AS PALAVRAS PESAM
As palavras pesam.
Um texto nunca diz a dor das pequenas coisas,
Do quotidiano entrincheirado entre compromissos,
Das tramas afectivas, do exílio anunciado
No andar inquieto das mulheres.
De rosto em rosto, a caligrafia do amor
implorou a memória das palavras encantadas
e, como se houvesse uma linguagem
de atravessar o tempo, acenderam,
sobre os dias, constelações sonoras.
Mas eu, que não adiro aos calendários
nem acredito em vogais prometidas,
eu parti, de punhos febris,
enlaçando nos braços
um futuro marginal, a qualquer lógica.
A posse da noite, onde me quero lua em todas as fases,
leva-me a glosar os medos num novelo de rimas imperfeitas.
A cidade tem pombas que me perseguem sem eu dar por isso.
Tenho um aqueduto modelado nos olhos
e um dilúvio vermelho no desenho do peito.
Poema do livro “Poemas Escolhidos (1990-2011), da poetisa portuguesa Graça Pires (n.1946-), autora do blogue “Ortografia do olhar”, que recomendo aos amantes da verdadeira poesia.
Pintura “Transformative chapter”, acrílico em madeira, do artista vietnamita Duy Huynh.
Pintura “Transformative chapter”, acrílico em madeira, do artista vietnamita Duy Huynh.
