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12 dezembro, 2017

"Em viagem pela Europa de Leste" - Gabriel García Márquez

…é pelo menos desconcertante que no mundo novo, em pleno centro da revolução, todas as coisas pareçam antiquadas, bafientas, decrépitas.
Em Viagem pela Europa de Leste“ é a crónica testemunhal da viagem que Gabriel García Márquez realizou pelos países do enclave comunista, nos anos 50, acompanhado da francesa Jacqueline, paginadora numa revista de Paris, e do italiano Franco, correspondente ocasional de revistas milanesas.
Frankfurt, 18 de Junho, dez da manhã - Franco tinha comprado para o verão um automóvel francês e não sabia o que fazer com ele, de maneira que nos propôs «ir ver o que há atrás da “cortina de ferro”». Ao entardecer do mesmo dia, um garboso militar alemão examina os três passaportes e de imediato autoriza que atravessem a zona de ninguém, os 800 metros em branco que separam os dois mundos. Já na fronteira as coisas complicam-se. Um jovem soldado russo, armado de pistola-metralhadora, enfiado num uniforme pobre e sujo e grande demais, faz-lhes sinal para pararem antes da barreira e esperarem pelo pessoal da alfandega, que jantava. Era noite escura quando a barreira foi levantada, eles passaram, mas logo voltaram a ser parados. Só depois da uma da manhã recebem autorização de entrada na Alemanha Oriental. Estavam exasperados, esfomeados e no limite da fadiga.
Primeiro mito a cair: a «Cortina de Ferro» não é uma cortina nem é de ferro. É uma barreira de pau pintada de vermelho e branco…
Primeiro contacto com o proletariado do mundo oriental: às oito da manhã, no restaurante de uma bomba de gasolina à beira da autoestrada, uma centena de homens e mulheres de rostos atormentados, maltrapilhos, a comer em abundância batatas e carne e ovos estrelados no meio de um surdo rumor humano e num salão cheio de fumo; era gente estragada, amargurada.
A viagem prossegue pela Checoslováquia "o único país socialista onde as pessoas não parecem sofrer de tensão nervosa e onde não se tem a impressão – falsa ou verdadeira – de se ser controlado pela polícia secreta"; pela Polónia "os polacos tentam continuar vivos com uma certa nobreza. Andam remendados, mas não rotos (…) conservam uma dignidade que infunde respeito. Varsóvia está cheia de livros (…) os polacos enchem com a leitura todos os vazios da vida); pela Hungria (esta gente está morta" e pela União Soviética,  "os soviéticos são um pouco histéricos quando expressam os seus sentimentos. Alegram-se com saltos de cossacos, despem a camisa para a oferecerem e lavam-se em lágrimas para se despedirem de um amigo. Em contrapartida, porém, são extraordinariamente cautelosos e discretos quando falam de política. Nesse terreno é inútil conversar com eles para encontrar algo de novo: as respostas estão publicadas. Não fazem outra coisa senão repetir os argumentos do Pravda".
Consegue Gabriel García Márquez "desvendar a verdadeira face do comunismo idealizado por Lenine: um regime kafkiano que quase não é questionado por um povo assustado que parece resignar-se ao seu destino"?
A resposta a esta pergunta e a muitas outras, encontram-se nas páginas desta crónica, que à época foi publicada em fascículos. Uma rigorosa análise de acontecimentos políticos e sociais irrepetíveis, aclarada pelo olhar desassombrado do escritor/jornalista perante a pobreza extrema, a resignação, a desmotivação, a tristeza, a simplicidade, a bondade, a franqueza das pessoas que andavam pela rua de sapatos rotos…
Leia!

(Em 1990 visitei Praga e Budapeste. Eram cidades tranquilas, ricas em beleza natural e arquitectónica, mas esvaziadas de luz e impreparadas para receber turistas. A pobreza era visível e chocante principalmente na população triste, amargurada e silenciosa que ignorava/desprezava os estrangeiros. Eram poucos os carros que circulavam nas largas avenidas. Eram menos as pessoas que calcorreavam as ruas. As lojas estavam abertas, mas vazias de artigos. Os turistas eram instalados em enormes hotéis de 5 estrelas, de visual antiquado. Como estarão agora estas cidades encantadoras? Gostava de lá voltar!
Em Agosto de 2017 visitei a Alemanha. Que país fascinante! Em breve postarei fotos no meu blogue "fugas reveladas".)


Em viagem pela Europa de Leste, de Gabriel García Márquez
Tradução de J. Teixeira de Aguilar
Ed. D. Quixote, 2017
190 págs.

17 abril, 2014

Gabriel García Márquez (1928-2014)


Os que me conheceram aos quatro anos dizem que era pálido e ensimesmado e que só falava para contar disparates, mas os meus relatos eram em grande parte episódios simples da vida diária, que eu tornava mais atraentes com pormenores fantásticos para que os adultos me prestassem atenção. A minha melhor fonte de inspiração eram as conversas que os mais velhos mantinham diante de mim, porque pensavam que não as entendia, ou as que cifravam de propósito para que não as entendesse. E, de facto, acontecia o contrário: absorvia-as como uma esponja, desmontava-as em peças, alterava-as para escamotear a origem, e quando as contava aos mesmos que as tinham contado ficavam perplexos pelas coincidências entre o que eu dizia e o que eles pensavam.
Tive muita dificuldade em aprender a ler. Não me parecia lógico que a letra m se chamasse éme e, no entanto, com a vogal seguinte não se dissesse émea e sim ma. Era-me impossível ler assim.
Quando o meu avô me ofereceu o dicionário, despertou em mim tal curiosidade pelas palavras que o lia como um romance, por ordem alfabética e sem entender nada. Foi assim o meu primeiro contacto com o que haveria de ser o livro fundamental no meu destino de escritor.
...
Comecei a ler como um autêntico romancista artesanal, não só por prazer como pela curiosidade insaciável de descobrir como estavam escritos os livros dos sábios. Lia-os pelo direito, depois pelo avesso, e submetia-os a uma espécie de estripamento cirúrgico até desentranhar os mistérios mais recônditos da sua estrutura.
A minha vida esteve sempre perturbada por um emaranhado de rasteiras, fintas e ilusões para ludibriar os incontáveis engodos que tentavam transformar-me em qualquer coisa que não fosse escritor."

Em "Viver para contá-la", de Gabriel García Márquez, ed. Dom Quixote, 2003
 
Adeus, Gabo!

10 dezembro, 2013

"Olhos de cão azul" - Gabriel García Márquez

Sonho sempre com um homem que me diz: olhos de cão azul… preciso de encontrar o homem que em sonhos me diz isso mesmo.
Eu não sonhei com estes contos, mas gostava de encontrar quem os escreveu. Oh! Se gostava.
Como seria estar ao lado de um dos meus escritores preferidos? Um enorme prazer... e um susto!
Um susto, mas um grande susto mesmo,  senti ao ler estas onze histórias mórbidas, melancólicas, pessimistas, amargas. Ou não fosse a MORTE o tema central de todas elas.
Tudo o que me assusta e entristece está nestas  histórias, escritas entre 1947-1945. (“Cem anos de solidão” foi publicado em 1967), críveis pela escrita mágica de GGM.
Eu acreditei logo na primeira, sobre um rapaz que passou a infância morto - “A terceira resignação” (1947)  
- Minha senhora, o seu filho tem uma doença grave: está morto.
… a mãe mandou-lhe fazer um caixão pequeno, de madeira nova; um caixão de criança, mas o médico mandou que lhe fizessem uma caixa maior, uma caixa para um adulto normal, pois aquela, pequena, poderia atrofiar o crescimento e viria a ser um morto disforme ou um vivo anormal.
… a mãe mandou fazer um caixão grande, para um cadáver adulto… depressa começou a crescer dentro da caixa.
Acreditei mesmo?!
Que importância tem... os meus olhos são castanhos… e leais (a GGM).
Olhos de cão azul, de Gabriel García Márquez
Ed. Quetzal, 1993
Tradução de Maria da Piedade Ferreira
158 págs.Oh! Se gostava.

14 junho, 2013

"Ninguém escreve ao coronel" - Gabriel García Márquez

Durante cinquenta e seis anos – desde que terminou a última guerra civil – o coronel não fizera outra coisa senão esperar.
Primeiro pelo subsídio, que não fora mais do que uma promessa de um governo interessado em desmobilizar os oficiais da revolução, depois pela carta que anuncie a sua pensão de veterano.
É triste, mas lindo, este romance que Gabriel García Márquez escreveu em 1957, e que conta a história de um coronel (sem nome), de setenta cinco anos, que espera pacientemente pela sua pensão de veterano. Pontualmente, todas as sextas-feiras o velho coronel sai de casa para ver chegar e distribuir o correio, na esperança de voltar para junto da mulher, asmática, com a carta esperada.
A mulher, companheira de solidão, de quarenta anos de vida em comum, de fome em comum, de sofrimento em comum, espera-o:
- Nada?
- Nada.
A frustração repete-se, semana após semana.
- Já estamos fartos de esperar, disse-lhe a mulher. - É preciso ter a paciência de boi que tu tens para esperar por uma carta durante quinze anos.
Vivem num estado de extrema pobreza, numa casa de tecto de palma com paredes de caliça onde já nada resta para vender, onde se põem pedras a ferver para que os vizinhos não percebam que ali há dias em que não se faz comida.
Vivem num estado de extrema tristeza, pela perda do único filho, Agustín, assassinado quando distribuía propaganda clandestina.
Do filho herdaram um valente galo de combate que o coronel teima em manter e alimentar, na esperança de um dia ganhar com ele algum dinheiro num combate, para desespero da mulher, que preferia fazer dele galo de cabidela.
- É um galo que é dinheiro em caixa – disse ele. - Vai dar-nos de comer durante três anos.
- As ilusões não se comem – responde ela.
- Não se comem, mas alimentam – retorquiu o coronel.
De ilusão em ilusão, de empréstimo em empréstimo (para pagar quando chegar a pensão), a vida dos dois idosos reduz-se a três palavras: espera, solidão, fome.
É difícil ler nas entrelinhas do que a censura permite publicar.
E mais não digo.
Ufa!
Ao longo de 103 páginas esperou o coronel e esperei eu, que o “raio” da pensão chegasse.
Esperei e desesperei.
Mas gostei.
 
Ninguém escreve ao coronel, de Gabriel García Márquez
Círculo de Leitores, 1994
Tradução de José Colaço Barreiros
103 págs.

19 abril, 2013

"A incrível e triste história da cândida Eréndira e da sua avó desalmada" - Gabriel García Márquez

Voltei aos contos.
Voltei à escrita encantatória de Gabriel García Márquez.
Este pequeno livrinho é composto por sete contos.
Sete contos de um realismo mágico, escritos por um escritor extraordinário, que utiliza a prosa como pura poesia.
Sete histórias sobre o quotidiano de personagens inesquecíveis, alguns já nossos conhecidos de outras obras do autor.
Apenas um conto é anterior à fase de plena maturidade de GGM, alcançada com “Cem anos de solidão”, a história mágica que publicou em 1967 e que deslumbrou milhões de leitores por todo o mundo.
Eis os sete
. Um senhor muito velho com umas asas enormes (1968)
A história do anjo cativo, procurado pelos doentes mais infelizes das Caraíbas: uma pobre mulher que desde menina contava os baques do coração e já não lhe chegavam os números, um jamaicano que não podia dormir atormentado pelo ruído das estrelas, um sonâmbulo que se levantava de noite para desfazer adormecido as coisas que fizera acordado…
. O mar do tempo perdido (1961)
. O afogado mais bonito do mundo (1968)
. Morte constante para além do amor (1970)
Faltavam – lhe seis meses e onze dias para morrer quando o senhor Onésimo Sánchez encontrou a mulher da sua vida…Fora os médicos, ninguém sabia que estava condenado a prazo fixo, pois tinha decidido padecer a sós o seu segredo, sem qualquer mudança de vida, e não por soberba, mas por pudor.
. A última viagem do navio fantasma (1968)
Agora vão ver quem sou, disse para si mesmo, com o seu novo vozeirão de homem.
Começa assim esta história, contada em sete páginas, num único parágrafo.Ufa!
. Blacamán o bom, vendedor de milagres (1968)
. A incrível e triste história da cândida Eréndira e da sua avó desalmada (1972)
Eréndira tem catorze anos e vive com a avó. Uma noite, cansada do trabalho árduo do dia, recolhe ao seu quarto, poisa o candelabro na mesinha de cabeceira, adormece rapidamente e… ao amanhecer, gotas de chuva grossa apagavam as últimas brasas do incêndio que destruiu a casa da avó.
Minha pobre filha… a vida não te vai chegar para me pagares este percalço.
Começou a pagá-lo nesse mesmo dia… quando a avó a "ofereceu" ao tendeiro da aldeia, um viúvo esquálido…
E, quando na aldeia já todos os homens tinham pago pelo amor de Eréndira, avó e neta partem para terras distantes.
Tinham decorrido seis meses desde o incêndio quando a avó conseguiu ter uma visão completa do negócio.
- Se as coisas continuarem assim – disse ela a Eréndira -, pagas-me a dívida dentro de oito anos, sete meses e onze dias.
Tudo muda quando aparece Ulisses, filho de um contrabandista de laranjas. Sim, laranjas perfumadas e... pesadas. Mudará?
Como acaba esta história de amor, perversão, inocência e maldade?
Eu sei...
 
A incrível e triste história da cândida Eréndira e da sua avó desalmada, de Gabriel García Márquez
Quetzal Editores, 1992
Tradução de Pedro Tamen
135 págs.

01 fevereiro, 2013

"Relato de um náufrago" - Gabriel García Márquez

O mar é igual por todos os lados.
É mesmo verdade que este naufrágio aconteceu? Sim, como esclarece o autor no início do livro, ao contar “a história desta história”.
Mas, há livros que não são de quem os escreve, mas de quem os sofre, e GGM dá a palavra a Luis Alejandro Velasco, vinte anos, único sobrevivente do naufrágio, para que relate minuciosamente como tudo se passou.
Perguntam-me como é que se sente um herói. Nunca sei o que responder. Pela minha parte, eu sinto-me o mesmo que antes. Não mudei nem por dentro nem por fora.… estive dez dias sem comer nem beber numa balsa.
Tudo aconteceu em Fevereiro de 1955. O contratorpedeiro “Caldas”, da Marinha de Guerra da Colômbia, regressava ao porto colombiano de Cartagena, depois de oito meses em reparações no porto de Mobile - Alabama, Estados Unidos.
Regressava com a tripulação e carregado de contrabando, como fogões, frigoríficos, máquinas de lavar
A duas horas da chegada a Cartagena, uma tempestade no mar das Caraíbas, provoca o desastre: ondas altas e fortes fazem adornar o navio para estibordo e varrem o convés, atirando para o mar oito marinheiros e grande parte da carga amontoada na proa.
O navio, ainda com excesso de peso,  não pôde manobrar para resgatar os marinheiros do mar e seguiu viagem para Cartagena.
Iniciaram-se as buscas. Quatro dias depois, os marinheiros foram declarados oficialmente mortos, numa tempestade - que nunca existiu.
Mas...  numa balsa à deriva no mar, Luis Alejandro Velasco sobrevive.
Sobrevive a dez dias de solidão, desespero, fome, sede, “encontros” diários com tubarões, muito mar e muito céu.
… cada vez que o ânimo esmorecia, acontecia qualquer coisa que fazia renascer a minha esperança. Nessa noite foi o reflexo da Lua nas ondas.
Finalmente, um dia o náufrago solitário vê terra, e não é uma ilusão. É uma praia deserta no norte da Colômbia.
Desesperado, nada para terra. Esgotado, procura socorro. Torna-se num herói nacional e é condecorado.
Mas a sua versão da história não agrada ao governo (uma ditadura militar)  e é em terra que Velasco irá viver a maior das tormentas.
Algumas pessoas dizem-me que esta história é uma invenção fantástica. Eu pergunto-lhes: então, o que é que eu fiz durante dez dias no mar?
O relato dos factos foi recolhido por GGM, no jornal onde trabalhava, e publicado em fascículos assinados pelo náufrago. Rapidamente se transformou em denúncia política. Custou a glória ao náufrago, o encerramento do jornal e o exílio ao repórter.
Quinze anos depois, GGM narra, como só ele sabe, esta aventura com sabor a sal.
Saboreei!
 
Relato de um náufrago, de Gabriel García Márquez
Edições Asa, 1995
Tradução de Cristina Rodriguez e Artur Guerra
124 págs.

09 novembro, 2012

"A hora má: o veneno da madrugada" - Gabriel García Márquez

“É proibido falar de política”, diz um letreiro pregado na parede da barbearia.
- Quem te autorizou a pôr ali aquele letreiro? - perguntou o alcaide, apontando o aviso.
- A experiência – respondeu o barbeiro.
- Aqui só o Governo tem o direito de proibir seja o que for – disse. – Estamos numa democracia.
Pois é, este hilariante romance foi escrito por GGM em 1962, precisamente vinte anos antes da conquista do Nobel e cinco anos antes da publicação da sua obra-prima “Cem anos de Solidão”.
A acção tem lugar num pequeno povoado perdido no interior de um qualquer país da América Latina. Um povoado em tempos devassado por guerras políticas e repressão brutal mas onde agora reinava a ordem social. Todos viviam “numa santa paz”. Verdadeira?
Não! Os jogos de poder, a corrupção, a miséria e os conflitos sociais eram um prenúncio de tragédia e esta chegou de repente, como se Deus tivesse resolvido que aconteceriam todas juntas as coisas que durante anos deixaram de acontecer.
E chegou com um tiro que rasgou a madrugada.
Um tiro que sobressaltou o padre Ángel, que se preparava para celebrar missa, na sua igreja infestada de ratos; despertou o alcaide, que tentava adormecer, depois do oitavo analgésico para atenuar uma dor de dentes; alarmou os habitantes do povoado, que correram em roupa de dormir para a praça.
O tiro foi disparado por César Montero, um comerciante de gado. O atingido de morte foi Pastor, um humilde tocador de clarinete.
Porquê?
Por causa de um papel – um pasquim - colado na porta de casa de Montero, informando-o da infidelidade da mulher. Mas era verdade ou mentira?
Para o doutor Giraldo, os pasquins dizem o que toda a gente sabe, e que quase sempre é verdade.
Há já algum tempo que apareciam afixados nas portas das casas do povoado. Sempre de madrugada, sempre anónimos, faziam denúncias sobre a vida privada dos cidadãos, como traições, assassinatos, infidelidades, segredos de família envolvendo filhos bastardos e abortos escondidos. Todos se sentiam ameaçados. Qualquer um podia ser o autor ou a próxima vítima. O medo, a raiva e a vingança desencadeiam uma onda de violência colectiva.
Pastor foi vítima dessa violência mas os pasquins continuaram a aparecer, à hora má das madrugadas.
Para o velho e pobre padre Ángel os pasquins são obra da inveja numa terra exemplar, a terra mais cumpridora de toda a Comunidade Católica.
Já o juiz Arcadio, que tratava as persistentes dores de cabeça com analgésicos e cerveja, diz que os pasquins não são obra de uma única pessoa e aposta com o escrivão que vai descobrir os seus autores.
O alcaide corrupto, responsável pela segurança do povoado, impõe o recolher obrigatório e ordena aos seus guardas que façam rondas nocturnas. Pede, até, ajuda a uma adivinha. Nada resulta: os pasquins continuam a ser afixados.
São muitos e convincentes os personagens desta excelente história, narrada com a marca inconfundível de um grande autor e merecido Nobel.
São muitas as vítimas dos pasquins, muitos os eventuais autores e muitos os segredos revelados.
- Se pelo menos se soubesse quem os põe.
- Quem os põe sabe.
Eu penso que sei… mas não digo!
Pós-escrito:
Está a chover novamente. Com este Inverno e as coisas que em cima te conto, creio que nos esperam dias amargos.
Soube-me bem este “veneno da madrugada”. Morri, apenas, de riso. Haja Deus!
Obrigada Carlos Reys, pela excelente sugestão de leitura. 
 
A hora má: o veneno da madrugada, de Gabriel García Márquez
Tradução de Egito Gonçalves
Dom Quixote, 2008
187 págs.

21 setembro, 2012

"Doze contos peregrinos" - Gabriel García Márquez

O esforço de escrita de um conto é tão intenso como o de começar um romance. Porque no primeiro parágrafo de um romance tem de se definir tudo: estrutura, tom, ritmo, extensão, e por vezes até o carácter de uma ou outra personagem. O resto é o prazer de escrever, o mais íntimo e solitário que possa imaginar-se…
O conto, em contrapartida, não tem princípio nem fim: pega ou não pega. E se não pega, a experiência própria e alheia dizem-me que na maioria dos casos será mais saudável começar de novo por um caminho diferente, ou deitar tudo fora.
Pois é, estes doze extraordinários contos – histórias de solidão – foram selecionados pelo autor, de entre os muitos que escreveu durante duas dezenas de anos. Num belíssimo prefácio, ele explica o que o levou a escrever pequenas histórias, qual foi o processo de escrita, onde as escreveu, porque as abandonou ao esquecimento, como selecionou estas doze, o prazer que tirou da sua escrita.
São histórias amargas de seres solitários, onde personagens imaginados se cruzam com personagens da vida real, numa Europa do pós-guerra.
São histórias brilhantes de amor, poder e morte, um retrato de costumes recriado com sensibilidade, ironia e humor.
As doze histórias são inesquecíveis mas, na impossibilidade de escrever sobre todas, destaco:
”Maria dos Prazeres”, a história de uma mulata esbelta de setenta e seis anos, há mais de cinquenta anos a exercer a profissão de prostituta em Barcelona, e que na sequência de um sonho que lhe revelou a sua própria morte, decide acertar com um agente funerário todos os pormenores do seu funeral.
“A Santa”, a história de Margarito Duarte, que batalha pela canonização da filha junto da Santa Sé, mostrando tanta tenacidade e fé que, depois de cinco papas mortos, merece ele próprio ser canonizado.
“Alugo-me para sonhar”, a história da latina Frau Frida, que em Viena tinha como única ocupação: alugar-se para sonhar.
“Boa viagem, senhor Presidente”, a história de um ex-presidente (pobre ou rico?) das Caraíbas, que volta a Genebra após duas guerras mundiais, em busca da cura para uma dor improvável e escorregadia.
Ainda no prefácio, diz GGM sobre estes contos: não voltarei a lê-los, como nunca voltei a ler nenhum dos meus livros com medo de me arrepender.
Pois eu, voltarei a reler as histórias escritas por quem tem o dom especial de me maravilhar.
Adorei!
Doze contos peregrinos, de Gabriel García Márquez
Dom Quixote, 1993
Tradução de Miguel Serras Pereira
231 Págs.

27 julho, 2012

"Memória das minhas putas tristes" - Gabriel García Márquez

Agora que foi oficialmente anunciado que Gabriel García Márquez perdeu a memória, lembrei-me de reler o seu último romance, publicado em 2004, onde as coincidências entre o escritor e o idoso personagem-narrador são evidentes.
Trata-se de uma pequena mas profunda e deliciosa história sobre a paixão e o amor na velhice, e começa assim:
No ano dos meus noventa anos quis oferecer a mim mesmo uma noite de amor louco com uma adolescente virgem.
Não se assustem, a história é lindíssima e não é sobre sexo – é sobre AMOR.
Quem a conta é um homem na idade em que cada hora é um ano.
Um homem, que aos cinquenta anos começou a notar as primeiras falhas de memória.
Um homem que vive duma reforma por quarenta anos de trabalho como inflaccionador de telegramas no El Diario de la Paz, das aulas que dá de gramática castelhana e latim, das crónicas dominicais que escreve há mais de meio século e das críticas sobre música e teatro.
Um homem que mantém desde os vinte anos um registo sobre as mulheres com quem se relacionou sexualmente, mulheres a quem sempre pagou.
O sexo é o consolo de uma pessoa quando lhe falta o amor.
Um homem que esteve para casar mas desistiu no dia da cerimónia.
Um homem que no dia do seu nonagésimo aniversário, decide viver uma nova experiência.
Estava há nos em santa paz com o meu corpo, dedicado à releitura errática dos meus clássicos e aos meus programas privados de música erudita, mas o desejo daquele dia foi tão premente que me pareceu um recado de Deus.
Então, fez um telefonema para a sua amiga Rosa Cabarcas, dona de um bordel clandestino, pediu e esperou.
Dias depois, Rosa Cabarcas anunciou: Tenho o teu presente.
A dormir, esperava-o uma menina franzina, a quem chamará Delgadina.
Naquela noite descobri o prazer inverosímil de contemplar o corpo de uma mulher adormecida sem as pressas do desejo ou dos entraves do pudor.
A dormir, e sempre a dormir, Delgadina será para ele o prazer solitário, o primeiro amor da sua vida de noventa anos.
Maravilhoso!

Memória das minhas putas tristes, de Gabriel García Márquez
Ed. Dom Quixote, 2005
Tradução de Maria do Carmo Abreu
114 págs.

01 junho, 2012

"O amor nos tempos da cólera" - Gabriel García Márquez

Só Deus sabe quanto te amei.
Estas foram as últimas palavras do doutor Juvenal Urbino para Fermina Daza, a mulher com quem viveu um casamento de cinquenta anos.
Mas podiam ser as primeiras palavras de Florentino Ariza para Fermina Daza, agora viúva, no primeiro encontro a sós, depois de cinquenta e um anos, nove meses e quatro dias de amor eterno.
E é essa longa história de amor que Gabriel García Márquez conta neste extraordinário romance. E conta-a de forma mágica, sem pressa, como só ele sabe.
Mas vamos à história em que os sintomas do amor são idênticos aos da cólera.
Local: uma pequena cidade do Caribe. Tempo: final do séc. XIX, princípio do séc. XX.
No dia do funeral do doutor Juvenal Urbino, Florentino Ariza vai apresentar condolências a Fermina Daza e repete-lhe o juramento da fidelidade eterna e do seu amor para sempre.
O amor torna-se maior e mais nobre na adversidade.
Tinham passado cinquenta e um anos, nove meses e quatro dias sobre o momento em que Fermina, então com dezoito anos, o repudiara e apagara da sua vida, depois de um longo namoro de cartas diárias, serenatas pungentes, poemas suplicantes e flores perfumadas.
Já Florentino, que na altura do rompimento tinha vinte e dois anos, pensara nela todos os dias, mantendo a paixão viva à custa de memórias, numa solidão sem revolta, atenuada esporadicamente em relações ocasionais.
As memórias de um e outro são o corpo principal deste romance, um verdadeiro hino ao amor, à velhice, à morte.
…a memória do coração elimina as más recordações e exalta as boas e, graças a esse artifício, conseguimos suportar o passado.
Tudo começa com a casual troca de olhares de Florentino (funcionário dos Correios) e Fermina (estudante e filha de um comerciante de mulas); segue-se um atribulado e secreto namoro de três anos de correspondência apaixonada; continua com a partida dela para a viagem do esquecimento (por imposição do pai); o regresso ano e meio depois; a carta dela que o deixa à beira da loucura: Hoje, quando o vi apercebi-me que o que se passou connosco não foi mais do que uma ilusão; a desilusão dele; o casamento dela com um médico e a entrada na sociedade; a decisão dele de ganhar nome e fortuna para a recuperar; o afastamento silencioso de ambos até à primeira noite de viuvez de Fermina.
Florentino Ariza sabia que estava predestinado a fazer feliz uma viúva, e que ela o faria feliz, e isso não o preocupava. Pelo contrário: estava preparado.
Assim aconteceu, num dos mais belos finais que já li.
Foi um prazer voltar a este romance fabuloso!
Como diz João de Melo (na Introdução): É um livro para viver.

O amor nos tempos da cólera, de Gabriel García Márquez
Círculo de Leitores, 1987
Tradução de Margarida Santiago
365 págs.

20 março, 2012

Contos de... Gabriel García Márquez

Acabei de comprar esta grande (709 págs.) compilação de contos, escritos por Gabriel García Marquez desde os finais dos anos 1940, até meados dos anos 1990.
Segundo a sinopse: é um conjunto de 41 histórias que nos permite desfrutar de todo o encanto e mestria do genial escritor colombiano, e que nos leva a um mundo inesquecível cuja realidade se expressa mediante fórmulas mágicas e lendárias.
Histórias fantásticas que reflectem a cultura sul-americana, misturando acontecimentos surreais e detalhes do quotidiano, escritas com o estilo que caracteriza a obra de García Márquez, em que os milagres se inserem no dia a dia e a prosa se aproxima inevitavelmente do seu destino fatal: a poesia.

Uau, tanta coisa boa para ler!
Reparem só no primor do título duma das histórias: “A incrível e triste história da Cândida Eréndira e da sua avó desalmada”.
Encontrarei tempo para tanta magia?
Por que é que o dia tem só 24 horas?!