“Carrego gostosamente com o lastro do passado, albergo-o e permito que me acompanhe para todo o lado. A mim o que me incomoda amiúde é o presente, aquela sua lixada mania de se intrometer em tudo. O passado manda-se para a floresta do esquecimento e ali permanece, mesmo à custa de se converter em alimária. O presente, em contrapartida, espera-nos ao pé da floresta, a meio do caminho, e tem um machado na mão.”
31 julho, 2017
Carrego gostosamente com o lastro do passado...
“Carrego gostosamente com o lastro do passado, albergo-o e permito que me acompanhe para todo o lado. A mim o que me incomoda amiúde é o presente, aquela sua lixada mania de se intrometer em tudo. O passado manda-se para a floresta do esquecimento e ali permanece, mesmo à custa de se converter em alimária. O presente, em contrapartida, espera-nos ao pé da floresta, a meio do caminho, e tem um machado na mão.”
28 julho, 2017
Sempre que vejo sangue, desmaio...
Aguento apenas uns segundos antes de sentir aquela frouxidão que nasce nos pés e se instala na boca do estômago, depois os ombros descaem, o pescoço cede, as maçãs do rosto fraquejam-me como cera derretida e, quando o frio chega ao cérebro, já não estou. Falta de luz. Não é desagradável. Pelo contrário, tem qualquer coisa de abençoado, esse abandono, essa interrupção total da consciência. Tomara eu dormir sempre assim, flutuar à deriva nessa paz com todas as amarras cortadas. O desmaio, como o sono, está fora do tempo, numa dimensão própria que parece eterna mesmo que dure apenas uns segundos.”
11 julho, 2017
Quando não consigo dormir...
Não costuma falhar. Houve alturas em que cheguei a contar mais de cento e cinquenta dedos, mas com firmeza e método, se os contarmos realmente um a um e mexermos de cada vez aquele que é devido, acaba por se conseguir. Vai-nos dando o sopor.
Nunca tomei um comprimido para dormir. Nunca, nem sequer uma valeriana. (…) Nunca um comprimido. Sempre os dedos um a um!”
23 junho, 2017
A primeira vez que perguntei donde vinham os meninos...
Nascer é isso: procurar uma saída, procurá-la às apalpadelas e aos encontrões, cegos pelo sangue. E depois a vida inteira à procura de uma saída que nos tire do atoleiro em que a saída anterior nos meteu, talvez porque não era exactamente uma saída e assim, com a memória entretida, acabamos por acreditar que não nascemos assim, que viemos ao mundo limpos e embrulhados como uma rebuçado, a cheirar a gazes e pomadas, com a pele hidratada de cremes, e não de sangue. É a primeira lenda. Ainda não acabámos de nascer e já estamos a inventar como nascemos. Agrada-nos a ideia de sermos filhos de uma ideia. Queremos ser filhos do amor e somos filhos do sexo. É possível que o amor contenha o sexo, como as nascentes dificilmente perceptíveis contêm rios imensos.”
03 dezembro, 2010
"Mentira" - Enrique de Hériz
Um dos grandes romances espanhóis dos últimos anos, é uma história, poderosa, contada por duas mulheres: Isabel (a mãe) antropóloga especialista em ritos funerários, dada como morta na selva da Guatemala depois de esquecer a mochila com a documentação junto de um cadáver feminino, que opta por viver a mentira da sua morte; e Serena (a filha) que pesquisa e escreve histórias da família (histórias de enganos), ao mesmo tempo que lida com os irmãos e com a morte da mãe.
Isabel, ao optar por viver a própria morte sem estar morta, evita regressar a uma vida junto da família, que “se parecia cada vez menos com a vida”, a um emaranhado de enganos e mentiras, “mentiras que não podia denunciar depois de ter contribuído para a sua criação durante tantos anos com o seu silêncio”. “O silêncio é às vezes uma das formas mais sofisticadas da mentira”.
Indignada por os filhos não terem esclarecido o equívoco da sua morte, aquando do reconhecimento do cadáver “supõe-se que os filhos estão geneticamente preparados para reconhecer a mãe” ,regressa, decidida a acabar com a mentira da sua morte e com o emaranhado de mentiras das vidas passadas do marido Júlio e do pai Simón, que sempre silenciou.
“Tive muito tempo para pensar …. E agora sei que calei demasiado, que muitas vezes não vos disse o que devia dizer-vos…levei tempo a voltar porque estava indignada por não terem sido capazes de reconhecer o meu corpo “.
Serena investiga o passado, detecta lapsos e procura a verdade.
Só “a mamã a descobrir o valor medicinal da verdade” desvendará todos os mistérios.
Gostei muito do que li - e não é mentira!
Mentira, de Enrique de Hériz
Dom Quixote, 2006
Tradução de J. Teixeira de Aguilar
505 págs.





