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15 setembro, 2015

"Poemas escolhidos" - Vasco Graça Moura

quando os dias se movem

usamos nalgumas coisas uma violência simples
isso é romper os símbolos que envidraçam o resto
mas parte quem amamos quando os dias se movem
se escolheu os limites para a pele aderir

no fundo de nós mesmos omitem-se tais coisas
e criam-se ficções, defesas, crueldades
dos jogos da aparência (à vista nos perdemos)
e movem-se nos dias seus múltiplos contrários

e contudo se movem se quem amamos fere
e o faz de razão fria ou esquecidamente
e a alegria se torna um torpe imaginário
quem muito amamos mata: vai-nos desinventando

27 abril, 2014

Vasco Graça Moura (1942-2014)

PAX RUSTICA, uma ironia

atravesso o pinhal. o meu cão salta.
fulvo tigrado ele é da cor do mato.
por entre o tojo escapuliu-se o gato
e liga as copas uma nuvem alta.

evito a estrada e o seu traçado exacto
que a lentidão municipal asfalta.
antes o cimo em que o pulmão se exalta
e as pinhas vêm à ponta do sapato.

reestolho e urze, giestas, estalidos
de folhas secas, água a correr, ruídos,
vozes distantes chamam dos quintais.

já o sol vai a pino, já no ermo,
como a manhã, todo o prazer tem termo:
chegado à vila, vou comprar o jornal.

Em "Poemas Escolhidos", de Vasco Graça Moura, Bertrand Editora, 1996

Adeus,Vasco Graça Moura!

25 setembro, 2012

Poema de... Vasco Graça Moura


AS AVES MIGRAM EM SETEMBRO
as aves migram em setembro.
nem vou com elas, nem
guardo delas
a mínima memória.

escurece mais cedo,
o tempo não se rouba,
escoa-se como o frio
por uma camisola

até dentro da pele.
as aves migram
calmamente, eu
permaneço aqui

de guarda à água lisa que viu passar seus bandos
e em que hás-de debruçar-te.

Poema de Vasco Graça Moura, Portugal (1942-)
Pintura (O voar das aves) de Eleitão – Eduardo Leitão, Portugal

12 dezembro, 2011

"Natal... Natais" - Vasco Graça Moura

Esta antologia reúne oito séculos de poesia em língua portuguesa sobre o Natal. Inicia-se com Afonso X, o Sábio, e termina com Pedro Sena-Lino, poeta que começou a publicar em 2005.
Inclui 202 textos de 130 poetas.
Num único livro encontramos poemas de Fernando Pessoa, Luís de Camões, António Gedeão, Almeida Garrett, António Nobre, José Régio, Gil Vicente e muitos outros poetas conhecidos.
Até José Saramago (Golegã, 1922-2010) nos brindou com um pequeno poema sobre o tema:

NATAL
Nem aqui, nem agora. Vã promessa
Doutro calor e nova descoberta
Se desfaz sob a hora que anoitece.
Brilham lumes no céu? Sempre brilharam.
Dessa velha ilusão desenganemos:
É dia de Natal. Nada acontece.

Mas também encontramos poemas belíssimos de autores menos conhecidos, e até de alguns anónimos.
Seleccionei um poema de Alberto de Serpa (Porto, 1906-1972).

NATAL
Os joelhos em terra,
as mãos erguidas, presas.
E Deus o céu descerra
aos murmúrios que rezas.

Brilham mais as estrelas.
Mais neve o céu derrama.
E, se por fora gelas,
Por dentro és uma chama.

E beija a tua face
o luar que aparece,
como se Deus mandasse
um sim à tua prece.

É, simplesmente, maravilhoso!