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06 março, 2020

Espaço dos amigos (2): um Céu sem limites, um Rio... de poemas!

Chica e Jaime,  dois amigos que encontrei na  blogosfera.
A Chica é aquela amiga que todos os dias, bem cedo, nos manda palavras perfumadas, carinhosas e motivadoras, escolhidas como flores frescas. A amiga generosa, que recorda datas importantes, participa em todos os desafios, manda mimos quando percebe que algo nos preocupa. A amiga que fotografa céus, mares, raízes, plantas... (e até férias praianas...), e escreve frases e versos encantadores. A amiga que gosta de dar destaque ao que publicam os amigos (eu já  por lá vi céus e mares meus).  Muitas vezes me interrogo: como consegue a Chica publicar tanto e dar-se tanto, a tantas amigas e amigos?
(Diz-me só a mim, querida amiga, qual é o teu segredo. Já deves ter percebido que eu a «gerir» comentários sou um zero, um zerinho!)
O amigo Jaime é mais recatado, um avô babado (é tudo o que eu sei dele), um criador poético inspirado e inspirador. Semanalmente, brinda-nos com versos ricos em ritmo e emoção, que exigem a nossa atenção e instigam a nossa imaginação. Poetiza sobre vários temas, mas é o amor o seu «amor de perdição». (Hoje, aqui, eu confesso que por mais que investigue lendo e relendo verso a verso dum mesmo poema, ainda não descobri se naquele tanto amor o poeta a si se revela...)
Uma coisa não me sai da cabeça: porque não publica ele os seus poemas em livro?
(Se preferires, oh meu amigo diz agora, só para mim, aqui que ninguém nos ouve!)


                                                            ( Chica,  blogue "Céus da Chica", 12 Fevereiro 2020)

"Brilhos que nos chegam  aos pedacinhos..." (Chica)
"Nada melhor para os olhos e coração do que o lindo mar de perto ou longe admirar!" (Chica)
"Por mais tortos e enroscados que seja nossos "galhos", sempre poderemos com eles conviver!!!" (Chica)

                                                                   (Chica,  blogue "Mares da Chica", 26 Setembro 2019 )

VERSOS NA AREIA
A noite
é uma lua diurna sem chama.
O meu rio
é um mar de estrelas sem praia.
O silêncio
é um remanso sem rua de palavras.
A nova que se renova,
mas não mostra a outra face.
No chão,
vejo-a nua na distância
do seu véu de luz usual.
A noite ofega
e a lua nega-se cheia, sem ânsia.
O mar, com tanto isco,
mareia sem moliços no papel.
As estrelas, já orvalhadas,
dançam na rua feia sem nada.
Corro o risco, mas arrisco,
risco estes versos na areia
(Jaime, 19 Julho 2018)
                                                                         (Chica,  blogue "Fincando raízes...", 12 Agosto 2019)

UMA PLANTA, FRÁGIL QUE SEJA
Uma planta, frágil que seja,
move-se,
agita-se,
retorce-se e pode até perder folhas e ramos,
mas aproveita acção do vento
para afundar as raízes no solo
e ganhar mais equilíbrio,
enfrentando-o sempre mais forte.

Cambaleias e dobras-te
no vendaval dos lençóis escuros da insónia,
com o sabor adormecido na boca em desejo,
e maldizes os cardos que o teu corpo
teima em abrir na solidão do teu peito.
Magoas-te desgrenhada no sonho
à procura do equilíbrio,
mas cresces.

Enquanto isso acontece,
nada mais devo fazer que fabricar prateleiras
para que organizes
a tua lucidez e os teus gestos.
(Jaime, 14 Junho 2018)

Se não os conhece (duvido!), espreite os blogues:

Agora, peço que atentem no magnífico poema meu (!) feito com títulos de nove poemas do Jaime, publicados em 2015 e 2016.

Os poemas podem ser
O eco do silêncio
A seiva que nos percorre
O oposto do sol-posto
Madrugadas de pétalas marinhas
Um beijo sonante
Dança de pássaros
Cravos vermelhos
(Um) Rio sem margens

Hum, talvez lhe falte um bom título! 
(Não te zangues, poeta!)

Obrigada, amigos!

21 fevereiro, 2020

Poemas & Poetas: Eugénio de Andrade


PROCURO-TE
Procuro a ternura súbita, 
os olhos ou o sol por nascer
do tamanho do mundo, 
o sangue que nenhuma espada viu,
o ar onde a respiração é doce,
um pássaro no bosque
com a forma de um grito de alegria.

Oh, carícia da terra,
a juventude suspensa,
a fugidia voz da água entre o azul
do prado e de um corpo estendido.
Procuro-te: fruto ou nuvem ou música.
Chamo por ti, e o teu nome ilumina
as coisas mais simples:
o pão e a água,
a cama e a mesa, 
os pequenos e dóceis animais,
onde também quero que chegue
o meu canto e a manhã de maio.

Um pássaro e um navio são a mesma coisa
quando te procuro de rosto cravado de luz.
Eu sei que há diferenças,
mas não quando se ama,
não quando apertamos ao peito
uma flor ávida de orvalho.
Ter só dedos e dentes é muito triste:
dedos para amortalhar crianças,
dentes para roer a solidão,
enquanto o verão pinta de azul o céu
e o mar é devassado pelas estrelas.

Porém, eu procuro-te.
Antes que a morte se aproxime, procuro-te.
Nas ruas, nos barcos, na cama,
com amor, com ódio, ao sol, à chuva,
de noite, de dia, triste, alegre - procuro-te.


Eugénio de Andrade (pseudónimo de José Fontinhas), poeta, prosador e tradutor,  nasceu na Póvoa da Atalaia, concelho do Fundão, Portugal, a 19 de Janeiro de 1923.
Estreia-se em 1939 com a obra "Narciso", torna-se conhecido em 1942 com o livro de poemas "Adolescente", afirma-se definitivamente com a colectânea "As Mãos e os Frutos" (1948).
"Marginal a grupos ou movimentos, a sua obra traduz com sobriedade os momentos de plenitude que ocorreram na vida, sejam eles de sensualidade ou de dor, sem inibições nem camuflagem, numa sinceridade contida por uma elegante reserva." Considerado um dos grandes poetas portugueses contemporâneos, tem poemas seus traduzidos em vários línguas.
Faleceu no Porto, a 13 de Junho de 2005.

"Entre lábios e lábios não sabia
se cantava ou nevava ou ardia."
(Eugénio de Andrade)

(fotos da net)

24 janeiro, 2020

Espaço dos amigos (1): poemas da Graça, olhares da Gracinha!

Graça e Gracinha são duas amigas da blogosfera que eu admiro muito.
A Graça, pela sensibilidade poética e beleza dos versos que falam de amor, solidão, mar, pássaros, casas, lugares da infância, das «coisas da vida», como ela diz.
A Gracinha, pelo perspicaz olhar fotográfico, garra de viajante incansável, generosa partilha de momentos seus. Com ela já «olhei» lugares belíssimos de Portugal, e elaborei roteiros para próximos passeios meus.

(Gracinha, 11 Dezembro 2019 )

Foram embora os pássaros.
Foram embora,
procurando um tempo
onde a luz deflagre em suas asas.
O seu inevitável regresso 
há-de acompanhar
a rotação dos ventos.
E quando, nos seus ombros, 
nenhum excesso de solidão
me mutilar os braços,
eles hão-de chegar, de novo,
como um incêndio.
Os pássaros.
(In "Uma extensa mancha de sonhos", 2008)

(Gracinha,  24 Novembro 2019 )

Gosto de objectos geométricos desenhados
a compasso por mãos intransigentes.
A multiplicidade dos traços povoa
e despovoa a beleza dos lugares
que nos pendem como se fôssemos árvores.
Preciso e exacto será o momento
 em que regressaremos ao silêncio
com passos de cinza.
Calados nos hão-de vigiar os deuses e os homens.
(In "O silêncio: Lugar habitado", 2008)

(Gracinha,  31 Outubro 2018)

Desenrola-se em nossos olhos
a vertigem transparente
que agride o declínio do dia
quando a lua se encosta nos vidros
e temos o nevoeiro da espera colado nos sonhos.
Há muito que sabemos como é intocável a luz
do orvalho na raiz da mágoa.
Palavras em estilhaços flutuam sobre os móveis
como fantasmas ou como as fadas
da mais antiga infância.
Respiramos devagar o sopro errante do vento.
(In "A incidência da luz", 2011)

A escolha dos poemas e olhares para esta publicação não foi tarefa fácil: todos os poemas da Graça merecem destaque; as centenas de fotos da Gracinha também.
Para quem ainda não as conhece, deixo aqui os seus cativantes blogues:
Graça - http://ortografiadoolhar.blogspot.com/
Gracinha - https://crocheteandomomentos.blogspot.com/

"O fotógrafo tem a mesma missão do poeta: eternizar o momento que passa."
Mário Quintana, poeta brasileiro (1906-1004).

Obrigada, amigas!

13 dezembro, 2019

Árvores e Poemas de NATAL..."up-to-date"!


NATAL UP-TO-DATE
Em vez da consoada há um baile de máscaras
Na filial do Banco erigiu-se um Presépio
Todos os pastores são jovens tecnocratas
que usarão dominó já na próxima década

Chega o rei do petróleo a fingir de Rei Mago
Chega o rei do barulho e conserva-se mudo
enquanto se não sabe ao certo o resultado
dos que vêm sondar a reacção do público

Nas palhas do curral ocultam microfones
O lajedo em redor é de pedras da lua
Rainhas de beleza hão-de-vir de helicóptero
e é provável até que se apresentem nuas

Eis que surge no céu a estrela prometida
Mas é para apontar mais um supermercado
onde se vende pão já transformado em cinza
para que o ritual seja muito mais rápido

Assim a noite passa E passa tão depressa
que a meia-noite em vós nem se demora um pouco
Só Jesus no entanto é que não comparece
Só Jesus afinal não quer nada convosco
(David Mourão-Ferreira, 1927-1996)


O ESPÍRITO DO NATAL
Ano após ano em Dezembro a
árvore artificial
deixa o encerro da cave para ser
a luz no frio. É um pinheiro da China. Quem
se deitar a fazer contas ao ágio
dessoutro negócio
(vinte e quatro mil escudos: já
lá vão nove invernos) a
coisa 
está mais ou menos por
dois contos e tal
o natal. Mau grado à sua copa (inerte
e inodora) falte
o olor a caruma dos natais da minha infância
nela escudo a floresta que ficou por abater
todo um mundo de plástico que
me sobreviverá.
(João Luis Barreto Guimarães, 1967-)


ORATÓRIA DO NATAL CÓSMICO
Natividade. Um deus rompe e sai 
sai da terra no romper da haste
seu presépio é uma flor de urânio
a vaca, tractor branco
o burro, um guindaste

carpinteiro de astronaves seu pai

reis magos em nuvem supersónica

harpas electrónicas

e o anjo que ao sol despia
o resplendor, as asas e o véu
às gentes descrentes anuncia:

- quando ele volta, livre, do cosmos
deuses morrem à míngua de céu
(Luís Veiga Leitão, 1915-1987)


Retirei os poemas do livro "NATAL... NATAIS", a Antologia de Vasco Graça Moura que reúne oito séculos de poesia  em língua portuguesa relativa ao Natal
Inclui 202 textos de 130 poetas. "Inicia-se com Afonso X, o Sábio, cujas Cantigas de Santa Maria foram escritas em galego-português no século XIII, e termina com Rui Lage e Pedro Sena-Lino, poetas que começaram a publicar em livro em 2002 e 2005."
Nesta época do ano gosto de folhear este livro. Encontro sempre pérolas poéticas encantadoras!
Como esta de José Saramago  (1922-2010), o nosso romancista distinguido com o Prémio Nobel da Literatura em 1998.

NATAL

Nem aqui, nem agora. Vã promessa
Doutro calor e nova descoberta
Se desfaz sob a hora que anoitece.
Brilham lumes no céu? Sempre brilharam.
Dessa velha ilusão desenganemos:

É dia de Natal. Nada acontece.



BOA SEMANA!

(Árvores de Natal, fotos da net.)

15 novembro, 2019

O mar de SOPHIA (1919-2019)



"A coisa mais antiga de que me lembro é dum quarto em frente do mar dentro do qual estava, poisada em cima duma mesa, uma maçã enorme e vermelha. Do brilho do mar e do vermelho da maçã erguia-se uma felicidade irrecusável, nua e inteira. Não era nada de fantástico, não era nada de imaginário: era a própria presença do real que eu descobria. (...)"


BIOGRAFIA
Tive amigos que morriam, amigos que partiam
Outros quebravam o seu rosto contra o tempo.
Odiei o que era fácil
Procurei-me na luz, no mar, no vento.

MAR SONORO
Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim,
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho,
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só para mim.

EXÍLIO
Quando a pátria que temos não a temos
Perdida por silêncio e por renúncia
Até a voz do mar se torna exílio
E a luz que nos rodeia é como grades

LUSITÂNIA
Os que avançam de frente para o mar
E nele enterram como uma aguda faca
A proa negra dos seus barcos
Vivem de pouco pão e de luar.

MAR
De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua,
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.

INSCRIÇÃO
Quando eu morrer voltarei para buscar
Os instantes que não vivi junto do mar

Sophia de Mello Breyner Andresen, um dos nomes grandes da poesia portuguesa do século XX, nasceu no Porto a 6 de Novembro de 1919, no seio de uma família aristocrática. De origem dinamarquesa por parte do pai, a sua educação decorreu num ambiente católico culturalmente privilegiado, que irá influenciar traços fundamentais da sua personalidade. Frequentou o curso de Filologia Clássica da Faculdade de Letras de Lisboa, que não chegaria a completar.
Estreou-se na poesia com o volume Poesia (1944), colectânea onde se anunciam já os grandes temas da sua obra: o mar, a casa, o amor, a claridade, a transparência. Outros volumes se seguiram. Ao "Livro Sexto (1962) foi atribuído o Grande Prémio de Poesia da Sociedade Portuguesa de Autores, 1964. Outros prémios se seguiram.
Sophia de Mello Breyner Andresen distingui-se também como contista: Contos Exemplares (1962), Histórias da Terra e do Mar (1982); autora de literatura infantil: O Rapaz de Bronze (1956), A Menina do Mar (1958), A Fada Oriana (1958), etc.; de ensaios (Cecília Meireles (1958, Poesia e Realidade (1959); artigos; teatro; traduções.
Foi a primeira mulher portuguesa a receber o mais importante galardão literário da Língua Portuguesa, o Prémio Camões, em 1999.
Faleceu no dia 2 de Julho de 2004, em Lisboa.  O seu corpo está desde 2014 no Panteão Nacional.

Texto e poemas retirados do livro "Obra Poética I, Círculo de Leitores, 1992
(Foto de Sophia  retirada da net.; restantes fotos tiradas por mim no paredão de Cascais.)

18 outubro, 2019

ELIZABETH BARRETT BROWNING - dois sonetos de (muito) amor...


COMO GOSTO DE TI? Deixa contar
Os modos. Com a altura, a extensão,
E a largueza da alma, quando vão
Seus desejos o Bem a procurar.

Amo-te simplesmente, como o ar
Que respiras. Ao sol, na escuridão.
Com a audácia de um livre coração;
Co'o pudor que a lisonja faz calar.

Amo-te co'o desejo, com a ânsia
Que na dor tive; com a fé da infância;
Com esse amor que sempre cri perder,

Perdendo os meus. Amo-te sempre: andando,
Chorando, rindo, lendo, respirando...
E hei-de amar-te melhor, quando morrer.
AMA-ME POR AMOR DO AMOR SOMENTE.
Não digas: “Amo-a pelo seu olhar,
o seu sorriso, o modo de falar
honesto e brando. Amo-a porque se sente

minh’alma em comunhão constantemente
com a sua”. Por que pode mudar
isso tudo, em si mesmo, ao perpassar
do tempo, ou para ti unicamente.

Nem me ames pelo pranto que a bondade
de tuas mãos enxuga, pois se em mim
secar, por teu conforto, esta vontade

de chorar, teu amor pode ter fim!
Ama-me por amor do amor, e assim
me hás de querer por toda a eternidade.


ELIZABETH BARRETT BROWNING (1806-1861), poetisa inglesa da época vitoriana, é autora de "Sonetos da Portuguesa" (1850), uma colectânea de 44 poemas de amor escritos entre 1844 e 1845, período que antecedeu o seu casamento, em 1846, com o poeta e dramaturgo Robert Browning (1812-1889).
"Inicialmente Elizabeth estava muito relutante em publicar os poemas, sentindo que eles eram demasiadamente pessoais. No entanto, o seu marido insistia em que eles eram a melhor sequência de sonetos em língua Inglesa desde o tempo de Shakespeare e pressionava a mulher para a sua publicação. De modo a proteger a privacidade do casal, Elizabeth achou melhor publicá-los como traduções de sonetos estrangeiros. Por esse motivo, a colecção foi primeiramente conhecida como “Sonetos Bósnios”, até que Robert sugeriu a Elizabeth que alterasse a proveniência imaginária dos sonetos do Bósnio para o Português, pois ela , para além de ser uma grande admiradora de Camões era afectuosamente tratada por Robert Browning de "Pequena Portuguesa". (Wikipédia)

Tradução de:
1º  Soneto - Manuel Correia Barros, formado em Engenharia Civil e Engenharia Electrotécnica, 10º Reitor da Universidade do Porto, escritor e tradutor português (1904-1991)
2º  Soneto - Manuel Bandeira, poeta, crítico literário e de arte, professor de literatura e tradutor brasileiro (1886-1968)

(Fotos da net.)

19 julho, 2019

Versos de Graça Pires e... «homens de Modigliani»!

Subversivamente
o instinto me descomenda.
E a magia inconsciente
do meu corpo
é um jogo clandestino
de gestos sem eco.
Há um ritual divino
nas carícias sensuais
em que me invento.
Nada me torna inocente
dos meus próprios sentidos
quando solto
as linhas marginais
do pensamento
e me seduzo
com gostos proibidos.
Sempre são excessivos os desejos de quem sonha
a vida toda num momento.
A solidão é como o vento.
É nos olhos do mendigo 
que a noite se prolonga por mais tempo.

Poema "MARGINALIDADE" (1990) de Graça Pires (blogue "Ortografia do olhar"), publicado no livro "Poemas Escolhidos -1990-2011".
Retratos pintados por Amedeo Modigliani (1884-1920):
1º Auto-retrato, 1919
2º Paul Alexandre, 1909
3º Moïse Kisling, 1915
4º Leopold Zborovski, 1918
5º Paul Guillaume, 1916
6º Chaim Soutine, 1915
7º Jean Cocteau, 1916
8º Pablo Picasso, 1915
(fotos da net)

 Amiga Graça, não te zangues comigo!
Eu continuo a preferir as tuas "mulheres de Modigliani"!

02 julho, 2019

À terça: imagens e palavras: "noite"



"Pudesse esta noite durar
não uma mas duas noites inteiras..."



Versos de Eugénio de Andrade, poeta português (1923-2005), in "Poesia e Prosa 1940-1986 - II Vol.", Ed. Círculo de Leitores, 1987
(Foto da net.)


Fui e voltei... cheia de saudades vossas!!!

21 junho, 2019

"ABAT-JOUR" - poema de Paul Géraldy

Você pergunta porque eu fico sem falar...
Porque este é o grande instante em que
existe o beijo e existe o olhar,
porque é noite... e esta noite eu gosto de você!
Chegue-se bem a mim. Eu preciso de beijos.
Ah! se você soubesse o que há, esta noite, em mim
de orgulhos, ambições, ternuras e desejos!...
Mas, não, você não sabe, e é bem melhor assim!
Abaixe um pouco mais o abat-jour! Está bem.
É na sombra que o coração fala e repousa:
tanto mais os olhos se vêem,
quanto menos se vêem as cousas...
Hoje eu amo demais para falar de amor.
Venha aqui, bem perto! Eu queria
ser hoje, seja como for,
aquele que se acaricia...
Abaixe ainda mais o abat-jour. 
Vamos ficar sem dizer nada.
Eu quero sentir bem o gosto
das suas mãos sobre o meu rosto!...
Mas quem está aí? Ah, é a criada
que traz o café... Não podia
deixar aí mesmo? Não importa!
Pode ir-se embora!... E feche a porta!...
Mas o que é mesmo que eu dizia?
Quer... agora o café? Se você preferir...
Já sei: você gosta bem quente.
Espere um pouco! Eu mesmo é que quero servir.
Está tão forte!... Assim? Mais açúcar? Somente?
Não quer então que prove por
você?... Aqui está, minha adorada...
Mas que escuro! Não se enxerga nada...
Levante um pouco esse abat-jour.

Poema de PAUL GÉRALDY, dramaturgo e poeta francês (1885-1983)
Tradução de Guilherme de Almeida, advogado, jornalista, poeta e tradutor brasileiro (1890-1969)


Comecei por escolher imagens de amantes enlaçados, beijos, carícias e desejos... e acabei por publicar abat-jours. 
"Chegue-se bem a mim" e eu digo-lhe porquê!

(Fotos da net.)

Vou ali e já volto!!!


17 maio, 2019

"Poema em linha recta" - Fernando Pessoa

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe — todos eles príncipes — na vida…
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
Versos de Álvaro de Campos, heterónimo de Fernando Pessoa (1883-1935)

(Primeiros versos de Fernando Pessoa, a quadra "À minha mãe", escrita em Julho de 1895.)

Sabia que (10):
1930 – (Fernando Pessoa  vive um) intenso período de criação heteronímica.
1931 – Escreve uma extensa carta a João Gaspar Simões na qual teoriza as suas opiniões quanto à «ficção» em literatura, manifestando um substancial e irónico desacordo em relação às teorias freudianas.
1932 – Em Setembro concorre com insucesso a um lugar de conservador-bibliotecário no Museu-Biblioteca Condes de Castro Guimarães, em Cascais.
Em Novembrp publica em «Fama», dirigida por Augusto Ferreira Gomes, o artigo O Caso Mental Português.
1933 – Atravessa outra profunda crise psicológica, mas não desiste do trabalho, nem do trabalho literário.
1934 – Publica Mensagem e concorre com este volume ao prémio «Antero de Quental» do Secretariado de Propaganda Nacional. É-lhe conferido o prémio Categoria B, por uma pretextuosa questão de número de páginas.
1935 – Em Janeiro escreve uma extensa carta a Adolfo Casais Monteiro na qual explica a génese da heteronímia. Publica no «Diário de Lisboa» (4 de Fevereiro) o artigo Associações Secretas contra uma proposta de lei apresentada à Assembleia Nacional para a abolição das sociedades secretas e na qual é visada sobretudo a Maçonaria.
No dia 29 de Novembro é internado no Hospital de S. Luís dos Franceses onde lhe é diagnosticada uma cólica hepática. A sua última frase, escrita a lápis, é em inglês. Diz: «I know not what tomorrow will bring.»
Morre no dia 30, às 20.30. É enterrado a 2 de Dezembro, no Cemitério dos Prazeres, no jazigo de sua avó, D. Dionísia Seabra Pessoa.”
("Fernando Pessoa, uma fotobiografia", de Maria José de Lancastre).

Não sabia? Eu também não!
O que importa é que agora sabemos mais sobre a vida  do poeta do desassossego. TUDO, nunca saberemos.
«I know not what tomorrow will bring.»



(Fotos da net.)

26 abril, 2019

"Lembrança"

Ponho um ramo de flores
na lembrança perfeita dos teus braços;
cheiro depois as flores
e converso contigo
sobre a nuvem que pesa no teu rosto;
dizes sinceramente
que é um desgosto.
Depois,
não sei porquê nem por que não,
essa recordação desfaz-se em fumo;
muito ao de leve foge a tua mão,
e a melodia já mudou de rumo.
Coisa esquisita é esta da lembrança!
Na maior noite,
na maior solidão,
vem a tua presença verdadeira,
e eu vejo no teu rosto o teu desgosto,
e um ramo de flores, que não existe, cheira!
Poema de Miguel Torga, pseudónimo de Adolfo Correia da Rocha, nascido a 12 de Agosto de 1907, em São Martinho de Anta, Portugal. 
Formou-se em Medicina na Universidade de Coimbra, cidade onde faleceu a 17 de Janeiro de 1995.
Considerado um dos grandes escritores portugueses contemporâneos, foi distinguido com vários prémios, nomeadamente com o Prémio Camões, em 1989.
"Lembrança"(1939) consta do livro que reúne todos os poemas do poeta: "Poesia Completa", editado em 2000 pelas Publicações Dom Quixote.
Detalhes das obras "The rose girl", "Summer", "Spring" e "Under the Cherry Tree", do pintor francês Émile Vernon (1872-1920).