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30 maio, 2017

"As máscaras do destino" - Florbela Espanca


Os mortos são na vida os nossos vivos, andam pelos nossos passos, trazemo-los ao colo pela vida fora e só morrem connosco. Mas eu não queria, não queria que o meu morto morresse comigo, não queria! E escrevi estas páginas…
É de contos este livro de Florbela Espanca, publicado postumamente em 1931, um ano após o suicídio da poetisa.
Contos que ela escreveu em homenagem ao irmão Apeles Espanca, falecido tragicamente em 1927, quando o avião que pilotava se despenhou nas águas do Tejo.
Agustina Bessa-Luís assina o excelente Prefácio: “A vida de Florbela não foi longa. Mas pode dizer-se que é breve uma vida infeliz, em que os minutos são desertos de agrado pelo mundo? Todos os contos de Florbela descrevem esse deserto moroso, onde sopra um vento açulador e triste… Florbela foi infeliz com razões para a felicidade.”
Segue-se a dedicatória ao irmão: “Este livro é dum Morto, este livro é do meu Morto. Que os vivos passem adiante…”
E depois, alinham-se oito pequenos, belos, tristes, estranhos contos, feitos de palavras choradas por uma mulher frágil, devastada de dor e saudade, incapaz de lidar com a perda do irmão amado. 
O Aviador
"O que anda sobre o rio? Outra gaivota? Outra vela?
É um homem que tem asas! (…) O homem está contente. Atira as asas mais ao alto, escalando os cimos infinitos, já fora do mundo, na sensação maravilhosa e embriagadora de um ser que se ultrapassa! Sente-se um deus! As mãos desenclavinham-se, desprendem-se-lhe da terra onde as tem presas um derradeiro fio de oiro… e cai na eternidade…”
A Morta
“Todas as tardes, à hora em que o crepúsculo, todo vestido de glicínias, descia com a doçura dumas pálpebras que se fechassem (…) a mão do noivo empurrava a porta do jazigo. (…)
O vivo e a morta falavam, e o que eles diziam não o podem entender os vivos nem talvez mesmo os ouros mortos (…)
Mas, uma tarde, a Morta esperou em vão, e esperou outra e outra e outra ainda em infindáveis horas de infindáveis tardes. (…)
Foi então que uma noite mais cega ainda que as outras todas (…) ela ergueu os braços, levantou brandamente a tampa do caixão, e desceu devagarinho… foi então que ela puxou para si a porta do jazigo que dava para a noite.
E a Morta lá foi pela soturna avenida, no seu passo, de manto a roçagar. Empurrou a porta apenas encostada – para que se há-de fechar a porta aos mortos? – e saiu… e na cidade adormecida foi uma flor de milagre que os vivos sentiram desabrochar.”
Os Mortos não voltam
“… os mortos não voltam e é melhor que assim seja… Que vergonha se voltassem! Onde há por aí uma alma de vivo que se tivesse mantido digna de semelhante prodígio?”
O resto é perfume
A paixão de Manuel Garcia
O Inventor
As Orações de Soror Maria da Pureza
“Mariazinha lembrava-se muito bem. Todas as noites daquele ano em que não houvera Inverno, o namorado, encostado às grades, rezara a litania da sua puríssima paixão.
Mas um dia vieram dizer-lhe que ele tinha morrido. Morreu… pronto! Morreu. Foi só isso, Mariazinha. (…) Mariazinha não percebeu nem tão-pouco disse nada. Encerrada em si mesma como um cofre selado, foi um túmulo fechado e mudo, onde as revoltas e os gritos, as censuras e as carícias iam despedaçar-se em vão. (…) Passaram dias, meses, passaram dois anos (…) continuava a ir à grade onde fiava horas e horas a sorrir, de olhos baixo, com as mãos a tremer, num enleio de amor que não era deste mundo.”
O Sobrenatural

Comprei este livro em 1982. Li-o, guardei-o, emprestei-o, dei-o por perdido e agora recuperei-o.
Apesar de me ser entregue com a maioria das folhas soltas, relê-lo foi estupendo!
As palavras são túmulos…
… mas não nos tiram o sono.
Acreditem!

As máscaras do destino, de Florbela Espanca
Bertrand, 1981
181 págs.

28 março, 2017

"Dentro da noute" - contos góticos


"Dentro da Noute" é uma antologia de Contos Góticos, organizada por Ricardo Lourenço e editada pelo Projecto Adamastor.
Reúne vinte e sete contos e novelas, da autoria de escritores portugueses e brasileiros.
Está disponível gratuitamente em formato EPUB e MOBI.
Se gosta de histórias de terror, daquelas que deixam o cabelo em pé, entre na "noute" misteriosa e assustadora e... arrepie-se!

Contos e Novelas Portugueses
1. O Defunto — Eça de Queirós
2. A Dama Pé-de-Cabra — Alexandre Herculano
3. A Caveira — Camilo Castelo Branco
4. A Torre Derrocada — Alberto Osório de Vasconcelos
5. O Mistério da Árvore — Raul Brandão
6. O Corvo — Fialho de Almeida
7. A Feiticeira — Ana de Castro Osório
8. A Morta — Florbela Espanca
9. Os Canibais — Álvaro do Carvalhal
10. Uma Récita do Roberto do Diabo — Júlio César Machado
11. O Cadáver — Beldemónio
12. Sede de Sangue — Manuel Teixeira Gomes
13. A Confissão de Lúcio — Mário de Sá-Carneiro

Contos e Novelas Brasileiros
1. Noite na Taverna — Álvares de Azevedo
2. A Dança dos Ossos — Bernardo Guimarães
3. Os Porcos — Júlia Lopes de Almeida
4. Acauã — Inglês de Sousa
5. Violação — Rodolfo Teófilo
6. Maibi — Alberto Rangel
7. Assombramento — Afonso Arinos
8. 11 e 20 — Medeiros e Albuquerque
9. Demônios — Aluísio Azevedo
10. O Defunto — Thomaz Lopes
11. A Causa Secreta — Machado de Assis
12. O Bebê de Tarlatana Rosa — João do Rio
13. Confirmação — Gonzaga Duque
14. Os Olhos que Comiam Carne — Humberto de Campos

Terror nunca fez o meu género. Nem nos filmes, nem na literatura. Sou assustadiça por natureza. Bastava que lesse um dos contos para perder noites de sono. A sério!
Espero que a simples divulgação  do lançamento da colectânea não interfira significativamente com o meu sono. Espero!!!

11 março, 2016

"Contos" - Eça de Queirós

“No conto tudo precisa de ser apontado num risco leve e sóbrio: das figuras deve-se ver apenas a linha flagrante e definidora que revela e fixa uma personalidade; dos sentimentos, apenas o que caiba num olhar, ou numa dessas palavras que escapa dos lábios e traz todo o ser; da paisagem somente os longes, numa cor unida”.
(Eça de Queirós)

Deambulava eu por uma livraria em busca de tudo e nada, quando os meus olhos poisaram em “Contos”.
Contos de Eça de Queirós?!
Como sou louquinha por contos rejubilei de contentamento, mas logo corei de vergonha por desconhecer que Eça de Queirós tinha feito uma incursão pelas pequenas histórias.
Recuperada, horas depois deliciei-me com vinte e três retratos satíricos da sociedade portuguesa oitocentista, para ele: “uma sociedade onde os costumes estão dissolvidos e os caracteres corrompidos”.
Pois é, Eça de Queirós (1845-1900) um dos nomes grandes da literatura portuguesa, advogado, jornalista, diplomata, senhor de uma escrita impecável, usou como poucos o humor, a subtileza e a ironia para fazer crítica política e social.
Eis algumas "alfinetadas", que primam pela inegável actualidade:
(O réu Tadeu)
"- É simples e bom este homem.
Nunca será nada, nunca há-de passar de um desgraçado homem honrado. Tem a alma toda vestida de farrapos de virtude, que nem o hão-de canonizar nem o hão-de deixar enriquecer. Não compreendem, estes homens, que toda a vida é um logro, desde Cristo, que especulou com a alma, até Napoleão, que especulou com as balas."
(O Milhafre)
"Meus amigos. A literatura em Portugal está a agonizar: morre burguesmente e insipidamente: nem ao menos tem os efeitos de luz extravagantes de todos os ocasos celestes.
É uma doidice o querer pensar, criar e criticar, nesta terra onde nascem as laranjeiras, como diz a cantiga de Mignon. Se ainda houvesse cabelos, seria muito preferível ser fabricante de caixinhas e banha.
Seria mesmo talvez melhor a profissão de poeta lírico, se não fosse uma profissão perigosa. Ainda há pouco, um pediu em casamento não sei que doce açucena, moradora na Baixa; o pai dela interrompeu a história dos idílios sacrossantos e municipais para perguntar ao namorado gentil qual era a sua profissão. «Sou poeta lírico», respondeu ele, «e vivo do meu estado.» - O velho ergueu-se de golpe, tomou uma bengala e espancou o poeta lírico, laureado em três cançonetas exóticas."
(A catástrofe)
"Quando um País abdica assim nas mãos de um Governo toda a sua iniciativa e cruza os braços, esperando que a civilização lhe caia feita das secretarias, como a luz lhe vem do Sol, esse País, está mal; as almas perdem o vigor, os braços perdem o hábito do trabalho, a consciência perde a regra, o cérebro perde a acção. E como o Governo lá está para fazer tudo – o País estira-se ao sol e acomoda-se para dormir. Mas, quando acorda…"
(O Senhor Diabo)
"Conhecem o Diabo?
Não serei eu quem lhes conte a vida dele. E, todavia, sei de cor a sua legenda trágica, luminosa, celeste, grotesca e suave!"

Leia e surpreenda-se!

Contos, de Eça de Queirós
Bertrand Ed., 2008
527 págs.

12 junho, 2015

"Os passos em volta" - Herberto Helder

Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio... Enfim, às vezes já não consigo arrumar tudo isso. (Estilo)
Encontrei em “Os passos em volta”, publicado em 1963, um conjunto de historias engraçadas, inteligentes, irónicas, bem escritas, sobre a busca do poeta-homem de um sentido existencial, numa viagem incessante, angustiante e melancólica por vários lugares do mundo.
Incursão rara do poeta na prosa narrativa, as vinte e três histórias lêem-se num ápice.
Eis três excertos, escolhidos aleatoriamente:
Lugar lugares
“Era uma vez um lugar com um pequeno inferno e um pequeno paraíso, e as pessoas andavam de um lado para o outro, e encontravam-nos, a eles, ao inferno e ao paraíso, e tomavam-nos como seus, e eles eram seus de verdade. As pessoas eram pequenas, mas faziam muito ruído. E diziam: é o meu inferno, é o meu paraíso. E não devemos malquerer às mitologias assim, porque são das pessoas, e neste assunto de pessoas, amá-las é que é bom. E então a gente ama as mitologias delas. À parte isso o lugar era execrável. As pessoas chiavam como ratos, e pegavam nas coisas e largavam-nas, e pegavam umas nas outras e largavam-se. Diziam: boa tarde, boa noite. E agarravam-se, e iam para a cama umas com as outras, e acordavam. Às vezes acordavam no meio da noite e agarravam-se freneticamente. Tenho medo – diziam. E depois amavam-se depressa e lavavam-se, e diziam: boa noite, boa noite.”
Polícia
“Annemarie sentou-se à minha mesa. Vi logo o tamanho da sua solidão: tinha o tamanho do mundo. Ela era a criatura mais só do mundo. E a sua história apareceu – simples, tenebrosa – entre as nossas duas cervejas. Todas as histórias pessoais são simples e tenebrosas. Não me comovi. Comovido já eu estava: com as coisas, comigo com a chuva sobre a cidade. (…)
Annemaria tinha o dom da poesia subversiva. Subvertia tudo. A seu lado senti que a minha vida era importante. Que a ariscaria, sempre e sempre, que perderia, mas não cedendo de mim próprio. O amor do perigo embebedava-me.
Começámos então a lutar contra a polícia do mundo inteiro.”
Poeta obscuro
"Acerca da frase - «Meus Deus, faz com que eu seja sempre um poeta obscuro.» - julgo haver alguma coisa a explicar. Para já não sei onde a li, se a li, pois bem pode ser que ma tenham referido e uma frase referida, não lida, torna-se menos do autor. Tracei-a a lápis na parede em frente da cama. Estava sempre a vê-la. Isto à noite, no meio da noite, quando de súbito abria a luz e dizia para mim mesmo: - Não estou cego. – Ou, quando, acordando bastante tarde, verificava com surpresa que não tinha morrido durante o sono. Sofro destes tormentos da imaginação ou da sensibilidade desordenada. Neurose. «Faz com que eu seja sempre um poeta obscuro.»
…é na morte de um poeta que se principia a ver que o mundo é eterno.
H.H. poeta obscuro? Nunca!
Leia, por favor!

Os passos em volta, de Herberto Helder
Ed. Assírio & Alvim (9ª edição), 2006
194 págs.

19 dezembro, 2014

"A pomba e a rosa" - conto de Ramiro Calle


A pomba e a rosa
“O Sol começava a despontar. Os primeiros raios rasgaram a escuridão da noite e, com a claridade do novo dia, uma pomba, volitando, entrou inadvertidamente num templo. Todas as paredes do santuário estavam cobertas com espelhos. No centro do santuário, em oferenda ao Absoluto, o sacerdote colocara uma belíssima rosa, que se reflectia nos espelhos provocando inúmeras imagens de si mesma. A pomba, tomando os reflexos da rosa pela rosa verdadeira, começou a lançar-se contra um e outro espelho, chocando violentamente contra eles, incansavelmente, até que o seu pequeno e frágil corpo sucumbiu. Morta, a pomba tombou sobre a rosa.

Em qualquer ser humano encontra-se o real e o adquirido; o essencial e o aparente. A busca do bem-estar exterior deve ser associada e complementada com a busca do bem-estar interior. Se uma pessoa puser toda a sua energia ao serviço da aparência, da imagem e da personalidade, consumirá a sua vida cativa dos reflexos, e de costas viradas para a sua natureza real, ou essência. É preciso aprender a distinguir entre o acessório e o substancial mediante o discernimento correcto, e ir recuperando esse “eu verdadeiro”, diferente do “eu social”. A rosa do conhecimento desponta dentro de nós mesmos.

Os Melhores Contos Espirituais do Oriente” – Ramiro Calle, ed. A esfera dos Livros.

Foto tirada da net.

16 dezembro, 2014

"O matrimónio" - conto de Ramiro Calle

O matrimónio
“Embora estivessem casados há apenas uns meses, não eram capazes de parar de discutir quase permanentemente e muito crispadamente. Por essa razão, decidiram visitar um homem que tinha fama de conselheiro. Puseram-no a par dos temas das discussões porque cada um pensava ter razão sobre o outro. O conselheiro disse:
- O par perfeito é aquele em que os dois se transformam num só.
E então, muito aflitos, ambos perguntaram em uníssono:
- Mas em qual dos dois?

O ego procura incansavelmente a maneira de se afirmar e de se reafirmar, de consolidar a sua estrutura e aumentar a sua burocracia, de exercer como um tirano e não ceder nas suas exigências. Um ego exacerbado rouba-nos a paz e a felicidade. Todos ficamos aflitos com a ideia de sentir o nosso ego ameaçado e não nos apercebemos de que o ego não é a nossa essência. A ego-realização, que nos acorrenta, é muito diferente da auto-realização, que nos liberta.”

Os Melhores Contos Espirituais do Oriente, de  Ramiro Calle, Ed. A esfera dos Livros.

Foto tirada da net.

17 janeiro, 2014

"Contos escolhidos" - Carson McCullers

Se tivesse adivinhado o futuro, talvez agisse de outra maneira. (Sucker)
Depois de ler os contos reunidos neste livro, posso continuar a bradar aos quatro ventos, o quanto me encantam as pequenas histórias. Comprei-o por ser de contos, apenas por isso. Desconhecia, por completo, a obra de Carson McCullers (1917-67), a norte americana que trocou a música pela escrita, quando, aos quinze anos, lhe foi diagnosticada uma doença reumática grave.
Teve uma vida atribulada, esta contista. Vejamos:
Aos dez anos, Lula Carson Smith, o seu nome de baptismo, iniciou o estudo de piano.
Aos quinze, uma febre reumática afastou-a das aulas e foi durante a recuperação que descobriu o gosto pela escrita. Optou pelos contos e aos dezassete anos publicou o primeiro -“Sucker”.
Aos vinte, casou com Reeves McCullers. Foi uma relação conturbada, com muito ciúme, depressões, traições, álcool e tentativas de suicídio. Divorciaram-se e, mais tarde, voltaram a casar.
Carson é reconhecida no mundo literário, e não sabe lidar com o sucesso “sendo demasiado jovem para compreender o que me estava a acontecer ou a responsabilidade que implicava. Senti uma espécie de terror sagrado. Foi isso que, combinado com a minha doença, cedo me destruiu”.
Aos trinta e um, o lado esquerdo do seu corpo paralisou. Tentou o suicídio. Anos mais tarde, o marido propõe que se suicidem juntos. Ela não o faz. Ele morre sozinho.
Aos quarenta e cinco anos, sofre mais um golpe, quando lhe é diagnosticado cancro de mama.
Morre aos cinquenta anos, depois de 46 dias em coma.
Com uma vida tão cheia de episódios traumáticos, foi fácil ela encontrar tema para muitas histórias. A doença, o alcoolismo, o suicídio, a morte, os conflitos familiares, o trauma da adolescência, a desilusão, o fracasso… aparecem nas suas histórias de vida, pequenas, passadas em períodos de tempo curtos, bem concebidas e muito bem escritas.
Das doze histórias desta colectânea, destaco:
Wunderkind
O drama da jovem Frances, um prodígio ao piano, incapaz de lidar com os problemas da adolescência e as elevadas expectativas que depositam na sua carreira musical.
Após anos de estudo, algo de estranho começou a acontecer, as notas saíam como uma entoação falsa, morta.
Um dilema doméstico
Martin ama e odeia a mulher, prisioneira da tristeza rítmica do álcool.
Gerindo uma confusão de sentimentos, ele mantém a união familiar, garante a segurança dos filhos, enfrenta a vergonha e a humilhação dos amigos e colegas.
O rapazinho assombrado
Nesta história encantadora, o tema é o suicídio.
… aconteceu uma coisa estranha à minha mãe e depois disso ela ficou triste.
Hugh, o rapazinho, entra em pânico sempre que chega da escola e não encontra a mãe. Não esquece o que viu da “outra vez”.
Quem viu o vento?
My love, my love, my love, why have you left me alone?
Depois do sucesso do primeiro livro, Ken Harris vive o falhanço absoluto do segundo.
Incapaz de lidar com o fracasso, segue-se a desilusão, o álcool, a separação da mulher amada, a solidão, o medo e a ansiedade de uma página em branco na máquina de escrever.
O destino de Ken era incontrolável como o vento invisível.
Gostei!
Contos escolhidos, de Carson McCullers
Ed. Relógio de água, 2012
Selecção e tradução de Ana Teresa Pereira
162 págs.

10 dezembro, 2013

"Olhos de cão azul" - Gabriel García Márquez

Sonho sempre com um homem que me diz: olhos de cão azul… preciso de encontrar o homem que em sonhos me diz isso mesmo.
Eu não sonhei com estes contos, mas gostava de encontrar quem os escreveu. Oh! Se gostava.
Como seria estar ao lado de um dos meus escritores preferidos? Um enorme prazer... e um susto!
Um susto, mas um grande susto mesmo,  senti ao ler estas onze histórias mórbidas, melancólicas, pessimistas, amargas. Ou não fosse a MORTE o tema central de todas elas.
Tudo o que me assusta e entristece está nestas  histórias, escritas entre 1947-1945. (“Cem anos de solidão” foi publicado em 1967), críveis pela escrita mágica de GGM.
Eu acreditei logo na primeira, sobre um rapaz que passou a infância morto - “A terceira resignação” (1947)  
- Minha senhora, o seu filho tem uma doença grave: está morto.
… a mãe mandou-lhe fazer um caixão pequeno, de madeira nova; um caixão de criança, mas o médico mandou que lhe fizessem uma caixa maior, uma caixa para um adulto normal, pois aquela, pequena, poderia atrofiar o crescimento e viria a ser um morto disforme ou um vivo anormal.
… a mãe mandou fazer um caixão grande, para um cadáver adulto… depressa começou a crescer dentro da caixa.
Acreditei mesmo?!
Que importância tem... os meus olhos são castanhos… e leais (a GGM).
Olhos de cão azul, de Gabriel García Márquez
Ed. Quetzal, 1993
Tradução de Maria da Piedade Ferreira
158 págs.Oh! Se gostava.

26 julho, 2013

"Laços de família" - Clarice Lispector

Se uma pessoa perfeita do planeta Marte descesse e soubesse que as pessoas da Terra se cansavam e envelheciam, teria pena e espanto. Sem entender jamais o que havia de bom em ser gente, em sentir-se cansada, em diariamente falir; só os iniciados compreenderiam essa nuance de vício e refinamento de vida. (A imitação da rosa)
Foi a leitura das crónicas publicadas no Ípsilon, ao longo de nove semanas, que me deram a conhecer Clarice Lispector.
Empolgada por tão belas histórias, corri a comprar “Laços de Família”, o primeiro livro da autora a entrar na minha estante.
Comecei por contar as histórias: treze. Treze histórias de mulheres.
Que bom, pensei.
Parti para a leitura da primeira – Devaneio e embriaguez duma rapariga – e não me deslumbrei.
Avancei para a segunda - Amor – e gostei; mas pouco.
Parecia ter descoberto que tudo era passível de aperfeiçoamento, a cada coisa se emprestaria uma aparência harmoniosa; a vida podia ser feita pela mão do homem. (Amor)
Sem desanimar, procurei o encantamento em - A imitação da rosa - mas não deu.
Seguiram-se as restantes dez, e o arrebatamento não apareceu.
Feliz aniversário – gostei.
A menor mulher do mundo – gostei, muito.
O jantar – gostei, muito, muito.
Preciosidade
Os laços de família
Começos de uma fortuna
Mistério em São Cristóvão
O crime do professor de matemática
O búfalo
Não é fácil ler Clarice Lispector.
A sua escrita é diferente, os personagens das histórias são estranhos, os desfechos mais ainda.
Não ser devorado é o sentimento mais perfeito. Não ser devorado é o objectivo secreto de toda uma vida. (A menor mulher do mundo)

Não me deixei "devorar" por estas histórias, mas vou rele-las para melhor entender a escrita original de uma mulher fenomenal.

Laços de família, de Clarice Lispector
Ed. Relógio d’Água
141 págs.

08 fevereiro, 2013

"O fio das missangas" - Mia Couto

A vida é um colar.
Regressei aos contos e descobri este colar mágico, composto por vinte e nove missangas redondinhas, coloridas e brilhantes, alinhadas em fio de pura poesia. São um deslumbramento!
Neste colar, as missangas são histórias pequeninas, mas nelas, cabem vidas inteiras. E que vidas...
Eis algumas das missangas:
O MENDIGO SEXTA-FEIRA JOGANDO NO MUNDIAL
Estar doente é minha única maneira de provar que estou vivo. É por isso que frequento o hospital, vezes e vezes… os doentes são a minha família, o hospital é o meu tecto…
OS OLHOS DOS MORTOS
… a Vida é tão cheia de luz que olhar é demasiado e ver é pouco. É por isso que fecham os olhos aos mortos.
OS MACHOS LACRIMOSOS
Eles se encontravam por causa da alegria. No bar de Matakuane, os homens anedotavam, fabricando risadas. Um único móbil: festejavam a vida. As suas esposas não suportavam aquele disparatar. Afinal elas, as mulheres, não precisavam de ritual para festejar a vida. Elas são a festa da vida.
A SAIA ALMARROTADA
Na minha vila, a única vila do mundo, as mulheres sonhavam com vestidos novos para saírem. Para serem abraçadas pela felicidade. A mim, quando me deram uma saia de rodar, eu me tranquei em casa. Mais que fechada, me apurei invisível, eternamente nocturna. Nasci para cozinha, pano e pranto. Ensinaram-me tanta vergonha em sentir prazer, que acabei sentindo prazer em ter vergonha.
Lindo, lindo, lindo!
A escrita de Mia Couto enfeitiça-nos e, como por magia, lemos as histórias e relemos, e relemos… e descobrimos novos encantos.
…os tempos de hoje são lixívia, descolorindo os encantos.
Nem todos!
O fio das missangas, de Mia Couto
Ed. Caminho, 2004
149 págs.

23 novembro, 2012

"Um país para lá do azul do céu" - Susanna Tamaro


Há muitas tragédias que são devidas a falhas de comunicação.
Pois é, voltei aos contos. E voltei a SusannaTamaro, uma magnífica contadora de histórias. As suas histórias não são fáceis de ler, por serem histórias tristes, histórias de sofrimento, histórias que perturbam e emocionam, histórias que dificilmente se esquecem, histórias que são a própria vida. Mas são belas e bem escritas e, por isso, não conseguimos deixar de as ler.
Este livro é constituído por quatro histórias dramáticas, acerca do terrível flagelo que é a emigração ilegal. São histórias sobre comportamentos xenófobos, violência, falta de comunicação, exclusão social.
Em todas elas, Susanna Tamaro dá voz ao sofrimento dos desenraizados, e reflecte sobre a angústia e a aflição humanas, o desejo de mudança e a vontade de viver.
Há peixes que, embora sejam pequenos, não são devorados pelos peixes grandes.
Em todas elas, o desespero conduz a desfechos trágicos. E que desfechos…
– "O que diz o vento?"
Esta história tocou-me particularmente. É sobre Nabila, a mãe corajosa, que escondida no porão de um navio chega à Europa com o filho pequeno, numa fria noite de inverno. O que encontra à chegada não é o paraíso, é o inferno.
"Do céu"
Esta história deixou-me atordoada. É sobre a adopção de Arik, um menino africano muito desejado e amado, por um casal italiano. Um menino estranho. Uma história de amor com um final sinistro.
Haveria outro país, para lá do azul do céu? Se calhar, havia: devia ser o país das mães e dos pais.
Leiam estas pequenas histórias e deslumbrem-se e interroguem-se:
Onde é que este mundo vai parar?
Um país para lá do azul do céu, de Susanna Tamaro
Ed. Presença, 2003
Tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo
92 págs.

26 outubro, 2012

"Contos de Eva Luna" - Isabel Allende


Há histórias de toda a espécie. Algumas nascem ao ser contadas, a sua substância é a linguagem e antes que alguém as ponha em palavras são apenas uma emoção, um capricho da mente, uma imagem ou uma reminiscência intangível…
Assim começa “Vida interminável”, a bela e triste história de Ana e Roberto, um casal de anciãos que conservaram intacta a fortaleza do corpo, as faculdades da mente e a qualidade do amor, até ao momento em que decidem morrer juntos, deitados lado a lado, de mãos dadas.
Este é um dos vinte e três contos mágicos, narrados por quem conhece bem a alma humana, por quem faz magia com as palavras  – Isabel Allende.
São vinte e três histórias de amor, paixão, violência, solidão, dor e morte, que unidas através de um fino fio condutor se tornam num só romance.
São vários e fascinantes os personagens destas histórias, alguns já conhecidos de anteriores romances (Rolf Carlé, o fotógrafo, recordam-se dele no romance “Eva Luna”?), outros agora inventados e que também ficarão na nossa memória . Destaco:
Belisa Crepusculario do belíssimo conto “ Duas palavras”, que por cinco centavos entregava versos de memória, por sete melhorava a qualidade dos sonos, por nove escrevia cartas de namorados, por doze inventava insultos para inimigos irreconciliáveis… A quem lhe comprasse cinquenta centavos, dava de presente uma palavra secreta para afugentar a melancolia.
Elena Mejías do conto “Menina perversa”, a gaiata enfezada, silenciosa e tímida que se apaixona pelo amante da mãe.
Maria do conto “Maria, a tonta”, a prostituta velha com alma de donzela, que acreditava no amor.
Nicolas Vidal do conto “A mulher do juiz”, que soube desde sempre que perderia a vida por uma mulher.
A professora Inês do conto “O hóspede da professora”, a matrona mais respeitada de Agua Santa, que esperou muitos anos para fazer justiça com uma catana de abrir cocos.
Li pela primeira vez estes contos em 1990. Recordo, porque anotei, o deslumbramento que senti.
Hoje, reli e voltei a deslumbrar-me.
- Conta-me um conto – digo-te.
- Como queres que ele seja?
- Conta-me um conto que nunca contasses a ninguém.
Maravilha!
Contos de Eva Luna, de Isabel Allende
Ed. Difel, 1990
Tradução de Carlos Martins Pereira
249 págs.

21 setembro, 2012

"Doze contos peregrinos" - Gabriel García Márquez

O esforço de escrita de um conto é tão intenso como o de começar um romance. Porque no primeiro parágrafo de um romance tem de se definir tudo: estrutura, tom, ritmo, extensão, e por vezes até o carácter de uma ou outra personagem. O resto é o prazer de escrever, o mais íntimo e solitário que possa imaginar-se…
O conto, em contrapartida, não tem princípio nem fim: pega ou não pega. E se não pega, a experiência própria e alheia dizem-me que na maioria dos casos será mais saudável começar de novo por um caminho diferente, ou deitar tudo fora.
Pois é, estes doze extraordinários contos – histórias de solidão – foram selecionados pelo autor, de entre os muitos que escreveu durante duas dezenas de anos. Num belíssimo prefácio, ele explica o que o levou a escrever pequenas histórias, qual foi o processo de escrita, onde as escreveu, porque as abandonou ao esquecimento, como selecionou estas doze, o prazer que tirou da sua escrita.
São histórias amargas de seres solitários, onde personagens imaginados se cruzam com personagens da vida real, numa Europa do pós-guerra.
São histórias brilhantes de amor, poder e morte, um retrato de costumes recriado com sensibilidade, ironia e humor.
As doze histórias são inesquecíveis mas, na impossibilidade de escrever sobre todas, destaco:
”Maria dos Prazeres”, a história de uma mulata esbelta de setenta e seis anos, há mais de cinquenta anos a exercer a profissão de prostituta em Barcelona, e que na sequência de um sonho que lhe revelou a sua própria morte, decide acertar com um agente funerário todos os pormenores do seu funeral.
“A Santa”, a história de Margarito Duarte, que batalha pela canonização da filha junto da Santa Sé, mostrando tanta tenacidade e fé que, depois de cinco papas mortos, merece ele próprio ser canonizado.
“Alugo-me para sonhar”, a história da latina Frau Frida, que em Viena tinha como única ocupação: alugar-se para sonhar.
“Boa viagem, senhor Presidente”, a história de um ex-presidente (pobre ou rico?) das Caraíbas, que volta a Genebra após duas guerras mundiais, em busca da cura para uma dor improvável e escorregadia.
Ainda no prefácio, diz GGM sobre estes contos: não voltarei a lê-los, como nunca voltei a ler nenhum dos meus livros com medo de me arrepender.
Pois eu, voltarei a reler as histórias escritas por quem tem o dom especial de me maravilhar.
Adorei!
Doze contos peregrinos, de Gabriel García Márquez
Dom Quixote, 1993
Tradução de Miguel Serras Pereira
231 Págs.

20 julho, 2012

"A mesa limão" - Julian Barnes

Para os chineses o limão é o símbolo da morte.
Acabei de ler onze histórias maravilhosas sobre o envelhecimento. Onze pequenas mas profundas histórias sobre a velhice e a morte, histórias enternecedoras, histórias belas, histórias tristes e divertidas, histórias de amores e desamores, histórias de subversão, de arrependimento e resignação, muito bem contadas pelo grande Julian Barnes.
A sua leitura foi puro deleite. No final … queria mais e mais.
Gostei das onze histórias mas gostei um pouco mais das seguintes:
- Breve História do Penteado
Curto atrás e aos lados e em cima um bocado menos, disse a mãe ao barbeiro, na primeira vez que Gregory foi à barbearia.
A história conta essa primeira ida ao barbeiro e duas outras, em idades diferentes, sempre com o medo aterrador da “cadeira da tortura”. Humor e terror conjugados na perfeição.
- A História de Mats Israelson
Anders e Barbro são os protagonistas de uma relação de amor não consumada, porque durante vinte e três anos não encontraram o "tom" certo para falar sobre ela.
- As coisas que tu sabes
Há já três anos que Merrill e Janice, ambas viúvas, tomam o pequeno-almoço no hotel Harborviez, na primeira terça-feira de cada mês.
Serão amigas?
O que têm elas em comum, para além dos sapatos rasos de camurça, com sola anti-derrapante?
- Reviver
Ele tem sessenta anos e quer fazer a sua última viagem, a viagem do coração.
Para ele, todo o amor é simbolicamente uma viagem, e essa viagem precisa de se concretizar.
Ela tem vinte e cinco.
Ele viajou. Ela viajou. Mas eles não viajaram.
Podiam ter viajado. Se…
- Saber francês
Caro Dr. Barnes (Eu, mulher idosa, a caminho dos oitenta e um):
Bom, leio OBRAS sérias mas, para uma leitura mais ligeira à noite, que ficção se pode arranjar numa Casa de Velhos?
Sylvia, a mulher idosa, solteira, francófona, bilingue, dona de uma excelente memória e considerada a vida e alma do lar de idosos “Pilcher House”, remete, durante três anos, cartas a Julian Barnes. Nelas, fala com entusiasmo da língua francesa, do seu passado e do dia-a-dia na Casa de Velhos - um lugar onde não há ninguém com quem falar da morte.
- Apetite
Ele tem setenta e cinco anos, perdeu a memória, tornou-se malcriado e gosta que a mulher lhe leia livros de culinária.
- A gaiola da fruta
O amor tardio.
Porquê supor que o coração se atrofia como os órgãos genitais?
Gostei!
Aconselho, como leitura "fresca" de verão.

A mesa limão, de Julian Barnes
Tradução de Helena Cardoso
Ed. ASA, 2008
200 págs.

15 maio, 2012

"Rio dos bons sinais" - Nelson Saúte

Contos, contos e mais contos.
Não há dúvida, este ano estou “virada” para os livros de contos.
Este é um pequenino livro (126 págs.) de um escritor moçambicano (o meu país do coração), com dez histórias sobre tradições relacionadas com a morte e o ritual dos funerais.
Dez histórias mágicas sobre um povo que aceita a morte como a continuidade da vida
Mórbido? Nem pensar.
Magnífico!

Sobre este livro, disse Mia Couto:
“Este Rio dos Bons Sinais” é uma deambulação pela história recente de um país recém-chegado ao mundo e de gente que não se demarcou do estado de fantasma. Há, nestas histórias, mortos que encontram a Morte, homens de luto perpétuo que apenas visitam a vida nas cerimônias fúnebres, jovens que amanhecem pendurados numa corda de sisal. A morte atravessa todos estes relatos mas a sua marca não é a do definitivo desfecho: os mortos permanecem vivos, eternos sussurra dores de luzes e lendas”.

Começa assim a história “A sombra vagabunda”:
- Estou a apodrecer vivo.
Olhei para trás e dei de chofre com o homem que pronunciara aquela frase. Mais do que uma pessoa parecia o fiapo de uma extinguível sombra. Uma silhueta de si próprio, réstia de alguém que fora um ser humano. Olhei-o nos olhos. Olhei-o fixamente. Tinha um olhar que encenava a sua própria tragédia. Um olhar que denunciava o estado do seu corpo já desfeito pelo tempo, não obstante a idade. Estava curvado e parecia levitar. Caminhava empurrado pela aragem. Com ele, havia a manhã de sol e algum frio naquele sábado findava. Tinha alguma luz naqueles olhos que acenavam à vida, que lhe fugia. Certamente.
Gostei!
Kanimambo, Nelson Saúte.

11 maio, 2012

"Para uma voz só" - Susanna Tamaro

A vida é tudo menos sábia.
Numa “sessão” de arrumação das estantes cá de casa (onde já não cabem mais livros – socorro!) encontrei este livro de Susana Tamaro, comprado em 1997 e que nunca li.
Estranho porque, por norma, eu só coloco os livros na estante depois de lidos. Até lá andam à deriva no sofá, na mesa-de-cabeceira e até em torres inestéticas, mas estáveis, que crescem por todo o lado.
Este escapou à norma.
Curiosa, abri-o de imediato e deparei-me com um conjunto de contos (eu que gosto tanto de livros de contos deixei escapar este), cinco no total, e que contos…
Diz a sinopse: São histórias de crianças solitárias, ultrajadas, tristes; de criaturas expostas, denunciadoras de um mal-estar contemporâneo que transparece nas palavras dos seus diários, dos seus diálogos.
E são mesmo!
São histórias belíssimas mas terríveis sobre a vulnerabilidade e o sofrimento infantil, temas que muitos continuam a ignorar.
São histórias brutais que arrepiam a alma, nos afligem o coração e nos inquietam os sentidos.
São histórias que podem passar-se na nossa casa, na casa de familiares, na casa de amigos, na casa de um vizinho, e que nós ou não vemos ou não queremos ver.
São histórias contadas por uma escritora sensível e inteligente que nos encaminha, com subtileza, pelas profundezas da alma humana.
Dizem que os papões já não existem, mas os papões ainda existem. O meu pai de dia é advogado e de noite é um papão. Quando estou a dormir e tenho medo que a porta se abra, agarro-me ao Teddy. O Teddy é o meu urso, há muito tempo que somos amigos.
Aconselho este livro a todas as mães, ou melhor, a todas as mulheres, ou melhor ainda, a toda a gente.
Comprem, leiam, deslumbrem-se… e desculpem a noite de insónias.
Seja como for, amanhã é um novo dia.

Para uma voz só, de Susanna Tamaro
Editorial Presença, 1997
Tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo
157 págs.

20 março, 2012

Contos de... Gabriel García Márquez

Acabei de comprar esta grande (709 págs.) compilação de contos, escritos por Gabriel García Marquez desde os finais dos anos 1940, até meados dos anos 1990.
Segundo a sinopse: é um conjunto de 41 histórias que nos permite desfrutar de todo o encanto e mestria do genial escritor colombiano, e que nos leva a um mundo inesquecível cuja realidade se expressa mediante fórmulas mágicas e lendárias.
Histórias fantásticas que reflectem a cultura sul-americana, misturando acontecimentos surreais e detalhes do quotidiano, escritas com o estilo que caracteriza a obra de García Márquez, em que os milagres se inserem no dia a dia e a prosa se aproxima inevitavelmente do seu destino fatal: a poesia.

Uau, tanta coisa boa para ler!
Reparem só no primor do título duma das histórias: “A incrível e triste história da Cândida Eréndira e da sua avó desalmada”.
Encontrarei tempo para tanta magia?
Por que é que o dia tem só 24 horas?!

03 fevereiro, 2012

"Contos escolhidos" - Guy de Maupassant

Em meados de 2011 apareceu nas livrarias um livro extraordinário com 42 contos de Guy de Maupassant, que o poeta Pedro Tamen selecionou (de entre mais de trezentos), traduziu e organizou em três grupos:

1. Contos mundanos, amorosos, eróticos e galantes (24)
Destaco A casa Tellier - um bordel considerado pelos clientes de estabelecimento de utilidade pública, que certo dia tem afixado na porta o seguinte letreiro “Fechado por motivo de primeira comunhão; A Minha Mulher - um homem embriagado entra no quarto errado e é obrigado a casar com a mulher que surpreende; As Jóias - a séria mulher do Sr. Lantin governava a casa com uma economia tão hábil que até parecia que viviam no luxo. Vai sozinha ao teatro e compra bijuterias falsas. Após a sua morte, o Sr. Lantin descobre que afinal as bijuterias são joias verdadeiras.
2. Contos inquietantes, de horror e de mistério (9)
Destaco Um Drama Verdadeiro - como diz o autor uma história impressionante sobre o amor de dois irmãos pela mesma rapariga, o ciúme de um, a morte do preferido, o crime num recanto de uma mata, a justiça despistada…; A mão - um crime muito habilmente concebido, muito habilmente executado, e de tal modo envolvido em mistério…
3. Contos exemplares (9)
Destaco Bola de Sebo - a história de uma mulher pequenina, redondinha, com uma pele reluzente e esticada… no tempo da ocupação prussiana. Para os vencidos começava o dever de se mostrarem afáveis para com os vencedores; A História de um Cão - uma história verdadeira sobre um cão sem nada de especial, feio, de aspecto vulgar; A felicidade - à hora do chá falava-se do amor, discutia-se esse velho tema, repetiam-se coisas que já haviam sido ditas muitas vezes.
Vou voltar muitas vezes  a este clássico intemporal.
Fabuloso!

Contos escolhidos, de Guy de Maupassant
D. Quixote, 2011
Compilação e tradução de Pedro Tamen
400 págs.

06 abril, 2011

"Histórias de amor" - Robert Walser

“A fantasia tem olhos que tudo vêem”.

Robert Walser – “o poeta mais escondido que alguma vez existiu”, nasceu em Biel, na Suiça, em 1878.
Entre 1904 e 1933 publicou uma vasta e original obra poética e romanesca que entusiasmou a crítica da época, mas depressa foi votado ao esquecimento.
Filho de mãe esquizofrénica, vivia em permanente estado de depressão até que em 1929 decide entrar voluntariamente num manicómio. No dia de Natal de 1956 foi encontrado morto, na neve, por um grupo de crianças. Tinha saído para um dos seus habituais passeios solitários.
Volker Michels, um profundo conhecedor da obra de Robert Walser, seleccionou 80 das cerca de mil narrativas que o autor escreveu. São pequenas histórias sobre os sonhos da adolescência, sobre o erotismo e o amor, repletas de humor corrosivo, que nos enternecem e nos divertem vendo o autor brincar com o leitor, ou, como diz o próprio autor, são “tragédias em poucas linhas escritas por um novato”.
Veja-se estes pequenos excertos:
“Era uma vez uma rapariga que crescia num quartinho. O quartinho era simpático, a rapariga era bonita e engraçada., e disso mesmo se convencia diante do espelho que tinha por hábito interrogar. A casa onde se encontrava o quartinho que albergava a rapariga era apenas uma casinha. O juízo da rapariga era apenas um juizinho; o seu coração, só um coraçãozinho; a sua esperança, não mais que uma esperançazinha, e o seu pé, um pezinho apenas.
A rapariga era amada por um homem novo e bonito… A rapariga nova e bonita, por sua vez, também o amava, um pretexto para que o autor da presente historiazinha, conhecendo o enredo e o desenlace da mesma, se divirta às suas custas.”

“Um rapaz e uma rapariga, gente jovem a valer dos nossos tempos. Oskar e Emma de seu nome, amavam-se. Era profundo o seu amor, e ninguém duvidava menos e acreditava com mais fervor neste facto do que eles próprios. Até aqui tudo perfeito, só que havia qualquer coisa que lhes faltava, e vamos já dizer o que era esta qualquer coisa estranha e fabulosa que lhes faltava. Ninguém, para onde quer que olhassem, os impedia. Tinham licença, por assim dizer, para se amarem, beijarem, beijocarem e explorarem, sempre que para tal tivessem vontade. Mas era precisamente esse o problema: na ausência de entraves, cada vez menos tinham vontade de se dedicar a esta edificante ocupação. Os dois bons e excelentes jovens adoeciam por virtude de uma abundância de liberdade, e os seus suspiros tinham por motivo a falta de obstáculos."

“É uma tarefa cansativa, esta de contar histórias”.
Simplesmente irresistíveis!

Histórias de amor, de Robert Walser
Relógio d’Água, 2008
Tradução de Isabel Castro Silva
236 págs.

24 janeiro, 2011

"Os melhores contos espirituais do oriente" - Ramiro Calle

Na sequência de várias viagens à Índia e Ásia, Ramiro Calle compilou cerca de mil contos. Destes, seleccionou e traduziu duzentos e cinquenta. Depois, acrescentou a cada conto um breve comentário e divulgou tudo num livro encantador.

O fio condutor dos contos é o despertar da consciência, para nos tornarmos melhores seres humanos.
Aqui fica um, escolhido entre tantos que me marcaram, apenas por ser pequenino:

O riso
“Um monge vivera os últimos anos da sua velhice na mais absoluta paz. Encontrava-se no seu leito, agonizante, e os seus colegas do mosteiro choravam à sua volta. De repente, o monge lançou três sonoras gargalhadas.
- Irmão – sussurravam os monges -, como se pode rir se nós estamos a chorar?
- A primeira gargalhada foi pelo vosso medo da morte; a segunda, porque não estão preparados para enfrentá-la; e a terceira porque eu passo da fadiga ao descanso e vocês, em vez de se alegrarem, andam por aí a choramingar.
Dito isto, fechou os olhos aprazivelmente e expirou.

A morte faz parte da vida. Uma e outra correspondem-se e complementam-se. Não é fácil relacionarmo-nos com a morte e, menos ainda, afrontá-la com equanimidade. Mas a morte pode encarar-se como conselheira e pode ajudar-nos a superar a nossa petulância, os apegos tolos e as mesquinhices."

Este é um livro para colocar num lugar bem visível da nossa estante.
Porquê? Para nos socorrer quando necessitarmos de "alimento" para a mente e para o coração.

Os Melhores Contos Espirituais do Oriente, de Ramiro Calle
A esfera dos livros, 2006
Tradução de Margarida Cardoso de Meneses
430 págs