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23 maio, 2018

Philip Roth (1933-2018)

Na sociedade humana, pensar é a maior de todas as transgressões. (“Casei com um comunista”, 1998)
Estou triste!
Philip Roth, o meu escritor preferido, morreu aos 85 anos, vítima de insuficiência cardíaca.
Considerado um dos maiores escritores norte-americanos, Philip Roth publicou mais de trinta romances e foi galardoado com diversos prémios, mas não recebeu a distinção maior, o Prémio Nobel, apesar de todos os anos constar na lista dos favoritos. Não recebeu talvez por ser judeu, talvez por polêmico. Mas devia!
Destaco alguns prémios:
Em 1997, com “Pastoal Americana” venceu o Prémio Pulitzer.
Em 1998, recebeu a Medalha Nacional de Artes da Casa Branca e em 2002, o mais alto galardão da Academia Americana de Artes e Letras, a Medalha de Ouro da Ficção.
Em 2005, ”A Conspiração contra a América” recebeu o prémio da Sociedade de Historiadores Americanos.
Em 2006, recebeu o PEN/Nabokov, pelo conjunto da obra e em 2007, o PEN/Saul Bellow de Consagração na Ficção Americana.
Em 2011, passou a ser o quarto autor distinguido com o Man Booker International Prize.
Em 2012, venceu o Prémio Príncipe das Astúrias de Literatura.
Philip Roth  foi o único escritor americano que em vida teve a obra completa e definitiva publicada pela Library of America.
… uma pessoa é tão temerária como os seus segredos, tão execrável como os seus segredos, tão solitária como os seus segredos, tão sedutora como os seus segredos, tão vazia como os seus segredos, tão perdida como os seus segredos, uma pessoa é tão humana… (“Teatro de Sabatt”, 1995)
Penso ter lido todos os romances de Philip Roth publicados em Portugal. Vinte. Não evidencio um mas sobre todos publiquei a minha opinião aqui, no “rol de leituras”.
Quando admiramos um escritor, tornamo-nos curiosos. Vamos à procura do seu segredo.(“O escritor fantasma”, 1979)
Philip Roth nasceu na cidade de Newark, New Jersey, em 19 de Março de 1933. Neto de imigrantes judeus-europeus que seguiram para os Estados Unidos na primeira parte do século XIX , foi assumidamente ateu.
Nos seus romances debruçou-se, com uma lucidez implacável, sobre os problemas de identidade dos judeus dos Estados Unidos, a política, o peso da história, o sexo, o envelhecimento, a morte.
A velhice não é uma batalha a velhice é um massacre. (“Todo-o-Mundo”, 2006)
Que descanse em paz!

09 fevereiro, 2018

"O escritor fantasma" - Philip Roth

Quando admiramos um escritor, tornamo-nos curiosos. Vamos à procura do seu segredo.
“Era a última hora de luz de uma tarde de dezembro, há mais de vinte anos – eu tinha vinte e três anos, estava a escrever e a publicar os meus primeiros contos e, tal como tantos heróis do Bildungsroman antes de mim, já pensava no meu próprio e volumoso Bildungsroman – quando cheguei ao refúgio do grande homem que ia visitar…”
Começa assim este excelente romance sobre as tensões entre a literatura e a vida.
O narrador é Nathan Zuckerman, problemático e ambicioso ficcionista judeu, alter-ego do ficcionista judeu e genial contador de histórias Philip Roth (n.1933) em nove hilariantes romances. “O escritor fantasma" (1979) marca o  aparecimento de Zuckerman, “O fantasma sai de cena “(2007) o seu desaparecimento.
O grande homem “é Emanuel Isidore Lonoff, consagrado contista, ídolo e mestre literário de Zuckerman desde os tempos da faculdade. O grande Lonoff, filho de judeus, que no auge da carreira literária, desiludido com as acusações dos judeus de New York personalidades intelectuais aterradoras, troca a civilização pelo isolamento na montanha. Em Dezembro de 1956, trinta anos depois dessa fuga nunca explicada, o “ermita rural” convida o escritor desconhecido (que lhe fez chegar quatro contos publicados em revistas literárias) para um serão na sua casa.
Pureza. Serenidade. Simplicidade. Reclusão. Toda a concentração, exuberância e originalidade de uma pessoa reservada para a vocação transcendente, extenuante, sublime. Olhei em volta e pensei: é assim que quero viver.
Depois de olhar melhor, Zuckerman encontra um homem envelhecido, austero, entediado, autocrítico, desencantado, conformado a uma existência onde nada acontece: Dou voltas às frases. A minha vida é isso. Escrevo uma frase e dou-lhe uma volta. Depois olho para ela e dou-lhe mais uma volta. Depois vou almoçar. Depois volto e escrevo mais uma frase. Depois leio e releio as duas frases e dou-lhes uma volta. Depois deito-me no sofá a pensar. Depois levanto-me e atiro-as fora e volto ao princípio. E, se descanso desta rotina durante um dia que seja, fico louco de tédio e a achar que foi um desperdício….
Zuckerman não se decepciona. Ainda espantado com o convite, tímido, ansioso, curioso, desejoso de tudo ver, tudo saber sobre o mestre, desejoso do seu reconhecimento, patrocínio moral e protecção mágica de apoio e amor, quer aprender com ele a escrever contos, contos sobre judeus, que evitem problemas com os judeus de Newark e com o seu pai podólogo e não artista, que tenta demovê-lo de publicar um conto que tem por base uma disputa familiar antiga que, segundo ele, expõe ao ridículo membros da família e será visto apenas como mais um conto sobre os malditos judeus e o seu amor ao dinheiro.
Na noite que passa em casa do mestre e da senhora Hope Lonoff,  Zuckerman conhece Amy Bellette, uma jovem fascinante de nacionalidade indefinida, antiga pupila de Lonoff (ou amante com metade da sua idade?), com uma vida de ilusão que a consome e um passado que a marcou na alma: sabes porque é que adotei este nome tão doce? Não foi para me proteger das minhas memórias. Não foi para esconder o passado de mim nem para me esconder do passado. Foi para me esconder do ódio, de odiar as pessoas como as pessoas odeiam as aranhas e os ratos.
(Amy Bellete volta a aparecer no romance “O fantasma sai de cena”).

Escusado será dizer que pouco devo/posso desvendar sobre o casal Lonoff, sobre o conto de Zuckerman, sobre o passado de Amy. Leia, divirta-se, espante-se com a imaginação e a escrita do meu escritor preferido. (Está velhinho o «meu» Philip Roth!)
Ponto final, parágrafo.

O escritor fantasma, de Philip Roth,
Tradução de Francisco Agarez
Ed. D. Quixote, 2017
188 págs.

27 janeiro, 2017

"Quando ela era boa" - Philip Roth

Numa tarde de novembro de 1954, uma semana antes do Dia de Ação de Graças, mesmo ao anoitecer, Willard chegou de carro a Clark’s Hill, estacionou junto à vedação e subiu a pé o carreiro de acesso ao jazigo da família (…) baixou as abas do boné e ali, diante das campas da sua irmã Ginny, e da sua neta Lucy, e dos retângulos reservados para os restantes membros da família, esperou. Começou a nevar.
Estava à espera de quê?
Quando ela era boa” – terceiro romance de Philip Roth, um drama familiar originalmente publicado em 1967 – conta a história comovente, intensa e arrebatadora de uma família humilde, numa cidadezinha provinciana do Centro Oeste americano, na primeira metade do século XX.
Em casa de Willard Carroll e Berta reina a tranquilidade e a felicidade. Felicidade que aumenta quando nasce Myra, a filha de saúde frágil, discreta e tímida, estudante de música e mais tarde professora de piano. Tudo muda quando Mary, já casada com Whitey Nelson, um alcoólico, ignorante, cobarde, ladrão, oportunista, ciumento e violento, volta para casa dos pais com o marido desempregado e a filha de três anos, Lucy Nelson, a protagonista da história. É ela que aos quinze e anos, farta da violência do pai e da passividade da mãe, liga à polícia e fica a vê-lo ser levado para a prisão.
… os meus pais são horríveis. Não sou eu que penso – é a verdade!
Lucy não se livrou de um sermão do avô Willard.
«Nesta casa somos pessoas civilizadas e há certas coisas que não fazemos (…) não somos nenhuma escumalha, e tu tens de te lembrar disso.»
«Cá em casa, Lucy, conversamos com a pessoa. Mostramos-lhe o caminho certo.»
«E se a pessoa não o conhecer?»
«Olha Lucy, não a mandamos para a prisão! A questão é só essa. Está percebido?»
(Anos mais tarde, ela dirá ao avô que ele não podia proteger as pessoas da fealdade da vida passando-lhe por cima uma camada de verniz.)
Depois disso, Lucy, a jovem de bom coração, inteligente, sensível, impiedosa e moralista que fingia que tinha uma família normal, mesmo depois de ter começado a perceber que isso não era verdade, decide regenerar os homens que a rodeiam.
Começa por Roy Bassart, o namorado, dois anos mais velho do que ela mas muito infantil. Ama-o? Casa com ele? Lucy tem dezoito anos e não, não quer casar-se com ele. Ou quer? Talvez, mas só porque está a crescer alguma coisa dentro do seu corpo, e sem a sua autorização.
O resto é para você descobrir… lendo, claro!

O enredo de “Quando ela era boa” é inteligente, os personagens brilhantes, a escrita de  Philip Roth, irrepreensível, mas… 
Se as primeiras 57 páginas emocionam e cativam - conhecemos o avô Willard Carroll, um “homem bom”, filho de pai feroz e ignorante e de mãe trabalhadeira com mentalidade de escrava, que abandona a casa dos pais aos dezoito anos e vai ao encontro do mundo civilizado; que sabe o que quer e o que não quer: não ser rico, não ser famoso, não ser poderoso, nem sequer ser feliz, mas ser civilizado... não viver como um selvagem; chega a Liberty Center em 1903, arrenda um quarto, consegue um emprego nos correios, casa com uma rapariga decente, determinada e respeitável, compra uma casa pequenina, tem uma filha, é promovido a sub-chefe, renova a casa, vê a filha casar com um alcoólico violento, recebe-a de coração aberto quando ela necessita de apoio e... nunca esquece Ginny, a irmã internada num lar para deficientes mentais...
... as restantes 302  - relato da vida familiar e estudantil de Lucy, da sua relação com as amigas, do amor por Roy e do ódio pela família dele - estafam de tanta repetição. Tudo podia ser dito em metade das páginas. Penso eu.
Philip Roth jamais me desiludirá mas… desta vez cansou-me. A sério!

Quando ela era boa, de Philip Roth
Tradução de Francisco Agarez
Ed. D. Quixote, 2016
359 págs.

21 dezembro, 2016

Peçam ao Pai Natal...


Um único deslize e a nova vida de um homem vai por água abaixo!
Acabei de ler o primeiro capítulo de “Quando ela era boa”, o romance de Philip Roth este ano publicado em Portugal.
Pouco sei sobre o que se segue mas o que já li… dá para aconselhar que o peçam ao Pai Natal.
A sinopse diz que a figura central da história – um drama familiar, na América provinciana dos primeiros anos do século XX) - é Lucy Nelson, uma jovem boa, sensível, moralista, independente que, depois de ver o pai falhado e alcoólico ir para a prisão, tenta regenerar os homens que a rodeiam, mesmo que isso signifique a sua própria destruição.
Ora bem, Lucy não aparece nas páginas que eu li. Nessas páginas a figura central é o seu avô materno: Willard Carroll, um homem bom, cuja história de vida me prendeu logo no primeiro parágrafo:
“NÃO SER rico, não ser famoso, não ser poderoso, nem sequer ser feliz, mas ser civilizado – era esse o sonho da sua vida (...) O que não queria sabia de certeza: viver como um selvagem. Tinha um pai que era um homem feroz e ignorante – caçador furtivo, mais tarde lenhador e, para o fim a vida, guarda nas minas de ferro. A mãe era uma mulher trabalhadeira com mentalidade de escrava por cuja cabeça nunca passava querer ter mais do que aquilo que tinha. (...) Com dezoito anos decidira ir ao encontro do mundo…”
O que se segue é intenso, comovente, arrebatador. Poucas, mas mesmo poucas vezes, eu me emocionei tanto com uma história de vida. E, recordo, li apenas um capítulo.
Se a vida de  Willard Carroll é inesquecível, como será a da neta Lucy?  
Se ela sair ao avô...

Lá para Janeiro voltarei a escrever sobre este romance. Para já, posso “bradar aos céus”: as primeiras 57 páginas deste Philip Roth de 1966 são fascinantes!
Peçam ao Pai Natal...

20 dezembro, 2015

"A lição de anatomia" - Philip Roth

ZUCKERMAN FICARA SEM TEMA. Sem saúde, sem cabelo e sem tema. O que não tinha importância, porque também não conseguia ter posição para escrever.
Foi este o romance (e autor) que escolhi para última leitura de 2015.
Nele voltei a encontrar Nathan Zuckerman, o escritor judeu protagonista de outras histórias divertidas imaginadas por Philip Roth.
Agora, com quarenta anos, três casamentos fracassados, Zuckerman vive atormentado por uma dor intensa que começa no pescoço e se propaga para os ombros, os braços e… o espírito. Uma dor que o incomoda quando caminha, está sentado, ou muito tempo de pé. Uma dor que o impede de escrever uma única página, seja na nova IBM que comprou para substituiu a velha máquina manual e portátil onde “martelava” há vinte anos (segundo um ortopedista podia ser a causa da estranha dor), seja à mão. Se bem que escrever à mão era aquilo para que tinha menos jeito. Dançava melhor a rumba do que escrevia à mão.
Mas dor não é o único problema de saúde de Zuckerman, ele tem a caixa torácica torcida. A clavícula torta. Levanta a parte inferior da omoplata esquerda como se fosse uma galinha. Até o úmero forçava a cápsula e encravava na articulação. Embora aos olhos de um leigo pudesse parecer mais ou menos simétrico e razoavelmente proporcionado, por dentro era tão deformado como Ricardo III, e ... está a perder cabelo.
Zuckerman sente-se com cem anos e com sorte por ainda ter dentes.
Na esperança de descobrir um tratamento, droga ou cura, consulta vários médicos - um psicanalista, três ortopedistas, dois neurologistas, um fisioterapeuta, um reumatologista, um radiologista, um osteopata, um médico de vitaminas, um analista, um especialista em couro cabeludo, um praticante de ioga – experimenta um colar ortopédico, pachos quentes, ultrassons, massagens, infiltrações, injeções, mas nada, nem ninguém, atenua ou sequer diagnostica a causa da misteriosa dor.
Ele era um homem saudável que sofria de dor.
Sofria mesmo?
A resposta começa a ser dada nas primeiras linhas desta história “dorida”, hilariante e muito, muito depravada.
Quando está doente, todo o homem quer a mãe; se ela não está por perto, outras mulheres têm de a substituir. No caso de Zuckerman eram quatro outras mulheres. Nunca tivera tantas mulheres ao mesmo tempo, nem tantos médicos, nem bebera tanta vodca, nem trabalhara tão pouco, nem conhecera o desespero em tão violentas proporções.
Se não bastar, continue a ler até descobrir o que faz ele de barriga para o ar, com a cabeça apoiada no dicionário de sinónimos, no tapete vermelho estendido no chão do escritório, depois de ditar ficção a uma jovem secretária de vinte anos. Melhor ainda, o que faz ele deitado no mesmo tapete, com as quatro mulheres do seu harém. Uma de cada vez, claro! Nem sequer imagina...
TUDO PERDIDO. Mãe, pai, irmão, terra natal, assunto, saúde, cabelo – na opinião do crítico Milton Appel, até o talento.
Desenganem-se. Nathan Zuckerman, o escritor falhado vai, aos quarenta anos, estudar medicina - quero ser obstetra, diz aos amigos incrédulos.
Já eu... nada mais digo sobre este desconcertante, hilariante e erótico romance.
Perdoo tudo ao meu escritor preferido.
Tudo!

A lição de anatomia (The Anatomy Lesson, 1983), de Philip Roth
Tradução de Francisco Agarez
Ed. D. Quixote, 2015
261 págs.

10 outubro, 2014

"Os factos" - Philip Roth

“E enquanto ele falava eu pensava: em que histórias as pessoas transformam a vida, em que vidas as pessoas transformam as histórias."
(Nathan Zuckerman, em The Counterlife)

O livro "Os Factos - Autobiografia de um Romancista” abre com uma carta de Philip Roth para Nathan Zuckerman. (Conhecem, não?! Ele é o protagonista-narrador de nove romances de Philip Roth)).
Nessa carta, Roth explica o porquê do livro, escrito absolutamente ao contrário, pegando naquilo que já imaginei e, por assim dizer, dissecando-o, para assim devolver a minha experiência à sua factualidade original e pré-ficcionada. Para provar que existe um fosso importante entre o escritor autobiográfico que as pessoas pensam que eu sou e o escritor autobiográfico que sou.
O livro vale alguma coisa? Sê franco.
De seguida, escreve sobre cinco episódios da sua vida:
- a infância urbana e protegida, nos anos trinta e quarenta
- a preparação para a vida americana numa universidade conservadora, nos anos cinquenta
Eu acabei o liceu em janeiro de 1950 … tinha querido desesperadamente ir para uma universidade longe de casa… não tinha conseguido bolsa de estudos… acabei por ficar em Newark e continuar a viver em casa dos meus pais.
Em Março de 1951, os meus pais e eu fizemos a viagem de sete horas de carro até Lewisburg… ia ser admitido em Bucknell.
- o envolvimento tumultuoso, quando era jovem e ambicioso, com a pessoa mais colérica que conheceu em toda a sua vida («a rapariga dos meus sonhos», como Roth lhe chama)
Josie (nome verdadeiro Margaret Martinson, a mulher com quem viveu mais anos) trabalhava como secretária na Divisão de Ciências Sociais… Conhecemo-nos (1956) e tornámo-nos amantes… Não vou descrever o que foi a nossa vida… exceto para dizer que me espanta tanto hoje como me espantou na altura que não tivéssemos acabado – um de nós ou ambos – mutilados ou mortos… Não há dúvida de que ela foi o meu pior inimigo de sempre mas, tenho de reconhecer, foi também o mais espantoso de todos os meus professores de escrita criativa, especialista por excelência em estética da ficção extremista.
Casei com ela.
- o choque com um influente grupo de judeus indignados com o seu Goodbye, Columbus
A humilhação que sofri perante os beligerantes da Yeshivá – ou antes, a raivosa oposição judaica que despertei praticamente desde o início – foi a melhor coisa que podia ter-me acontecido. Marcou-me a fogo.
- e a descoberta, nos excessos dos anos sessenta, de um lado inexplorado do seu talento
O que encontrei então em Nova Iorque, quando me separei da minha mulher (1962) e me mudei de Princeton… foram os ingredientes que inspiraram O Complexo de Portnoy, cuja publicação em 1969 determinou todas as opções importantes que fiz na década seguinte.
O livro termina com a carta-resposta de Nathan Zuckerman.
Li o manuscrito duas vezes. Aqui está a franqueza que me pedes:
- Não publiques - sais-te muito melhor a escrever sobre mim do que a relatar “fielmente” a tua vida… O meu palpite é que já escreveste tantas metamorfoses de ti mesmo que não fazes mais ideia do que és ou alguma vez foste. Agora não passas de um texto ambulante.
Ainda bem que ele publicou, pela “festa” que é “escutar” um dos maiores romancista americanos do século XX falar de si.
Será tudo verdade?
Isso não interessa. O que interessa é que Philip Roth é genial.
As recordações do passado não são recordações de factos mas recordações da nossa imaginação dos factos.

Os factos, de Philip Roth
Tradução de Francisco Agarez
Ed. D. Quixote, 2014
228 págs.

15 fevereiro, 2013

"Engano" - Philip Roth

… em imaginação sou infiel a toda a gente…
Que capa fantástica! Que imaginação incrível! Que “tratado” sobre a paixão humana.
- Vieste para a lição?
- Não.
- Fizeste o trabalho de casa?
- Não tenho a certeza.
- Está bem. Antes de mais vamos fechar a porta à chave.
É assim este romance. Feito de diálogos espantosamente inteligentes, cristalinos, impiedosos, estonteantes.
- É muito estranho ver-te.
- Mais estranho é não me veres, ou não será?
- Não. O normal é não te ver.
São diálogos de dois adúlteros apaixonados, num estúdio/esconderijo em Notting Hill. Ela é uma jovem inglesa de 34 anos, linda, culta e neurótica. Ele é Philip (coincidência?!), um escritor judeu americano (coincidência?!) nascido em 1933 (coincidência?!), desempregado.
- Estás a tremer. Estás doente?
- Estou excitada.
Antes e depois de fazerem amor, os amantes falam sobre os seus casamentos, o amor, a paixão, a felicidade, a solidão, a doença, o envelhecimento, a morte. Mas também falam sobre a América e Israel, o judaísmo, a política inglesa.
- Quando ando pela cidade nunca oiço falar da Irlanda do Norte. Só ouço falar de Israel nazi e da América fascista.
Este romance é sobre enganos e enganados. O marido enganado, a mulher enganada, os amantes enganados, os leitores enganados.
Neste romance a linguagem é despojada, crua e genuína. Choca? Por vezes… mas pouco…
- Tu não vais para o estúdio trabalhar… vais para o estúdio foder! Tens um caso com alguém no teu estúdio.
- Ai vou? Ai tenho?
- A única mulher que entra no meu estúdio é a mulher do meu romance, infelizmente. Com companhia era mais agradável, mas não funciona.
Este romance, confunde, perturba, estilhaça, fascina. Eu só posso imaginar a estupefacção dos críticos e leitores, aquando da sua publicação em 1990, com o título "Deception".
Que escritor corajoso! Que escritor espantoso!
- … a discrição não é para os romancistas. Nem a vergonha.
Ainda bem!
 
Engano, de Philip Roth
Ed. D. Quixote, 2013-02-14
Tradução de Francisco Agarez
200 págs.

22 junho, 2012

"Goodbye, Columbus" - Philip Roth

... e, finalmente, li o primeiro livro de Philip Roth, publicado em 1959. Com ele, aquele que é um dos meus autores preferidos, venceu o National Book Award for Fiction, em 1960.

Para quê sonhar com o Taiti, se não se tem dinheiro para a viagem?
Num só livro temos a magnífica novela “Goodbye, Columbus” e cinco excelentes pequenos contos: “A conversão dos judeus”, “O defensor da fé”, “Epstein”, “Não se conhece um homem pela canção que canta” e “Eli, o fanático”.
Goodbye, Columbus” é a história de Neil Klugman e de Brenda Patimkin, personagens de um tórrido romance de verão, com todos os “ingredientes” para falhar: diferentes classes sociais; pressão familiar; a loucura da paixão; a urgência da descoberta sexual.
Neil (o menino pobre), recém-licenciado, idealista, trabalha na biblioteca e vive com os tios no bairro pobre de Newark.
Brenda (a menina rica), estudante universitária, pragmática, vive com os pais e dois irmãos no chique bairro suburbano de Short Hills
São ambos filhos de judeus – judeus a sério!
A história é narrada por Neil e começa assim:
A primeira vez que vi a Brenda, pediu-me que lhe tomasse conta dos óculos. Deu uns passos até à extremidade da prancha de saltos e fitou a piscina com olhos enevoados; até podia estar vazia, que a Brenda, míope como era, não teria dado por nada.
… e logo nessa noite, ao telefone …
- Como te chamas? Perguntou.
- Neil Klugman. Tomei-te conta dos óculos na piscina, lembras-te?
Ela respondeu-me com uma pergunta que, tenho a certeza, é tão embaraçosa para quem é feio como para quem é bonito. - Como é a tua cara?
- Sou… moreno.
- És preto?
- Não – respondi.
- Mas como é que é a tua cara?
- Posso ir aí hoje à noite mostrar-ta?
- Boa ideia – disse ela a rir-se.
A partir daí vivem uma tórrida paixão, perdidos em demorados banhos na piscina, românticas conversas, passeios a pé, subidas às montanhas, refeições abundantes e férias em casa dos... Patimkin. E muito, muito sexo.
Mas o Outono frio chega a Nova Jersey e o amor termina.
Para Neil, o humilde bibliotecário, a ousada Brenda foi uma desilusão. Porquê?
Leia para saber, e espante-se com o leque de extraordinários personagens.
Eu, como sempre, adorei!

Dos pequenos (GRANDES) contos, gostei particularmente do ternurento / hilariante O defensor da fé (são sublimes os diálogos entre o veterano Sargento Nathan Marx e o recruta oportunista Sheldon Grossbarte, ambos judeus) e do risível Epstein”.
Na novela e  nos contos o tema é o mesmo: o drama dos judeus americanos de classe média.
Aliás, será este o tema que perpassará toda a obra de Philip Roth.

Sobre Philip Roth, disse o grande Saul Bellow:
"Ao contrário dos que vêm ao mundo a uivar, cegos e nus, o Sr. Roth aparece com unhas, cabelo, dentes e a falar de forma coerente. É talentoso, espirituoso, enérgico e toca como um virtuoso".

Goodbye, Columbus, de Philip Roth
D. Quixote, 2012
Tradução de Francisco Agarez
293 págs.

06 janeiro, 2012

Némesis" - Philip Roth

O medo castra-nos. O medo degrada-nos.
E vão 31…
Trinta e um livros publicados por Philip Roth, um escritor extraordinário.
Às vezes somos juízes severos de nós mesmos sem nada que o justifique.
O tema deste romance é inquietante e surpreendente: no verão de 1944 uma epidemia de poliomielite grassa nos Estados Unidos. Ao terror da guerra junta-se o pânico da morte provocada por uma doença desconhecida e altamente contagiosa. Não existia nenhum medicamento para tratar a doença, nem vacina para a evitar.
A acção passa-se em Newark, uma cidade abrasadora e húmida, fortemente atingida por surtos anteriores e onde as probabilidades de contrair a doença são enormes.
O protagonista desta surpreendente história é Bucky Cantor (mais uma excelente personagem criada por Philip Roth), vinte e três anos, judeu, professor de educação física e responsável por um recinto de jogos, que assiste impotente ao efeito da epidemia sobre os jovens que, não podendo ir para acampamentos de férias nas montanhas, ocupam o tempo livre no recinto de jogos do bairro.
O Sr. Cantor, órfão, criado pelos avós maternos e educado pelo avô para ser soldado, herda do pai graves problemas de visão que o tornam inapto para o serviço militar. Desiludido mas conformado, dedica-se ao ensino e a transmitir aos jovens os ensinamentos que recebera do avô: perseverança e determinação, terem coragem e destreza físicas, e nunca se deixarem manipular ou, só porque sabiam usar o cérebro, permitir que lhes chamassem judeus lingrinhas e mariquinhas.
O Sr. Cantor vive com a avó e tem uma namorada, Marcia, também judia mas de um outro estrato social. Naquele verão, Marcia vai trabalhar para um acampamento nas montanhas. Ele prefere continuar com os jovens que praticam desporto no recinto de jogos.
Mas quando os seus jovens começam a sucumbir pela doença, ele, impotente, enraivecido e em pânico, foge para junto da namorada, para as montanhas onde o perigo não entrava. Foge, mas a culpa, a humilhação e a raiva persegui-lo-ão. …. uma raiva que não tinha por objecto… nenhuma das causas mais ou menos inverosímeis que as pessoas, mergulhadas no medo e na confusão, pudessem adiantar para explicar a epidemia, nem tão-pouco o vírus da pólio, mas sim a origem, o criador – Deus, que criou o vírus.
Mas o vírus chega à montanha e a dúvida e a culpa consomem-no. Seria ele o culpado do surto de pólio no recinto de jogos? Teria ele levado consigo o vírus para o acampamento?
Apavorado e culpabilizado pela decisão tomada, abandona a namorada e regressa a casa para encetar sozinho uma luta sem tréguas contra a doença que lhe vai mudar fatalmente a vida.
Nunca mais voltámos a ver o Sr. Cantor no bairro… E a história continua a ser contada por um jovem , agora adulto, frequentador do recinto de jogos naquele fatídico verão, conforme lhe foi contada pelo professor de ginástica, a autoridade mais exemplar e respeitada que conhecera.
Não seja inimigo de si próprio. Já há no mundo crueldade que chegue. Foi este o conselho que o aluno deixou ao mestre.
Surpreendente e inquietante este retrato da natureza humana.
(Némesis - deusa grega da vingança e da ética)

Némesis, de Philip Roth
D. Quixote, 2011
Tradução de Francisco Agarez
206 págs.

05 dezembro, 2011

"Némesis" - Philip Roth


Acabei de ler o último livro de Philip Roth editado em Portugal.
Divulgarei a minha opinião em Janeiro do próximo ano (que está já ali à esquina...), pois decidi que este mês será um mês diferente no "rol de leituras".
Mas... não resisto a dizer que este "Némesis" me emocionou e assustou.
O tema é aterrador: uma epidemia de poliomielite que no verão de 1944 grassa nos Estados Unidos, o efeito que tem sobre uma comunidade de Newark, coesa e assente nos valores da família, e a luta de Bucky Cantor contra o avanço da doença que lhe vai mudar fatalmente a vida.
O medo castra-nos. O medo degrada-nos.
Philip Roth não deixa de me surpreender.

30 maio, 2011

"A conspiração contra a América" - Philip Roth

O medo preside a estas memórias, um medo perpétuo. Embora infância alguma esteja isenta dos seus terrores, pergunto-me se teria sido um rapaz menos assustado se Lindbergh não tivesse sido presidente ou se eu não tivesse sido filho de judeus.
Se… se… se…
O que aconteceria a um milhão de famílias judias se a história da América tivesse sido diferente?

Sinopse: Quando o famoso herói da aviação e isolacionista fanático Charles Lindbergh derrotou esmagadoramente Franklin Roosevelt nas eleições presidenciais de 1940, o medo invadiu todos os lares judaicos da América. Num discurso transmitido pela rádio à escala nacional, Lindbergh não só tinha acusado publicamente os judeus de empurrarem egoistamente a América para uma guerra sem sentido com a Alemanha nazi, mas também, ao tomar posse como trigésimo terceiro presidente dos Estados Unidos, negociara um pacto cordial com Adolfo Hitler, cuja conquista da Europa e cuja virulenta política anti-semita ele parecia aceitar sem dificuldade.

Partindo dum cenário hipotético, Philip Roth, assim se designa o narrador e personagem deste romance, recorda o que foi para a sua família de Newark e para um milhão de outras famílias, a vida nos anos da presidência de Lindbergh.
Eu prestava fidelidade à bandeira da nossa pátria todas as manhãs na escola. Festejava fervorosamente os seus feriados nacionais. A nossa pátria era a América. Depois os Republicanos designaram Lindbergh e todo mudou.

A conspiração contra a América, de Philip Roth
Dom Quixote, 2005
Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues
451 págs.

28 maio, 2011

"Pastoral americana" - Philip Roth

… o compreender as pessoas não tem nada a ver com a vida. O não as compreender é que é a vida, não compreender as pessoas, não as compreender, e depois, depois de muito repensar, voltar a não as compreender. É assim que sabemos que estamos vivos: não compreendemos.

Quem está preparado para a tragédia e para a incompreensão do sofrimento? Ninguém. A tragédia do homem que não está preparado para a tragédia – é esta a tragédia de todos os homens.
Sinopse: Seymour (Sueco) Levov, um lendário atleta universitário, devotado homem de família, trabalhador esforçado e próspero herdeiro, envelhece na triunfante América do pós-guerra, vendo esfumar-se tudo o que ama quando o país começa a efervescer nos turbulentos anos 60. Nem o mais tranquilo e bem-intencionado cidadão consegue escapar à vassourada da história, nem o Sueco pode permanecer para sempre na felicidade da amada e velha quinta em que vive com a sua bela mulher e a filha, que se torna uma revolucionária terrorista apostada em destruir o paraíso do seu pai. A inocência de Sueco Levov é varrida pelos tempos – como tudo o que foi criado pela sua família, através de gerações, deitado por terra na violenta explosão de uma bomba no seu bucólico quintal.

Neste livro, Nathan Zuckerman, o aspirante a escritor e alter-ego de Philip Roth, revela o percurso da destruição da vida da família de Sueco Levov, filho de judeus ricos, atleta brilhante, profissional de sucesso, casado com a Miss New Jersey e pai de uma filha.
A filha, a quarta geração americana, que deveria ser a imagem aperfeiçoada de ele próprio, como ele fora a imagem aperfeiçoada do seu pai… a filha terrorista, enraivecida, colérica, que o obriga a esconder-se como um fugitivo, a filha que o leva para fora da sonhada pastoral americana.
Porquê?
O que lhe teria ele feito de tão mau? Seria o resultado daquele beijo?
Fenomenal!

Pastoral americana, de Philip Roth
Dom Quixote, 1999
Tradução de Maria João Delgado e Luísa Feijó
410 págs.

26 maio, 2011

"Todo-o-Mundo" - Philip Roth


A velhice não é uma batalha a velhice é um massacre.
Atenção, se pretende iniciar-se na leitura de Philip Roth e é facilmente impressionável quando o tema é envelhecimento, doenças, mortes e enterros, este não é o livro aconselhável.
Ou será?
A grandeza de um escritor mede-se quando estes temas dramáticos são narrados de forma magistral, sem cair em excessos fúnebres. É claro que causa desconforto no leitor mas o principal é conseguido, deixá-lo a pensar na maior das angústias da vida: a morte.
A história inicia-se com o funeral do protagonista, um homem sem nome (everyman) e termina com a sua morte, quando ele “deixou de existir, liberto do ser, entrando no nada sem sequer saber” aos 71, de paragem cardíaca, na sala de operações, quando o preparavam para a desobstrução da carótida direita, mais uma (e a última) a acrescentar às muitas operações a que foi sujeito ao longo da vida: hérnia, amígdalas, apendicite e peritonite, obstrução das artérias coronárias, obstrução da artéria renal, angioplastias, implantação de desfibrilhador.
Mas as doenças relatadas não são só as do protagonista: o pai teve uma peritonite, a mãe faleceu na sequência de um AVC, a amante sofre de enxaquecas, uma das ex-mulheres (teve 3) sofreu um AVC, um colega com problemas psiquiátricos.
Para além da morte do protagonista há mais cinco mortes neste pequeno romance: o pai (cujo funeral é descrito com detalhe), dois colegas da agência de publicidade onde trabalhou, duas alunas das suas aulas de pintura.
Para além de doenças e mortes o autor brinda-nos com o relacionamento do protagonista (nascido em 1933, em New Jersey), com os pais que admira, o irmão Howie que ama e inveja (?), as três mulheres, os dois filhos, do primeiro casamento, que o desprezam, Nancy a filha do segundo casamento, que o adora, as enfermeiras, os colegas da agência de publicidade, os alunos das suas aulas de pintura, o coveiro.
Que livro maravilhoso sobre a amizade, o amor, a vida e a morte.
O título original deste livro é “Everyman”. O autor foi buscá-lo a uma peça de teatro alegórico de um autor anónimo do século XV, um clássico da dramaturgia inglesa antiga, que tem por tema a chamada dos vivos à presença da morte.

Todo-o-Mundo, de Philip Roth
Dom Quixote, 2006
Tradução de Francisco Agarez
179 págs.

24 maio, 2011

"O complexo de Portnoy" - Philip Roth

Senhor Doutor, que nome é que dá a esta doença que eu tenho? Será o sofrimento judaico de que tantas vezes ouvi falar?”
“Sou o filho da anedota de judeus – só que não é anedota nenhuma! Esta gente é inacreditável… aqueles dois são os maiores produtores e distribuidores de culpa do nosso tempo. Conseguem-me fazer acumular culpa como uma galinha acumula gordura”.
Neste romance Philip Roth brinda-nos com um retrato assombroso/hilariante/humilhante (sempre a HUMILHAÇÃO) sobre a passagem da adolescência à idade adulta do judeu Alexander Portnoy.
Escrevi sobre "O complexo de Portnoy" em Dezembro 2010.

20 maio, 2011

"O fantasma sai de cena" - Philip Roth


Há onze anos que não ia a Nova Iorque… tinha deixado de habitar não só o grande mundo mas também o momento presente. Mas agora tinha percorrido ao volante os quase duzentos e dez quilómetros para sul até Manhattan para consultar um urologista… especializado num tratamento destinado a ajudar milhares de homens como eu a quem a cirurgia da próstata deixava incontinentes.
Tinha passado estes onze anos sozinho numa casinha à beira de uma estrada de terra batida do interior profundo, tendo decidido viver assim isolado de tudo uns dois anos antes de me ser diagnosticado o cancro.
Escrevo durante quase todo o dia e muitas vezes pela noite dentro. Ouço música, passeio pelos bosques, nado sem fato de banho…
Não faço sessões de leitura nem conferências nem dou aulas em nenhuma faculdade nem apareço na televisão.
Que diferença faz agora se sou incontinente e impotente?
Sinopse: Percorrendo as ruas (de Nova Iorque) como uma alma penada, depressa estabelece três relações que fazem explodir a sua solidão tão cuidadosamente protegida.
Uma é com um jovem casal com o qual, num momento irreflectido, se propõe fazer uma permuta de casas. Eles trocarão a Manhattan do pós 11 de Setembro pelo seu refúgio no interior e ele regressará à vida urbana. Mas a partir do momento em que os conhece, Zuckerman quer também trocar a sua solidão pelo desafio erótico da jovem mulher, Jamie, que o atrai a ponto de o fazer voltar a tudo quanto pensava ter deixado para trás: a intimidade, o jogo vibrante do coração e do corpo.
A segunda relação é com uma figura da juventude de Zuckerman, Amy Bellette, companheira e musa do primeiro herói literário de Zuckerman, E.I. Lonoff. Outrora irresistível, Amy é agora uma velha minada pela doença, guardiã da memória desse escritor americano de nobre austeridade, que apontou a Nathan o caminho solitário para uma vocação de escritor.
A terceira relação é com o aspirante a biógrafo de Lonoff, um jovem mastim literário, pronto a fazer e dizer praticamente tudo o que for preciso para chegar ao «grande segredo» de Lonoff.
Que romance extraordinário sobre o amor, a velhice, a doença, o desejo e o ressentimento.
Da primeira à última página a escrita de Philip Roth é tão perfeita e intensa que só apetece citar, citar, citar.
E se certa manhã pegasse na página que tinha escrito na véspera e não conseguisse lembrar-me de a ter escrito, que faria? Que iria restar de mim?
Fabuloso!
O fantasma sai de cena, de Philip Roth
Dom Quixote, 2008
Tradução de Francisco Agarez
285 págs.

18 maio, 2011

Prémio Internacional Booker de 2011

O romancista norte-americano Philip Roth foi galardoado com o Prémio Internacional Booker de 2011, que de dois em dois anos distingue um autor pelo conjunto da sua obra.



"A mancha humana" - Philip Roth


"Foi o Verão da América em que a náusea regressou, em que as chalaças não pararam, em que a especulação, a teorização e a hipérbole não pararam, em que a obrigação moral de explicar aos filhos a vida adulta foi revogada pela vontade de lhes conservar todas as ilusões a respeito da vida adulta, em que a pequenez das pessoas era simplesmente esmagadora, em que um demónio qualquer fora largado à solta na nação e, em ambos os lados, as pessoas perguntavam: "Por que somos tão loucos?", em que tanto homens como mulheres, ao acordarem de manhã, descobriram que durante a noite, num estado de sono que os transportava para além de toda a repugnância, tinham sonhado com a impudência de Clinton."
Escrevi sobre "A mancha humana" em Dezembro 2010.

16 maio, 2011

"O animal moribundo" - Philip Roth


Por muito que saibamos, por muito que pensemos, por muito que maquinemos, compactuemos e planeemos, não somos superiores ao sexo.
As pessoas pensam que ao amar se tornam inteiras, completas? A união platónica das almas? Eu não penso assim. Penso que estamos inteiros antes de começarmos. E o amor fractura-nos.
Este espantoso romance sobre a vida, a morte, o sexo, a amizade, a família e a doença, é narrado por David Kepesh, um dos dois alter-egos do autor, aqui um eminente crítico cultural da TV, conferencista de mérito e professor universitário, divorciado, pai ausente, a viver desbragadamente a liberdade sexual conquistada com a revolução cultural dos anos 60.
Kepesh, que se considera muito vulnerável à beleza feminina, tem como “gozo da vida” seleccionar no primeiro dia de aulas uma aluna para ter “um caso” no final do ano lectivo, seguindo um estratagema de sucesso: após o exame final, e só depois de conhecidos os resultados, oferece uma festa aos estudantes no seu luxuoso apartamento, fica a sós com a rapariga escolhida e… tudo acontece. É um jogo puramente sexual. Nada mais. Todos os anos aparecem jovens lindas nas suas aulas.
Até que, aos sessenta e dois anos a escolha recai sobre Consuela Castillo, vinte e quatro anos, americana de origem cubana, que “sabia o que o seu corpo valia” e que, logo na primeira noite que passam juntos, define as regras e assume que aquela relação não pode passar do cariz sexual.
Nada mais será igual.
A vida de Kepesh desmorona. Deixa de ser a pessoa confiante. Fica próximo da loucura, controlador, ansioso, neurótico.
“O ciúme: esse veneno. A incerteza. O medo de a perder mesmo quando estava em cima dela. Obsessões que, em toda a minha variada experiência, nunca conhecera”.
Um ano e meio depois ela termina de forma abrupta a relação.
Ele começa a sentir-se velho. Recorda o seu divórcio e o afastamento do filho. Desabafa com George, o seu maior amigo.
O tempo passa. Ele tem novas namoradas. A doença e a morte giram à sua volta: George morre, Consuela telefona-lhe para lhe comunicar que está gravemente doente. O que fará ele?
Philip Roth foi buscar ao poema “Death” de William Butler Yeats, o título para este romance “The Dying Animal”.
Fabuloso!
O animal moribundo, de Philip Roth
Dom Quixote, 2006
Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues
131 págs.

11 maio, 2011

"Casei com um comunista" - Philip Roth


Na sociedade humana, pensar é a maior de todas as transgressões.

"Esta é a história da ascensão e queda de Ira Ringold, uma popular estrela da rádio, que vê a sua vida pessoal e profissional destruída na era da caça às bruxas de McCarthy. Nos seus dias de glória casa com a famosa estrela de cinema mudo, Eve Frame. O idílio romântico é breve e o seu casamento transforma-se num drama de lágrimas e traições, passando da esfera privada a escândalo nacional, quando Eve faz revelações estrondosas a um colunista, denunciando o seu marido como espião comunista e sabotador.”

“Casei com um comunista” é o título do livro autobiográfico que Eve Frame – uma judia “patologicamente envergonhada” - vai publicar e no qual denuncia Ira, o marido judeu que luta pelos ideais marxistas.
Mas o que a levou a escrever tal livro?
A resposta é dada pelo escritor Nathan Zuckermann (alter-ego) de Philip Roth) e surge na sequência do encontro com o seu antigo professor de inglês Murray Ringold, então com noventa anos, irmão de Ira, o seu ídolo de infância, morto há mais de 30 anos.
Murray conta-lhe tudo acerca da vida privada do irmão, aniquilado de forma brutal por causa das suas convicções, e de como ele próprio foi afectado ao ser destituído do cargo de professor por se recusar a cooperar com a Comissão da Câmara de Actividades Antiamericanas, e se tornou vendedor de aspiradores de porta em porta, até conseguir a reintegração.
E Nathan fica a saber que não conseguiu obter uma bolsa quando acabou o liceu, por ser amigo de Ira.
“Foi assim que o passado me revisitou”, diz Nathan.
Vivia-se “a conturbada época do pós-guerra, quando a febre do anticomunismo não só contaminava a política nacional mas também a intimidade das vidas de amigos e famílias, maridos e mulheres, pais e filhos”, a chamada “caça às bruxas”.
Gostei e aprendi muito sobre a história da América, na passagem dos anos 40 para os anos 50. Magistral!

Casei com um comunista, de Philip Roth
Dom Quixote, 1999
Tradução de Ana Maria Chaves
365 págs.

"Indignação" - Philip Roth


Cresci com sangue – com sangue e sebo e afiadores de facas e máquinas de cortar carne e dedos amputados ou dedos a que faltavam partes nas mãos dos meus três tios e do meu pai – e nunca me habituei a isso e nunca gostei disso.

A história passa-se em Newark, New Jersey, nos anos 50, vivia-se a terrível e sangrenta Guerra da Coreia (1951-1953).
O narrador é Marcus Messner – para quem “indignação” é a palavra preferida do dicionário, 19 anos, filho único de um talhante kosher , um estudante responsável, diligente e aplicado que se revolta contra a excessiva preocupação do pai com a sua segurança e, no segundo ano da faculdade, decide ir estudar para bem longe de casa. “Fui-me embora porque de repente o meu pai não confiava sequer na minha capacidade de atravessar a rua sozinho. Fui-me embora porque a vigilância do meu pai se tinha tornado insuportável. Tinha de me afastar dele antes que o matasse – e foi isso que disse desabridamente à minha mãe incrédula.
Então porquê tudo isto, pai? Por causa da vida, em que o mais pequeno passo em falso pode ter consequências trágicas. Oh, caramba, o pai parece um bolinho da sorte a falar!”
Empenha-se ao máximo. Não entra para nenhuma das “fraternidades” da faculdade. Isola-se. Vai às aulas. Estuda e trabalha numa estalagem ao fim-de-semana. Foge das diversões e da anarquia dos jogos sexuais.
Até que entra em cena uma rapariga – Olivia Hutton, pálida e esguia, de cabelo ruivo escuro, enigmática e sem inibições sexuais.
“Tinha de apalpar a Olivia porque apalpá-la era o único caminho a seguir se queria perder a virgindade antes de acabar a universidade e de ir para a tropa.”Aí estava mais um objectivo… atingido.
Mas, a partir daí, tudo se desmoronou.
Romance fabuloso sobre o inconformismo na adolescência, a imaturidade, a descoberta sexual, a vulnerabilidade do indivíduo, o descrédito da religião, a procura de um caminho no meio das tradições e restrições, numa América em guerra na Coreia.
Indignação, de Philip Roth
Dom Quixote, 2009
Tradução de Francisco Agarez
175 págs.