamente desfoquei-a um pouco. Eu, com o Carlos, algures no centro de Moçambique, no distante 1991
Reparem no que tenho ao ombro. Sim, sim, é uma confortável e prática mochila, em pele muito macia, recordo. Levava dentro tudo e mais alguma coisa!
Pois não é que as mochilas voltaram a ser «moda» e conquistam espaço com uma infinidade de cores e modelos?
Confesso, não acho piada nenhuma às mochilas pequeninas e, pior, cobertas de tachas.
(fotos da net)

Agora anote: os calções, mais compridos e amplos, em tons neutros ou estampados, cintura subida, com pregas, bolsos, folhos ou aplicações, vão estar em alta na primavera/verão 2020.  E as mochilas vão continuar «na berra», pois então!

(mochila às costa, Canadá, 1999)

Fui muito feliz nos anos noventa!


"A melhor coisa sobre  uma fotografia é que ela não muda mesmo quando as pessoas mudam."
Handy Warhol, pintor e cineasta americano (1928-1987)

04 fevereiro, 2020

Palavras sublinhadas - Julian Barnes


"À medida que envelhecemos, o coração deixa cair as folhas como uma árvore. Nada resiste contra certos ventos. Cada dia arranca umas folhas mais; e depois há as tempestades, que de uma só vez partem vários ramos. E enquanto o verde da natureza cresce na primavera seguinte, o do coração não volta a crescer."


JULIAN BARNES, escritor inglês (1946-), in “O papagaio de Flaubert”, Ed. Quetzal, 2019




Queridas amigas(os), a minha filhota apareceu para passar connosco poucos, pouquíssimos dias: chegou domingo, regressa a Inglaterra já na quinta-feira.
Eu regressarei ao vosso convívio logo no dia seguinte.
O meu coração de mãe palpita de amor, alegria, emoção.
Beijos e abraços.
(fotos da net)

31 janeiro, 2020

"Nascemos frágeis e recebemos ordens para sermos fortes" - João Carlos Melo

Uma pessoa pode descrever-se, ou ser descrita, em função de uma série de atributos; (…)  Mas quem é ela, a sua essência, o que a faz única e a distingue de todas as outras...
Em "Nascemos Frágeis e Recebemos Ordens para Sermos Fortes: Um olhar sobre o narcisismo e a autoestima" o médico psiquiatra João Carlos Melo "oferece-nos um olhar esclarecedor, lúcido e descomplexado sobre a autoestima, da sua manifestação saudável ao excesso do amor-próprio, da vaidade à confiança plena,  das nossas origens de mamífero cooperante à sociedade sofisticada e digital dos dias de hoje". É, nas palavras de António Coimbra de Matos, autor do prefácio «um vigoroso ensaio em busca do entendimento do amor-próprio: seu significado, função e valor (…) uma «obra de pensamento pensante – e não depósito de pensamentos já pensados».
Como é que o olhar do outro nos forma…
O narcisismo é o tema fulcral do livro. Para o autor, o mito de Narciso, que narra a paixão do jovem Narciso por si próprio e foi escrito pelo poeta romano Ovídio, «ilustra um aspeto (...) fundamental da condição humana (…) porque há uma dimensão da sua natureza que é comum a toda a Humanidade, a dimensão narcísica do funcionamento mental». 
A angústia narcísica é o medo de morte de ser ridicularizado, humilhado, alvo de riso ou troça e de ser insignificante.
"(…) o funcionamento narcísico consiste na acção de um conjunto de mecanismos que regulam a autoestima. Esses mecanismos são gerados de forma geralmente automática quando a autoestima é baixa e sempre que ela é atingida.
Numa pessoa que tenha uma boa autoestima, tais mecanismos atuam de forma harmoniosa. Nesse caso, o seu funcionamento narcísico é mais saudável.
Naquelas em que a autoestima é baixa ou sofre ataques que a debilitem, os mecanismos que entram em acção para a restaurar ou para restabelecer o equilíbrio perdido são mais intensos. Nesse caso, o seu funcionamento narcísico é mais patológico."
A baixa autoestima é apenas a parte mais superficial da fragilidade narcísica.
"Há palavras que ferem. A forma como se dizem certas palavras fere. O riso de troça fere muito, e ainda mais quando são os pais a fazê-lo.(...) 
O que impele certas pessoas a atacar e ferir os outros? (…) na verdade, não são os outros, são apenas alguns outros – os mais frágeis e indefesos.
Embora não saibam, estas pessoas atacam-nos para salvaguardar a própria autoestima. Têm de sentir-se superiores aos outros para manterem a ilusão da sua importância. Têm de rebaixá-los. A sua autoestima alimenta-se disso. Se não tivessem outros a quem atacar, dificilmente a sua precária autoestima se manteria à tona de água."
Quem somos, para nós próprios e para os outros…
«Somos corpo e mente, material e imaterial, físico e psíquico. Somos essa dualidade, mas somos, ao mesmo tempo, um todo indivisível.»

Este livro interroga-se e interroga-nos. 
Há que ler... para aprender!

Nascemos frágeis e recebemos ordens para sermos fortes, de João Carlos Melo
Bertrand Editora, 2019
231 págs.

24 janeiro, 2020

Espaço dos amigos (1): poemas da Graça, olhares da Gracinha!

Graça e Gracinha são duas amigas da blogosfera que eu admiro muito.
A Graça, pela sensibilidade poética e beleza dos versos que falam de amor, solidão, mar, pássaros, casas, lugares da infância, das «coisas da vida», como ela diz.
A Gracinha, pelo perspicaz olhar fotográfico, garra de viajante incansável, generosa partilha de momentos seus. Com ela já «olhei» lugares belíssimos de Portugal, e elaborei roteiros para próximos passeios meus.

(Gracinha, 11 Dezembro 2019 )

Foram embora os pássaros.
Foram embora,
procurando um tempo
onde a luz deflagre em suas asas.
O seu inevitável regresso 
há-de acompanhar
a rotação dos ventos.
E quando, nos seus ombros, 
nenhum excesso de solidão
me mutilar os braços,
eles hão-de chegar, de novo,
como um incêndio.
Os pássaros.
(In "Uma extensa mancha de sonhos", 2008)

(Gracinha,  24 Novembro 2019 )

Gosto de objectos geométricos desenhados
a compasso por mãos intransigentes.
A multiplicidade dos traços povoa
e despovoa a beleza dos lugares
que nos pendem como se fôssemos árvores.
Preciso e exacto será o momento
 em que regressaremos ao silêncio
com passos de cinza.
Calados nos hão-de vigiar os deuses e os homens.
(In "O silêncio: Lugar habitado", 2008)

(Gracinha,  31 Outubro 2018)

Desenrola-se em nossos olhos
a vertigem transparente
que agride o declínio do dia
quando a lua se encosta nos vidros
e temos o nevoeiro da espera colado nos sonhos.
Há muito que sabemos como é intocável a luz
do orvalho na raiz da mágoa.
Palavras em estilhaços flutuam sobre os móveis
como fantasmas ou como as fadas
da mais antiga infância.
Respiramos devagar o sopro errante do vento.
(In "A incidência da luz", 2011)

A escolha dos poemas e olhares para esta publicação não foi tarefa fácil: todos os poemas da Graça merecem destaque; as centenas de fotos da Gracinha também.
Para quem ainda não as conhece, deixo aqui os seus cativantes blogues:
Graça - http://ortografiadoolhar.blogspot.com/
Gracinha - https://crocheteandomomentos.blogspot.com/

"O fotógrafo tem a mesma missão do poeta: eternizar o momento que passa."
Mário Quintana, poeta brasileiro (1906-1004).

Obrigada, amigas!

17 janeiro, 2020

"O papagaio de Flaubert" - Julian Barnes


O artista deve conseguir fazer a posteridade acreditar que nunca existiu. (Flaubert)
O papagaio de Flaubert”, publicado originalmente em 1984, foi o primeiro grande sucesso literário de Julian Barnes, escritor inglês vencedor do Man Booker Prize 2011, pelo romance “O sentido do fim”.
Reeditado pela Quetzal há dois meses, foi a minha última leitura de 2019. E, porque aprendi muito sobre Gustave Flaubert (1821-1880), autor de “Madame Bovary” (por muitos considerado «o romance dos romances») e me diverti com o palavreado desempoeirado do narrador protagonista (a voz do escritor), escolhi-o para primeira postagem sobre livros, de 2020.
Trata-se de um romance fascinante sobre literatura, escritores, crítica literária¸ arte, talento, ficção e realidade; sobre política, morte, amor, amizade, ciúme, adultério, dedicação, solidão, loucura, família; sobre vestidos de mulher, beleza, estilo, compotas de groselha, comboios, animais, e muito, muito mais.
Vou ser um rei, ou apenas um porco? (Flaubert)
Geoffrey Braithwaite (narrador protagonista) - médico inglês reformado, viúvo recente -, viaja para a terra natal de Gustave Flaubert com a intenção de ver o papagaio embalsamado que o romancista manteve na sua mesa de trabalho enquanto escrevia “Um Coeur Simple”, e que serviu de modelo para Lulu, o papagaio de Félicité, a personagem principal do conto. «Félicité + Lulu = Flaubert?»
Após a viagem, Braithwaite (biógrafo amador) atenua a solidão recolhendo dados sobre a vida, obra e época de Flaubert, seus desfeitos, manias, tiques, segredos, vaidades e medos. Assim preenche as horas de solidão. «Os livros não são a vida, por mais que gostássemos que fosse.»
Atraio os loucos e os animais. (Flaubert)
O resultado é este ensaio/biografia/romance genial sobre Gustave Flaubert. Uma mistura encantadora de realidade com ficção. Duas histórias de vida: do biografado e do biógrafo. Duas histórias de amor: entre Flaubert e Louise Colet; entre Braithwaite e a mulher Ellen. Um repositório fantástico de citações de Flaubert, de outros escritores e pensadores. Uma narrativa alucinante e confusa, mas ao mesmo tempo harmoniosa, feita de histórias desconexas (parecem), humor e sátira, que me manteve interessada  e divertida da primeira à última página.
Este é um livro incomum, impossível de resumir. Um livro sedutor que terminei  de ler e logo me apeteceu reler.
“Um entretenimento literário levado a cabo com muito brio”, (The New York Times Book Review).

Levar a vida a sério será magnífico ou estúpido? (Flaubert)

(“Flaubert ensina-nos a olhar para a verdade e a não temer as suas consequência; ensina-nos, como Montaigne, a dormir na almofada da dúvida; ensina-nos a não nos aproximarmos de um livro em busca de pílulas morais ou sociais; ensina a superioridade da Verdade, da Beleza, do Sentimento e do Estilo. E, se estudarmos a sua vida privada, ensina a coragem, o estoicismo, a amizade; a importância da inteligência, do ceticismo e da imaginação; a palermice do patriotismo barato; a virtude de ser capaz de ficar sozinho no quarto; o ódio à hipocrisia; a desconfiança nas teorias; a necessidade de falar com simplicidade.”) 

Recomendo, claro!
(Agora... vou reler "Madame Bovary".)

"O papagaio de Flaubert", de Julian Barnes
Tradução de Ana Maria Amador
Quetzal Editores, 2019
247 págs.