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09 dezembro, 2016

"Numa casca de noz" - Ian McEwan

“E PARA AQUI ESTOU EU, de pernas para o ar dentro de uma mulher. Com os braços pacientemente cruzados, à espera, à espera e a perguntar-me dentro de quem estou, para que estou aqui. (…) Dia e noite com a orelha comprimida contra as paredes ensanguentadas, não me resta alternativa. Escuto, tomo notas mentalmente e inquieto-me. (…) Considero-me um inocente, mas, ao que parece, faço parte de uma conspiração. Parece que a minha mãe, abençoado seja o seu coração a patinhar incessante e ruidosamente, é cúmplice.
Parece, mãe? Não, És. Tu és. És envolvida. Sei isso desde os meus primórdios.”
É assim, sem meias palavras, que um feto prestes a nascer partilha com o leitor TUDO o que ouve (e sente) mergulhado no líquido amniótico na barriga da mãe. Um feto entendido em vinhos franceses (que a mãe ingere em abundância), conhecedor do estado do mundo (pelas conferências em podcast que a mãe ouve regularmente), erudito em literatura (o som dos audiolivros chega-lhe através dos auriculares da mãe), cúmplice involuntário de uma conspiração (a mãe, de conluio com o amante, planeia envenenar o seu pai).
O feto-narrador é filho de pais separados.
O pai, que se chama John, é um gigante de um metro e noventa e dois, braços vigorosos e peludos, excesso de peso, com um problema de pele, psoríase. É um poeta não reconhecido, proprietário duma editora falida, apesar de ter dado à estampa um laureado com o Nobel.
A mãe, que se chama Trudy, e que ele conhece melhor pelo lado de dentro, é uma bela loira de olhos verdes, nervosa, egoísta, desonesta, cruel… esperem lá, eu amo-a, ela é a minha divindade e preciso dela. Retiro o que disse!
Foi o pai que saiu da mansão que herdou, o lar da sua infância, por acreditar ser sensato conceder a Trudy o tempo e espaço que ela lhe disse precisar. Espaço! Ela devia vir para aqui, onde nos últimos tempos mal consigo dobrar um dedo. Pai que continua a escrever poemas em louvor da mulher amada, que visita com regularidade na expectativa de que um dia ela lhe diga para volta. Mulher que o despreza e rapidamente conduz à porta, com a desculpa de que precisa de descansar.
Porta fechada para ao pai; porta aberta ao amante.
O amante, que se chama Claude, é um promotor imobiliário, estúpido e ambicioso, que só sabe falar de roupa e de carros, que abusa de vinho, de comida e de sexo.
Nem toda a gente sabe o que é ter o pénis do rival do nosso pai a centímetros do nariz. Nesta última fase, deviam pensar em mim e conter-se. Se não em nome do parecer clínico, pelo menos por cortesia. Fecho os olhos, cerro as gengivas, apoio-me às paredes uterinas. Esta turbulência arrancaria as asas a um Boeing. A minha mãe aguilhoa o amante, chicoteia-o com os seus gritos de feira. É o Poço da Morte!
Pois bem, é esse parolo de cérebro embotado que por cobiça (a mansão talvez valha oito milhões de libras), engendra um esquema para envenenar o homem que é seu irmão, marido de Trudy, pai do feto-narrador. O que é isto?
O feto esclarece: a minha mãe deu preferência ao irmão do meu pai, enganou o marido, destruiu o filho. O meu tio roubou a mulher do irmão, ludibriou o pai do sobrinho, insultou o filho da cunhada.
Se pensam que divulguei muito da trama, enganam-se. Não passei da página 37. Acreditem que o que se segue é surpreendente e “salva “o romance: crime; investigação policial; vingança do feto. Está na altura de intervir. De acabar o que tem de ser acabado. Está na altura de começar.

Numa casca de noz, não é um grande romance mas a escolha do narrador - um nascituro sem nome que disserta sobre o estado do mundo - é surpreendente. Tenho as minhas fontes, escuto.
Gostei!

Numa casca de noz, de Ian McEwan
Tradução de Ana Falcão Bastos
Ed. Gradiva, 2016
180 págs.

22 janeiro, 2016

"Sábado" - Ian McEwan

Quem não dorme de madrugada faz um ninho com os seus próprios medos.
Londres, 15 de Fevereiro de 2003, sábado, três e quarenta da manhã.
Henry Perowne desperta de um sono profundo, levanta-se, às escuras atravessa o quarto, abre as portadas de uma das janelas de guilhotina e fica ali imóvel e imune ao frio da madrugada a olhar para a cidade. Depois, volta a deitar-se e abraça a mulher que ama.
Aos quarenta e oito anos Henry é um homem feliz e realizado: conceituado neurocirurgião, marido dedicado de Rosalind (advogada,) pai de Daisy (dada às letras e promissora poetisa) e de Theo (talentoso músico de blues). A sua felicidade apenas é abalada pela eminência da guerra com o Iraque, o crescente pessimismo desde o 11 de Setembro e um certo e inexplicável medo de que a sua vida familiar e a sua cidade estejam ameaçadas.
Por momentos esquece os medos e pensa no seu dia de folga semanal. Isso basta para o deixar eufórico e bem-disposto. Quer que aquele sábado seja perfeito: squash de manhã (é fã do exercício físico, corre frequentemente, participa todos os anos numa meia maratona de beneficência); compra dos ingredientes para uma perfeita sopa de peixe; jantar em casa com toda a família: o casal, o sogro e os filhos (Daisy vem de Paris, onde vive, e o filho prometeu ficar em casa pelo menos umas horas).
Como faz sempre nos dias de folga, liga para o hospital para saber dos seus doentes. Depois, animado por um café quente e forte, veste o velho fato de desporto, pega na raqueta, sai de casa, apressa o passo em direcção ao parque onde tem o carro e arranca em direcção ao clube de squash, ao som de um trio de cordas de Schubert (na sala de operações gosta de ouvir Bach).
Estranhamente sente um misto de felicidade e agressividade.
A meio de Tottenham Court Road um polícia de trânsito manda-o parar. A rua está fechada devido a uma manifestação contra a invasão do Iraque. Tenta avançar por uma rua estreita e deserta e eis, senão, quando dois carros tentam ocupar o espaço que só dá para um: o seu Mercedes S500 prateado e um BMW série cinco, modelo que ele associa a criminalidade e tráfico de droga.
Henry sai do carro para avaliar os estragos. O Mercedes está arruinado. E o mesmo acontece com o seu sábado. Está furioso mas tem de ter cuidado – no BMW estão três rapazes e ele não gosta de confrontos pessoais
- Um cigarro?
Uma mão grande, fechada e trémula estende-se para Henry.
- Não fumo, obrigado.
Apertam as mãos.
- Henry Perowne.
- Baxter. Espero que esteja disposto a pedir-me sinceramente desculpa.
Bastou o simples apertar de mãos para Henry perceber que aquele jovem nervoso e agressivo, tem graves problemas neurológicos.
O que acontece depois, naquela rua estreita e deserta? Confronto físico, claro!
Estragada a manhã, como corre a noite?
Vou desvendar muito pouco: a família está finalmente reunida; falam sobre música e poesia; brindam à vida, ao amor, à união familiar. De repente...
… de repente, Baxter de faca em punho irrompe violentamente na sala e transforma o serão familiar numa aventura aterradora, com consequências graves para todos.
Acabou!
Para saber o que ali se passou; quem tem de perdoar quem; como pode a leitura de um poema enfeitiçar um homem - vai ter de ler "Sábado".

Foi um gosto reler este romance . É o meu preferido, de todos os que já li de Ian McEwan.
Para criar e caracterizar o protagonista Henry Perowne, ele assistiu durante dois anos ao trabalho do neurologista Dr. Neil Kitchen no bloco operatório e ouviu tudo sobre “as complexidades da sua profissão e do cérebro, com as suas inúmeras patologias”.
Quem se esforça faz perfeito!
Aviso de amiga: não passe  numa rua oficialmente fechada ao trânsito.

Sábado, de Ian McEwan
Tradução de Maria do Carmo Figueira
Ed. Gradiva, 2005
330 págs.

19 julho, 2015

"A balada de Adam Henry" - Ian McEwan

Ou recomeçamos a viver, a viver a sério, ou desistimos e aceitamos que vai ser uma tristeza daqui até ao fim.
Vida, morte, doença, justiça, religião, música, poesia, amor, paixão, infidelidade, vergonha, sabedoria, subtileza, humanidade, ética profissional - de tudo isto é feito este romance, baseado num caso verídico ocorrido em 1993. Vejamos:

«distância divina, compreensão diabólica, e, mesmo assim, bonita», é como o Presidente do Supremo Tribunal se refere a Fiona Maye, juíza do SupremoTribunal, reconhecida pela inteligência arguta, o rigor, a prosa viva e a sensibilidade com que julga casos da Divisão de Família.
Fiona Maye, é a protagonista do novo romance de Ian McEwan, “A balada de Adam Henry”, (“The Children Act”, no original).
Tem cinquenta e nove anos, um casamento de trinta com Jack, o namorado da adolescência, toca piano, gosta de literatura e da sua profissão. Muito!
Não tem filhos por opção (os remorsos consomem-na agora), mas dedica-se aos filhos dos outros, quando luta empenhadamente pelo bem-estar das crianças em casos complexos e perversos de divórcios onde pais lutam pela custódia dos filhos, por casas, pensões, rendimentos, heranças.
O marido, professor de História da Antiguidade, sempre compreendeu as suas ausências e sempre a apoiou para que pudesse julgar com sensatez e serenidade. Ele fora sempre carinhoso, leal e carinhoso, e o carinho. Como a Divisão da Família provava diariamente, era o ingrediente humano essencial.
Mas… vamos ao início do romance.
Londres, numa tarde de domingo de Junho, Fiona está deitada numa chaise longue. No chão estão espalhadas folhas de um processo complexo que tem de analisar – o divórcio de um casal de judeus, desigualmente ortodoxos, a luta pela educação da filha.
A beber um Talisker com água da torneira, Fiona tenta recuperar da revelação chocante feita pelo marido, da proposta escandalosa que se seguiu e da pergunta que ele lhe fez e a que ela não soube responder:
- Fiona, quando fizemos amor pela última vez?
Está em choque, irritada, dominada por um medo antigo – não podia, não queria, passar o resto da vida sozinha – sem saber o que dizer ou fazer, quando o telefone toca. Automaticamente, atende, é Nigel Paulind, o seu secretário, com um pedido de emergência do hospital Edith Cavell, de Wandsworth - necessitam de uma ordem judicial para fazer uma transfusão de sangue a um doente oncológico, cuja família, por preceitos religiosos é contra o tratamento médico que lhe pode salvar a vida. O doente é Adam Henry, um adolescente de dezassete anos (a três meses de completar dezoito). Como os pais, também ele é Testemunha de Jeová e, como eles, também recusa o tratamento.
Este telefonema faz Fiona esquecer a agitação, indignação, cólera e tristeza da desavença conjugal. Mais tarde analisará o comportamento do marido. Agora, tem de pensar, ouvir os intervenientes, agir e decidir razoável e legalmente. 
Quer ver o rapaz com os seus próprios olhos. Vai visitá-lo ao hospital. Encontra um jovem crente, preparado para morrer, inteligente, adorável, escritor de poemas e a aprender violino. No quarto do hospital ele tocou para ela. Ela cantou para ele. Depois, disseram adeus. Para sempre?
Fiona, a mulher de cinquenta e nove anos abandonada, na primeira infância da velhice, ainda a aprender a gatinhar, tem em mãos um caso urgente e complexo. No tribunal, redige a sentença.
Vai haver transfusão ou não?
Vai Fiona respeitar a fé de Adam?
Vai salvá-lo?
E, já agora, o seu casamento desmorona ou conseguirá a “Meritíssima” resolver uma questão pessoal?
Saberá tudo se ler este “religioso, musical e judicial” romance. 
Mais, saberá quem escreveu o poema (e que poema!) de onde tirei este verso:
Quem afunda a cruz à vida porá termo.

Trama excelente. Escrita brilhante.
Gostei… mas continuo a eleger “Sábado” como o melhor de Ian McEwan. Um dia destes vou relê-lo.

A balada de Adam Henry, de Ian McEwan
Tradução de Ana Falcão Bastos
Ed. Gradiva, 2015
190 págs.

10 abril, 2015

"Amesterdão" - Ian McEwan

Pobre Molly. Tudo começou com um formigueiro no braço no momento em que o ergueu junto do Dorchester Grill a fim de mandar parar um táxi. (…) A rapidez com que caíra na loucura e no sofrimento tornou-se o tema de todas as conversas: a perda do controlo das funções físicas e, ao mesmo tempo, de todo o sentido de humor, e, em seguida, a perda do sentido da realidade, entrecortada de episódios de violência e de gritos abafados.
Logo nas primeiras páginas desta curta novela – que valeu ao escritor o Man Booker Prize, 1998 - ficamos a par da doença, morte e funeral de Molly. Assim, de rompante. Depois, começa a história. E que história!
Molly Lane era uma conhecida figura da sociedade londrina, uma brilhante crítica de gastronomia e fotógrafa. Presentes no seu funeral, que juntou centenas de pessoas, estão quatro homens que a amaram - Clive Linley, Vernon Halliday, Julian Garmony, ex-amantes, e George, o marido. Marido que ela nunca abandonara, embora sempre o tivesse tratado mal. 
Os quatro homens conhecem-se. Clive e Vernon são mesmo grandes amigos. 
Clive é um pianista, compositor de sucesso. Foi quem primeiro conheceu Molly. Em 1969, eram ambos estudantes, apaixonaram-se e viveram juntos alguns anos. Mantiveram-se bons companheiros e gostavam de falar das suas relações, de música, de comida.
Vernon é jornalista, director do “The Judge”, jornal que necessita rapidamente de uma notícia bombástica. Conheceu Molly em 1974,em Paris. Ele conseguira o primeiro emprego na Reuters, ela fazia alguns trabalhos para a Vogue. Viveram juntos um ano. Reataram em meados dos anos 80.
Julian é um político desprezível e corrupto, candidato a primeiro-ministro. A sua relação com Molly foi recente e breve.
George, é um editor triste e rico, taciturno e possessivo. Louco por Molly, nunca pôde impedi-la de ter ligações, mas no fim teve-a só para si, quando decidiu tratar dela, selecionar as visitas e dosear a presença dos ex-amantes, quando ela já não conseguia reconhecer o seu próprio rosto no espelho.
A morte inesperada e triste daquela rapariga encantadora, aos quarenta e seis anos, vai despoletar uma série de estranhas e imprevisíveis ocorrências, que trazem ao de cima o pior dos vícios humanos – a traição pessoal.
E como acaba esta irresistível comédia negra?
Com fotos estranhas a andarem de mão em mão. Com um erro grave de discernimento editorial. Com sinfonias inacabadas. Com uma operação de coração aberto. Com medos da solidão. Com amigos que viram inimigos mortais. Com um voo de Manchester para Amesterdão. 
Amesterdão? Sim, Amesterdão, onde tudo vai acabar… mal.
Confuso? 
Ainda bem!

Amesterdão, de Ian McEwan
Tradução de Ana Falcão Bastos
Ed. Gradiva, 1999
191 págs.

10 maio, 2013

"Mel" - Ian McEwan

 
Chamo-me Serena Frome (rima com plume) e há quase quarenta anos fui enviada numa missão secreta para os serviços de segurança britânicos. Não regressei incólume.
Serena é a protagonista/narradora desta história de espionagem, vivida no período da guerra fria, numa Inglaterra em plena crise política e económica, com convulsões sociais e actos de terrorismo. Mas é, também, uma empolgante história de amor, intriga, traição e livros, muitos livros.
Apesar do ritmo acelerado com que ela fala da sua infância e adolescência, ficamos a saber que até aos dezoito anos de vida nada de estranho ou de terrível lhe aconteceu; que é filha de um bispo anglicano, de uma mãe ambiciosa e autoritária; tem uma irmã mais nova (que não tem a sua beleza, nem inteligência); cresceu numa casa recheada de livros; sabe jogar ténis, adora ler romances e é dotada para a matemática. Sabemos, também, que queria tirar um curso de Inglês, mas acabou por tirar Matemática, em Cambridge. Graças à minha mãe, estava a tirar o curso errado, mas não parei de ler.  Ler... era a minha maneira de não pensar.
Enquanto estudante universitária, Serena mantém os hábitos de leitura e… coleciona namorados.
No último ano do curso escreve uma coluna “O Que Li na Semana Passada”, na revista ?Quis? É um sucesso, mas, uma mudança dos seus gostos literários e o cunho anticomunista das crónicas semanais, leva ao seu despedimento: o declínio teve início com os cinquenta minutos que passei com Um dia na vida de Ivan Denisovitch, de Alexandre Soljenitsine.
Nesse mesmo ano, tem uma relação com Tony Canning, um atraente homem de cinquenta e quatro anos, casado, professor de História, com duas paixões na vida: beber e conversar. O caso dura poucos meses, mas os suficientes para mudarem a vida de Serena. Com um determinado fim em vista, o amante impõe que ela abandone os romances e passe a ler livros sobre história. Faz-lhe verdadeiros exames orais sobre essas leituras.
…passadas algumas sessões e alguma rabugice… comecei a dar-me conta da própria história.
Tony Canning, candidata Serena aos serviços de segurança britânicos MI5 e prepara-a para uma entrevista de emprego.
Logo de seguida, o professor de história, ele próprio um veterano do MI5, termina de forma estranha a relação com ela e… desaparece.
No início dos anos 70, Serena é admitida nos serviços secretos, na categoria mais baixa do funcionalismo público, responsável pelo arquivo, indexação e trabalho afim de biblioteca. Desolada, a matemática e jogadora de xadrez, considera o cargo um insulto mas aceita, decidida a pôr ordem na sua vida.
Meses depois, Serena é convidada a participar numa missão secreta, com o nome de código Mel.
O objectivo é convencer Thomas Haley, um promissor romancista que procura um editor, a aceitar uma bolsa oferecida por uma organização de fachada, para que possa trabalhar a tempo inteiro na escrita, durante dois ou mesmo três anos.
Serena arranja para si uma vida secreta e vai conhecê-lo, conviver com ele e, dissimuladamente, convencê-lo a escrever temas que interessem... ao governo.
A fundação considera-o um talento único e extraordinário…
Tom Harley pensa na oferta, desconfia… mas aceita.
E Serena, a agente secreta "angariadora de talentos", a representante da Fundação da Liberdade que promove a cultura junto de um certo tipo de intelectuais, a matemática, a leitora compulsiva … apaixona-se e perde-se num mundo de segredos, mentiras e desilusões.
O que vai acontecer quando o escritor descobrir que lhe andámos a pagar a bolsa? Vai ficar furioso.
Ficará?
Não posso desvendar mais nada sobre o que se passa a seguir. Tenho de guardar segredo.
Para descobrir vai ter de “espiar” as voltas e reviravoltas deste extraordinário thriller de espionagem, que é, também, um manual de História e uma original homenagem aos escrevedores de livros.
Deixe-se levar por uma escrita elegante e rigorosa e penetre nos bastidores da política e dos serviços secretos. 
Perca-se num empolgante jogo da espionagem e descubra quem espia quem.
O final é surpreendente.
Divirta-se e aprenda… História.
“Manipular o leitor é o meu prazer principal”, disse o autor numa entrevista.
Comprovei!

Mel, de Ian McEwan
Ed. Gradiva,
Tradução de Ana Falcão Bastos
386 págs.

09 outubro, 2012

Vale a pena ler... Ian McEwan

Cito excertos da interessante conversa de Ian McEwan com Isabel Coutinho, em Paraty, aquando do lançamento do livro “Mel”:
Quando escreveu Expiação teve de “tentar entrar na pela de uma mulher de 30 anos como era lembrada por uma mulher de 78 anos”. Agora, em Mel, como Serena, teve de “viver como uma jovem mulher imaginada por um jovem homem”. Não lhe custou?
Acho que é preciso estabelecer um contexto na nossa imaginação e depois todas as personagens e percepções o seguem. Uma vez feito, deixa de ser um esforço constante. Quando tomamos a decisão e ajustamos a nossa mente a um certo formato, depois é só deixar ir.
Tal como o pintor vai desenhando o retrato, traço a traço, o romancista a determinada altura vê a personagem.
Às vezes, uma personagem tem personalidade e não precisa de um rosto. Alguns dos meus personagens crescem a partir de uma frase.
Como leitor, Ian McEwan sabe que é preciso ter muita paciência para se ler um romance que durante oito a 36 horas precisa da nossa atenção contínua. Enquanto à nossa volta existem tantas coisas que nos atraem e nos desviam da leitura.
Por isso acho que os escritores devem um serviço aos leitores em termos de clareza. Sei que não estou sozinho nisto, a quantidade de romances que comecei a ler e não acabei… Muitas vezes o que me motivou a não continuar com a leitura foi a falta de clareza nas páginas iniciais de uma obra. Parece-me crucial que se convidamos o leitor a entrar em nossa casa, não há grande vantagem em sermos obscuros.

Excerto da crónica de Isabel Coutinho, publicada na revista Ípsilon, suplemento do jornal Púbico, de 5 Outubro 2012.
Vale a pena ler na íntegra.

23 setembro, 2011

"Na praia de Chesil" - Ian McEwan

Este romance de Ian McEwan tem 128 páginas.
Pequenino, não é?
Enganam-se. É um ENORME romance, profundo, inteligente, sobre sentimentos, silêncios, medos, dúvidas, libertação, uma história de vidas transformadas por um gesto não feito ou uma palavra não dita.
A história começa com o jantar de Edward e Florence na suite destinada a casais recém-casados, num hotel na praia de Chesil, na costa de Dorset.
Eles eram jovens, licenciados, ambos virgens naquela sua noite de núpcias, e viviam numa época em que uma conversa sobre dificuldades sexuais, que nunca é fácil, era simplesmente impossível.
Não tinham dúvidas de que queriam passar juntos o resto da vida.
O seu casamento tinha corrido bem; o serviço religioso foi correcto, a recepção divertida, a despedida dos amigos da escola e da faculdade ruidosa e animada.
E o namoro?
O seu namoro fora uma pavana convencional... nada era discutido e eles não sentiam a falta de uma conversa íntima.
Tudo perfeito?
Não!

Que pequeno grande livro.
Li-o pela primeira vez em 2007, e recordo que a história me encantou e incomodou.
Voltei a ele e o prazer da leitura foi ainda maior.
Lê-se de um fôlego, mas o final – arrasador - mantém-se por muito tempo na nossa memória.

Na praia de Chesil, de Ian McEwan
Gradiva, 2007
Tradução de Ana Falcão Bastos
128 págs.

19 julho, 2011

"Expiação" - Ian McEwan

Descobri este autor em 2006, quando me aconselharam a leitura de “Sábado”.
Em 2008 voltei a ele, para ler este espantoso, inteligente e comovente romance, que descreve de forma brilhante a infância, o amor, a vergonha, a culpa, o perdão e os conflitos sociais, numa Inglaterra em guerra.
Como pode uma escritora expiar os seus crimes se, com o poder absoluto de decidir o final, é em certa medida Deus? Não há expiação para Deus, nem para os escritores, mesmo que sejam ateus.
Cecilia e Robbie conhecem-se desde os sete anos e amam-se, apesar de o mal-estar que sentem quando estão juntos.
Após o regresso de ambos de Cambridge e de anos sem se falarem, encontram-se junto da fonte no jardim e trocam algumas palavras envergonhadas.
Ela mergulha na água uma jarra com flores. Ele tenta ajudar e a jarra parte-se. Ela, zangada, despe-se e em roupa interior entra na água para recuperar os cacos, mergulha e desaparece.
Ele apavorado procura-a na água e, quando ela sai da fonte, perde o olhar no seu corpo molhado.
Ela veste-se e dirige-se para casa, sem olhar para trás.
Este acontecimento é visto por Briony, 13 anos, irmã de Cecilia, que, perdida nas suas fantasias de escritora, imagina ter assistido a uma cena de mistério, autoritarismo, chantagem e ameaças.
Nesse dia, a vida destas três personagens mudará para sempre.
Passadas seis décadas, para Briony, a escritora, nada restava daquela cena muda que decorrera junto da fonte, a não ser o que sobrevivera na memória, em três memórias distintas e sobrepostas.
Irá a tempo de expiar o seu crime?

Expiação, de Ian McEwan
Gradiva, 2001
Tradução de Maria do Carmo Figueira
419 págs.

06 dezembro, 2010

"Solar" - Ian McEwan

Solar” é uma comédia sobre a fragilidade humana e um dos grandes problemas do mundo moderno – o aquecimento global.
Recorrendo com mestria ao humor e à sátira, o autor centra a acção do romance no protagonista Michael Beard (calvo, baixo, gordo, inteligente, anedótico, devastado), grande conhecedor das energias alternativas, físico galardoado com o Prémio Nobel aos trinta e poucos anos, que a partir daí se limita a viver à sombra dos louros, participando apenas em conferências, seminários e entrega de prémios.
No primeiro capítulo do livro, com 53 anos, depois de quatro casamentos falhados (nenhum durara mais de seis anos), um rol de infidelidades e total desinteresse pelo trabalho, encontra-se a braço com o colapso do quinto casamento. Só que desta vez era a mulher que o traía de forma flagrante, sem remorsos, com o empreiteiro que fizera obras em sua casa, e ele descobria, no seu íntimo, momentos intensos de vergonha e nostalgia “nenhum o tinha rebaixado tanto … provocado tamanho aumento de peso e uma tal loucura secreta…” ele que “tinha sido um mulherengo mentiroso, tivera o que merecia … que havia de fazer agora, para além de aceitar o castigo? A que deus iria apresentar as suas desculpas?” Tinha de recuperar a mulher – que agora considerava perfeita – e nunca lhe parecera tão desejável.
O confronto entre ele “cheio de refegos de banhas, fracalhote, incapaz de fazer oito elevações consecutivas” e o amante da mulher “com uma constituição de trabalhador da construção, quase vinte centímetros mais alto e vinte anos mais novo” é hilariante.
Para fugir à humilhação aceita um convite para uma expedição ao Pólo Norte. O grupo integra artistas e cientistas preocupados com as alterações climáticas. Na viagem vive uma série de situações embaraçosas e burlescas genialmente descritas pelo autor.
Regressa a casa decidido a desmantelar o cenário do seu casamento “cheio de remorsos, lamentando não saber o truque para fazer a mulher amá-lo, mas resignado”. Na sala encontra um homem no sofá, com o cabelo a pingar, de roupão vestido (o seu roupão) e não era o empreiteiro… vinte minutos depois está morto com uma pancada na cabeça. Não sabia o que fazer. Depois soube.
Nos capítulos seguintes ele continua incapaz de alterar vícios e rotinas, a ser “um pateta temerário, com hábitos muito arreigados, nem um nadinha mais sensato do que havia sido aos vinte e cinco anos, nenhumas perspectivas de melhoras” que não resiste ao plágio, que vomita a seguir a uma conferência sobre energias limpas, mulherengo, com as mesmas preocupações abstractas “o seu peso, o coração que bate com demasiada irregularidade, as tonturas quando se punha de pé, as dores nos joelhos, nos rins, no peito, o cansaço sufocante, uma mancha vermelha no pulso”, que considera como crimes contra a sua pessoa.
Sarcástico. Genial.

Solar, de Ian McEwan
Gradiva, 2010
Tradução de Ana Falcão Bastos
338 págs.