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11 março, 2016

"Zona" - Nuno Moreia (fotógrafo) e José Luís Peixoto (escritor)


"ZONA é um projecto de edição do fotógrafo Nuno Moreira com a participação do escritor José Luís Peixoto.

O fotógrafo Nuno Moreira inaugura a partir de 5 de Março, uma exposição e lançamento simultâneo do seu mais recente foto-livro "ZONA", realizado entre Tóquio e Lisboa, reunindo 30 imagens que exploram medos, sonhos e paisagens interiores.

O livro "ZONA" trata-se de uma edição de artista limitada a 300 exemplares que foi publicada em Dezembro de 2015 e que tem como base uma performance realizada e pensada exclusivamente para o registo das imagens patentes no livro.

Com uma base conceptual as fotografias exploram paisagens interiores, partindo de um estudo sobre a psique humana e uma procura em representar de forma concreta os recantos do inconsciente.

Para além de fotografias o livro conta também com textos do escritor José Luís Peixoto inspirados no universo das imagens.

A exposição irá estar patente na Travessa da Ermida em Belém até ao dia 27 de Março."

LOCAL: Travessa da Ermida - Travessa do Marta Pinto 21, Lisboa
EVENTO NO FACEBOOK: https://www.facebook.com/events/923212541126080/933056060141728

08 março, 2016

Mulher


“Os teus olhos foram feitos para atravessar o invisível.
De outro modo, ficariam presos em todas as camadas que dão forma aos objetos; mas se souberes acrescentar e subtrair, nada deste mundo será interdito aos teus olhos, nenhum muro será suficientemente opaco para detê-los, nenhum invisível será suficientemente fino para escapar-lhes.
Acredita nos teus olhos com a mesma força com que crês naquilo que tos teus olhos veem.”

"Não poderás ensinar mais do que sabes; aquilo que souberes será aquilo que acreditares; aquilo que acreditares existirá dentro de ti, terá a forma de um mistério que nunca entenderás completamente e, no entanto, os teus filhos irão recebê-lo, de modo puro e inalterado, através dos teus olhos.
Queiras ou não, assim será.
Os olhos não permitem a mentira.”

Tirei daqui:
Em teu ventre, de José Luís Peixoto
Ed. Quetzal, 2015

23 fevereiro, 2016

Surripiei daqui... "Em teu ventre", de José Luís Peixoto


 

“Peço-te perdão, mãe, luz mais incandescente do que o sol.
Se fui indigno do que antecipaste para mim, se te faltei no que só eu podia permitir (…).”


“(Não precisas de pedir desculpa. Perdoei-te antes de a luz se separar das trevas, antes mesmo de as trevas cobrirem o abismo. Ainda não tinhas escrito uma única palavra e já eu te tinha perdoado. Perdoei-te antes do verbo.)”


Não foi por mal!

(Fotos da net)

16 fevereiro, 2016

Surripiei daqui... "Em teu ventre", de José Luís Peixoto


“(ENTENDER OS OUTROS não é uma tarefa que comece nos outros. O início somos sempre nós próprios, a pessoa em que acordámos nesse dia. Entender os outros é uma tarefa que nunca nos dispensa. Ser os outros é uma ilusão. Quando estamos lá, a ver aquilo que os outros veem, a sentir na pele a aragem que outros sentem, somos sempre nós próprios, são os nossos olhos, é a nossa pele. Não somos nós a sermos os outros, somos nós a sermos nós. Nós nunca somos os outros. Podemos entendê-los, que é o mesmo que dizer: podemos acreditar que os entendemos. Os outros até podem garantir que estamos a entendê-los. Mas essa será sempre uma fé. Aquilo que entendemos está fechado em nós. Aquilo que procuramos entender está fechado nos outros.)”


“(Não se pode imaginar onde chegariam as mães sem o melindre a que as sujeitam. Se um louco agredir o filho, a mãe fica logo à sua mercê. O mal que fizerem ao filho será como se fizessem dez vezes pior a ela. Depois, o tempo passa. Quando crescem, os filhos seguem as suas vidas e, contrariados, visitam as mães em dias santos e folgas. Já não lhes fazem falta.)”


“Ao filho autêntico, basta fechar os olhos para encontrar o rosto da mãe.”


Não foi por mal!

(Fotos da net)

09 fevereiro, 2016

Surripiei daqui... "Em teu ventre", de José Luís Peixoto


“(Não te peço os exageros de Deus a falar da sua mãe, mas seria tão bom se tivesses alguma coisa agradável para dizer sobre mim. Não seria preciso que mo dissesses cara a cara, bastava que escrevesses. Depois, quando lesse essas palavras, podia imaginá-las na tua voz.)”

“(Na hora em que nasceste, também eu nasci. O teu olhar trouxe-me oportunidade de abandonar o peso dos erros, memórias inúteis. Descobri tarde que, afinal, sem esses erros, eu era outra pessoa.)”

“(Os teus olhos apenas veem o que são capazes de ver. É sempre assim. É tua obrigação desconfiar do que vês, questioná-lo até ao último resto de sombra.)”

“(... quando não me achares na tua cabeça, será porque tu próprio não estás lá. Sou a tua mãe, sou o universo. Acredita: nunca me conseguirás manter entre parêntesis.)”


“Quando choras, mãe, o mundo inteiro chora contigo.”


Não foi por mal!

(Fotos da net)

26 janeiro, 2016

Surripiei daqui... "Em teu ventre", de José Luís Peixoto


“(Talvez porque escreves livros, pareces convencido de que toda a gente precisa de saber ler. Não creias, há ignorâncias muito piores. Eu sei que é triste sermos obrigados a ficar do lado de fora, sem autorização, como se quisessem fazer-nos ver que não temos a valia dos outros. Conheço bem essa ofensa, acredita. Mas repara em tantas vidas que prosperaram sem uma letra, repara também em quantos sabem ler e nunca chegam a passar de imbecis.)”

“(Não são as palavras que distorcem o mundo, é o medo e a vontade. As palavras são corpos transparentes, à espera de uma cor. O medo é a lembrança de uma dor do passado. A vontade é a crença num sonho do futuro. Não são as palavras que distorcem o mundo, é a maneira como entendemos o tempo, somos nós.)”


“Mãe, atravessas a vida e a morte como a verdade atravessa o tempo, como os nomes atravessam aquilo que nomeiam.”


Não foi por mal!

(Fotos da net)

19 janeiro, 2016

Surripiei daqui... "Em teu ventre", de José Luís Peixoto


“(Quando eras pequeno, eu guardava-te a melhor parte de tudo. Se alguém se atrevesse a cobiçar as coisas do menino, eu tornava-me fera. Gostava de saber porque é que agora nunca me chamas para compartir as partes boas. Mas se houver alguma desgraça, é certo que vens logo a correr queixar-te.)”

“(À hora de almoço, só precisavas de ocupar o teu lugar à mesa. Mesmo assim, ainda te achavas no direito de me acusar de sal a mais ou a menos. Nunca valorizaste o meu cansaço, porque sempre ignoraste o meu trabalho e o meu transtorno. Agora, juntas estas palavras como se realizasses uma grande façanha. É bem feito que os que estão a dormir sejam os primeiros a criticar-te adjetivos. No fundo, acontece-te com eles o mesmo que me acontecia contigo: por aparecer feito, supunhas que não custava nada.)”


Não foi por mal!

(Foto da net)

13 janeiro, 2016

Surripiei daqui... "Em teu ventre", de José Luís Peixoto



“Mãe, volto a nascer de ti sempre que tenho de mostrar toda a esperança de que sou capaz.
Sem ti onde estaria aquele que sou?
Sem ti, eu não seria eu; teria outro nome, outro rosto, estaria noutro lugar (…)
Sem ti, a verdade seria outra.
Mãe, primeira e última palavra.”

Não foi por mal!

(Foto da net)

12 janeiro, 2016

Surripiei daqui... "Em teu ventre", de José Luís Peixoto


“(Todas as pessoas têm direito a descanso, menos as mães. Para cada tarefa, profissão ou encargo há direito a uma folga, menos para as mães. Se alguma mãe demonstrar a mínima fadiga de ser mãe, haverá logo uma besta, ignorante de limpar baba e de partir, que se oferecerá para a pôr em causa. Não é mãe, não sabe ser mãe, não foi feita para ser mãe, dirá. Mas, se todas as pessoas têm direito a descanso, será que as mães não são pessoas? A culpa é nossa. Sim, a culpa é das mães. Deixámos que fossem os filhos a definir-nos.)”

Não foi por mal!

(Foto da net)

08 janeiro, 2016

"Em teu ventre" - José Luís Peixoto

Porque viria Nossa Senhora, infinita e universal, a este pequeno país? Num mundo tão necessitado, onde em tantos lados a ignoram e agridem, porque viria a mãe de Deus a este país e, podendo escolher à vontade no mapa, porque viria exatamente aqui?

A sinopse diz:
"A partir de um ponto de vista inteiramente novo, Em Teu Ventre retrata um dos episódios mais marcantes do século XX português: as aparições de Nossa Senhora a três crianças, entre maio e outubro de 1917.
Cruzando o rigor da sua dimensão histórica com a riqueza de uma galeria de personagens surpreendes, este livro propõe uma reflexão acerca de Portugal, naquilo que tem de mais subtil e profundo.
Tanto na aparente simplicidade como no abismo do seu mistério, a maternidade é também um dos temas marcantes de Em Teu Ventre."

Já eu, nada vou revelar sobre o enredo deste romance soberbo. 
Nem sobre as personagens  (Maria, mãe de Lúcia, e Maria da Capelinha são magníficas).
Nem sobre a escrita cativante e viciante e cintilante de José Luís Peixoto.
Nada!
Li o romance. Absorvi o conteúdo. Não o esquecerei. Recomendo a sua leitura. Não minto. Basta!
Uma mentira, fina com um cabelo, perturba para sempre a ordem do mundo.
Uma mentira, mesmo que transparente, perturba o entendimento que os outros têm da realidade, leva-os a acreditar que é aquilo que não é.
Uma mentira baralha tudo aquilo em que toca, desequilibra o mundo. É por isso que uma mentira precisa sempre de mentiras novas para se suster.

Em Teu Ventre voltará ao “rol de leituras” muitas outras vezes. Não resisto a citar o que verdadeiramente me deslumbra. Que me desculpem os meus seguidores e, principalmente, o autor.
A que horas vai chegar Nossa Senhora?

Em teu ventre, de José Luís Peixoto
Ed. Quetzal, 2015
163 págs.

24 novembro, 2015

Aprende-se muito na insensibilidade... em “Galveias”, de José Luís Peixoto


Aprende-se muito na insensibilidade. Regra desde o começo do mundo: quando os homens casados querem algo, começam por se queixar da mulher. As coisas lá em casa não andam muito bem; vivemos juntos, mas já não há nada entre nós; estamos quase a separar-nos. Então, quando se aperta com eles, dando um pouco e tirando um pouco, passam à fase de prometer que vão deixar a mulher, mas precisam sempre de tempo. Só estou à espera do momento certo; a notícias vai arrasá-la, coitada; confia em mim, já falta pouco. Depois o tempo continua a passar: os filhos, a casa, os sogros, etc. E um dia, de repetente, chega a notícia: adeus, o problema não és tu, sou eu. Grande novidade.
(...)
Desaprende-se muito na insensibilidade.”


(Foto tirada da net.)

07 novembro, 2015

"Galveias" - José Luís Peixoto


ENTRE TODOS OS LUGARES POSSÍVEIS, foi naquele ponto certo.
Durante um minuto inteiro, Galveias foi atravessada por uma sucessão de explosões contínuas, sem um intervalo pequeno, sem uma folga. (...)
Quando o barulho terminou, ficou o silêncio insistente, um guincho nos ouvidos. Então, podiam ter gritado, mas aquele já não era tempo de gritos, era hora de respirar. Por isso, todos foram para a rua, velhos crianças, mulheres, homens com a barba por fazer.
O ar estava coberto por um sólido cheiro a enxofre.
Galveias” é um magnífico romance (ou livro de memórias?), uma homenagem comovente prestada pelo autor aos seus conterrâneos galveenses.
Galveenses que numa noite escura e fria de Janeiro de 1984 ouvem um estrondo estranho, como se a terra estivesse a partir-se ao meio, e na manhã seguinte descobrem na herdade do Cortiço, uma coisa sem nome, caída numa cratera redonda e inédita, que só conseguem esquecer após sete dias de chuva ininterrupta.
“Galveias” é um bem construído retrato psicológico rural, que nos prende da primeira à última página. 
Depois do estranho início o romance prossegue com um rendilhado de histórias misteriosas, risíveis, sofredoras e enternecedoras, contadas a partir de um núcleo alargado de personagens, que convivem num tempo e num lugar: o velho Justino (quando decidiu matar o irmão que não via há mais de cinquenta anos, fizeram as pazes); Chico Francisco; João Paulo (doido por motas); Sem Medo; Funesto; doutor Matta Figueira; Acúrcio; Joaquim Janeiro (tem em casa uma caixa fechada onde guarda a Guiné); ti Adelina Tamanco; Joaquim Janeiro, Rosa Cabeça e Joana Barreta (uma história hilariante, um amor proibido); Bartolomeu; ti Silvina; menina Aida; Miau; Isabella (brasileira, prostituta e padeira); Cebolo; ti Manuel Camilo; Maria Teresa (a professora nortenha de língua afiada); Isaura; o padre Daniel; Maria Assunta; etc., etc., etc..
Todos temos um lugar onde a vida se acerta.
Sem acusar cansaço, e sempre sentindo no ar o cheiro do enxofre, calcorreamos as ruas geladas e escuras da vila; penetramos na intimidade de gente humilde e trabalhadora; espreitamos namoros, casamentos e funerais; sabemos de segredos; escutamos choros e lamentos; vimos passar a motorizada enlouquecida do Catarino; admiramos passos de dança; sentimos o cheiro de pão fresco; ouvimos ladrar cães de vários tamanhos; viajamos com o carteiro até à Guiné; fugimos de chuva gelada; lemos panfletos que anunciam aulas de alfabetização para adultos; revoltamo-nos com a tareia  dada ao ti Manuel Camilo; conhecemos o padre Daniel; vimos nascer uma menina, que tinha o cheiro normal das crianças acabadas ade nascer. Não cheirava a enxofre.

Galveias é uma pequena vila do distrito de Portalegre, terra natal de José Luís Peixoto.
Galveias não pode morrer.
Genial!

Galveias, de José Luís Peixoto
Ed. Quetzal, 2014
278 págs.

02 outubro, 2015

"Abraço" - José Luís Peixoto

Eu não tomo café, faz-me mal, e só em ocasiões raras aceito algum licor, por isso, após almoços e jantares, para ajudar a digerir, converso abundantemente. (O peso do tecto)
Começo por dizer que nunca li um livro como este. Nunca!
É um livro feito de abraços ternurentos, que nos enleiam da primeira à última página.
Lançado em 2011, “Abraço” reúne cento e sessenta e duas crónicas intimistas - José Luís Peixoto escreve sobre si com invulgar desassombro - publicadas ao longo de uma década (2001-2011) em revistas e jornais.
“Precisava de organizar tudo o que tinha. Não no sentido de organizar os papéis que tinha lá em casa, mas organizar a minha cabeça e para poder ter novas ideias. É muito importante tirarmos do nosso sistema o que temos para termos novas ideias.”, disse ele ao “Correio da Manhã", em Dezembro de 2011.
Se te quiserem convencer de que é impossível, diz-lhes que impossível é ficares calado, impossível é não teres voz. (Impossível é não viver)
As crónicas discorrem sobre temas variados, uns mais complexos, outros mais ligeiros e estão agrupadas em três idades do autor: seis anos; catorze anos; trinta e seis anos. São todas interessantes e cativantes. E desvendam tanta coisa…
. a infância e a adolescência no Alentejo - Vale a pena nascer, crescer, vale a pena a adolescência inteira, todos os sacrifícios, vale a pena a responsabilidade, vale a pena sair pelo desconhecido e ter de estar preparado para o impossível. (Miau)
. os pais, as irmãs, a avó - A minha avó era uma mulher do campo. Passou a mocidade e a vida adulta a trabalhar no campo, na terra. Chamava-se Joaquina Pulguinhas. A minha avó escrevia cartas muito devagarinho. Com letra tremida, escrevia o nome dos netos nos embrulhos dos presentes. Em casa, viúva, reforma de trinta contos, sozinha, começou a ler livros. Não sei quanto tempo demorava a lê-los, mas sei que os lia com o esforço da atenção, palavra a palavra. (Alma)
. os filhos -  Assistirmos ao sofrimentos do nosso filho é estarmos em carne viva por dentro, é não termos pele, é um incêndio a arder no mundo inteiro, mesmo no mundo inteiro.(Acompanhante: pai)
. bibliotecas, livrarias, livros, escritores (Sophia e Saramago estão entre os muitos escritores aludidos.)
. a escrita - Quando acabei de escrever o meu primeiro romance, fechei-me em casa durante duas semanas. Nesse tempo fechado do mundo vivi cada olhar de cada personagem, cada esperança, cada angústia. Na altura era muito novo. Creio que se o tivesse feito hoje me teria suicidado no último dia dessas duas semanas, como desfecho lógico. (O cadáver de James Joyce)
. cidades, aeroportos e viagens - As primeiras viagens que fiz não se destinavam a chegar a algum lado, mas sim a fugir de qualquer coisa. Por sorte, quando se foge de qualquer coisa, chega-se sempre a algum lado. (Literatura de viagens)
. música e cinema
. tatuagens
. amor, muito amor
. vida - Uma única vida é pouco. Para se fazer aquilo que se sabe, se pode, se quer e se deve fazer é preciso deixar muitas outras coisas para trás. (Desistir)
. etc., etc., etc.
Leia, por favor.
Não “salte” nenhuma das crónicas. Leia-as todas. A última, (Manifesto branco), é um deslumbramento. 
Pureza, repito a palavra apenas pelo prazer de articulá-la. Experimenta. Se te sentires ridículo ao fazê-lo, sabe que essa é uma armadilha que deixaste que te colocassem. Ignora-a. Diz: Pu-re-za. (…)
Pureza, repito agora para que se instale e se respire. Retira a maldade até das coisas más. Se te sentires ingénuo ao fazê-lo, sabe que, uma vez mais, essa é uma armadilha que deixaste que te colocassem. Se não conseguires evitá-la, ignorá-la, aceita a ingenuidade. A ingenuidade faz o sangue circular com mais fluidez do que o cinismo. A ingenuidade desconhece o colesterol. O cinismo é hipertenso. (…)
Pureza, repete. Tu tens direito à felicidade.
Agora vai. Tens a vida à espera de abraçar-te.
Abrace você, quem tão bem escreve na nossa língua. Abrace a vida.
Ponto final.

Abraço, de José Luís Peixoto
Ed. Quetzal, 2014
655 págs.

29 setembro, 2015

Os livros, em...


“A ridícula ideia de não voltar a ver-te”, de Rosa Montero
"Os livros nascem de um germe ínfimo, de um ovinho minúsculo, de uma frase, de uma imagem, de uma intuição; crescem como zigotos, organicamente, célula a célula, diferenciando-se em tecidos e estruturas cada vez mais complexas até se transformarem numa criatura completa e, frequentemente, inesperada."

"Abraço", de José Luís Peixoto
"Os livros, esses animais sem pernas, mas com olhar, observam-nos mansos desde as prateleiras. Nós esquecemo-nos deles, habituamo-nos ao seu silêncio, mas eles não se esquecem de nós, não fazem uma pausa mínima na sua vigia, sentinelas até daquilo que não se vê. Desde as estantes ou pousados sem ordem sobre a mesa, os livros conseguem distinguir o que somos sem qualquer expressão porque eles sabem, eles existem sobretudo nesse nível transparente, nessa dimensão sussurrada. Os livros sabem mais do que nós mas, sem defesa, estão à nossa mercê. Podemos atirá-los à parede, podemos atirá-los ao ar, folhas a restolhar, no ar, ar, e vê-los cair, duros e sérios, no chão.
(…)
Os livros, esses animais opacos por fora, essas donzelas. Os livros caem do céu, fazem grandes linhas rectas e, ao atingir o chão, explodem em silêncio. Tudo neles é absoluto, até as contradições em que tropeçam. E estão lá, a olhar-nos de todos os lados, a hipnotizar-nos por telepatia. Devemos-lhe tanto, até a loucura, até os pesadelos, até a esperança em todas as suas formas."

(Foto tirada da net)

04 setembro, 2015

"Livro" - José Luís Peixoto

Se namorares comigo, dou-te um pombo, cem escudos e um livro.
Ora, acreditem que não foi necessário nada disto para me perder de amores por este romance de José Luís Peixoto.
Li na sinopse que o livro elegia como cenário a extraordinária saga da emigração portuguesa para França (….), acomodei-me no sofá e eufórica e expectante, li (e reli) a primeira frase:
A mãe pousou o livro nas mãos do filho.
Depois, bem, depois, li, li, li, devagar, para nada deixar escapar, uma história cruel mas arrebatadora, sobre o quotidiano de gente humilde de uma vila pobre do interior de Portugal, demasiado longe de cidades onde ninguém conhecia o seu nome. História onde não faltam segredos medonhos, grandes amizades, amores verdadeiros, despedidas, encontros e desencontros, saudades que confundem, livros, muitos livros, fugas da guerra e até uma revolução. História chocante de tão real e avassaladora, sobre homens e mulheres corajosas, que “saltam” fronteiras em busca de um melhor futuro. França é o destino. Paris a cidade de todos os sonhos.
A primeira a partir foi a mãe da frase inicial do romance. Partiu sózinha e ninguém na vila a censurou.
Deixou Ilídio, o filho de seis anos, com Josué, o pedreiro. Josué não era o pai do Ilídio, mas tratava dele com cuidado e ninguém, tinha nada a dizer.
Aos onze anos o Ilídio conheceu a Adelaide, de treze. Não se apaixonou logo por ela, mas anos depois, misturavam-se, compreendiam-se, sorriam ao mesmo tempo. Aos vinte de dois anos, pediu-a em noivado. Separou-os, sem despedidas, a tia Lubélia. 
Quando lá chegares, escreve-me um postal. Adelaide ouviu a tia mas não lhe respondeu. Com uma mala na mão e um xaile pelos ombros saiu de casa e percorreu ruas desertas e escuras atrás de um desconhecido, sem saber para onde ele a levava. Entrou para uma camioneta onde estava um grupo de homens encolhidos. Não se cumprimentaram. Não se conheciam. Em comum tinham a viagem da esperança: França.
Sobre a França Adelaide sabia apenas três coisas: as pessoas tinham máquinas que faziam a lida da casa… comiam carne de cavalo cozida… falavam estrangeiro.
Como iria entender-se num lugar em que toda a gente falava estrangeiro e comia cavalo?
Na vila, Ilídio pediu ao amigo Cosme: Ajudas-me a perguntar maneira de chegar à França? Dias depois, vão ambos de camioneta a caminho de França.
Adelaide sabia que o Ilídio iria procurá-la. Para além do amor que os unia, ela tinha consigo o livro que ele lhe deu para guardar. Adelaide conseguia imaginá-lo a não desistir de tudo o que tinham imaginado.
Mas… depois de muitas cartas sem resposta, invernos gelados, primaveras frias, verões frescos, aos vinte e sete anos Adelaide desiste de esperar e casa com…. um “leitor de livros”.
Pronto, pronto, não desvendo mais sobre este soberbo romance, feito de muitas histórias de vida de personagens inesquecíveis: Ilídio, Adelaide, Josué, Dona Milú, Galopim, Lubélia, Cosme, Constantino... 
Para acirrar a sua curiosidade, e como um nome, como um título, tem muita importância, deixe que lhe diga que o “Livro” do título do romance “nasceu” do amor de dois jovens de uma vila pobre do interior de Portugal, que se desencontram em França e se reencontraram, já velhinhos, na mesma vila pobre.
Estranho? Não, surpreendente!
De um romance chamado “Livro” eu esperava tudo mas nunca, mesmo nunca, o desconcertante encantamento das últimas páginas.
A mãe poisou o livro nas mãos do filho.
Um livro que acaba conforme começa é porque não acaba nunca.
Os livros que tenho nas estantes formam um desenho de mim: o que quero lembrar e o que não quero esquecer.
Este, eu jamais esquecerei
(O Nobel virá, tenho a certeza. E eu, quero viver para celebrar.)

Livro”, de José Luís Peixoto
Ed. Quetzal, 2010
263 págs.

23 maio, 2015

"Cemitério de pianos" - José Luís Peixoto

O tempo, conforme um muro, uma torre, qualquer construção, faz com que deixe de haver diferenças entre a verdade e a mentira. O tempo mistura a verdade com a mentira. Aquilo que aconteceu mistura-se com aquilo que eu quero que tenha acontecido e com aquilo que me contaram que aconteceu. A minha memória não é minha. A minha memória sou eu distorcido pelo tempo e misturado comigo próprio: com o meu medo, com a minha culpa, com o meu arrependimento.
“Cemitério de pianos”, quarto romance de José Luís Peixoto, baseia-se, apenas circunstancialmente, na história do atleta português Francisco Lázaro, que faleceu quando corria a maratona, nos Jogos Olímpicos de Estocolmo, em 1912.
Um dos personagens do romance tem em comum com o malogrado atleta, o nome (Francisco), a profissão (carpinteiro) e o gosto pela corrida. Todo o resto é ficção.
Há dois narradores-personagens neste romance. Têm o mesmo nome – Francisco, e a mesma profissão – carpinteiros. São pai e filho. Em tempos diferentes, eles desvendam a história da sua família, a família Lázaro: Francisco-pai, mãe, filhos (Marta, Maria, Francisco, Simão) e netos (Elisa, Ana, Hermes, Íris, Francisco). Família que vive entre o Alentejo e o bairro de Benfica, em Lisboa.
Todo o romance é impregnado da ideia de morte, mas o que se celebra é a vida.
Começa com a morte de Francisco-pai, a quem cabe a primeira frase da história: Quando comecei a ficar doente, soube logo que ia morrer - e termina com a de Francisco-filho, por exaustão, no quilómetro trinta de uma maratona, precisamente no dia do nascimento do seu  filho. Precisamente como aconteceu com o seu pai, que nasceu no dia em que o pai faleceu.
Quilómetro trinta
caio sobre mim próprio: pedras; a minha face assente sobre a estrada, o mundo turvo a partir dos meus olhos, a minha boca a sorver pó, as minhas pernas queimadas, brasas, os meus braços queimados, o meu coração, o meu peito a respirar
o tempo passa em Benfica, o silêncio passa sobre o cemitério de pianos
tenho de ir ao encontro do meu pai.
Mas a morte não é o fio condutor deste romance, que tem por foco principal as relações familiares. Esse está escondido na oficina de carpintaria da família: O Cemitério de pianos - o espaço central da narrativa.
O Cemitério de pianos. A minha mãe evitava falar dessa divisão fechada da oficina. Se o fazia, dizia sempre que não havia lá nada que me interessasse. Quando essa explicação deixou de ser suficiente, falou-me de sustos. Disse:
- Há sustos lá dentro.
Não. Lá dentro há pianos. Muitos pianos. Pianos "mortos", à espera que lhes dêem vida.
Pela oficina, ou melhor, pelo cemitério de pianos, passa a vida inteira desta família. Uma vida feita de amor, música, alegrias, tristezas, violência, dor, traições, fragilidades, morte e… vida.
Não, não vou desvendar o que sei sobre a família Lázaro, para deixar que se deslumbre e aplauda a grande e belíssima história imaginada por José Luís Peixoto.
Uma parte do meu pai ressuscitava quando me via ao espelho, quando existia e quando as minhas mãos continuavam a construir tudo aquilo que ele, secreto, tão próximo e tão distante, tinha começado. Então, pensava que havia uma parte do meu pai que permanecia em mim e que entregava aos meus filhos para que permanecesse neles até que um dia começassem a entregar aos meus netos. O mesmo acontecia com aquilo que era apenas meu, com aquilo que era apenas dos meus filhos e com aquilo que era apenas dos meus netos. Repetíamo-nos e afastávamo-nos e aproximávamo-nos. Éramos perpétuos uns nos outros.
Leia!

Cemitério de pianos, de José Luís Peixoto
Ed. Quetzal, 2006
283págs.

12 maio, 2015

Uma semana em Cabo Verde - sol, mar, areia, vento e... livros

Regressei de uma semana de férias no Sal, uma das menores ilhas habitadas de Cabo Verde, e principal foco de atracção turística do arquipélago.
A ilha do Sal é muito árida e plana, tem extensas praias de areia branca, um mar azul-turquesa, um clima ameno com pouca variação da temperatura, chuva escassa, e… e muito vento quente e seco, que chega do deserto do Sara.
Senti falta de mais calor (a temperatura não ultrapassou os 25 graus) e de mais banhos de mar (a água estava, vá lá, um pouco fria e agitada).
Aproveitei para visitar os pontos de maior interesse da ilha, caminhar na praia, apreciar a hospitalidade, alegria e simpatia do povo cabo-verdiano, ginasticar o corpo ao ritmo do funaná, ginasticar a mente em demoradas e excelentes leituras.
Comigo levei três livros:
Stoner - Na viagem de Lisboa para o Sal "entrei", meio às escuras, na história de vida do professor de literatura,William Stoner. História feita de desilusões, fracassos, tristezas.
Cemitério de pianos  - No areal, "espreitei", com óculos de sol, o quotidiano da família de Francisco. História cativante desde a primeira frase: "Quando comecei a ficar doente, soube logo que ia morrer".
Mataram a cotovia - Ainda no Sal, "mergulhei" nas primeiras páginas da história de Scout, a menina rebelde que cresce numa sociedade racista. Como não pude ler na viagem de regresso, cheguei ao fim da história já "derramada" no meu sofá.

No Sal, mesmo sem o sofá habitual, senti-me em casa.
A sério!

20 março, 2015

"Uma casa na escuridão" - José Luís Peixoto

A minha mão direita tremeu durante todo o mês da noite e, disso, só o sofrimento, só a ansiedade. E não conseguia escrever. Escrevia pouco. Pensava muito. Dava muitas voltas. E escrevia uma palavra e um ponto final: palavra. Passava horas para me obrigar a escrever uma palavra e, depois, passava horas a repeti-la, encantado pela sua tristeza, pois todas as palavras eram tristes.
Bem, também eu não consigo escrever. Escrever sobre o que li.
Por mais que pense, por mais que procure, não encontro as palavras certas.
Dias depois de terminar a leitura das 253 páginas de texto denso, continuo atordoada com a força das palavras do escritor - que vive numa casa envelhecida e escura, com o pai (que escreve sonetos; que se fecha no quarto com a escrava madalena e fazem sons de homem e mulher; que mata a amante para não morrer sozinho), com a mãe (que sabia e fingia que não sabia; que perdeu o interesse pela vida como se perdesse a própria vida), a escrava miriam e muitos gatos de várias cores.
Escritor que fecha os olhos e vê no negro absoluto a mulher amada. A mulher mais linda do mundo. A mulher que vive dentro dele. A mulher com quem fala através da escrita.
Escrita de histórias arrebatadoras sobre a vida, os sonhos, o amor, a felicidade, a solidão, a tristeza, o medo, o terror, o sofrimento, o mal, a morte.
Histórias vividas num tempo que passa devagar. Mas, devagar, o tempo transforma tudo em tempo. O ódio transforma-se em tempo, o amor transforma-se em tempo, a dor transforma-se em tempo. Os assuntos que julgávamos mais profundos, mais impossíveis, mais permanentes e imutáveis, transformam-se devagar em tempo. Por si só, o tempo não é nada. A idade de nada é nada. A eternidade não existe e, no entanto, a eternidade existe.
Histórias mirabolantes com personagens surpreendentes: o príncipe de calicatri, o visconde de dedodida, o violinista, o ninguém, o editor, a tradutora (um dia falou-me do pai e do filho que morreram no meu romance, falou-me dos dois irmãos siameses que morreram, falou-me do homem muito velho que morreu no meu romance, daquele pai e daquele filho que eu escrevera…).
Hum! Eu já li sobre isto num outro romance…
Quem é afinal o escritor-narrador desta casa escura, para quem o silêncio era o significado das palavras muito verdadeiras?
Ele ajuda:
O meu nome: três palavras escritas num papel: três palavras: o nome do meu avô paterno, o nome do meu avô materno e o nome de família do meu pai.

Não foi  tarefa fácil ler este romance. 
É sinistro, escuro, triste… É luminoso, belo e viciante… É uma tempestade de ternura.
«Primeiro estranha-se, depois entranha-se».
Por favor, leia!

Uma casa na escuridão, de José Luís Peixoto
Ed. Quetzal, 2002
253 págs.

17 março, 2015

Amor… em “Uma casa na escuridão”, de José Luís Peixoto


"Amor. Amor. Amor, gostava de dizer esta palavra até gastá-la ainda mais. Amor, gostava de dizer esta palavra até perder ainda mais o seu sentido. Amor. Amor. Amor, até ser uma palavra que não significa nem sequer uma ilusão, uma mentira. Amor, amor, amor, nem sequer uma mentira, nem sequer um sentimento vago e incompreensível. Amor amor amor, até ser nem sequer uma palavra banal, nem sequer a palavra mais vulgar, nem sequer uma palavra. Amoramoramor, até ao momento em que alguém diz amor e ninguém vira a cabeça para ouvir, alguém diz amor e ninguém ouve, alguém diz amor e não disse nada."

17 fevereiro, 2015

"Morreste-me" - José Luís Peixoto

… oiço o eco da tua voz, da tua voz que nunca mais poderei ouvir. A tua voz calada para sempre. E, como se adormecesses, vejo-te fechar as pálpebras sobe os olhos que nunca mais abrirás. Os teus olhos fechados para sempre. E, de uma vez, deixas de respirar. Para sempre. Para nunca mais. Tudo o que te sobreviveu me agride. Pai. Nunca esquecerei.
“Morreste-me”.
Homenagem ao pai, José João Serrano Peixoto.
O texto foi escrito entre Maio de 1996 e Maio de 1997. O primeiro capítulo foi publicado no suplemento juvenil do Diário de Notícias, DN Jovem, a 7 de Maio de 1997. Foi premiado. Em 2000 chegou às bancas o livro. José Luís Peixoto, então com 26 anos, passou de desconhecido a escritor promissor.
“Morreste-me”.
Relata a doença e morte do pai. A dor profunda da perda. O luto.
Pai, onde estiveres, dorme agora. Menino. Eras um pouco muito de mim. Descansa, pai. Ficou o teu sorriso no que não esqueço, ficaste todo em mim. Pai.Nunca esquecerei.

Não encontro palavras para dizer o quanto este livrinho me tocou. Só dor e lágrimas.
Ponto final.

Morreste-me, de José Luís Peixoto
Ed. Quetzal, 2009
61 págs.