… eram os donos da cidade, os que a conheciam totalmente, os que a amavam, os seus poetas.
Diz a sinopse:
Em Capitães de Areia, porventura o mais famoso romance de Jorge Amado, conta-se a vida das crianças abandonadas nas ruas da cidade de Salvador, numa das mais belas, dramáticas e líricas histórias jamais escritas no Brasil.
Fiquei curiosa e continuei a ler:
… é uma obra terrivelmente triste que repercute fundo no coração do homem livre. Dela se pode dizer o que tantas vezes se diz daqueles livros “absolutos” que os séculos não conseguem apagar da tradição cultural dos povos: existe sempre.
Não necessitei de ler o resto, abri o livro na primeira página e… não parei mais. Ou melhor, parei, mas para respirar fundo e poder controlar a comoção.
A escrita de Jorge Amado é tão surpreendente que eu “voava” das páginas do romance, para junto do grupo de meninos de rua e sofria com as dores deles. É estranho, mas é verdade.
O romance está dividido em três partes:
1ª Sob a lua, num velho trapiche abandonado
Começa com a descrição do velho trapiche (armazém) abandonado à beira-mar, muito sujo e infestado de ratos, onde os Capitães da Areia dormem e se escondem da polícia, e termina com um surto de varíola a assolar a cidade e a matar alguns meninos.
Apresenta o grupo de moleques de todas as cores, com idades entre os nove e os dezasseis anos, crianças que vivem a grande liberdade das ruas, mas também o abandono de qualquer carinho, a falta de todas as palavras boas. Eis alguns:
Pedro Bala: o líder corajoso e audaz, que há dez anos vive nas ruas da cidade que bem conhece. Ganhou numa luta a liderança do grupo ao mulato Raimundo. Dessa luta Pedro Bala ganhou uma cicatriz no rosto. A cicatriz e os caracóis loiros são a sua imagem de marca. Tem quinze anos. Nunca soube da mãe e o pai, estivador, foi morto pela polícia quando liderava uma greve.
João José (o Professor): o intelectual, o pintor, o perito no furto de livros, que lia para o grupo e empilhava num canto do trapiche. Colaborava com o líder na preparação dos assaltos.
Sem-pernas: o coxo que odiava a cidade, a vida, os homens. Amava unicamente o seu ódio, sentimento que o fazia forte e corajoso, apesar do defeito físico.
Pirulito: o mais malvado do grupo até sentir o chamamento divino. Rouba para comer, enquanto espera ser sacerdote do seu Deus. É lindo o capítulo “Deus sorri como um negrinho”, onde ele rouba o Menino dos braços da Virgem.
João Grande: o negro grande e valente respeitado por todos.
Boa-Vida: Indolente e mulherengo.
O Gato: mexe no baralho “marcado” como ninguém e ganha todas as apostas. É o galã do grupo.
Padre José Pedro: o padre mais humilde da região da Baía. O seu desejo de catequizar as crianças abandonadas levou-o até aos Capitães da Areia, de quem se tornou amigo e protector. É uma das poucas pessoas com acesso ao trapiche.
Don’Aninha: a mãe de Santo amiga do grupo e de todos os pobres da Baía. Também ela sabe onde se escondem os meninos.
Liberdade era o sentimento mais arraigado nos corações dos Capitães da Areia.
2ª Noite da grande paz, da grande paz dos teus olhos
Entra para o grupo a primeira menina, Dora, 13 anos.
Ela vagueava pela cidade com o irmãozinho de 6 anos, depois de a varíola lhe levar os pais, quando foi avistada pelo Professor e João Grande e levada para o trapiche. Os dois meninos protegem-na do grupo que quer violentá-la e de Pedro Bala que quer expulsá-la. Dora fica no trapiche e torna-se na amiga, irmã e mãezinha do grupo. Viverá com Pedro Bala uma linda história de amor, até subir ao céu como uma estrelinha brilhante.
O amor é sempre bom e doce, mesmo quando a morte está próxima.
3ª Canção da Bahia, canção da liberdade
Após a morte de Dora o grupo desintegra-se. O Professor vai estudar pintura para o Rio de Janeiro. Pirulito veste a batina de frade. Sem-pernas atira-se para o vazio, para não ser capturado pela polícia e Pedro Bala transforma os Capitães da Areia numa brigada de choque e logo a seguir abandona o grupo. A revolução comunista chama-o para ajudar a mudar o destino de todos os pobres.
A liberdade é como o sol, o bem maior do mundo.
Maravilhoso!
Maravilhoso!
Capitães da areia, de Jorge Amado
Publicações Europa-América, 1970
266 págs.

