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08 março, 2018

MULHER


“Sei uma coisa. Sei que não são os vestidos que fazem as mulheres mais ou menos bonitas, nem os cuidados de beleza, nem o preço dos cremes, nem a raridade, o preço dos enfeites. Sei que o problema está algures. Não sei onde. Sei só que não está onde as mulheres julgam.”

Marguerite Duras, escritora francesa (1914-96), in “O amante”, Ed. Difel, 1992
(Foto da net)

27 março, 2015

"O amante" - Marguerite Duras

Ele diz-lhe que está só, atrozmente só, com esse amor que tem por ela. Ela diz-lhe que também ela está só.
Ela tem quinze anos e meio e é pobre. Ele tem vinte e sete e é rico.
Ela possui um rosto liso, que pinta para esconder as sardas, um corpo delgado e seios de criança. Ele possui no rosto o mistério de todos os orientais.
Olham-se pela primeira vez na barcaça do Mékong, em direcção a Saigão.
Ela usa um vestido de seda natural, quase transparente, calça sapatos de saltos altos dourados, e tem na cabeça um chapéu de feltro de homem. Ele usa um fato de seda claro.
Ela, da amurada contempla o rio. Ele fuma junto da limusina preta.
Deslumbram-se.
Ele aproxima-se, sorri e oferece-lhe um cigarro. Ela diz-lhe que não fuma.
Depois daquele encontro na barcaça ele passou a esperá-la todos os dias à porta do liceu, para a levar ao pensionato.
Uma tarde despem-se no quarto de um estúdio escuro no sul da cidade.
Ele diz que a ama como um louco. Ela não lhe responde. Poderia responder-lhe que não o ama. Não diz nada.
Ele treme. Ela sente um leve medo.
Ele pergunta se doeu. Ela diz que não.
Os beijos pelo corpo fazem chorar. Dir-se-ia que consolam. Em família não choro, diz ela.
Em 1984, Marguerite Duras recupera da memória este amor da adolescência e a relação difícil e complicada com a mãe e os irmãos e narra-as em "O Amante".
Sem pudor, escreve sobre a descoberta do amor e da sexualidade, sobre um ano e meio de encontros com o amante sofredor. Amante que anos depois da guerra, em Paris, liga para a menina branca, agora feita mulher, e diz-lhe que ainda a amava, que nunca poderia deixar de a amar, que a amaria até à morte.
Sem medo, escreve sobre a fragilidade dos laços familiares.
Nunca bom dia, boa noite, bom ano. Nunca obrigado. Nunca falar. Nunca necessidade de falar. Tudo fica mudo, longe. É uma família de pedra, petrificada numa espessura sem qualquer acesso. Todos os dias tentamos matar-nos, matar. Não só não nos falamos como não nos olhamos (…) Estamos juntos numa vergonha de princípio que é ter de viver a vida.
É verdade o que diz Marguerite Duras neste romance? Isso pouco importa.
Verdade ou ficção, o que importa mesmo é que gostei de o ler em Maio de 1993 e de o reler em Março de 2015.
Recomendo!

Marguerite Duras- pseudónimo de Marguerite Donnadieu - nasceu em 1914 na Indochina, então uma colónia francesa. Aos dezoito anos vai para Paris estudar Direito. Durante a guerra toma parte na Resistência e publica os primeiros livros (Les Imprudents, 1943 e La vie tranquile, 1944). Escritora, dramaturga e cineasta, é considerada uma das principais vozes femininas da literatura europeia do Século XX. Faleceu em 1996. 

O Amante, de Marguerite Duras
Ed. Difel, 1992
Tradução de Luísa Costa Gomes e Maria da Piedade Ferreira
98 págs.

02 março, 2012

"Olhos azuis, cabelo preto" - Marguerite Duras

Uma noite, ele descobre que ela o olha através da seda preta. Que ela olha com os olhos fechados. Que ela olha sem olhar. Acorda-a, diz-lhe que tem medo dos olhos dela. Ela diz que é da seda preta que ele tem medo, não é dos olhos dela. E que além disso tem medo de outra coisa ainda. De tudo. Disso, talvez.
Este livro de Marguerite Duras foi publicado em 1986, dez anos antes da sua morte e após o enorme sucesso de “O amante” (livro autobiográfico que narra um episódio da sua adolescência – a iniciação sexual e o amor proibido aos quinze anos por um jovem chinês dez anos mais velho).
“Olhos azuis, cabelo preto” é um livro pequenino apenas no número de páginas. O conteúdo é enorme e misterioso: uma história de amor branca e desesperada.
O texto é em parte obra de teatro e argumento cinematográfico (não fosse a autora argumentista) e a história passa-se em três cenários: o átrio do hotel, o café e o quarto do homem elegante.
O enredo é a paixão desesperada de dois desconhecidos - o homem elegante e a mulher esbelta – por um estrangeiro de olhos azuis e cabelo preto, que viram no átrio de um hotel perto do mar.
Quando se encontram num café, ambos sofrem com a partida do estrangeiro e ambos vão procurar consolo nos encontros incompletos que terão no quarto do homem elegante.
São encontros doloridos e silenciosos de dois amantes perdidos.
Ele não fala, não lhe toca, só quer olhá-la.
- Não posso tocar o seu corpo. Não lhe posso dizer mais nada, não posso, é mais forte do que eu, do que a minha vontade.
Ela diz-lhe que sempre soube isso.
Ele fala com ela e toca-lhe quando ela dorme.
Ela não ouve. Ele chora.
Talvez o amor possa viver-se assim de uma maneira horrível.
Sublime!
Gostei IMENSO de reler este ENORME livrinho.

Olhos azuis, cabelo preto, de Marguerite Duras
Colecção Mil Folhas, 2002
Tradução de Teresa Coelho
96 págs.