29 maio, 2018

À terça - imagens e palavras: "mundo"


“Viver num mundo como este, virado do avesso, não exige apenas enorme coragem; requer, sobretudo, inesgotável paciência e uma lucidez inabalável.”

Frase de José Eduardo Agualusa, escritor angolano (1960), in “A substância do Amor”, Ed. Quetzal, 2017
Foto da net.

25 maio, 2018

"Estar em casa" - Adília Lopes

O prazer do texto sim
o frete do texto não
Estar em casa”, o mais recente livro de Adília Lopes (pseudónimo literário de Maria José da Silva Viana Fidalgo de Oliveira), junta-se a “Bandolim” e “Manhã” para completar uma trilogia de memórias em contexto autobiográfico.
Neste livro, como se de um diário se tratasse a poeta desfia memórias íntimas, acontecimentos da infância, detalhes do quotidiano, histórias, sonhos, olhares. E faz isso em pequenos poemas:
O ZERO E O UM
Quis sempre
ter um namorado
e só um
o que me custava
era não ter nenhum
Em frases soltas como esta: Quando se fecha os olhos com muita força, coisa que não se deve fazer, parece que se vêem quadros de Vieira da Silva.
Ou esta: Gosto muito de comparações. Escrevo muitas vezes a palavra como. Como gosto muito de comer até tem graça.
Em pequenos textos: Um padre contou-me que uma paroquiana era pobre, não tinha dinheiro para comprar bibelots para enfeitar a casa. Tinha um baú em que guardava os bibelots que tinha, tirava de lá um ou dois bibelots de cada vez para pôr em exposição, ia tirando os bibelots à vez para não ter todos os bibelots em exposição ao mesmo tempo. Assim, era como se tivesse sempre bibelots novos, quando tirava um bibelot do baú já não o via há tempo, já não se lembrava dele, era como se fosse novidade.
Um médico disse-me «a novidade estimula» e outro disse-me «a capacidade de esquecimento das pessoas é muito grande».
Não é bom ser pobre mas é bom ter imaginação.
Os ricos não têm muita imaginação.

Imaginação não falta a Adília Lopes. E um jeito encantador de brincar com as palavras.
Nada li dela antes deste livro pequenino, que comprei porque me enamorei da capa. (Acontece a todos!)
Agora que descobri a poeta, vou ler os restantes volumes da trilogia e os livros de poesia publicados  entre 1985 e 2000.
Os meus poemas são papéis, acções, obrigações.
Hum, acho que fiquei a gostar ainda mais de palavras!
E você, gosta de palavras?

Estar em casa”, de Adília Lopes
Ed. Assírio &Alvim, 2018
87 págs.

23 maio, 2018

Philip Roth (1933-2018)

Na sociedade humana, pensar é a maior de todas as transgressões. (“Casei com um comunista”, 1998)
Estou triste!
Philip Roth, o meu escritor preferido, morreu aos 85 anos, vítima de insuficiência cardíaca.
Considerado um dos maiores escritores norte-americanos, Philip Roth publicou mais de trinta romances e foi galardoado com diversos prémios, mas não recebeu a distinção maior, o Prémio Nobel, apesar de todos os anos constar na lista dos favoritos. Não recebeu talvez por ser judeu, talvez por polêmico. Mas devia!
Destaco alguns prémios:
Em 1997, com “Pastoal Americana” venceu o Prémio Pulitzer.
Em 1998, recebeu a Medalha Nacional de Artes da Casa Branca e em 2002, o mais alto galardão da Academia Americana de Artes e Letras, a Medalha de Ouro da Ficção.
Em 2005, ”A Conspiração contra a América” recebeu o prémio da Sociedade de Historiadores Americanos.
Em 2006, recebeu o PEN/Nabokov, pelo conjunto da obra e em 2007, o PEN/Saul Bellow de Consagração na Ficção Americana.
Em 2011, passou a ser o quarto autor distinguido com o Man Booker International Prize.
Em 2012, venceu o Prémio Príncipe das Astúrias de Literatura.
Philip Roth  foi o único escritor americano que em vida teve a obra completa e definitiva publicada pela Library of America.
… uma pessoa é tão temerária como os seus segredos, tão execrável como os seus segredos, tão solitária como os seus segredos, tão sedutora como os seus segredos, tão vazia como os seus segredos, tão perdida como os seus segredos, uma pessoa é tão humana… (“Teatro de Sabatt”, 1995)
Penso ter lido todos os romances de Philip Roth publicados em Portugal. Vinte. Não evidencio um mas sobre todos publiquei a minha opinião aqui, no “rol de leituras”.
Quando admiramos um escritor, tornamo-nos curiosos. Vamos à procura do seu segredo.(“O escritor fantasma”, 1979)
Philip Roth nasceu na cidade de Newark, New Jersey, em 19 de Março de 1933. Neto de imigrantes judeus-europeus que seguiram para os Estados Unidos na primeira parte do século XIX , foi assumidamente ateu.
Nos seus romances debruçou-se, com uma lucidez implacável, sobre os problemas de identidade dos judeus dos Estados Unidos, a política, o peso da história, o sexo, o envelhecimento, a morte.
A velhice não é uma batalha a velhice é um massacre. (“Todo-o-Mundo”, 2006)
Que descanse em paz!

22 maio, 2018

À terça - imagens e palavras: "pessoas"



"No gato no cão no periquito acredito 
em pessoas não acredito"


"Só gosto das pessoas boas
quero lá saber que sejam inteligentes artistas sexy
sei lá o quê
se não são boas pessoas
não prestam"


Frases de Adília Lopes, poetisa portuguesa (1960-), in "Estar em casa", Ed. Assírio & Alvim, 2018
Foto cedida pela JANITA, do blogue "O Cantinho da Janita". Obrigada, amiga!

18 maio, 2018

"O nervo ótico" - María Gainza

Dizem que é preciso parar perante uma tela de Rothko como em frente de um amanhecer.
O nervo ótico”, primeiro romance da crítica de arte argentina María Gainza, é um livro de olhares: olhares dirigidos a pinturas e a quem as contempla. Um livro, crónica íntima, incursão romanceada pela história da pintura, crítica de arte, visita guiada a um museu, que tem por narradora uma jovem mulher cuja vida desde cedo se ligou à pintura: o meu primeiro grande amor sucedeu na adolescência e à primeira vista: apaixonei-me por uma paisagem marinha pintada por Courbet…
Mulher divorciada, ovelha-negra de uma família tradicional de Buenos Aires em tempos abastada e agora remediada cuja vida tem, como um museu, obras-primas, mas também pequenos quadros escondidos em corredores escuros e estreitos. Mulher que em momentos de crise corre para um museu, como na guerra as pessoas corriam para os abrigos anti-bomba.
Em 11 capítulos, que no início parecem desligados, ela vai entrelaçando, num registo que oscila entre a comédia e a ironia, histórias de si mesma e da sua família «A minha mãe, que sempre teve grandes aspirações (...) acusava o meu pai de sofrer de pequnitice, uma doença crónica que não lhe permitia desenvolver plenamente o seu potencial. Segundo ela, tudo o que ele fazia fazia-o com facilidade, mas em pequenino».
… com explicações sobre quadros que olha amiúde e que exercem sobre ela um poder magnético: olharmos a pintura de El Greco é lutarmos contra nós próprios.
… com pequenas histórias de pintores que admira: «Numa noite de tempestade, quando (Rothko) saía do prédio, o porteiro disse-lhe que tivesse cuidado porque a rua estava perigosa. Rothko respondeu: Há uma única coisa com que tenho de ter cuidado, que é um dia o preto poder engolir o vermelho.»
E mais, aqui e ali cita escritores que leu,  T.S. Elliot, p.e., que disse «Quanto mais perfeito é o artista, mais completamente separados estarão nele o homem que sofre e o espírito que cria.»
Gostei muito desta “ biografia em pinturas”, uma visita guiada a que voltarei para me extasiar frente a este ou aquele quadro, neste ou naquele museu do mundo.
Propositadamente, pouco divulgo para que a leitura deste nervo óptico (com "p") arrebate os amantes da arte em geral e da pintura em particular. E da escrita, acrescento!
 …suponho que é sempre assim: escrevemos uma coisa para contar outra.
RECOMENDO (gritei com todas as cores de uma paleta, mas saiu a preto e branco...)!!!

O nervo ótico, de María Gainza
Tradução de Maria do Carmo Abreu
Ed. D. Quixote, 2018
167 págs.

16 maio, 2018

Vergonha!


"Vivemos num mundo onde nos escondemos para fazer amor, enquanto a violência é praticada em plena luz do dia."
(Frase de John Lennon, músico, guitarrista, cantor, compositor, escritor e activista britânico, 1940-80)

Sou Sportinguista  há muito tempo. 
O meu pai quis que fosse adepta do seu clube logo no dia em que nasci e eu, incapaz (sempre) de o contrariar, concordei. 
Por ele, nunca vesti outra camisola. Por ele, até  morrer o meu coração será verde e branco.
Por ele, ontem quase explodi de raiva e vergonha.
Por ele, escondi lágrimas de tristeza.
Por ele, um sportinguista de alma e coração, exijo que os culpados materiais e morais dos actos desprezíveis de ontem sejam exemplarmente punidos, para repor ao clube a dignidade, o respeito, o prestígio.
Viva o Sporting!
(Hoje mostrei-me demais. Acontece!)


15 maio, 2018

À terça - imagens e palavras: "realidade"


"Definitivamente, estou mal preparada para enfrentar a realidade; sou um exército de um só homem que apenas a alguns metros do inimigo se apercebe de que se esqueceu da baioneta."


Frase de María Gainza, crítica de arte e escritora argentina, in "O nervo ótico", ed. D. Quixote, 2018
Foto da net.

11 maio, 2018

"Mar Português" - Fernando Pessoa

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
 Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu. 


"Mar Português" de Fernando Pessoa, um dos poemas mais lidos, ouvidos, declamados, carregados de simbolismo e marcantes da Poesia Portuguesa.
Eu, portuguesa transmontana que gosta de versos, cada vez que o leio mais me encanto com o mar do meu país.
O mar português é LINDO!!

08 maio, 2018

À terça - imagens e palavras: "felicidade"


Só há felicidade se não exigirmos nada do amanhã e aceitarmos do hoje, com gratidão, o que nos trouxer. A hora mágica chega sempre.”


Frase de Hermann Hesse, escritor alemão (1877-1962), in “Siddhartha”, Ed. Casa das Letras, 1998
Prémio Nobel de Literatura, 1946
Foto da net.

04 maio, 2018

Viajando e aprendendo: Turquia





“Cada vez que viajo, viajo muito.”
Fernando Pessoa, poeta português (1888-1935), in “Livro do desassossego”.

Em 2009  eu e o Carlos voámos para a Turquia.
A Turquia, cujo nome oficial é República da Turquia (Türkiye Cumhuriyeti), é um país eurasiático constituído por uma pequena parte europeia, a Trácia, e uma grande parte asiática, a Anatólia. Tem fronteira com oito países: a Bulgária a noroeste, a Grécia a oeste, a Geórgia a nordeste, a Arménia, o Irão e o Nakichevan azerbaijano/Azerbaijão a leste, e o Iraque e a Síria a sudeste. É banhada pelo Mar Negro ao norte, pelo Egeu e o Mar de Mármara a oeste e pelo Mediterrâneo ao sul. A capital é Ancara.
Nos termos da constituição turca é uma república democrática, secular e constitucional cujo sistema político foi estabelecido em 1923, após o fim do Império Otomano. 
A Turquia e seus Estados antecessores foram uma ponte entre as culturas ocidental e oriental e o centro de diversas grandes civilizações.
Inicialmente escolhida sem grande convicção, a viagem veio a revelar-se surpreendente e inesquecível. O itinerário, designado “Turquia Espectacular”, incluiu a visita a Istambul, Ankara, Capadócia, Konya, Pamukkale, Éfeso, Izmir, Pérgamo, Tróia e Çanakkale.
As surpresas sucederam-se: o riquíssimo património histórico, a impressionante diversidade geográfica, o admirável contraste entre o antigo e o moderno, o colorido dos tapetes e kilims, o requinte da aromática gastronomia, o povo simpático e hospitaleiro.
Chegámos a Istambul - cidade que liga os continentes asiático e europeu - ao início da noite e logo no trajecto do aeroporto para o hotel constatámos que estávamos numa grande cidade imperial, cosmopolita, que fervilhava de gente e de trânsito, com os monumentos profusamente iluminados e inúmeros barcos a circular no Bósforo. De madrugada fomos acordados por um cântico transmitido por altifalantes colocados no alto dos minaretes e que chama os fiéis para a oração – estávamos num país muçulmano. A descoberta dos principais pontos de interesse histórico da cidade, que foi capital dos impérios Otomano, Bizantino e Romano, iniciar-se-ia no dia seguinte, após um soberbo pequeno-almoço com o famoso iogurte, o pão achatado e uma diversidade, sem igual, de legumes cozinhados, pastelaria, doçaria, frutos frescos e muitos, muitos, frutos secos.
Começámos pelo Palácio de Topkapi, centro de poder do Império Otomano durante cerca de 4 séculos, onde estão expostos diversos tesouros: jóias com milhares de brilhantes, pedras preciosas e semi-preciosas; porcelanas; trajes imperiais; armas e armaduras; relógios; miniaturas e manuscritos.
No bairro de Sultanahmet ficam, frente a frente, dois dos mais importantes monumentos da cidade: A Mesquita Azul - lindíssima com os seus azulejos azuis de Iznik, os seis minaretes, as cúpulas pintadas com padrões de arabescos mesméricos, e a Igreja de Santa Sofia (Igreja da Sagrada Sabedoria) – projectada como “um espelho do céu na Terra” que abriga nas paredes e cúpulas esplêndidos mosaicos bizantinos com mais de 1400 anos, com  a figura de Cristo, a Virgem com o menino Jesus ao colo, o arcanjo Gabriel.
No Bairro do Bazar, bairro de lojas e mercados, fica o impressionante Mercado das Especiarias, onde se encontram TODAS as especiarias orientais, ervas aromáticas, mel e frutos secos, e o Grande Bazar, um labirinto de corredores com mil e uma lojas repletas de produtos tentadores e lojistas alvoraçados, onde apetece voltar sempre, sempre, e comprar tudo, tudo. Mulheres, o Grande Bazar é, acreditem, uma tentação demoníaca!
Terminámos a visita à cidade com um relaxante cruzeiro pelo Bósforo e seguimos depois (de autocarro) para Ankara, a moderna capital da Turquia, com 5,4 milhões de habitantes.
 
A visita a Ancara foi demasiado rápida, nem sequer fomos ao centro da cidade. Foi chegar ao hotel (nos arredores da cidade) ao fim do dia, dormir, sair de manhã já com as malas, fazer duas visitas e arrancar... Fiquei sem saber o porquê de tanta pressa.
Valeu pela visita ao magnífico Museu das Civilizações, que alberga a maior colecção de antiguidades hititas do mundo, e ao Mausoléu de Atatürk onde está depositada a urna com as cinzas de Mustafa Kemal Atatürk (1881-1938), fundador e primeiro Presidente da República da Turquia, em 1923.
Sempre de autocarro chegámos à Anatólia Central e logo nos deslumbrámos com a região da Capadócia – paisagem única esculpida pela natureza. Na sua origem estiveram dois vulcões, já extintos, que expeliram a lava e cinzas que formou uma paisagem encantada de tufo vulcânico. Depois, ao longo de milhares de anos, a erosão pela água e vento esculpiu as extraordinárias formações rochosas. A macieza do tufo permitiu aos antigos habitantes da região escavar cavernas subterrâneas interligadas e ali viverem em comunidade, sem uma fresta de luz mas com um eficiente sistema de ventilação.
Partimos depois para a região do Egeu, habitada por 1/3 dos cerca de 71 milhões de habitantes da Turquia. Nesta região deslumbrámo-nos com os vestígios de cerca de 5000 anos de história grega e romana.
É o caso das ruínas de Éfeso - Biblioteca de Celso, o Teatro escavado na vertente do monte Pion, o Templo de Adriano, a Rua Colunada alinhada por colunas jónicas e dóricas, o Templo de Domiciano, a Porta de Hércules e muitos outros, de Izmir, de Pérgamo - o Altar de Zeus, o Templo de Trajano e o Teatro com capacidade para 10.000 lugares, de Tróia - com o imponente Cavalo de Tróia.
A cerca de 8 km do centro de Éfeso, no alto do monte Coresus, visitámos a Casa da Virgem Maria, local de peregrinação de cristãos e muçulmanos, onde a mãe de Jesus terá vivido os últimos anos da sua vida.
Visitámos, ainda, os terraços e as nascentes de Pamukkale (Palácio de Algodão), formações calcárias, numa extensão de 3000m de largura por 100m de altura, de um branco cintilante que lembra uma paisagem lunar. Espectacular!
E seguimos... e vimos... e seguimos...
A viagem terminou com a travessia do Mar da Mármara em ferryboat e o regresso a Istambul.
A Turquia, com um riquíssimo património histórico, uma diversidade geográfica impressionante, um contraste entre o antigo e o moderno admirável, um povo simpático e hospitaleiro, foi um destino de férias espectacular.
Recomendo, VIVAMENTE!
Se não puderem fazer todo o itinerário visitem pelo menos Istambul, uma cidade arrebatadora!
Deixo-vos muitos "olhos turcos", o amuleto turco que, dizem eles, protege contra o mau-olhado.
Comprei vários, claro! Pela beleza das pequenas pedras azuis e para afastar olhares invejosos...
(Mais fotos aqui.)

01 maio, 2018

À terça - imagens e palavras: "trabalho "


"Os dias prósperos não chegam por acaso. Resultam de muito trabalho e persistência."


Frase de Henry Ford, empresário norte-americano, fundador da Ford Motor Company (1863-1947)
Foto da net.