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26 abril, 2016

Centenário da morte de Mário de Sá-Carneiro


O fidalgo e o lavrador
É meia-noute. No baile
Folga tudo e tudo dança.
À mesm’ hora o lavrador
No seu casebre descansa.

Uma hora. No palácio
Agora vai-se almoçar.
Na choupana o lavrador
Já terminou de jantar!

Dorme o fidalgo num leito
De penas, sobressaltado.
Em tábuas o lavrador
Repousa, mas sossegado!

Fim
- Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes -
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas.

Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza:
A um morto nada se recusa,
E eu quero por força ir de burro…

Mário de Sá-Carneiro foi poeta, contista, ficcionista. Nasceu em Lisboa (1890), suicidou-se em Paris (26 de Abril de 1916).

Caricatura de Mário de Sá-Carneiro, feita por Almeida Negreiros, pintor e escritor português (1893-1970).

10 março, 2015

"Poemas completos" - Mário de Sá-Carneiro


COMO EU NÃO POSSUO
Olho em volta de mim. Todos possuem –
Um afecto, um sorriso ou um abraço.
Só para mim as ânsias se diluem
E não possuo mesmo quando enlaço.

Roça por mim, em longe, a teoria
Dos espasmos golfados ruivamente;
São êxtases da cor que eu fremiria,
Mas a minh’a alma pára e não os sente!

Quero sentir. Não sei… perco-me todo…
Não posso afeiçoar-me nem ser eu:
Falta-me egoísmo pra ascender ao céu,
Falta-me unção pra me afundar no lodo.

Não sou amigo de ninguém. Pra o ser
Forçoso me era antes possuir
Quem eu estimasse – ou homem ou mulher,
E eu não logro nunca possuir!...

Castrado d’alma e sem saber fixar-me,
Tarde a tarde na minha dor me afundo…
- Serei um emigrado doutro mundo
Que nem na minha dor posso encontrar-me?

19 dezembro, 2011

Poema de... Mário de Sá-Carneiro

A NOITE DE NATAL
Em a noite de Natal
Alegram-se os pequenitos;
Pois sabem que o bom Jesus
Costuma dar-lhes bonitos.

Vão se deitar os lindinhos
Mas nem dormem de contentes
E somente às dez horas
Adormecem inocentes.

Perguntam logo à criada
Quando acorde de manhã
Se Jesus lhes não deu nada.

– Deu-lhes sim, muitos bonitos.
– Queremo-nos já levantar
Respondem os pequenitos.

Poema de Mário de Sá-Carneiro, Portugal (1890-1916)
Pintura de Jacob Jordaens, Bélgica (1593-1678)