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12 junho, 2015

"Os passos em volta" - Herberto Helder

Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio... Enfim, às vezes já não consigo arrumar tudo isso. (Estilo)
Encontrei em “Os passos em volta”, publicado em 1963, um conjunto de historias engraçadas, inteligentes, irónicas, bem escritas, sobre a busca do poeta-homem de um sentido existencial, numa viagem incessante, angustiante e melancólica por vários lugares do mundo.
Incursão rara do poeta na prosa narrativa, as vinte e três histórias lêem-se num ápice.
Eis três excertos, escolhidos aleatoriamente:
Lugar lugares
“Era uma vez um lugar com um pequeno inferno e um pequeno paraíso, e as pessoas andavam de um lado para o outro, e encontravam-nos, a eles, ao inferno e ao paraíso, e tomavam-nos como seus, e eles eram seus de verdade. As pessoas eram pequenas, mas faziam muito ruído. E diziam: é o meu inferno, é o meu paraíso. E não devemos malquerer às mitologias assim, porque são das pessoas, e neste assunto de pessoas, amá-las é que é bom. E então a gente ama as mitologias delas. À parte isso o lugar era execrável. As pessoas chiavam como ratos, e pegavam nas coisas e largavam-nas, e pegavam umas nas outras e largavam-se. Diziam: boa tarde, boa noite. E agarravam-se, e iam para a cama umas com as outras, e acordavam. Às vezes acordavam no meio da noite e agarravam-se freneticamente. Tenho medo – diziam. E depois amavam-se depressa e lavavam-se, e diziam: boa noite, boa noite.”
Polícia
“Annemarie sentou-se à minha mesa. Vi logo o tamanho da sua solidão: tinha o tamanho do mundo. Ela era a criatura mais só do mundo. E a sua história apareceu – simples, tenebrosa – entre as nossas duas cervejas. Todas as histórias pessoais são simples e tenebrosas. Não me comovi. Comovido já eu estava: com as coisas, comigo com a chuva sobre a cidade. (…)
Annemaria tinha o dom da poesia subversiva. Subvertia tudo. A seu lado senti que a minha vida era importante. Que a ariscaria, sempre e sempre, que perderia, mas não cedendo de mim próprio. O amor do perigo embebedava-me.
Começámos então a lutar contra a polícia do mundo inteiro.”
Poeta obscuro
"Acerca da frase - «Meus Deus, faz com que eu seja sempre um poeta obscuro.» - julgo haver alguma coisa a explicar. Para já não sei onde a li, se a li, pois bem pode ser que ma tenham referido e uma frase referida, não lida, torna-se menos do autor. Tracei-a a lápis na parede em frente da cama. Estava sempre a vê-la. Isto à noite, no meio da noite, quando de súbito abria a luz e dizia para mim mesmo: - Não estou cego. – Ou, quando, acordando bastante tarde, verificava com surpresa que não tinha morrido durante o sono. Sofro destes tormentos da imaginação ou da sensibilidade desordenada. Neurose. «Faz com que eu seja sempre um poeta obscuro.»
…é na morte de um poeta que se principia a ver que o mundo é eterno.
H.H. poeta obscuro? Nunca!
Leia, por favor!

Os passos em volta, de Herberto Helder
Ed. Assírio & Alvim (9ª edição), 2006
194 págs.

03 maio, 2013

"Ofício Cantante - poesia completa" - herberto helder

É amargo o coração do poema.
A mão esquerda em cima desencadeia uma estrela,
em baixo a outra mão
mexe num charco branco. Feridas que abrem,
reabrem, cose-as a noite, recose-as
com linha incandescente. Amargo. O sangue nunca pára
de mão a mão salgada, entre os olhos,
nos alvéolos da boca.
O sangue que se move nas vozes magnificando
o escuro atrás das coisas,
os halos nas imagens de limalha, os espaços ásperos
que escreves
entre os meteoros. Cose-te: brilhas
nas cicatrizes. Só essa mão que mexes
ao alto e a outra mão que brancamente
trabalha
nas superfícies centrífugas. Amargo, amargo. Em sangue e exercício
de elegância bárbara. Até que sentado ao meio
negro da obra morras
de luz compacta..
Numa radiação de hélio rebentes pela sombria
violência
dos núcleos loucos da alma.

(Em "Última Ciência", 1988)

Pintura de Maria Henriques - foto tirada da net.