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23 dezembro, 2015

Vale a pena ler... Valter Hugo Mãe

“A nossa imprensa está a estreitar-se. Fico a pensar que estreitamos o pensamento,estreitamos o país.
Recebemos cada vez mais as grandes matérias em traduções do que se pesquisa em outras latitudes, a dimensão portuguesa, ou o modo como Portugal vê o mundo, caminha tragicamente para um circuito que se fecha num universo mais e mais académico.
Talvez o pais se torne algo cada vez mais teórico, uma questão progressivamente do foro da discussão filosófica e menos aferível no quotidiano de cada um. Subitamente, vivemos territorializados, medidos como consumidores e pagadores de impostos, mas não como um colectivo detentor de uma qualquer identidade.
Viver assim é, de certo modo, estar ao desabrigo. Perigando as forças e mantendo ao nível da sobrevivência os objectivos. O problema é que a humanidade começa um pouquinho depois da fome. Até à fome somos bichos como outros quaisquer."

Excerto da crónica “Desabrigo”, publicada na “2”, revista do jornal Público de 20 Dezembro 2015.
Vale a pena ler na íntegra.

08 setembro, 2015

Vale a pena ler... Valter Hugo Mãe


O senhor Emílio

"A vida é uma originalidade. Por mais planos que façamos, estaremos, subitamente, num ponto mudado, até irreconhecível. Seremos constantemente confrontados com a necessidade de dar provas, a começar perante nós mesmos, acerca da manutenção da dignidade e da boa vontade. Quando as coisas mudam, vemo-nos desamparadamente novos, vagos na identidade, porque afinal as convicções eternas morrem. Tendemos a ver demasiado o presente como se fosse tudo. Mas o presente a todo o tempo morre também. Nós somos sobretudo o ímpeto entre isto e outra coisa."


Excerto da crónica de Valter Hugo Mãe, publicada na “2”, revista do jornal Público de 30 Agosto 2015.
Vale a pena ler na íntegra.

31 março, 2015

Vale a pena ler... Valter Hugo Mãe

Cuidar dos pais

A minha mãe é a minha filha. Preciso de lhe dizer que chega de bolo de chocolate, chega de café ou de andar à pressa. Vai engordar, vai ficar eléctrica, vai começar a doer-lhe a perna esquerda.

Cuido dos seus mimos. Gosto de lhe oferecer uma carteira nova e presto muita atenção aos lenços bonitos que ela deita ao pescoço e lhe dão um ar floral, vivo, uma espécie de elemento líquido que lhe refresca a idade. Escolho apenas cores claras, vivas. Zango-me com as moças das lojas que discursam acerca do adequado para a idade. Recuso essas convenções que enlutam os mais velhos. A minha mãe, que é a minha filha, fica bem de branco, vermelho, gosto de a ver de amarelo-torrado, um azul de céu ou verde. Algumas lojas conhecem-me. Mostram-me as novidades. Encontro pessoas que sentem uma alegria bonita em me ajudar. Aniversários ou Natal, a Primavera ou só um fim-de-semana fora, servem para que me lembre de trazer um presente. Pais e filhos são perfeitos para presentes. Eu daria todos os melhores presentes à minha mãe.

Excerto da crónica de Valter Hugo Mãe, publicada na revista 2, do jornal Público de 29 Março 2015.
Vale a pena ler na íntegra.

(Pintura de Afonso Pinhão Ferreira - foto tirada da net)

31 dezembro, 2013

2013 está a terminar... viva 2014!

 UM EXCELENTE 2014 PARA TODOS

Os dias são longos, mas os anos são curtos... diz Gretchen Rubin, em "Projecto felicidade".
Eu, infelizmente (ou felizmente?!), tenho de concordar.
Teresa, isso assusta-te?
NÃO! SIM!
Bem, o melhor é brindares à chegada de mais um ano, e pedir que traga, paz, saúde, amor e… muitos livros.
 
A vida foge-nos... diz Saul Bellow, em “Ravelstein”.
Eu, infelizmente (ou felizmente?!), tenho de concordar.
Teresa, continuas assustada?
NÃO! SIM!
Bem, tem calma. Agora que já brindáste e fizeste o teu pedido para 2014, vamos ambos...
 
Pendurar um poema e atravessar com ele a noite inteira sem sequer nos darmos conta de que se fez noite... como diz Valter Hugo Mãe, em "A Desumanização".
Hum! Parece-me bem. 
Gostei de falar contigo, senso comum.
(Será que ando a ler demasiadas histórias de Saramago?!)

13 dezembro, 2013

"A Desumanização" - Valter Hugo Mãe

… o planeta é feminino e apenas por ser assim se mantém em ordem.
Esta é a história de Halla, uma menina diferente, que cresceu demasiado depressa, e transporta dentro dela toda a dor do mundo.
Uma história assombrosa, dura e perturbadora, sobre o amor, a família, o sofrimento, a solidão, a morte. Uma história também sobre livros – as pessoas que não leem apagam-se do mapa de deus, sobre poesia, sobre a cultura islandesa.
Halla vive numa aldeia nos fiordes islandeses, um lugar desumanizado, onde se queimam páginas arrancadas a livros para sobreviver ao frio.
Aos onze anos, apareceram-lhe as flores de sangue e passou a ser mulher.
Aos doze anos, tudo em seu redor se dividiu por metade, com a morte de Sigridur, a irmã gémea.
Halldora, a menos morta, tem de lidar com tamanha dor e, ainda, com a doença da mãe, que antes tocava piano e agora despedaça animais e corta os braços com lâminas por não ter sabido salvar uma filha, e com a tristeza do pai, pescador, pensador e fantasioso, que escreve poemas para descobrir aquilo que não sabe.
É deitada sobre a campa da irmã que encontra conforto. É nos braços de Einar, o tolo da aldeia, que encontra carinho.
Halla fica grávida sem maldade, numa idade criminosa para a maternidade, mas.. um dia cai da cama, a barriga “estala” e o filho morto é atirado para a boca de deus.
Aos treze anos, sai de casa dos pais e vai viver com Einar para a igreja da aldeia. Ele, tolo e apaixonado, diz que juntos encontrarão a felicidade. Ela, sente apenas compaixão e tristeza. Aprenderá a amá-lo.
 
Esta é a primeira parte da história. Propositadamente não “falei” de outras personagens da trama.
Propositadamente, também, não vou “falar” sobre a segunda parte da história. Há por lá segredos, e segredos não são para desvendar.
Estive para abandonar a leitura deste romance, logo nas primeiras páginas. Disso dei conta no meu rol.
Ainda bem que não o fiz, pois acabei por gostar de ouvir a voz desta menina, parecida com uma mulher, que “encontrei” nos fiordes islandeses, para onde me levou VHM e o seu grande amor pela Islândia.
Quando for grande, quero ser de outra maneira. Quero ser longe.
Maravilha!
 
A desumanização, de Valter Hugo Mãe
Porto Editora, 2013
238 págs.

12 novembro, 2013

"Encalhei" na pág. 51 do último romance de Valter Hugo Mãe

Escreve Valter Hugo Mãe, na página 37 do seu romance:
Descobrir o nome e o significado de deus não compete a ninguém.
Eu sei isso... e não peço tanto... peço apenas a ajuda de quem já leu o romance, para :
 
- compreender o significado de tudo o que li / vi (já nem sei) até à página 50;
 
- avançar para além do assustador primeiro parágrafo da página 51, onde encalhei: Por vezes, a minha mãe sangrava nos pratos.
 
- não me desapontar com parágrafos que já espreitei mais à frente, como este, por exemplo: Tu podes chegar à morte com tanta facilidade. Cada passo é um perigo na nossa vida. Se não te acautelares, morres de distraída.
 
- ler tudo, mesmo tudo,  para poder entender o último parágrafo: Quem não sabe perdoar , só sabe coisas pequenas.
 
Vai ser difícil perdoar-te, Valter Hugo Mãe.
Só com muitas ajudas...

16 março, 2012

"o remorso de baltazar serapião" - valter hugo mãe

disse à minha ermesinda que se estendesse nua na cama. que eu a queria ver à luz da vela, muito próxima de cada pedaço da sua pele.
depois, ela perguntou se teria de ganhar barriga por cada vez que eu a conhecesse. e eu sorri com a sua burrice, e até a amei mais ainda, por corresponder perfeita à estupidez que se espera numa mulher.
Neste romance, baltazar serapião, narrador e protagonista, conta a história da sua família - os sargas. Não eram os serapião, nome de família, eram os sargas, nome da vaca, magra, feia, tonta da cabeça que vivia com eles e lhes arrebatara o próprio nome.
É uma história feita de ignorância, medo, tristeza e vergonha: éramos os sargas nascidos de bichos e que nos matávamos uns aos outros como bestas.
Uma história de exploração, humilhação, brutalidade e muita violência física e sexual: exploração dos homens por dom afonso de castro o senhor feudal; brutalidade e violência física e sexual cometida pelos homens contra as mulheres.
E, sem dúvida, uma história de mulheres. Mulheres submissas, anuladas, caladas, tristes, infelizes.
uma mulher é ser de pouca fala, como se quer, parideira e calada.
a mãe, velha, quase cega, sofredora, estropiada pelo marido, que com as mãos lhe remexia as entranhas "convicto de que, se coisa ficara ali ou ali crescia, haveria de a enganchar numa unha e trazê-la cá para fora".
brunilde, a irmã que aos onze anos vai trabalhar para casa de dom afonso, e morre depois do senhor “lhe ter feito barriga”.
ermesinda, a mulher de serapião, “o anjo mais belo”, que ele estropia sem dó, atormentado por ciúmes.
teresa diaba, viciada em homens, que “se abria como lençóis estendidos e recebia um homem com valentia sem queixa nem esmorecimento”.
a mulher queimada, a bruxa enviada do diabo que “em desespero de fomes ou saudades, vinha às portas da terra com fúria e urgência em demasia” e que disse um dia a serapião: não vás ficar a julgar que dotes de mulher são só devaneios de loucas incursões. terás prova, amarás as mulheres para aprenderes a valorizá-las, e só depois te conhecerás de verdade.
Horrorizei-me com o que diz baltazar serapião sobre as mulheres, através das minúsculas de valter hugo mãe:
as mulheres só são belas porque têm parecenças com os homens, como os homens são a imagem de deus. não é heresia, pensa bem, se parecessem mais com cabras do que com homens nem natureza para nós teriam. precisam de nos parecer sem alcançar igualdade, que para isso estamos cá nós.
e mais:
e depois, beleza assim até aumentada, o que lhes tirou deus em préstimo de espírito deu-lhes em curvas e cor, servem perfeitamente para nos multiplicar e muito agradar.
e ainda mais:
mas isso da inteligência é como te disse, cuidado com o que sabem porque acham mais do que sabem.
e há mais, muito mais:
não há mãe alguma que não mereça o céu, porque, em verdade, as mães transportam o céu dentro delas, e multiplicam-no a custo, como um ofício, mesmo que dotadas de burrice grande ou estupidez perigosa.
Também eu mereço o céu…
por ter chegado ao fim de um livro desconcertante, delirante, estranho, arrepiante, escrito num português arcaico e repleto de minúsculas (descobri uma maiúscula na pág. 58 – um “D” enorme, mas não foi o suficiente para me animar), que me ofendeu, arrepiou e estarreceu.
Foi um parto difícil a escrita desta minha opinião, mas não tanto como o medonho parto de brunilde, descrito na pág. 220 deste livro.
Senhor valter hugo mãe – não havia necessidade…

o remorso de baltazar serapião, de valter hugo mãe
Alfaguara, 2011
256 págs.

26 fevereiro, 2012

socorro! estou cativa de um livro de minúsculas

Não sei como dizer, mas estou mesmo presa nas minúsculas d’ o remorso de baltazar serapião, de valter hugo mãe.
Quando iniciei a leitura do livro estranhei a selva de minúsculas, mas rapidamente entrei no ritmo da história e ignorei-as sem quaisquer problemas. Tal como a leitura de Saramago, primeiro estranha-se e depois entranha-se.
De enfiada li até à página 100, entusiasmada com a trama e completamente ambientada às letrinhas pequeninas.
Acontece que...
Uma gripe viral de “arromba” me prostrou durante uma semana, paralisada por dores terríveis em todo o corpo, particularmente na cabeça.
Agastada por tanta dor e de mãos permanentemente ocupada a assoar o nariz que pingava sem cessar, a leitura do serapião foi deixada para melhor ocasião.
Foi o mal...
Melhorzinha mas não totalmente recuperada (o virús era forte), as letrinhas pequeninas são agora mais difíceis de seguir e não consigo passar da leitura da página 101, que já repeti uma, duas, três vezes.
Resolvi, então, pedir ajuda a quem já fez esta travessia de letras pequeninas para que me indiquem o melhor método para chegar ao fim da história de serapião e de ermesinda.
Tenho para mim que valter hugo mãe pequenino, só lido de enfiada, para que as letrinhas nos baralhem uma única vez e depois consigamos levar de vencida uma escrita alucinante.
Será que é esta a fórmula mágica? Já não digo nada.
Estou cada vez mais desanimada e nem a MAIÚSCULA que, eufórica, descobri na página 58 – um D, sim um D ENORME – me consegue ajudar.
Já dizia Saramago: Este livro é um tsunami.
Socorro!

18 novembro, 2011

"O filho de mil homens" - Valter Hugo Mãe

Quem tem menos medo de sofrer, tem maiores possibilidades de ser feliz.
Com a leitura deste romance descobri Valter Hugo Mãe, portanto, não conheço a sua fase das minúsculas.
Sem saber, comecei pelo “novo ciclo na sua criação literária” e pelo primeiro de três livros que o autor irá dedicar à família e aos afectos, temas que me agradam sobremaneira.
Para ser feliz é preciso aceitar ser o que se pode, nunca deixando de acreditar que é possível estar e ser sempre melhor.
São várias as personagens - fortes e credíveis – deste quinto romance (ou história de encantar?) do autor, que buscam a felicidade.
 No centro da trama está Crisóstomo, pescador, sozinho, que “chegou aos quarenta anos e assumiu a tristeza de não ter um filho”. Um dia saiu à rua e disse a toda a gente que era um pai à procura de um filho.
Esse filho apareceu. Era um rapaz de catorze anos, “carregado de ausências e silêncios”, e chamava-se Camilo.
Camilo é filho de uma anã (gostei particularmente do capítulo dedicado a esta personagem) que morreu assim que o menino nasceu. O nome do pai é um mistério.
Isaura, uma camponesa “enganada” por um vizinho, que faz um casamento de faz-de-conta com um homem maricas, chamado Antonino.
Crisóstomo, “que ganhava amor pelas pessoas por grandeza”, apaixona-se por Isaura, “uma mulher enjeitada e diminuída”, e tem a certeza de que os dois vão ser felizes para sempre.
Antonino disse à mulher “que amasse pelos dois o pescador, que dele cuidasse como quem cuidava do importante destino do mundo”.
Depois há Matilde, a mãe que rejeita o homem maricas, Maria, a alterada mãe de Isaura, e Rosinha, a caseira de Matilde, que casa com um velho que tem uma galinha gigante.
Apesar do final feliz e da sensibilidade da escrita, este romance não me entusiasmou.
De qualquer modo, vou voltar a este autor.

O filho de mil homens, de Valter Hugo Mãe
Alfaguara, 2011
258 págs.