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21 fevereiro, 2016

Harper Lee (1926-2016)



"Lembra-te que é pecado matar uma cotovia. As cotovias não fazem nada a não ser cantar belas melodias para nós. Não estragam os jardins das pessoas, não fazem ninhos nos espigueiros, só sabem cantar com todo o sentimento para nós. É por isso que é pecado matar uma cotovia."
Em "Mataram a cotovia", ed. Preença, 2012.

"Cega, é isso mesmo. Nunca abri os olhos. Nunca me ocorreu olhar o coração das pessoas, vi-lhes apenas o rosto. Ceguinha de todo, pior que uma pedra... Preciso de uma sentinela para andar comigo e informar-me do que vê de hora a hora. Preciso de uma sentinela que me diga que isto é o que um homem diz mas não é o que ele pensa, que trace uma linha pelo meio e diga isto é um tipo de justiça e aquele é outro, e me faça compreender a diferença." 
Em "Vai e põe uma sentinela", ed. Presença, 2015

HARPER LEE  (28 de Abril, 1926 /19 de Fevereiro, 2016), escritora americana que publicou apenas dois romances:
- o magnífico e luminoso "Mataram a cotovia", um enorme  e imediato sucesso de vendas, logo após a sua publicação em 1960.
- o singelo e opaco "Vai e põe uma sentinela", cujo manuscrito ela escondeu em meados da década de 1950 e alguém descobriu e publicou em 2015.
Aconteceu, mas não devia.
Digo eu!

11 dezembro, 2015

"Vai e põe uma sentinela" - Harper Lee

O sermão de hoje é de Isaías, capítulo vinte e um, versículo seis:
Porque assim me disse o Senhor:
Vai e põe uma sentinela que anuncie tudo o que vir!
“Vai e põe uma sentinela” (2015) avança vinte anos em relação à narrativa de “Mataram a cotovia” (1960) e revela uma América dividida pela rivalidade entre brancos e negros, nos turbulentos anos de meados de 1950. 
As personagens principais continuam a ser Scout, agora sempre tratada por Jean Louise, e Atticus Finch, o seu pai, advogado.
Neste romance o narrador é  desconhecido (no anterior romance Scout é a narradora) e começa com Jean Louise a viajar de comboio de Nova Iorque (onde vive) para Maycomb (sua cidade natal). 
Na estação à sua espera está Hank (Henry Clinton), o namorado. Apenas isso: namorado. Ama quem quiseres, mas casa-te com os teus era, para ela, uma máxima instintiva. Henry é advogado e trabalha no escritório do pai. 
Pai que, envelhecido e incapacitado com artrite reumatoide, a espera em casa. Casa onde agora apenas vivem ele e a irmã, Alexandra Finch, que para lá se mudou para o apoiar na doença.
Não estão nem Jem, o irmão, nem Calpurnia, a cozinheira negra. A razão da ausência é dada a conhecer sem grandes pormenores: Jem morreu subitamente e a cozinheira fugiu, na mesma altura, de casa da família Finch.
Vinte anos depois,  ainda há lugar em Maycomb para Jean Louise?
O que vai ver e ouvir que a deixa horrorizada e desiludida com a cidade, com as pessoas de quem gosta, e até com a sua própria família?
Atticus Finch, o pai perfeito que lhe ensinou o real significado da palavra justiça, o advogado íntegro, bondoso e estimado, também a vai desiludir?
Atticus,o corajoso advogado que no passado defendeu em tribunal um negro injustamente acusado de ter violado uma rapariga branca, é agora um septuagenário racista execrável?
Já não há lugar para mim.
Cega, é isso mesmo. Nunca abri os olhos. Nunca me ocorreu olhar o coração das pessoas, vi-lhes apenas o rosto. Ceguinha de todo, pior que uma pedra...
O que foi mesmo que Jean Louise descobriu?
Eu sei a resposta,  porque li o manuscrito perdido na década de 1950, encontrado em 2014 e publicado em 2015, mas não vou revelar.
Revelo apenas que, por mim, tal manuscrito podia ter continuado escondido no fundo da mais funda gaveta.
God bless you, Ms. Harper Lee.

De Harper Lee conhecíamos apenas “Mataram a cotovia”, romance acabado de escrever em 1959, publicado em 1960, vencedor do Prémio Pulitzer de Ficção no ano seguinte e adaptado ao cinema, por Robert Mulligan, em 1962.
Isto porque depois do enorme sucesso a escritora norte- americana afastou-se da ribalta e nada mais publicou.
Inesperadamente, em 2014 surgiu a notícia de que tinha sido encontrado em sua casa o manuscrito de “Vai e põe uma sentinela”, um inédito escrito em meados da década de 1950 – antes, portanto, da escrita e publicação de “Mataram a cotovia”.
Se já estava escrito porque não foi publicado? Mistério!
Harper Lee, agora com oitenta e nove anos, debilitada por um AVC que teve em 2007, quase cega e surda, vive num lar em Monroeville, sua cidade natal. Foi lá que a polícia confirmou que ela estava na posse das suas faculdades mentais e obteve o seu consentimento para publicação de “Vai e põe uma sentinela”. Consta que foi o editor a quem ela apresentou o manuscrito em meados da década de 1950, que a aconselhou a “pegar” nos muitos flashbacks da história e a partir deles escrever um novo romance. Ela seguiu o conselho. Guardou (ou escondeu?) o manuscrito de “Vai e põe uma sentinela” numa gaveta e escreveu “Mataram a cotovia”.
Confuso? Não, estranho!

Vai e põe uma sentinela, de Harper Lee
Tradução de Isabel Nunes e Helena Sobral
Ed. Presença, 2015
239 págs.

20 junho, 2015

"Mataram a cotovia" - Harper Lee

As cotovias não fazem nada a não ser cantar belas melodias para nós… é por isso que é pecado matar uma cotovia.
Scout, ou melhor, Jean Louise Finch, é a protagonista/narradora de “Mataram a cotovia” (1960) único romance de Harper Lee, publicado em 1960 e vencedor do Prémio Pulitzer, no ano seguinte.
É extraordinário!
Acreditem que vão gostar de conhecer Scout, a garota sulista, curiosa e destemida, a maria-rapaz que prefere jardineiras a vestidos, a leitora de tudo a que pudesse deitar a mão, a rebelde que usa os punhos para resolver as discussões com os colegas. E ganha-lhes!
Num jeito muito próprio, Scout desvenda pormenores deliciosos e empolgantes sobre a sua família, sobre o amigo Dill, os vizinhos, a misteriosa reclusão de Boo Radley, sobre as aulas numa escola frequentada por meninos maltrapilhos, desinteressados e violentos. Mas também, sobre a vida em Maycomb, uma pequena cidade do Alabama, durante a Grande Depressão, na América em luta pelos direitos civis.
Vivíamos na principal rua residencial da cidade: o Atticus (pai), o Jem (irmão) e eu, mais a Calpurnia, a nossa cozinheira. Eu e o Jem achávamos o nosso pai razoável: ele brincava connosco, lia para nós e tratava-nos com um distanciamento cortês. (…) Eu tinha dois anos quando a nossa mãe morreu, por isso nunca senti a sua ausência… O Atticus conheceu-a quando foi eleito pela primeira vez para a comissão legislativa do estado. Ele era já um homem de meia-idade, ela tinha menos quinze anos. O Jem era fruto do seu primeiro ano de casamento; quatro anos mais tarde nasci eu e dois anos depois a nossa mãe morreu de um súbito ataque cardíaco.
E vão empolgar-se com as suas brincadeiras, descobertas e traquinices, sempre na companhia do irmão e de Charles Baker Harris (Dill) o amigo das férias de verão, um ano mais velho do que ela, cuja chegada à cidade ela esperava ansiosamente. O verão era o Dill, o garoto cuja imaginação fervilhava de planos excêntricos, estranhos desejos e bizarras fantasias.
E vão espantar-se com as perguntas que ela faz ao pai, Atticus Finch, o conceituado e corajoso advogado, defensor dos mais pobres e dos negros, que habitou os filhos à linguagem jurídica, e que os encoraja a reflectirem, e não se deixarem arrastar pela ignorância e o preconceito da sociedade racista.
- Defendes pretos, Atticus?
- Claro que sim. Não digas pretos, Scout. É feio.
- Mas é o qu’toda a gente diz na escola.
- Então, a partir de agora passa a ser toda a gente, menos uma pessoa…
É então que surge o "caso" que põe a cidade em polvorosa e a vida dos Finch em perigo:
Tom Robinson, um habitante negro da cidade, é acusado de violação de uma rapariga branca, filha de pai alcoólico, violento e racista. Quando a comunidade branca se prepara para resolver o assunto através do linchamento do negro, o advogado Atticus aceita defendê-lo.
Preocupado mas decidido a seguir em frente, Atticus avisa a filha:
… ao longo da sua vida um advogado tem sempre um caso que o afecta a nível pessoal. Penso que este é o meu. Com certeza
vais ouvir algumas coisas desagradáveis na escola, mas faz-me um favor: mantém a cabeça levantada e os punhos em baixo. Não ligues ao que te possam dizer e, sobretudo, não deixes que eles te irritem.
O que se passou realmente entre Tom Robinson e Mayellla, naquela noite de Novembro de 1935?
O que vai acontecer a Tom?
E a Atticus? E aos filhos? E a Dill, o garoto que aparece na cidade, sempre sózinho, nas férias de verão?
E a Maycomb, a cidade onde o homem branco, violento e racista não respeita os direitos das mulheres, dos mais pobres e dos negros?
As repostas estão todas nesta história de aventuras, onde nada falta: amizade, amor, mistério, aventura, violência, intriga, crime, justiça, histerismo social e muitas e admiráveis personagens... nem sequer uma cotovia, que na escuridão da noite vai derramando o seu repertório numa abençoada ignorância...

Excelente leitura para as férias do próximo verão.
Os mais jovens, irão exultar com as aventuras de Scout, Jem e Dill.
Os menos jovens, irão "voltar" à adolescência e reviver as suas aventuras... e desventuras.
Acontece a todos!

Não matem a cotovia, de Harper Lee 
Tradução de Fernando Ferreira-Alves
Relógio d’Água, 2012
340 págs.

12 maio, 2015

Uma semana em Cabo Verde - sol, mar, areia, vento e... livros

Regressei de uma semana de férias no Sal, uma das menores ilhas habitadas de Cabo Verde, e principal foco de atracção turística do arquipélago.
A ilha do Sal é muito árida e plana, tem extensas praias de areia branca, um mar azul-turquesa, um clima ameno com pouca variação da temperatura, chuva escassa, e… e muito vento quente e seco, que chega do deserto do Sara.
Senti falta de mais calor (a temperatura não ultrapassou os 25 graus) e de mais banhos de mar (a água estava, vá lá, um pouco fria e agitada).
Aproveitei para visitar os pontos de maior interesse da ilha, caminhar na praia, apreciar a hospitalidade, alegria e simpatia do povo cabo-verdiano, ginasticar o corpo ao ritmo do funaná, ginasticar a mente em demoradas e excelentes leituras.
Comigo levei três livros:
Stoner - Na viagem de Lisboa para o Sal "entrei", meio às escuras, na história de vida do professor de literatura,William Stoner. História feita de desilusões, fracassos, tristezas.
Cemitério de pianos  - No areal, "espreitei", com óculos de sol, o quotidiano da família de Francisco. História cativante desde a primeira frase: "Quando comecei a ficar doente, soube logo que ia morrer".
Mataram a cotovia - Ainda no Sal, "mergulhei" nas primeiras páginas da história de Scout, a menina rebelde que cresce numa sociedade racista. Como não pude ler na viagem de regresso, cheguei ao fim da história já "derramada" no meu sofá.

No Sal, mesmo sem o sofá habitual, senti-me em casa.
A sério!