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12 maio, 2020

"Preciso de cismar." (*)



Neste tempo de pandemia, confinamento, desconforto, muita angústia e saudade... uma criança foi morta por quem a devia proteger e amar.


O corpo de Valentina, 9 anos, foi encontrado pela Polícia Judiciária no domingo, num eucaliptal na zona de Peniche, Portugal. Tapado por folhagem, apresentava no pescoço sinais de estrangulamento.
Na quarta-feira o pai tinha participado às autoridades o desaparecimento da menina, de casa, do quarto. Imediatamente, policiais, bombeiros, escuteiros e populares deram início a buscas nas redondezas. As buscas duraram quatro longos dias. No quinto dia, o progenitor indicou a quem o interrogava onde escondera o corpo da menina 
Valentina vivia com a mãe, mas estava a passar uns dias com o pai, a madrasta, e meios-irmãos.
Pai e madrasta foram detidos como principais suspeitos do homicídio, que terá ocorrido em casa.


O Mundo enlouqueceu de vez,  e eu, avó da Madalena, 3 anos, e da Carolina, 9 anos, longe delas e tomada por uma tristeza sem fim...
"Preciso de cismar." (*)

(*) Adília Lopes, in "Estar em casa".

(fotos da net)

07 abril, 2020

"Haja saúde!"- Adília Lopes


"CÓMICA
Fui medir a tensão à farmácia. Despi uma manga do casaco de malha. É um casaco que visto pouco. Quando voltei a vestir a manga e a abotoar o casaco enganei-me por duas vezes seguidas a abotoar o casaco. Chegava ao último botão junto ao pescoço e já não tinha casa, faltava uma casa para o botão. Uma freguesa que estava na farmácia riu-se a bandeiras despregadas da segunda vez que eu não tinha casa para o botão. Como estou muito gorda, senti-me o Bucha do Bucha e Estica a fazer um gag. Tinha inventado um gag por acaso. Senti-me contente. A farmacêutica disse que, quando abotoa a bata, também lhe acontece o mesmo. Foi um momento divertido na farmácia. Nem vale a pena acrescentar que a minha tensão estava boa. Haja saúde!"

Adília Lopes, in "Estar em casa", aqui no Rol.


Já que estou aqui, acrescento que a minha tensão está boa.
O meu apetite subiu um pouco. É o bicho, o malvado bicho. Ando tão atarantado com máscaras, luvas, álcool, gel, água e sabão, para evitar/matar o bicho, que nos momentos de algum sossego ataco a comida, tal qual o bicho mais devorador.
A propósito de matar o bicho,  ao pequeno almoço comi dois kiwis e aveia e goji com leite magro. Porto-me sempre bem de manhã. Depois, o dia vai correndo, e eu... comendo!! É a vida!
Haja saúde!
Beijos e abraços (virtuais, claro!). Protejam-se! 

(Agora vou tricotar casaquinhos de lã. NÃO SABES, TERESA!!!!  Ok, vou comer...)


(fotos da net)

25 maio, 2018

"Estar em casa" - Adília Lopes

O prazer do texto sim
o frete do texto não
“Estar em casa”, o mais recente livro de Adília Lopes (pseudónimo literário de Maria José da Silva Viana Fidalgo de Oliveira), junta-se a “Bandolim” e “Manhã” para completar uma trilogia de memórias em contexto autobiográfico.
Neste livro, como se de um diário se tratasse a poeta desfia memórias íntimas, acontecimentos da infância, detalhes do quotidiano, histórias, sonhos, olhares. E faz isso em pequenos poemas:
O ZERO E O UM
Quis sempre
ter um namorado
e só um
o que me custava
era não ter nenhum
Em frases soltas como esta: Quando se fecha os olhos com muita força, coisa que não se deve fazer, parece que se vêem quadros de Vieira da Silva.
Ou esta: Gosto muito de comparações. Escrevo muitas vezes a palavra como. Como gosto muito de comer até tem graça.
Em pequenos textos: Um padre contou-me que uma paroquiana era pobre, não tinha dinheiro para comprar bibelots para enfeitar a casa. Tinha um baú em que guardava os bibelots que tinha, tirava de lá um ou dois bibelots de cada vez para pôr em exposição, ia tirando os bibelots à vez para não ter todos os bibelots em exposição ao mesmo tempo. Assim, era como se tivesse sempre bibelots novos, quando tirava um bibelot do baú já não o via há tempo, já não se lembrava dele, era como se fosse novidade.
Um médico disse-me «a novidade estimula» e outro disse-me «a capacidade de esquecimento das pessoas é muito grande».
Não é bom ser pobre mas é bom ter imaginação.
Os ricos não têm muita imaginação.

Imaginação não falta a Adília Lopes. E um jeito encantador de brincar com as palavras.
Nada li dela antes deste livro pequenino, que comprei porque me enamorei da capa. (Acontece a todos!)
Agora que descobri a poeta, vou ler os restantes volumes da trilogia e os livros de poesia publicados  entre 1985 e 2000.
Os meus poemas são papéis, acções, obrigações.
Hum, acho que fiquei a gostar ainda mais de palavras!
E você, gosta de palavras?

“Estar em casa”, de Adília Lopes
Ed. Assírio &Alvim, 2018
87 págs.

22 maio, 2018

À terça - imagens e palavras: "pessoas"



"No gato no cão no periquito acredito 
em pessoas não acredito"


"Só gosto das pessoas boas
quero lá saber que sejam inteligentes artistas sexy
sei lá o quê
se não são boas pessoas
não prestam"


Frases de Adília Lopes, poetisa portuguesa (1960-), in "Estar em casa", Ed. Assírio & Alvim, 2018
Foto cedida pela JANITA, do blogue "O Cantinho da Janita". Obrigada, amiga!