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01 abril, 2014

Dieta 100% eficaz - verdade, ou mentira de 1 de Abril?

Um minimercado. Fila para a caixa. Diálogo entre o jovem que segura uma grande embalagem de comida para cão, e a mulher à sua frente na fila.
 
MULHER:       Tem um cão, é?
JOVEM:          Se eu tenho um cão.
MULHER:       (Sorri) Sim.
JOVEM:          Não, minha senhora.
MULHER:       Ligeiramente desconcertada) Ah.
JOVEM:          Não tenho nenhum cão.
MULHER:       Certo.
JOVEM:          Estes biscoitos são para mim.
MULHER:       Para si.
JOVEM:          Sim, minha senhora. É uma dieta.
MULHER:       Uma dieta?
JOVEM:         Sim, minha senhora. Bom. Provavelmente, eu nem sequer lhe devia contar isto. Já experimentei algumas vezes, e deixe-me dizer-lhe que resulta bastante bem. Uma pessoa não chega propriamente a comer. Dá-me a fome? Meto uns quantos biscoitos pela goela abaixo. Levo um saco deles para toda a parte. Acordo de noite? Não desço à cozinha para esvaziar o frigorífico. Tenho um pratinho destes biscoitos na mesa de cabeceira, e é só estender o braço e engolir uns poucos. É questão de ter sempre um copo cheio de água ali à mão. Da última vez, perdi doze quilos num mês. Recomendo este método a qualquer pessoa. Essas dietas que a gente lê por aí… Eu sei que isto funciona. É claro que, assim como outra coisa qualquer, é preciso saber usar a cabeça. Uma vez, acordei no hospital. Não nos podemos deixar dispersar, mais nada. É como tudo. Mas se uma pessoa quer mesmo perder peso, isto não falha. Estes biscoitos têm tudo o que é necessário. As vitaminas e os minerais todos. Uma coisa lhe digo. Ao fim de alguns dias uma pessoa já nem quer outra coisa. Recomendo este método a toda a gente, sem dúvida.
MULHER:      Mas você disse que acordou no hospital. O que é que lhe aconteceu? Teve uma reação alérgica ou quê?
JOVEM:         Ah, não, minha senhora. Não foi nada desse género. Estava agachado no meio da rua, a lamber os tomates, e veio um carro e atropelou-me. Tenha cuidado consigo. Ouviu?

Em "O Conselheiro" de Cormac McCarthy.

(Foto tirada da net)

28 março, 2014

"O Conselheiro" - Cormac McCarthy

Não gosto de me enganar acerca da natureza humana. (WESTRAY)
Depois de ver três dos seus romances (Belos Cavalos, Este País Não É Para Velhos e A Estrada), adaptados ao cinema, e um argumento original rejeitado por Hollywood, Cormac McCarthy escreveu novo argumento: “The Counselor – A Screenplay”, a história de um advogado (conselheiro) ambicioso que aposta tudo o que tem num negócio milionário de tráfico de cocaína. A sua esperança é que se trate apenas de um a transação única e que, depois, possa endireitar a vida ao lado da sua noive. Mas, pelo contrário, vê-se envolvido num jogo brutalmente perigoso – um jogo que ameaça destruir tudo e todos os que ama. Desta vez convenceu Hollywood e o guião foi levado ao grande ecrã, pela mão do realizador Ridley Scott.
Mas... nem a vasta experiência do realizador, nem o prestígio do argumentista, nem o elenco de estrelas - Michael Fassbender (Conselheiro), Brad Pitt (Westray), Javier Bardem (Reiner), Penélope Cruz (Laura), Cameron Diaz (Malkina), Rubén Blades (Jefe), Bruno Ganz (negociante de diamantes), conseguiram salvar o filme do fracasso.
Eu não “vi “ a história, mas, sendo fã incondicional de McCarthy, não resisti a lê-la em forma de guião. Gostei da experiência? Bem, no início não foi fácil…estranhei… estranhei… mas valeu pelas pérolas, perdão, diamantes, que encontrei e guardei. Partilho, no meu rol, apenas alguns desses diamantes, para não desvendar muito do enredo.
Não desejo pintar o mundo com cores mais sombrias do que aquelas que ele ostenta, mas à medida que o mundo dá lugar às trevas, torna-se cada vez mais difícil iludir a perceção de que o mundo é, afinal, a nossa pessoa. É uma coisa que nós próprios criámos, nem mais, nem menos. E, quando deixarmos de existir, o mesmo sucederá com o mundo. Haverá outros mundos. É claro. (JEFE)
A “marca” de McCarthy está por todo o lado: história hipnotizante, drama, suspense, crime, violência, humor negro, traição, fragilidade humana, sentido da vida e da morte, pessimismo, linguagem desbragada, cenas ousadas.
A ousadia lê-se (e vê-se, e ouve-se) logo no primeiro plano: apartamento do conselheiro, quarto quase em completa escuridão, duas pessoas na cama (o conselheiro e Laura, a namorada), linguagem desbragada, sexo.
Só depois aparece o genérico.
Segue-se uma cena no escritório de um negociante de diamantes (Bruno Ganz), onde o conselheiro vai comprar um diamante para a namorada. O diálogo entre os dois é um dos mais brilhantes do guião. Eis um excerto:
NEGOCIANTE - Quando os deuses eram mais humanos, os homens eram mais divinos. As próprias pedras preciosas têm a sua perspetival das coisas. Talvez não sejam tão mudas como julgamos… Cá está uma pedra preciosa que serve de aviso.
CONSELHEIRO - Um diamante para avisar os incautos.
NEGOCIANTE - Sem dúvida. Porque não? Embora eu ache que todos os diamantes são um aviso aos incautos… Realçar a beleza da nossa amada é reconhecer a um tempo a sua fragilidade e a nobreza dessa fragilidade. Não há nada mais nobre do que anunciarmos às trevas que não nos deixaremos amesquinhar pela brevidade das nossas vidas. Que não deixaremos que isso nos reduza à insignificância. Deixe-me mostrar-lhe. Já vai ver.
Para mim, são de MALKINA as melhores falas do guião. Todas soberbas. Eis algumas:
. Só os nossos segredos dão a medida do mal que temos cá dentro.
. A ganância leva-nos sempre à beira do abismo, não é verdade?
. Quando o próprio mundo é a fonte do nosso sofrimento, então somos livres de exercer vingança sobre qualquer parcela dele, mesmo a mais insignificante. Acho que talvez seja preciso ser uma mulher para entender isso. E nunca sabemos a medida da nossa dor até se nos oferecer a oportunidade de nos vingarmos. Só então percebemos do que somos capazes.
. Gostaríamos de lançar um véu sobre tanto sangue, tanto terror. As coisas que nos trouxeram aqui. É a nossa falta de nervo que nos leva a querer fechar os olhos para não vermos esse horror, mas, ao fazê-lo, convertemo-lo no nosso destino.
Será que devia ter ido “ver a história" em vez de a ler?
 
PS. Mr. Cormac McCarthy, quero pedir-lhe que desista de escrever guiões, volte à escrita de romances, no seu estilo inconfundível, e deixe que outros se entretenham a adaptá-los ao cinema.
Não vou desistir de si, mas o próximo guião... não vou comprar, não...
 
O Conselheiro, de Cormac McCarthy
Tradução de Paulo Faria
Ed. Relógio d’Água, 2013
155 págs.

20 setembro, 2013

Dois autores, dois estilos, o mesmo verbo: "derramar"


 Contos, de Virginia Woof (1882-1941)
… refulgiam róseas e de novo refulgiam alaranjadas quando o sol, derramando-se pelas macieiras, incidia nelas. (No pomar)
… quando Miss Milan lhe pusera o espelho na mão e Mabel se olhara com o vestido novo, finalmente pronto, uma felicidade extraordinária se derramara no seu coração. (O vestido novo)
… o ramo de uma árvore à sua frente embebia-se e penetrava a sua admiração pelas pessoas daquela casa; derramava-se em gotas de outro; ou permanecia erecto como uma sentinela. (Resumo)
… Sasha já não se sentia capaz de derramar por cima do mundo inteiro a sua nuvem de ouro. (Resumo)
… o espelho começou a derramar sobre ela uma luz que parecia fixá-la, que parecia um ácido corroendo o acessório e superficial para deixar apenas a verdade. (A senhora no espelho: uma reflexão)
 
A travessia, de Cormac McCarthy (1933-)
… onde o regato se derramava para sul.
… em cujo seio o mundo audível se derramava.
… olhou para ele à luz que se derramava da porta aberta.
… a luz do meio-dia se derramava sobre os campos.
… o cabelo escuro dela derramava-se sobre o ombro do irmão…
… examinou aqueles mundos derramados nas suas pálidas ignições sobre a noite sem nome…
…cabelo claro que ele já não cortava há muito tempo derramado em volta dele…
 
O que eu me diverti a procurar, sublinhar, contar e guardar estas frases.
Enfim, o calor de Agosto faz destas coisas…
 
(“Derramar”, do inglês spill, shed, pour in)

06 setembro, 2013

"A travessia" - Cormac McCarthy

… a imagem do mundo é tudo o que os homens conhecem do mundo, e esta imagem do mundo é perigosa.
Diz a sinopse:
A Travessia tem por cenário os ranchos do sul dos EUA durante os anos que antecederam a II Guerra Mundial e narra as aventuras de Billy Parham, de dezasseis anos, e do seu irmão mais novo, Boyd.
Fascinado por uma ardilosa loba que tem atacado a propriedade da família, Billy captura o animal. Mas, ao invés de o matar, parte em busca da sua origem – as montanhas do México – com o intuito de o devolver ao seu ambiente natural.
No regresso, Billy depara-se com um mundo irreversivelmente mudado. A perda da sua inocência tem um preço e, mais uma vez, o horizonte brilha com a sua desoladora beleza cruel e promessa.
Paulo Faria, o tradutor, escreveu no excelente prefácio:
Nunca como aqui foi tão patente que a escrita de Cormac McCarthy é ela própria uma viagem que nos leva até ao mais fundo de nós mesmos, uma jornada pelos meandros do nosso destino…

... a lição de uma vida nunca se basta a si mesma.
Este é o mais longo dos romances de McCarthy. O tema é o mesmo de outras obras do autor: a crueldade do ser humano, a dureza da vida, a luta pela sobrevivência, a violência do mundo selvagem, a descoberta do mundo que nos rodeia, a busca dos valores no íntimo de cada homem.
De todos os que já li dele, este é o mais comovente e…o menos violento.
As personagens são espantosamente bem construídas e reais. Destaco a principal, Billy Parham, o rapaz de dezasseis anos que fala com os animais, o vaqueiro solitário, obstinado e corajoso, que tem a estranha ideia de levar para as montanhas do México a loba que apanhou numa armadinha e que transportava no ventre a sua primeira ninhada. Inesquecível!
É uma leitura que aconselho a quem gosta de longas, encadeadas e pormenorizadas histórias.
Se ainda não se iniciou na leitura de McCarthy comece por este romance e deixe-se enlear por uma história empolgante e uma escrita poderosa, cativante e viciante.
Os diálogos são assombrosos. Repare só:
Isso é um lobo, caramba.
É, sim, senhor.
Rapaz, o que é que se passa contigo? Se essa criatura se solta desse açaimo, come-te vivo.
Sim, senhor.
O que é que ‘tás a fazer com ele?
Não é ele, é ela.
É o quê?
É ela. É uma loba.
Co’a breca, não faz diferença nenhuma se é ele ou ela. O que é que ‘tás a fazer com essa criatura?
‘Tou-me a preparar prà levar para casa.
Pra que é que ‘tás a levar esse animal pra casa?
É assim a modos que uma longa história.
Bom, eu cá gostava imenso de a ouvir.
E sempre foste maluco?
Não sei. A verdade é que até hoje ainda não tinha sido posto à prova, a bem dizer.
Que idade tens?
Dezasseis.
Dezasseis.
Sim, senhor.
Bom, tu não tens o juízo que Deus dá a um ganso. Sabias?
Talvez o senhor tenha razão.
Como é que esperas que o teu cavalo tolere um disparate deste tamanho?
Caso eu lhe consiga deitar a mão, não lhe vou pedir opiniões sobre o assunto.
Fazes tenção de levar esse animal à corda atrás do cavalo?
Faço, sim, senhor.
E como é que esperas obrigar a loba a fazer isso?
Também não lhe vou deixar grande escolha na matéria.
Fabuloso, não?
Termino com uma das marcas de McCarthy: a utilização excessiva (mas não repulsiva) do “e”:
Ele ia dando palmadinhas no cavalo e falava com ele e baixou o braço e soltou a fivela do estojo da sela e retirou de lá a espingarda e desmontou e deixou cair as rédeas.
Foi, derramada (roubei ao autor) no meu sofá, que saboreei este romance.
Gostei!
 
A Travessia, de Cormac McCarthy
Relógio d’Água, 2012
Tradução de Paulo Faria
393 págs.

12 outubro, 2012

"Filho de Deus" - Cormac McCarthy


Se lhe fosse dada a oportunidade Ballard tornaria as coisas mais ordenadas nas matas e na alma dos homens.
Uau! A história de vida de Lester Ballard - mais uma poderosa personagem imaginada por Cormac McCarthy - deixou-me verdadeiramente aturdida.
Eu sei que por vezes devemos sair do conforto das “historinhas” e mergulhar em histórias mais sérias que nos façam pensar e pensar à medida que vamos lendo. Eu sei e tento fazê-lo. Mas esta história…
Esta história é arrepiante, pela violência dos crimes perpetrados por Lester Ballard, um vagabundo solitário, psicologicamente desequilibrado, dotado de uma imaginação fértil, cruel e pervertida, um filho de Deus, quem sabe se em tudo semelhante a você mesmo.
E é isso que arrepia.
Lester Ballard foi abandonado pela mãe aos nove anos. O pai enforcou-se de seguida. Era filho único. Tiraram-lhe a casa dos antepassados. A sociedade afastou-o e ignorou-o. Ele torna-se selvagem, solitário, violento, cruel.
Ocupa os dias deambulando por estradas, montanhas e florestas, espreitando a sua antiga casa e o novo dono. Comete crimes macabros e esconde os corpos em grutas inacessíveis e satisfaz taras sexuais com os cadáveres das mulheres.
Todos desconfiam que é ele o assassino mas os corpos não aparecem e não o podem acusar.
Sr. Ballard… de duas uma: ou muda de vida ou então se quiser continuar como até aqui vai ter que procurar outro sítio no mundo para se enfiar.
Não. Ballard não vai mudar de vida. Ballard vai continuar a deambular pelas matas noite e dia, a roubar, a matar, a esconder os corpos no ventre das montanhas e a falar consigo próprio até ser estendido numa laje e esfolado, eviscerado, dissecado numa escola médica.
Estranho!
Estranho, mesmo muito estranho, é ficarmos presos da primeira à última linha desta espantosa história de violência e sentirmos, até, compaixão por um ser humano reles e cruel – que nunca aprendeu a relacionar-se com os outros e se tornou violento para sobreviver.
Só mesmo Cormac McCarthy consegue esta magia.
Achas que as pessoas eram piores nessa altura do que são agora?
Não acho. Acho que as pessoas são as mesmas desde o dia em que Deus fez a primeira.
Gostei!
 
Filho de Deus, de Cormac McCarthy
Relógio d’Água, 1994
Tradução de Paulo Faria
193 págs.

10 fevereiro, 2012

"Este país não é para velhos" - Cormac McCarthy

Cada momento nas nossas vidas é uma encruzilhada e é também uma escolha. Fizeste algures uma escolha. Tudo o que veio a seguir conduziu a isto. A contabilidade é rigorosa. A forma está traçada. Não se pode apagar nem uma só linha.
Assim que eu entrei na tua vida, a tua vida terminou. Teve um começo, um meio e um fim. O fim é agora. Dirás que as coisas podiam ter sido diferentes. Que podiam ter corrido de outra maneira. Mas o que é que isso significa? As coisas não correram de outra maneira. Correram desta. Estás a pedir-me que desminta o mundo. Percebes?
Sim, disse ela, a soluçar. Percebo. A sério que percebo.
Ainda bem, disse ele. Óptimo. Depois deu-lhe um tiro.
É com palavras que Chiguhr tortura as suas vítimas antes de as matar. Com palavras e com uma moeda, que manipula para ditar o destino de cada um: Cara ou Coroa?
A história deste violento, misterioso e alucinante romance de Cormac McCarthy passa-se no final dos anos setenta, na fronteira do Texas com o México, numa zona de actuação dos traficantes de droga.
Desta vez Cormac McCarthy leva-nos ao amago do confronto entre o BEM (o velho e desiludido xerife Bell), e o MAL (Chiguhr um psicopata amoral, violento, tresloucado, um profeta da destruição), num país à deriva.
Tudo começa quando Llewelyn Moss, numa das suas saídas para a caça, encontra uma carrinha cheia de cadáveres, um carregamento de heroína e uma pasta com dois milhões de dólares.
Tinha ali a sua vida inteira… tudo resumido a dezoito quilos de papel dentro de uma mala.
Moss apodera-se do dinheiro e esse acto dá início a uma cadeia de reações de violência, que nem a lei consegue controlar.
Anton Chiguhr é contratado para recuperar o dinheiro e a caça ao homem deixa-nos sem fôlego.
Quem é Chiguhr?
Ninguém sabe, pois quem o vê não vive o suficiente para contar.
Do lado da lei está o velho xerife Bell, à beira da reforma, que num monólogo perturbador (em capítulos autónomos escritos em itálico) nos fala da sua vida pessoa e profissional. Bell, xerife desde os 25 anos, é um homem honesto, trabalhador, impotente para controlar a violência que grassa no seu condado e horrorizado com o estado a que chegou o país.
As pessoas dizem que foi o Vietname que pôs este país de rastos. Mas eu nunca acreditei nisso. O país já estava em muito mau estado.
O xerife Bell persegue o assassino Chiguhr, uma perseguição inglória pois: Ele é um fantasma. Mas anda por aí à solta.
Considero o xerife Bell o principal personagem deste livro de Cormac McCarthy.
A história da sua vida é um romance dentro de outro romance. Fantástico!
Já no filme dos irmãos Cohen, com o mesmo nome, o principal papel pertence a Anton Chiguhr (espantosamente interpretado por Javier Bardem) e o xerife tem um papel secundário.
Prefiro a versão do livro.
Só no fim da vida é que conseguimos ver-nos tal como realmente somos e, ainda assim, podemos enganar-nos. Pus-me a pensar porque é que quis pertencer às forças da ordem. Quis que as pessoas dessem ouvidos ao que eu tinha para dizer. Mas havia outra parte de mim que desejava somente puxar todos os náufragos para dentro do salva-vidas.
Já li. Já reli. Voltarei.

Este país não é para velhos, de Cormac McCarthy
Relógio d´Agua, 2007
Tradução de Paulo Faria
226 págs.

20 janeiro, 2012

"Nas trevas exteriores" - Cormac McCarthy

Que necessidade tem um homem de ver o seu rumo, se afinal de contas não há modo de lhe fugir?
Em meados de 2011 foi, finalmente, publicado em Portugal o segundo romance de Cormac McCarthy, Outer Dark no original (1968).
Demorei a lê-lo, demorei a compreende-lo, demorei a sair das trevas e a reencontrar a luz.
Pode o teor de um livro deixar-nos tão desconfortáveis que o fechamos e pensamos “desistir”, mas algo nos força a “resistir?
Pode, se o livro for de um autor genial, que como poucos utiliza as palavras de forma dura, crua mas precisa,  para descrever a tragédia humana, numa progressão dramática que desconcerta o leitor, mas o prende da primeira a última linha.
A acção deste romance / fábula tem lugar algures no sul dos Estados Unidos (sempre os lugares indefinidos) e começa com o nascimento de uma criança, fruto da relação incestuosa dos irmãos Culla e Rinthy Holme, que vivem escondidos numa cabana fria e pobre no meio da floresta.
Após o parto, e enquanto a irmã dorme, Culla sai para as trevas da noite fria com o menino e abandona-o junto de um bosque de choupos.
Culla tenta convencer a irmã de que o menino morrera após o parto mas ela não acredita e obriga-o a mostrar-lhe o lugar onde o enterrou. O menino desaparecera.
Rinthy, andrajosa, descalça e transtornada, abandona o irmão e penetra na luz do sol, deambulando de terra em terra em busca do filho.
Não andas fugida dalgum lugar, ou andas?
Não, disse ela. Nem sequer tenho um lugar donde possa fugir.
Culla Holme parte depois em busca da irmã e é o relato da errância de ambos por caminhos separados e perigosos, até ao encontro com um cego, que parece apontar o caminho da salvação, que mantém o leitor perturbado e à espera de uma apocalítica resolução.
Pra ondé que tu ias, vamos lá a saber?
Para lugar nenhum, respondeu Holme.
Para lugar nenhum.
Isso.
Ainda és capaz de lá chegar, comentou o homem.
Termino com uma frase do prefácio do tradutor Paulo Faria: “A leitura de Nas Trevas Exteriores é, acima de tudo, uma experiência de genuíno desconforto físico, e a intensidade deste desconforto traduz a exacta medida da mestria literária de Cormac McCarthy”.
Confirmo!

Nas trevas exteriores, de Cormac McCarthy
Relógio d’Água, 2011
Tradução de Paulo Faria
213 págs.

14 outubro, 2011

"A estrada" - Cormac McCarthy

Está tudo bem contigo?, perguntou. O rapaz fez que sim com a cabeça. E então puseram-se os dois a caminhar no asfalto sob a luz metálica, cinzento-azulada, a arrastar os pés na cinza, e cada qual era o mundo inteiro do outro.
Um pai e um filho – personagens sem nome - caminham sozinhos pelas estradas de uma América devastada. Dirigem-se para sul e o seu destino é a costa, embora não saibam o que os espera, ou se algo os espera. A paisagem devastada pelas chamas é estéril, silenciosa e maléfica. Nada possuem, apenas uma pistola para se defenderem dos bandidos que assaltam a estrada, as roupas que trazem vestidas, comida que vão encontrando – e um ao outro.
O que é que disseste, papá?
Nada. Está tudo bem. Dorme.
Vai correr tudo bem, não vai papá?
Vai, sim.
E não nos vai acontecer mal nenhum, pois não?
Claro que não.
Porque nós transportamos o fogo.
Sim. Porque nós transportamos o fogo.
A Estrada é o relato dramático e comovente da luta do bem contra o mal, do melhor e do pior da natureza humana: a destruição última, a persistência desesperada e o afecto que mantém duas pessoas vivas enfrentando a devastação total.
Não vejo nada.
Eu sei. Vamos ter de dar um passo de cada vez.
Está bem.
Não me largues a mão.
Está bem.
Aconteça o que acontecer.
Aconteça o que acontecer.
Os diálogos entre pai e filho são simplesmente FABULOSOS!

Ler ou reler (a primeira leitura deste livro foi em 2007) Cormac McCarthy é sempre um ENORME prazer.
Descobri este autor quando li “Meridiano de sangue”. Livro duríssimo. Foram várias as vezes em que fechei o livro e me interroguei se deveria ou não continuar a ler tanta, mas mesmo tanta, violência. Seria um livro só para homens? Teimosa e curiosa não desisti e foi assim que descobri o meu segundo autor estrangeiro preferido.
Depois li “Este país não é para velhos” e tornei-me fã incondicional do autor.
Seguiu-se "Suttree" e a admiração pelo autor cresceu desmesuradamente.
Preparo-me para devorar “Nas trevas exteriores” o último livro editado por cá e "O guarda do pomar" que há já vários meses me olham da estante ansiosos por eu os desfolhar.
Sei que não me vão desiludir. Vão sim, assustar e maravilhar – como sempre!

A estrada, de Cormac  McCarthy
Relógio d'Água, 2007
Tradução de Paulo Faria
187 págs.

02 dezembro, 2010

"Meridiano de Sangue" - Cormac McCarthy

Este foi o primeiro livro que li do escritor americano Cormac McCarthy.
Romance extraordinário, baseia-se em episódios históricos verídicos ocorridos na fronteira entre os Estados Unidos e o México, em meados do séc. XIX.
De difícil mas viciante leitura, por diversas vezes fechei o livro horrorizada com tanta violência - homens que matam homens, mulheres e crianças num crescendo de violência assassina imparável.
A história gira à volta dum rapaz, que aos catorze anos foge de casa, no Tennessee, e que, 
a caminho da fronteira com o México, vai mendigar, roubar e matar, para não morrer.  
Vai cruzar-se com o juiz - homem enorme, assassino, violador, que nunca dorme e diz que nunca irá morrer, que cita os clássicos e discursa sobre a natureza humana.
Impressionante. Aterrador. Fantástico!

Mais sobre o autor aqui.

Meridiano de Sangue, de Cormac McCarthy
Tradução de Paulo Faria
Relógio de Água, 2004
390 págs.