Mostrar mensagens com a etiqueta Contos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Contos. Mostrar todas as mensagens

05 junho, 2020

"Contos escolhidos" - Fernando Pessoa

A alma da gente é uma cousa suja e o que vale é que a alma não tem cheiro.
(Conto: "Maridos")
Este livro reúne dez contos escritos em diferentes épocas da vida de Fernando Pessoa, e são marcados por "longos argumentos filosóficos-metafísicos sobre o Universo, sobre o Desconhecido, sobre as diferentes dimensões da realidade e sobre a percepção que dela recebemos através das mensagens dos sentidos, sobre as experiências da despersonalização provocadas por alterações do estado de consciência». (Calma, não se assuste,  a escrita magistral do poeta fingidor agarra e encanta da primeira à última página.)
São eles:
- A very original dinner /Um jantar muito original (versão bilingue)
- A estrada do esquecimento
- O peregrino
- A hora do diabo
- O banqueiro anarquista
- Um grande português 
- Maridos
- O adiador
- A carta da corcunda para o serralheiro
- A caçada
Destaco (por razão nenhuma) três contos:
"A estrada do esquecimento" - um pequenino conto datado de 1914, altura do início da Grande Guerra. Descreve a cavalgada de um grupo de homens numa escuridão terrível.
«A noite estava ilegível. Não se via céu nem terra - só escuridão. Nem mesmo podia haver pelos sentidos a convicção de que havia céu e terra, a escuridão tirava-lhes os lugares. Só havia escuridão, sem forma, lugar ou fundo. (...) O meu terror crescia ... toda esta cavalgada de muitos era uma solidão humana. Lembrei-me de repente que tudo isto era eu querer recordar o meu passado. Mas o meu passado não era senão uma escuridão imensa.  
Tremia de terror (...) Pensei em cantar, mas tremia (...) Pensei em gritar, mas lembrei-me, que o meu grito podia, em vez de sair para fora, para a escuridão, soar para dentro, para o meu pensamento, e matá-lo de terror. Quis rezar (...)
"O peregrino" - datado de 1917, um conto de carácter esotérico, a iniciação de um percurso iniciático.
«Do quanto passei e vi nada posso ensinar-te senão dizer-te o que vi e o que passei. E do que me disseram, o quanto que posso ensinar-te é o pouco que posso dizer-te, que foi o que me disseram: Não fites a Estrada: segue-a até ao fim.
"A hora do diabo" - um conto de carácter metafísico-esotérico, um diálogo entre uma mulher e o Diabo.
«Sou o mestre lunar de todos os sonhos, o músico solene de todos os silêncios. Sou o eterno Diferente, o eterno Adiado, o Supérfluo do Abismo. Sou o Deus dos mundos que foram antes do Mundo.
«... As minhas melhores criações - o luar e a ironia.»
«Não são coisas muito parecidas...»
«Não, porque eu não sou parecido comigo mesmo. É por isso que sou o Diabo. Esse vício é a minha virtude.»
Fui sempre mais ou menos lúcido. Sentia-me revoltado. Quis perceber a minha revolta. Tornei-me anarquista consciente e convicto - o anarquista consciente e convicto que hoje sou.
(Conto: "O banqueiro anarquista") - Quem não conhece?!

Comprei este livro na Feira do Livro de Lisboa, em 2017.
Como gosto de pequenas histórias, coloquei de lado o romance que estava a ler na altura e logo iniciei a leitura destes "Contos escolhidos". Terminada a leitura, o livro foi para a pilha dos livros lidos que aguardam a entrada no Rol. E lá ficou... e ficou... e ficou... A pilha foi crescendo, e eu acabei por «perder o  Fernando Pessoa de vista». Achei-o agora. Ao livro, claro!
Ache-o também, numa livraria, e leia!

Contos escolhidos, de Fernando Pessoa
Edição de Ana Maria Freitas e Fernando Cabral Martins
Assírio & Alvim (Porto Editora), 2016
229 págs.

21 abril, 2020

Rubem Fonseca (1925-2020)


O sucesso sempre incomoda os medíocres ambiciosos, os sonhadores incapazes, os fracassados em geral. (Rubem Fonseca)

"Eu sou um ladrão.
Como é que o sujeito se torna ladrão? A polícia sabe? Não, não sabe. O advogado criminalista sabe? Não, não sabe. O psicólogo sabe? Não, não sabe. O psiquiatra sabe? Não, não sabe. O Psicanalista sabe? Não, não sabe. (…)
Pobreza? O sujeito se torna ladrão porque é pobre? Que besteira. Tem ladrão mais rico do que ladrão pobre, está provado que quanto mais dinheiro o sujeito tem mais dinheiro ele quer ter. (…)
Distúrbio mental? Eu sou ladrão e não sou maluco, nem tenho distúrbio mental. E que merda é exatamente isso de distúrbio mental? (...)"
(Excerto do conto "Um bom trabalho")

"Meu nome é Maria da Graça e tenho 62 anos de idade. (É mentira, tenho 72, mas pareço ter bem menos,então  digo para todo o mundo que tenho 62, e ninguém duvida.)
Não pensem que fiz isso que chamam de operação plástica, ou coloquei Botox, essa coisa que todas as mulheres fazem. Me disseram que alguns camelôs fazem Botox nas regiões pobres da cidade. Eles vão pelas ruas gritando «olha o Botox, bom e barato», às vezes usam até alto-falantes. E a coisa é feita ali no meio da rua, ninguém acha nada de mais. E funciona. Dizem que é um Botox que vem da China, por isso é barato. Tudo o que vem da China é barato, mas na maioria das vezes é também uma porcaria. Por exemplo, o tal cigarro electrónico,aquela coisa que vaporiza falsa nicotina que está na moda. O palerma pensa que está fumando um cigarro com gosto de  tabaco, mas é um aerossol químico. Ainda bem que eu não fumo. Beber eu bebo um pouco, champanhe é claro, quem é que não gosta de uma champanhe? Ou é um champanhe? Preciso comprar um dicionário para eclarecer essas coisas. (...)"
(Excerto do conto "O mundo é nosso")

"Meu netinho querido, sabe por que o mundo antigamente era melhor? Sou um velho ranzinza  e gosto de fazer afirmações que certas pessoas consideram infundadas. Mas uma coisa é certa: o mundo antigo era melhor porque havia apenas ricos e pobres, só duas categorias. E sabe o que aconteceu? Os pobres, lentamente, foram deixando de ser pobres. E isso acabou por influenciar o comércio, os comerciantes passaram a fazer coisas para os pobres, uma porcaria, é claro. E pobre gosta de fazer filhos, mas antes, graças a Deus, eles morriam de doenças. Quando os pobres passaram a ter dinheiro para cuidar dos filhos, pagando médicos e dando-lhes de comer melhor, essa praga dos filhos foi aumentando. Por que a população do mundo chegou a esse nível catastrófico? São os pobres fazendo filhos.(...) Que é isso? Meu netinho, larga o meu pescoço, você está apertando com muita força, me sufocando, estou sem ar, ai... ai... estou..."
(Excerto do conto "Netinho querido")

Filho de portugueses transmontanos que emigraram para o Brasil, Rubem Fonseca nasceu em Juiz de Fora, Minas Gerais, em 1925. Faleceu no Rio de Janeiro, onde vivia desde os oito anos, no passado dia 15 de Abril.
Contista, romancista, ensaísta, guionista e «cineasta frustrado», foi galardoado com diversos prémios literários, nomeadamente com o Prémio Camões, em 2003.
Leia tudo o que encontrar sobre este «senhor contista», dono de uma escrita original, simples, irónica, inteligente, sagaz, risível.
Eu vou, com certeza, ler mais sobre o escritor que «gritava vivas à Língua Portuguesa».

Mais sobre a vida e obra de Rubem Fonseca aqui.
Mais contos aqui no Rol.

(foto da net)

10 maio, 2019

"Televisão", conto de Rubem Fonseca

TELEVISÃO
“Eu gostava de desenhar. Estava sempre desenhando. Isso antigamente. Agora perdi a vontade de desenhar, ou melhor, não sei o que desenhar. Eu desenhava tudo, mulheres nuas, homem morto, flor - flor eu não gostava muito, só do cheiro -, desenhava ruas, letreiros luminosos, pessoas em volta de uma mesa jantando (ou almoçando), dois sujeitos jogando sinuca, aleijadinho - aleijadinho eu gostava de desenhar, vários tipos de aleijadinho, sem perna, em cadeira de rodas, sem braço, mas o que eu mais gostava mesmo era do aleijadinho com duas muletas e sem as pernas. Eu desenhava a cara desse aleijadinho como a de um homem feliz, feliz porque podia passear pelas ruas, ainda que fosse de muletas.
Havia uma coisa que eu detestava: desenho abstrato. «Abstracção: uma coisa de difícil compreensão, obscura», diz o dicionário. Novamente o dicionário: «Abstrato: que não é claro para o espírito, que é difícil de compreender, de explicar.»
Você desenha uma porcaria que não quer dizer nada e diz «é uma abstracção», e os bestalhões dizem «muito interessante». Será que essa gente não sabe que arte tem que ter significado? Tem que exprimir algo?
Voltando ao meu problema. Eu sento à mesa, o papel e os crayons na frente, e não consigo desenhar. Na verdade nem sento mais à mesa. Vou direto pra televisão ver uma das porcarias que exibem.
Falta inspiração? Isso parece coisa religiosa e eu sou ateu. Falta motivação? O artista precisa estar motivado? Isso me parece pueril, uma tolice.
Eu sento à mesa, com o material para desenhar, espero um minuto. Desenhar o quê? Vou para a poltrona e ligo a televisão. Vejo televisão todos os dias. Isso é coisa de débil mental. Mas vejo televisão, e vejo novamente, e novamente, e novamente. Ver televisão deixa o sujeito maluco.
Compro um revólver, vou dar um tiro na cabeça.
Mas em vez de dar um tiro na cabeça atiro na televisão. Vários tiros, destruo aquele monstro.
Não demorou muitos dias para que eu voltasse a desenhar.
Televisão? Nunca mais. Sem televisão eu fico bom, deixei de ser um neurótico, ou coisa parecida.
Mas quando passo na vitrine de uma loja e vejo um aparelho de televisão confesso que o meu coração bate apressado e minha boca se enche de saliva.”
Confesso que sou apaixonada por contos, narrativas curtas com começo, meio e fim.
Há dias alguém me disse que podem ser escritos em verso. Vou pesquisar e depois partilharei o que encontrar.
De Rubem Fonseca há mais contos no Rol.
Desligue a televisão,  leia e divirta-se!

(Fotos da net.)

16 novembro, 2018

"A Preferida", conto (sem censura) de Rubem Fonseca

A PREFERIDA
"Minha mulher Raquel é ciumenta. Ela costumava me seguir, disfarçadamente, ou então contratava alguém para fazer isso.
Tenho que tomar muito cuidado quando abraço a minha Preferida. Sinto uma espécie de eflúvio, que vem da terra, que vem do ar, um perfume embriagador.
Minha mulher me perguntou:
«Você não gosta mais de fazer amor comigo, Pedro?»
«Gosto… gosto…»
«Então por que não faz?»
Abraço minha mulher, penso na minha Preferida e consigo cumprir minha obrigação de marido. Confesso que antes de encontrar a minha Preferida eu era um sujeito promíscuo. Não sei quantas abracei, às escondidas, algumas vezes à noite, sempre tendo o cuidado de não ser visto por ninguém.
Mas tornei-me outra pessoa depois que encontrei a minha Preferida. Quando eu a abraçava, ficava excitado, encostava o meu pénis nela e ejaculava, Isso me criava um problema, ou melhor, dois problemas. Eu tinha que entrar em casa, correr para o banheiro e lavar aquela cueca. Depois, na cama, era um problema com Raquel. Por uma dessas coincidências - quando penso em coincidência vem-me à mente a frase de Einstein «Coincidência é a maneira que Deus encontrou para permanecer no anonimato», cujo significado nunca entendi direito, mas também nunca compreendi sua fórmula de equivalência massa-energia, E=m2, a equação mais famosa do mundo. Alguém entende? Uma vez pedi ao meu professor de física, na universidade, que me explicasse aquilo e ele não conseguiu -, mas, como eu ia dizendo, por uma dessas coincidências, em um dos dias que encontrei a minha Preferida, Raquel quis fazer amor comigo.
«Novamente, Pedro? O que está havendo? Você tem outra mulher? Anda, diz a verdade, seu farsante, você anda com outra mulher?»
«Não, Raquel, estou apenas cansado.»
«Cansado de ficar sentado no escritório? Você pensa que eu sou alguma idiota?»
Raquel me agarrou pelo pescoço com tanta força que quase desmaiei.
«Se eu pegar você com outra mulher eu… mato os dois, os dois», ameaçou Raquel.
Certa ocasião eu li, não lembro onde, uma frase que dizia que existe um tempo para ousadia e um tempo para cautela, e o homem sábio conhece o momento de cada um deles. Eu me considerava um homem sábio, mas infelizmente estava cada vez mais ousado e menos cauteloso.
Um dia eu estava fazendo sexo com a minha Preferida quando fui surpreendido pelo flash de uma máquina fotográfica. Alguém me agarrou, senti uma pancada na cabeça e desmaiei.
Acordei numa cama de hospital, com os pulsos presos no gradil da cama.
Um sujeito de avental branco entrou no quarto.
«Está na hora da sua injeção», ele disse.
«Injeção? Por que estou preso aqui nesta cama?»
«O senhor sofre de uma doença muito grave. Dendrolatria patológica de terceiro grau.»
«Não sofro de doença nenhuma, quero ir embora, solte os meus pulsos, quero ir embora.»
«Temos fotos que comprovam o seu comportamento psicopatológico.»
«Fotos? Que fotos?»
«O senhor quer ver?»
«Quero, muito.»
Ele tirou do bolso uma foto e me mostrou. Eu estava fazendo amor com a minha Preferida, vestido, mas com o pénis de fora, enfiado nela.
«Desde quando a cópula é um comportamento psicopatológico?»
«Desde que ocorra com uma árvore. O exame de DNA vai provar que os inúmeros vestígios de esperma no caule são da sua autoria.»
A foto continuava na minha mão. A minha Preferida era mesmo uma árvore de caule grosso. Então ocorreu uma revelação arrebatadora: eu sempre fizera sexo com árvores, eu copulava com as árvores.
Antes que eu pudesse raciocinar sobre isso, o médico me aplicou uma injeção e perdi os sentidos."
 Leia e divirta-se!
BOM FIM DE SEMANA!

30 maio, 2017

"As máscaras do destino" - Florbela Espanca


Os mortos são na vida os nossos vivos, andam pelos nossos passos, trazemo-los ao colo pela vida fora e só morrem connosco. Mas eu não queria, não queria que o meu morto morresse comigo, não queria! E escrevi estas páginas…
É de contos este livro de Florbela Espanca, publicado postumamente em 1931, um ano após o suicídio da poetisa.
Contos que ela escreveu em homenagem ao irmão Apeles Espanca, falecido tragicamente em 1927, quando o avião que pilotava se despenhou nas águas do Tejo.
Agustina Bessa-Luís assina o excelente Prefácio: “A vida de Florbela não foi longa. Mas pode dizer-se que é breve uma vida infeliz, em que os minutos são desertos de agrado pelo mundo? Todos os contos de Florbela descrevem esse deserto moroso, onde sopra um vento açulador e triste… Florbela foi infeliz com razões para a felicidade.”
Segue-se a dedicatória ao irmão: “Este livro é dum Morto, este livro é do meu Morto. Que os vivos passem adiante…”
E depois, alinham-se oito pequenos, belos, tristes, estranhos contos, feitos de palavras choradas por uma mulher frágil, devastada de dor e saudade, incapaz de lidar com a perda do irmão amado. 
O Aviador
"O que anda sobre o rio? Outra gaivota? Outra vela?
É um homem que tem asas! (…) O homem está contente. Atira as asas mais ao alto, escalando os cimos infinitos, já fora do mundo, na sensação maravilhosa e embriagadora de um ser que se ultrapassa! Sente-se um deus! As mãos desenclavinham-se, desprendem-se-lhe da terra onde as tem presas um derradeiro fio de oiro… e cai na eternidade…”
A Morta
“Todas as tardes, à hora em que o crepúsculo, todo vestido de glicínias, descia com a doçura dumas pálpebras que se fechassem (…) a mão do noivo empurrava a porta do jazigo. (…)
O vivo e a morta falavam, e o que eles diziam não o podem entender os vivos nem talvez mesmo os ouros mortos (…)
Mas, uma tarde, a Morta esperou em vão, e esperou outra e outra e outra ainda em infindáveis horas de infindáveis tardes. (…)
Foi então que uma noite mais cega ainda que as outras todas (…) ela ergueu os braços, levantou brandamente a tampa do caixão, e desceu devagarinho… foi então que ela puxou para si a porta do jazigo que dava para a noite.
E a Morta lá foi pela soturna avenida, no seu passo, de manto a roçagar. Empurrou a porta apenas encostada – para que se há-de fechar a porta aos mortos? – e saiu… e na cidade adormecida foi uma flor de milagre que os vivos sentiram desabrochar.”
Os Mortos não voltam
“… os mortos não voltam e é melhor que assim seja… Que vergonha se voltassem! Onde há por aí uma alma de vivo que se tivesse mantido digna de semelhante prodígio?”
O resto é perfume
A paixão de Manuel Garcia
O Inventor
As Orações de Soror Maria da Pureza
“Mariazinha lembrava-se muito bem. Todas as noites daquele ano em que não houvera Inverno, o namorado, encostado às grades, rezara a litania da sua puríssima paixão.
Mas um dia vieram dizer-lhe que ele tinha morrido. Morreu… pronto! Morreu. Foi só isso, Mariazinha. (…) Mariazinha não percebeu nem tão-pouco disse nada. Encerrada em si mesma como um cofre selado, foi um túmulo fechado e mudo, onde as revoltas e os gritos, as censuras e as carícias iam despedaçar-se em vão. (…) Passaram dias, meses, passaram dois anos (…) continuava a ir à grade onde fiava horas e horas a sorrir, de olhos baixo, com as mãos a tremer, num enleio de amor que não era deste mundo.”
O Sobrenatural

Comprei este livro em 1982. Li-o, guardei-o, emprestei-o, dei-o por perdido e agora recuperei-o.
Apesar de me ser entregue com a maioria das folhas soltas, relê-lo foi estupendo!
As palavras são túmulos…
… mas não nos tiram o sono.
Acreditem!

As máscaras do destino, de Florbela Espanca
Bertrand, 1981
181 págs.

28 março, 2017

"Dentro da noute" - contos góticos


"Dentro da Noute" é uma antologia de Contos Góticos, organizada por Ricardo Lourenço e editada pelo Projecto Adamastor.
Reúne vinte e sete contos e novelas, da autoria de escritores portugueses e brasileiros.
Está disponível gratuitamente em formato EPUB e MOBI.
Se gosta de histórias de terror, daquelas que deixam o cabelo em pé, entre na "noute" misteriosa e assustadora e... arrepie-se!

Contos e Novelas Portugueses
1. O Defunto — Eça de Queirós
2. A Dama Pé-de-Cabra — Alexandre Herculano
3. A Caveira — Camilo Castelo Branco
4. A Torre Derrocada — Alberto Osório de Vasconcelos
5. O Mistério da Árvore — Raul Brandão
6. O Corvo — Fialho de Almeida
7. A Feiticeira — Ana de Castro Osório
8. A Morta — Florbela Espanca
9. Os Canibais — Álvaro do Carvalhal
10. Uma Récita do Roberto do Diabo — Júlio César Machado
11. O Cadáver — Beldemónio
12. Sede de Sangue — Manuel Teixeira Gomes
13. A Confissão de Lúcio — Mário de Sá-Carneiro

Contos e Novelas Brasileiros
1. Noite na Taverna — Álvares de Azevedo
2. A Dança dos Ossos — Bernardo Guimarães
3. Os Porcos — Júlia Lopes de Almeida
4. Acauã — Inglês de Sousa
5. Violação — Rodolfo Teófilo
6. Maibi — Alberto Rangel
7. Assombramento — Afonso Arinos
8. 11 e 20 — Medeiros e Albuquerque
9. Demônios — Aluísio Azevedo
10. O Defunto — Thomaz Lopes
11. A Causa Secreta — Machado de Assis
12. O Bebê de Tarlatana Rosa — João do Rio
13. Confirmação — Gonzaga Duque
14. Os Olhos que Comiam Carne — Humberto de Campos

Terror nunca fez o meu género. Nem nos filmes, nem na literatura. Sou assustadiça por natureza. Bastava que lesse um dos contos para perder noites de sono. A sério!
Espero que a simples divulgação  do lançamento da colectânea não interfira significativamente com o meu sono. Espero!!!

01 agosto, 2016

Vou de férias… depois de reproduzir outra história de Rubem Fonseca

HUMILHAÇÃO
Você já foi humilhada? Menosprezada? Desdenhada? Aviltada? Eu já, e antigamente ficava pálida, envergonhada, com vontade de morrer. Isso acabou. E vou dizer como. É uma história breve, não vai ocupar o tempo de vocês. Botei um anúncio no jornal, sabe, naquelas páginas usadas por prostitutas, fregueses, sujeitos em busca de sexo. Todo o jornal tem isso. Escondido no meio daquelas páginas de pequenas propagandas.
Cristina, mulher jovem, esbelta, bonita. Preço razoável. Faz tudo, inclusive coisas que o freguês nem imagina. Vou a casa do interessado. Caixa postal 555.
Fui a casa do primeiro que respondeu ao meu anúncio. Toquei a campainha. Um sujeito calvo, de cabelos grisalhos abriu a porta.
«Sou a Cristina.»
«O quê?»
«Sou a Cristina, do anúncio.»
Depois que o sobressalto da sua surpresa passou ele disse:
«Você não era jovem, esbelta e bonita? O que estou vendo na minha frente é uma gorda de mais de cem quilos.»
«Cento e dez», corrigi.
«Está achando que eu vou pagar para foder um bagulho como você? Pode dar o fora, baleia.»
Então cravei uma faca no corpo do sujeito. Cravei fundo.
Os gordos têm muita força nos braços e usam roupas largas, ótimas para esconder facas ou outras armas.
Ele caiu no chão. Verifiquei que estava morto. Procurei e encontrei o recorte do meu anúncio, que coloquei no bolso, junto com a faca, que lavei na pia do banheiro. A carteira do indivíduo estava cheia de dinheiro. Mas não sou ladra.
Saí e passei na confeitaria. O garçon recebeu-me amavelmente.
Garçons sempre gostam muito de mim.
«O de sempre, senhorita? A torta, a caixa de sorvete e os chocolates?»
«Vou querer também um pacote de balas amanteigadas.»
Peguei o embrulho e fui para casa. Comecei comendo a torta, depois os chocolates, depois o sorvete. Chupei as balas enquanto via televisão.
Eu tinha que ficar gorda, muito gorda, não podia ter menos de cem quilos. Era a única maneira de me vingar daqueles que gostavam de humilhar os outros.
Amanhã sai outro anúncio meu no jornal.”

Agora sim, vou de férias do meu rol de leituras.
Nos próximos trinta dias nada postarei mas continuarei a ler, claro!
Seleccionei:


Até Setembro.
Boas férias para todos, com cativantes e divertidas leituras.
(Rubem Fonseca, me desculpe, cara!)

29 julho, 2016

"Histórias curtas" - Rubem Fonseca

Eu sou ladrão.
Como é que o sujeito se torna ladrão? A polícia sabe? Não, não sabe. O advogado criminalista sabe? Não, não sabe. O psicólogo sabe? Não, não sabe. O psiquiatra sabe? Não, não sabe. O Psicanalista sabe? Não, não sabe. (…)
(Excerto do conto "Um bom trabalho")

Antes de comprar este livro nada conhecia de Rubem Fonseca. (Grande falha minha, eu sei, nada de críticas.) 
Então, por que razão o comprei?
Confesso que a capa dourada me lembrou o sol de verão; confesso que histórias curtas são o melhor que há para ler esparramada numa toalha de praia; confesso que sou louquinha por banhos de mar - em água fria, morna ou quente, no mar eu entro sempre (mas fujo apavorada da ondulação), depois, ou saio rapidamente ou por lá fico “a salgar” de satisfação; confesso que na praia a minha rotina é: caminhar, banho de mar, ler, banho de mar, ler….;  confesso que enquanto durou a leitura deste livro essa rotina passou a ser: caminhar, banho de mar, ler, ler, ler, banho de mar, ler, ler, ler… e rir muito!
Trata-se de uma colectânea com 38 histórias curtas (algumas curtíssimas) brilhantes, irreverentes, destrambelhadas, loucas e divertidas, que, agora muita atenção, de forma rigorosa, implacável mas ao mesmo tempo delicada, relatam temas seríssimos como: velhice, degeneração da mente, preconceito racial, violência urbana, luxúria, sexo, erotismo, prostituição, obesidade, desumanidade, riqueza, miséria, etc., etc.,

"CEM ANOS"
Quem disse a Manuel que ele naquele dia fazia cem anos foi a sua vizinha, dona Adelina.
«Como você sabe?, perguntou Manuel.
«Sei a idade de todos os vizinhos. Quer que eu lhe diga?»
Manuel foi até o cubículo da casa que ele chamava de escritório, fuçou a papelada e achou a certidão. Dona Adelina estava certa. Ele fazia cem anos naquele dia.
«Não vai comemorar? Cem anos merecem uma comemoração», disse dona Adelina, quando se encontraram novamente.
«Comemorar como? Todos os meus parentes e amigos morreram.»
Manuel morava na mesma casa há muitos anos. Os móveis eram os mesmos, os livros eram os mesmos, só as toalhas, os lençóis e as cuecas não eram muito velhos. Até o clister era o mesmo. Antigamente as coisas duravam, pensou Manuel, agora todo o ano sai uma nova versão do mesmo produto, dizem que esse é um método de comércio denominado obsolescência planejada. Então, subitamente lembrou que clister era uma palavra que vinha do grego, significando seringa.
Ele sofria de prisão de ventre e fazia clister diariamente. O seu aparelho era uma espécie de jarra de vidro, com uma pequena torneira que abria e fechava, na qual era colocado um tubo comprido de borracha com um recipiente na ponta. Ele enchia a jarra com um líquido especial e deitado sobre o lado esquerdo introduzia o recipiente no ânus e abria a torneira da jarra, permitindo que o líquido entrasse nos seus intestinos, até sentir vontade de evacuar.
Mas essa não pode ser a maneira de comemorar os meus cem anos, eu faço isso há dezenas de dezenas de anos, pensou.
Cem anos não se comemoram. Cem anos de quê? A vida é um sofrimento contínuo, o corpo sofre, a mente sofre, doenças - e ele pensou em todas as doenças que existiam, eram tantas que davam para encher um livro de quinhentas páginas. Era isso que ele ia comemorar?
Então teve uma ideia. A melhor maneira de comemorar cem anos é morrendo na cama sem incomodar ninguém.
«Vou deitar e morrer», decidiu.
Deitou na cama e morreu. Mas antes teve a consciência de uma sensação de bem-estar. Ele estava feliz."

«Tudo o que é bom é ilegal, imoral ou engorda.»
Bolas!

Histórias curtas, de Rubem Fonseca
Sextante Editora, 2016
163 págs.

11 março, 2016

"Contos" - Eça de Queirós

“No conto tudo precisa de ser apontado num risco leve e sóbrio: das figuras deve-se ver apenas a linha flagrante e definidora que revela e fixa uma personalidade; dos sentimentos, apenas o que caiba num olhar, ou numa dessas palavras que escapa dos lábios e traz todo o ser; da paisagem somente os longes, numa cor unida”.
(Eça de Queirós)

Deambulava eu por uma livraria em busca de tudo e nada, quando os meus olhos poisaram em “Contos”.
Contos de Eça de Queirós?!
Como sou louquinha por contos rejubilei de contentamento, mas logo corei de vergonha por desconhecer que Eça de Queirós tinha feito uma incursão pelas pequenas histórias.
Recuperada, horas depois deliciei-me com vinte e três retratos satíricos da sociedade portuguesa oitocentista, para ele: “uma sociedade onde os costumes estão dissolvidos e os caracteres corrompidos”.
Pois é, Eça de Queirós (1845-1900) um dos nomes grandes da literatura portuguesa, advogado, jornalista, diplomata, senhor de uma escrita impecável, usou como poucos o humor, a subtileza e a ironia para fazer crítica política e social.
Eis algumas "alfinetadas", que primam pela inegável actualidade:
(O réu Tadeu)
"- É simples e bom este homem.
Nunca será nada, nunca há-de passar de um desgraçado homem honrado. Tem a alma toda vestida de farrapos de virtude, que nem o hão-de canonizar nem o hão-de deixar enriquecer. Não compreendem, estes homens, que toda a vida é um logro, desde Cristo, que especulou com a alma, até Napoleão, que especulou com as balas."
(O Milhafre)
"Meus amigos. A literatura em Portugal está a agonizar: morre burguesmente e insipidamente: nem ao menos tem os efeitos de luz extravagantes de todos os ocasos celestes.
É uma doidice o querer pensar, criar e criticar, nesta terra onde nascem as laranjeiras, como diz a cantiga de Mignon. Se ainda houvesse cabelos, seria muito preferível ser fabricante de caixinhas e banha.
Seria mesmo talvez melhor a profissão de poeta lírico, se não fosse uma profissão perigosa. Ainda há pouco, um pediu em casamento não sei que doce açucena, moradora na Baixa; o pai dela interrompeu a história dos idílios sacrossantos e municipais para perguntar ao namorado gentil qual era a sua profissão. «Sou poeta lírico», respondeu ele, «e vivo do meu estado.» - O velho ergueu-se de golpe, tomou uma bengala e espancou o poeta lírico, laureado em três cançonetas exóticas."
(A catástrofe)
"Quando um País abdica assim nas mãos de um Governo toda a sua iniciativa e cruza os braços, esperando que a civilização lhe caia feita das secretarias, como a luz lhe vem do Sol, esse País, está mal; as almas perdem o vigor, os braços perdem o hábito do trabalho, a consciência perde a regra, o cérebro perde a acção. E como o Governo lá está para fazer tudo – o País estira-se ao sol e acomoda-se para dormir. Mas, quando acorda…"
(O Senhor Diabo)
"Conhecem o Diabo?
Não serei eu quem lhes conte a vida dele. E, todavia, sei de cor a sua legenda trágica, luminosa, celeste, grotesca e suave!"

Leia e surpreenda-se!

Contos, de Eça de Queirós
Bertrand Ed., 2008
527 págs.

12 junho, 2015

"Os passos em volta" - Herberto Helder

Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio... Enfim, às vezes já não consigo arrumar tudo isso. (Estilo)
Encontrei em “Os passos em volta”, publicado em 1963, um conjunto de historias engraçadas, inteligentes, irónicas, bem escritas, sobre a busca do poeta-homem de um sentido existencial, numa viagem incessante, angustiante e melancólica por vários lugares do mundo.
Incursão rara do poeta na prosa narrativa, as vinte e três histórias lêem-se num ápice.
Eis três excertos, escolhidos aleatoriamente:
Lugar lugares
“Era uma vez um lugar com um pequeno inferno e um pequeno paraíso, e as pessoas andavam de um lado para o outro, e encontravam-nos, a eles, ao inferno e ao paraíso, e tomavam-nos como seus, e eles eram seus de verdade. As pessoas eram pequenas, mas faziam muito ruído. E diziam: é o meu inferno, é o meu paraíso. E não devemos malquerer às mitologias assim, porque são das pessoas, e neste assunto de pessoas, amá-las é que é bom. E então a gente ama as mitologias delas. À parte isso o lugar era execrável. As pessoas chiavam como ratos, e pegavam nas coisas e largavam-nas, e pegavam umas nas outras e largavam-se. Diziam: boa tarde, boa noite. E agarravam-se, e iam para a cama umas com as outras, e acordavam. Às vezes acordavam no meio da noite e agarravam-se freneticamente. Tenho medo – diziam. E depois amavam-se depressa e lavavam-se, e diziam: boa noite, boa noite.”
Polícia
“Annemarie sentou-se à minha mesa. Vi logo o tamanho da sua solidão: tinha o tamanho do mundo. Ela era a criatura mais só do mundo. E a sua história apareceu – simples, tenebrosa – entre as nossas duas cervejas. Todas as histórias pessoais são simples e tenebrosas. Não me comovi. Comovido já eu estava: com as coisas, comigo com a chuva sobre a cidade. (…)
Annemaria tinha o dom da poesia subversiva. Subvertia tudo. A seu lado senti que a minha vida era importante. Que a ariscaria, sempre e sempre, que perderia, mas não cedendo de mim próprio. O amor do perigo embebedava-me.
Começámos então a lutar contra a polícia do mundo inteiro.”
Poeta obscuro
"Acerca da frase - «Meus Deus, faz com que eu seja sempre um poeta obscuro.» - julgo haver alguma coisa a explicar. Para já não sei onde a li, se a li, pois bem pode ser que ma tenham referido e uma frase referida, não lida, torna-se menos do autor. Tracei-a a lápis na parede em frente da cama. Estava sempre a vê-la. Isto à noite, no meio da noite, quando de súbito abria a luz e dizia para mim mesmo: - Não estou cego. – Ou, quando, acordando bastante tarde, verificava com surpresa que não tinha morrido durante o sono. Sofro destes tormentos da imaginação ou da sensibilidade desordenada. Neurose. «Faz com que eu seja sempre um poeta obscuro.»
…é na morte de um poeta que se principia a ver que o mundo é eterno.
H.H. poeta obscuro? Nunca!
Leia, por favor!

Os passos em volta, de Herberto Helder
Ed. Assírio & Alvim (9ª edição), 2006
194 págs.

19 dezembro, 2014

"A pomba e a rosa" - conto de Ramiro Calle


A pomba e a rosa
“O Sol começava a despontar. Os primeiros raios rasgaram a escuridão da noite e, com a claridade do novo dia, uma pomba, volitando, entrou inadvertidamente num templo. Todas as paredes do santuário estavam cobertas com espelhos. No centro do santuário, em oferenda ao Absoluto, o sacerdote colocara uma belíssima rosa, que se reflectia nos espelhos provocando inúmeras imagens de si mesma. A pomba, tomando os reflexos da rosa pela rosa verdadeira, começou a lançar-se contra um e outro espelho, chocando violentamente contra eles, incansavelmente, até que o seu pequeno e frágil corpo sucumbiu. Morta, a pomba tombou sobre a rosa.

Em qualquer ser humano encontra-se o real e o adquirido; o essencial e o aparente. A busca do bem-estar exterior deve ser associada e complementada com a busca do bem-estar interior. Se uma pessoa puser toda a sua energia ao serviço da aparência, da imagem e da personalidade, consumirá a sua vida cativa dos reflexos, e de costas viradas para a sua natureza real, ou essência. É preciso aprender a distinguir entre o acessório e o substancial mediante o discernimento correcto, e ir recuperando esse “eu verdadeiro”, diferente do “eu social”. A rosa do conhecimento desponta dentro de nós mesmos.

Os Melhores Contos Espirituais do Oriente” – Ramiro Calle, ed. A esfera dos Livros.

Foto tirada da net.

16 dezembro, 2014

"O matrimónio" - conto de Ramiro Calle

O matrimónio
“Embora estivessem casados há apenas uns meses, não eram capazes de parar de discutir quase permanentemente e muito crispadamente. Por essa razão, decidiram visitar um homem que tinha fama de conselheiro. Puseram-no a par dos temas das discussões porque cada um pensava ter razão sobre o outro. O conselheiro disse:
- O par perfeito é aquele em que os dois se transformam num só.
E então, muito aflitos, ambos perguntaram em uníssono:
- Mas em qual dos dois?

O ego procura incansavelmente a maneira de se afirmar e de se reafirmar, de consolidar a sua estrutura e aumentar a sua burocracia, de exercer como um tirano e não ceder nas suas exigências. Um ego exacerbado rouba-nos a paz e a felicidade. Todos ficamos aflitos com a ideia de sentir o nosso ego ameaçado e não nos apercebemos de que o ego não é a nossa essência. A ego-realização, que nos acorrenta, é muito diferente da auto-realização, que nos liberta.”

Os Melhores Contos Espirituais do Oriente, de  Ramiro Calle, Ed. A esfera dos Livros.

Foto tirada da net.

17 janeiro, 2014

"Contos escolhidos" - Carson McCullers

Se tivesse adivinhado o futuro, talvez agisse de outra maneira. (Sucker)
Depois de ler os contos reunidos neste livro, posso continuar a bradar aos quatro ventos, o quanto me encantam as pequenas histórias. Comprei-o por ser de contos, apenas por isso. Desconhecia, por completo, a obra de Carson McCullers (1917-67), a norte americana que trocou a música pela escrita, quando, aos quinze anos, lhe foi diagnosticada uma doença reumática grave.
Teve uma vida atribulada, esta contista. Vejamos:
Aos dez anos, Lula Carson Smith, o seu nome de baptismo, iniciou o estudo de piano.
Aos quinze, uma febre reumática afastou-a das aulas e foi durante a recuperação que descobriu o gosto pela escrita. Optou pelos contos e aos dezassete anos publicou o primeiro -“Sucker”.
Aos vinte, casou com Reeves McCullers. Foi uma relação conturbada, com muito ciúme, depressões, traições, álcool e tentativas de suicídio. Divorciaram-se e, mais tarde, voltaram a casar.
Carson é reconhecida no mundo literário, e não sabe lidar com o sucesso “sendo demasiado jovem para compreender o que me estava a acontecer ou a responsabilidade que implicava. Senti uma espécie de terror sagrado. Foi isso que, combinado com a minha doença, cedo me destruiu”.
Aos trinta e um, o lado esquerdo do seu corpo paralisou. Tentou o suicídio. Anos mais tarde, o marido propõe que se suicidem juntos. Ela não o faz. Ele morre sozinho.
Aos quarenta e cinco anos, sofre mais um golpe, quando lhe é diagnosticado cancro de mama.
Morre aos cinquenta anos, depois de 46 dias em coma.
Com uma vida tão cheia de episódios traumáticos, foi fácil ela encontrar tema para muitas histórias. A doença, o alcoolismo, o suicídio, a morte, os conflitos familiares, o trauma da adolescência, a desilusão, o fracasso… aparecem nas suas histórias de vida, pequenas, passadas em períodos de tempo curtos, bem concebidas e muito bem escritas.
Das doze histórias desta colectânea, destaco:
Wunderkind
O drama da jovem Frances, um prodígio ao piano, incapaz de lidar com os problemas da adolescência e as elevadas expectativas que depositam na sua carreira musical.
Após anos de estudo, algo de estranho começou a acontecer, as notas saíam como uma entoação falsa, morta.
Um dilema doméstico
Martin ama e odeia a mulher, prisioneira da tristeza rítmica do álcool.
Gerindo uma confusão de sentimentos, ele mantém a união familiar, garante a segurança dos filhos, enfrenta a vergonha e a humilhação dos amigos e colegas.
O rapazinho assombrado
Nesta história encantadora, o tema é o suicídio.
… aconteceu uma coisa estranha à minha mãe e depois disso ela ficou triste.
Hugh, o rapazinho, entra em pânico sempre que chega da escola e não encontra a mãe. Não esquece o que viu da “outra vez”.
Quem viu o vento?
My love, my love, my love, why have you left me alone?
Depois do sucesso do primeiro livro, Ken Harris vive o falhanço absoluto do segundo.
Incapaz de lidar com o fracasso, segue-se a desilusão, o álcool, a separação da mulher amada, a solidão, o medo e a ansiedade de uma página em branco na máquina de escrever.
O destino de Ken era incontrolável como o vento invisível.
Gostei!
Contos escolhidos, de Carson McCullers
Ed. Relógio de água, 2012
Selecção e tradução de Ana Teresa Pereira
162 págs.

10 dezembro, 2013

"Olhos de cão azul" - Gabriel García Márquez

Sonho sempre com um homem que me diz: olhos de cão azul… preciso de encontrar o homem que em sonhos me diz isso mesmo.
Eu não sonhei com estes contos, mas gostava de encontrar quem os escreveu. Oh! Se gostava.
Como seria estar ao lado de um dos meus escritores preferidos? Um enorme prazer... e um susto!
Um susto, mas um grande susto mesmo,  senti ao ler estas onze histórias mórbidas, melancólicas, pessimistas, amargas. Ou não fosse a MORTE o tema central de todas elas.
Tudo o que me assusta e entristece está nestas  histórias, escritas entre 1947-1945. (“Cem anos de solidão” foi publicado em 1967), críveis pela escrita mágica de GGM.
Eu acreditei logo na primeira, sobre um rapaz que passou a infância morto - “A terceira resignação” (1947)  
- Minha senhora, o seu filho tem uma doença grave: está morto.
… a mãe mandou-lhe fazer um caixão pequeno, de madeira nova; um caixão de criança, mas o médico mandou que lhe fizessem uma caixa maior, uma caixa para um adulto normal, pois aquela, pequena, poderia atrofiar o crescimento e viria a ser um morto disforme ou um vivo anormal.
… a mãe mandou fazer um caixão grande, para um cadáver adulto… depressa começou a crescer dentro da caixa.
Acreditei mesmo?!
Que importância tem... os meus olhos são castanhos… e leais (a GGM).
Olhos de cão azul, de Gabriel García Márquez
Ed. Quetzal, 1993
Tradução de Maria da Piedade Ferreira
158 págs.Oh! Se gostava.

26 julho, 2013

"Laços de família" - Clarice Lispector

Se uma pessoa perfeita do planeta Marte descesse e soubesse que as pessoas da Terra se cansavam e envelheciam, teria pena e espanto. Sem entender jamais o que havia de bom em ser gente, em sentir-se cansada, em diariamente falir; só os iniciados compreenderiam essa nuance de vício e refinamento de vida. (A imitação da rosa)
Foi a leitura das crónicas publicadas no Ípsilon, ao longo de nove semanas, que me deram a conhecer Clarice Lispector.
Empolgada por tão belas histórias, corri a comprar “Laços de Família”, o primeiro livro da autora a entrar na minha estante.
Comecei por contar as histórias: treze. Treze histórias de mulheres.
Que bom, pensei.
Parti para a leitura da primeira – Devaneio e embriaguez duma rapariga – e não me deslumbrei.
Avancei para a segunda - Amor – e gostei; mas pouco.
Parecia ter descoberto que tudo era passível de aperfeiçoamento, a cada coisa se emprestaria uma aparência harmoniosa; a vida podia ser feita pela mão do homem. (Amor)
Sem desanimar, procurei o encantamento em - A imitação da rosa - mas não deu.
Seguiram-se as restantes dez, e o arrebatamento não apareceu.
Feliz aniversário – gostei.
A menor mulher do mundo – gostei, muito.
O jantar – gostei, muito, muito.
Preciosidade
Os laços de família
Começos de uma fortuna
Mistério em São Cristóvão
O crime do professor de matemática
O búfalo
Não é fácil ler Clarice Lispector.
A sua escrita é diferente, os personagens das histórias são estranhos, os desfechos mais ainda.
Não ser devorado é o sentimento mais perfeito. Não ser devorado é o objectivo secreto de toda uma vida. (A menor mulher do mundo)

Não me deixei "devorar" por estas histórias, mas vou rele-las para melhor entender a escrita original de uma mulher fenomenal.

Laços de família, de Clarice Lispector
Ed. Relógio d’Água
141 págs.

08 fevereiro, 2013

"O fio das missangas" - Mia Couto

A vida é um colar.
Regressei aos contos e descobri este colar mágico, composto por vinte e nove missangas redondinhas, coloridas e brilhantes, alinhadas em fio de pura poesia. São um deslumbramento!
Neste colar, as missangas são histórias pequeninas, mas nelas, cabem vidas inteiras. E que vidas...
Eis algumas das missangas:
O MENDIGO SEXTA-FEIRA JOGANDO NO MUNDIAL
Estar doente é minha única maneira de provar que estou vivo. É por isso que frequento o hospital, vezes e vezes… os doentes são a minha família, o hospital é o meu tecto…
OS OLHOS DOS MORTOS
… a Vida é tão cheia de luz que olhar é demasiado e ver é pouco. É por isso que fecham os olhos aos mortos.
OS MACHOS LACRIMOSOS
Eles se encontravam por causa da alegria. No bar de Matakuane, os homens anedotavam, fabricando risadas. Um único móbil: festejavam a vida. As suas esposas não suportavam aquele disparatar. Afinal elas, as mulheres, não precisavam de ritual para festejar a vida. Elas são a festa da vida.
A SAIA ALMARROTADA
Na minha vila, a única vila do mundo, as mulheres sonhavam com vestidos novos para saírem. Para serem abraçadas pela felicidade. A mim, quando me deram uma saia de rodar, eu me tranquei em casa. Mais que fechada, me apurei invisível, eternamente nocturna. Nasci para cozinha, pano e pranto. Ensinaram-me tanta vergonha em sentir prazer, que acabei sentindo prazer em ter vergonha.
Lindo, lindo, lindo!
A escrita de Mia Couto enfeitiça-nos e, como por magia, lemos as histórias e relemos, e relemos… e descobrimos novos encantos.
…os tempos de hoje são lixívia, descolorindo os encantos.
Nem todos!
O fio das missangas, de Mia Couto
Ed. Caminho, 2004
149 págs.

23 novembro, 2012

"Um país para lá do azul do céu" - Susanna Tamaro


Há muitas tragédias que são devidas a falhas de comunicação.
Pois é, voltei aos contos. E voltei a SusannaTamaro, uma magnífica contadora de histórias.
As suas histórias não são fáceis de ler, por serem histórias tristes, histórias de sofrimento, histórias que perturbam e emocionam, histórias que dificilmente se esquecem, histórias que são a própria vida. Mas são belas e bem escritas e, por isso, não conseguimos deixar de as ler.
Este livro é constituído por quatro histórias dramáticas, acerca do terrível flagelo que é a emigração ilegal. São histórias sobre comportamentos xenófobos, violência, falta de comunicação, exclusão social.
Em todas elas, Susanna Tamaro dá voz ao sofrimento dos desenraizados, e reflecte sobre a angústia e a aflição humanas, o desejo de mudança e a vontade de viver.
Há peixes que, embora sejam pequenos, não são devorados pelos peixes grandes.
Em todas elas, o desespero conduz a desfechos trágicos. E que desfechos…
– "O que diz o vento?"
Esta história tocou-me particularmente. É sobre Nabila, a mãe corajosa, que escondida no porão de um navio chega à Europa com o filho pequeno, numa fria noite de inverno. O que encontra à chegada não é o paraíso, é o inferno.
"Do céu"
Esta história deixou-me atordoada. É sobre a adopção de Arik, um menino africano muito desejado e amado, por um casal italiano. Um menino estranho. Uma história de amor com um final sinistro.
Haveria outro país, para lá do azul do céu? Se calhar, havia: devia ser o país das mães e dos pais.

Leiam estas pequenas histórias e deslumbrem-se e interroguem-se:
Onde é que este mundo vai parar?

Um país para lá do azul do céu, de Susanna Tamaro
Ed. Presença, 2003
Tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo
92 págs.

26 outubro, 2012

"Contos de Eva Luna" - Isabel Allende


Há histórias de toda a espécie. Algumas nascem ao ser contadas, a sua substância é a linguagem e antes que alguém as ponha em palavras são apenas uma emoção, um capricho da mente, uma imagem ou uma reminiscência intangível…
Assim começa “Vida interminável”, a bela e triste história de Ana e Roberto, um casal de anciãos que conservaram intacta a fortaleza do corpo, as faculdades da mente e a qualidade do amor, até ao momento em que decidem morrer juntos, deitados lado a lado, de mãos dadas.
Este é um dos vinte e três contos mágicos, narrados por quem conhece bem a alma humana, por quem faz magia com as palavras  – Isabel Allende.
São vinte e três histórias de amor, paixão, violência, solidão, dor e morte, que unidas através de um fino fio condutor se tornam num só romance.
São vários e fascinantes os personagens destas histórias, alguns já conhecidos de anteriores romances (Rolf Carlé, o fotógrafo, recordam-se dele no romance “Eva Luna”?), outros agora inventados e que também ficarão na nossa memória . Destaco:
Belisa Crepusculario do belíssimo conto “ Duas palavras”, que por cinco centavos entregava versos de memória, por sete melhorava a qualidade dos sonos, por nove escrevia cartas de namorados, por doze inventava insultos para inimigos irreconciliáveis… A quem lhe comprasse cinquenta centavos, dava de presente uma palavra secreta para afugentar a melancolia.
Elena Mejías do conto “Menina perversa”, a gaiata enfezada, silenciosa e tímida que se apaixona pelo amante da mãe.
Maria do conto “Maria, a tonta”, a prostituta velha com alma de donzela, que acreditava no amor.
Nicolas Vidal do conto “A mulher do juiz”, que soube desde sempre que perderia a vida por uma mulher.
A professora Inês do conto “O hóspede da professora”, a matrona mais respeitada de Agua Santa, que esperou muitos anos para fazer justiça com uma catana de abrir cocos.
Li pela primeira vez estes contos em 1990. Recordo, porque anotei, o deslumbramento que senti.
Hoje, reli e voltei a deslumbrar-me.
- Conta-me um conto – digo-te.
- Como queres que ele seja?
- Conta-me um conto que nunca contasses a ninguém.
Maravilha!
Contos de Eva Luna, de Isabel Allende
Ed. Difel, 1990
Tradução de Carlos Martins Pereira
249 págs.

21 setembro, 2012

"Doze contos peregrinos" - Gabriel García Márquez

O esforço de escrita de um conto é tão intenso como o de começar um romance. Porque no primeiro parágrafo de um romance tem de se definir tudo: estrutura, tom, ritmo, extensão, e por vezes até o carácter de uma ou outra personagem. O resto é o prazer de escrever, o mais íntimo e solitário que possa imaginar-se…
O conto, em contrapartida, não tem princípio nem fim: pega ou não pega. E se não pega, a experiência própria e alheia dizem-me que na maioria dos casos será mais saudável começar de novo por um caminho diferente, ou deitar tudo fora.
Pois é, estes doze extraordinários contos – histórias de solidão – foram selecionados pelo autor, de entre os muitos que escreveu durante duas dezenas de anos. Num belíssimo prefácio, ele explica o que o levou a escrever pequenas histórias, qual foi o processo de escrita, onde as escreveu, porque as abandonou ao esquecimento, como selecionou estas doze, o prazer que tirou da sua escrita.
São histórias amargas de seres solitários, onde personagens imaginados se cruzam com personagens da vida real, numa Europa do pós-guerra.
São histórias brilhantes de amor, poder e morte, um retrato de costumes recriado com sensibilidade, ironia e humor.
As doze histórias são inesquecíveis mas, na impossibilidade de escrever sobre todas, destaco:
”Maria dos Prazeres”, a história de uma mulata esbelta de setenta e seis anos, há mais de cinquenta anos a exercer a profissão de prostituta em Barcelona, e que na sequência de um sonho que lhe revelou a sua própria morte, decide acertar com um agente funerário todos os pormenores do seu funeral.
“A Santa”, a história de Margarito Duarte, que batalha pela canonização da filha junto da Santa Sé, mostrando tanta tenacidade e fé que, depois de cinco papas mortos, merece ele próprio ser canonizado.
“Alugo-me para sonhar”, a história da latina Frau Frida, que em Viena tinha como única ocupação: alugar-se para sonhar.
“Boa viagem, senhor Presidente”, a história de um ex-presidente (pobre ou rico?) das Caraíbas, que volta a Genebra após duas guerras mundiais, em busca da cura para uma dor improvável e escorregadia.
Ainda no prefácio, diz GGM sobre estes contos: não voltarei a lê-los, como nunca voltei a ler nenhum dos meus livros com medo de me arrepender.
Pois eu, voltarei a reler as histórias escritas por quem tem o dom especial de me maravilhar.
Adorei!
Doze contos peregrinos, de Gabriel García Márquez
Dom Quixote, 1993
Tradução de Miguel Serras Pereira
231 Págs.

20 julho, 2012

"A mesa limão" - Julian Barnes

Para os chineses o limão é o símbolo da morte.
Acabei de ler onze histórias maravilhosas sobre o envelhecimento. Onze pequenas mas profundas histórias sobre a velhice e a morte, histórias enternecedoras, histórias belas, histórias tristes e divertidas, histórias de amores e desamores, histórias de subversão, de arrependimento e resignação, muito bem contadas pelo grande Julian Barnes.
A sua leitura foi puro deleite. No final … queria mais e mais.
Gostei das onze histórias mas gostei um pouco mais das seguintes:
- Breve História do Penteado
Curto atrás e aos lados e em cima um bocado menos, disse a mãe ao barbeiro, na primeira vez que Gregory foi à barbearia.
A história conta essa primeira ida ao barbeiro e duas outras, em idades diferentes, sempre com o medo aterrador da “cadeira da tortura”. Humor e terror conjugados na perfeição.
- A História de Mats Israelson
Anders e Barbro são os protagonistas de uma relação de amor não consumada, porque durante vinte e três anos não encontraram o "tom" certo para falar sobre ela.
- As coisas que tu sabes
Há já três anos que Merrill e Janice, ambas viúvas, tomam o pequeno-almoço no hotel Harborviez, na primeira terça-feira de cada mês.
Serão amigas?
O que têm elas em comum, para além dos sapatos rasos de camurça, com sola anti-derrapante?
- Reviver
Ele tem sessenta anos e quer fazer a sua última viagem, a viagem do coração.
Para ele, todo o amor é simbolicamente uma viagem, e essa viagem precisa de se concretizar.
Ela tem vinte e cinco.
Ele viajou. Ela viajou. Mas eles não viajaram.
Podiam ter viajado. Se…
- Saber francês
Caro Dr. Barnes (Eu, mulher idosa, a caminho dos oitenta e um):
Bom, leio OBRAS sérias mas, para uma leitura mais ligeira à noite, que ficção se pode arranjar numa Casa de Velhos?
Sylvia, a mulher idosa, solteira, francófona, bilingue, dona de uma excelente memória e considerada a vida e alma do lar de idosos “Pilcher House”, remete, durante três anos, cartas a Julian Barnes. Nelas, fala com entusiasmo da língua francesa, do seu passado e do dia-a-dia na Casa de Velhos - um lugar onde não há ninguém com quem falar da morte.
- Apetite
Ele tem setenta e cinco anos, perdeu a memória, tornou-se malcriado e gosta que a mulher lhe leia livros de culinária.
- A gaiola da fruta
O amor tardio.
Porquê supor que o coração se atrofia como os órgãos genitais?
Gostei!
Aconselho, como leitura "fresca" de verão.

A mesa limão, de Julian Barnes
Tradução de Helena Cardoso
Ed. ASA, 2008
200 págs.