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11 outubro, 2016

Lírios dourados com oito centímetros...



“A minha avó era uma beldade. Tinha um rosto de forma oval, com faces rosadas e pele sedosa. (…)
O seu valor residia, porém, nos pés enfaixados, chamados em chinês «lírios dourados com oito centímetros» (san-tsun-gin-lian). (...)
Tinha a minha avó dois anos quando lhe enfaixaram os pés. A mãe, que também tinha pés enfaixados, começou por enrolar-lhe à volta dos pés uma tira de pano com cerca de seis metros de comprimentos, dobrando todos os dedos, excepto o grande, para dentro e para baixo da planta. Depois pôs-lhes uma grande pedra em cima, para esmagar o arco. A minha avó gritou de dor e suplicou-lhe que parasse, e a mãe teve de meter-lhe um pano na boca, para amordaça-la. A infeliz desmaiou diversas vezes, devido à dor.
O processo demorava anos. Mesmo depois dos ossos terem sido partidos, os pés tinham de continuar enfaixados, dia e noite, em tiras de pano, pois no momento em que fossem libertados, tentariam recuperar. Durante anos, a minha avó viveu cheia de dores terríveis e constantes. Quando suplicava à mãe que lhe tirasse as faixas, ela chorava e dizia-lhe que isso arruinaria toda a sua vida futura, e que fazia aquilo pela felicidade dela.
Naqueles tempos, quando uma mulher casava, a primeira coisa que a família do noivo fazia era examinar-lhe os pés. Uns pés grandes, ou seja, uns pés normais, traziam vergonha para a casa do marido. (…)
O costume de enfaixar os pés foi introduzido na China há cerca de mil anos, segundo se diz por uma concubina do imperador. (…)
As mulheres não podiam tirar as faixas mesmo depois de adultas, pois os pés começariam a crescer novamente. Só à noite, na cama, lhes era possível aliviar temporariamente o tormento, afrouxando um pouco as tiras de pano. Calçavam, então, uns sapatos de sola macia. Os homens raramente viam nus uns pés enfaixados, que estavam geralmente cobertos de carne apodrecida e exalavam um cheiro horroroso quando se tiravam as faixas. Lembro-me de, em criança, ver a minha avó constantemente cheia de dores. Sempre que regressávamos das compras, a primeira coisa que ela fazia era meter os pés numa bacia de água quente, suspirando de alívio. Depois punha-se a cortar pedaços de pele morta. A dor era provocada não só pelos ossos partidos, mas também pelas unhas, que cresciam para dentro da ponta dos dedos.
Na realidade, os pés da minha avó tinham sido enfaixados precisamente na altura em que a prática estava prestes a desaparecer para sempre.”

Inacreditável!

Tirei daqui: “Cisnes selvagens”, de Jung Chang, Quetzal Editora, 1995
Fotos da net.

25 setembro, 2016

"Cisnes selvagens" - Jung Chang


“Jian-xin-bi-xin” – Imagina que o meu coração é o teu coração!
Confúcio

“Cisnes selvagens” é o chamado “dois em um”: fascinante romance autobiográfico e precioso documento histórico.
Isto, porque cruza
- a história verdadeira de três mulheres, da mesma família, marcadas pelas dramáticas mudanças políticas, sociais e culturais dum tempo em que na China cada dia era uma batalha só para sobreviver; 
- com a história tumultuosa da China do século XX - o derrube do Império Manchu e formação da república dos senhores da guerra (1911); a invasão da Manchúria pelo Japão (1931); a ocupação japonesa (1938-45); a proclamação da República Popular (1949); a Reforma Agrária (1950); a Revolução Cultural (1966), a violenta ditadura de Mao,  que perseguiu, escravizou e desrespeitou três gerações de chineses.
As mulheres, poderosas, lutadoras, corajosas, são a própria Jung Chang (n. 1952), a mãe (n. 1931) e a avó materna (n. 1909).
Nada falta nesta revelação de Jang Chang. Nem uma  árvore genealógica, uma cronologia da história da família e do país; nem fotografias íntimas e públicas, legendadas e datadas.
A sinopse perfeita e exacta, cativa-nos e de imediato queremos ler o livro.
Foi o que aconteceu comigo e o que acontecerá consigo. Tenho a certeza.
“Quando a avó de Jung Chang nasceu, em 1909, a China era uma sociedade feudal. Os seus pés foram ligados, como era hábito nesse tempo e, aos quinze anos, foi dada a um general como concubina. Durante anos viveu virtualmente prisioneira de criadas que a espiavam e do «marido» quase sempre ausente até que, em 1932, o general morreu e ela regressou à casa familiar com a filha ainda criança.
Essa filha cresceu na Manchúria sob ocupação japonesa e russa. Quando a guerra civil eclodiu entre os comunista e o Kuomintang de Chang Kai-Check, tornou-se uma activista no movimento clandestino, arriscando a vida para fazer passar informações através dos postos de controlo nacionalistas para os comunistas que sitiavam a sua cidade. Foi presa e posta perante um pelotão de fuzilamento e viu cair morto o homem que estava ao eu lado. Depois de libertada apaixonou-se por um jovem guerrilheiro que partilhava o seu entusiasmo pela causa comunista. Com o triunfo de Mao, tornaram-se altos funcionários, ajudando a lançar uma revolução social como o Mundo nunca vira.
Jung Chang, sua filha, passou a infância nos círculos privilegiados da elite comunista chinesa. Após um breve período nos Guardas Vermelhos, a selvajaria e o poder destruidor da Revolução Cultural levaram-na a questionar o próprio Mao, uma atitude inimaginável num país dominado pelo terror e completamente fechado a qualquer informação sobre o mundo exterior. Os pais de Jung Chang foram denunciados, presos e mandados para campos de trabalho distantes. O pai foi progressivamente levado à loucura e à morte. Ela própria, ainda adolescente, foi exilada para o coração dos Himalaias e trabalhou como camponesa e «médica dos pés descalços».”
Em 1978 Jung Chang consegue uma bolsa para estudar na Grã-Bretanha. Fizeram-se festas para celebrar, e derramaram-se muitas lágrimas de alegria. Ir para o Ocidente era uma coisa enorme. A China mantivera-se fechada durante decénios, e as pessoas sentiam-se sufocadas pela falta de ar. Fui eu a primeira da minha universidade e, tanto quanto sei, a primeira de Schuan (que tinha na altura uma população de cerca de noventa milhões) a receber autorização para estudar no Ocidente, desde 1949.

“Cisnes selvagens”  desvenda um período trágico da História da China.
É um livro longo, duro e amargo, mas empolgante e cativante.
Difícil de contar, é obrigatório ler.
Eu comprei-o  em 1995, emprestei-o, perdi-o, recuperei-o, li-o agora, compulsivamente.
É apaixonante!

Cisnes selvagens, de Jung Chang
Tradução de Mário Dias Correia
Quetzal Ed., 1995
517 págs.