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24 janeiro, 2020

Espaço dos amigos (1): poemas da Graça, olhares da Gracinha!

Graça e Gracinha são duas amigas da blogosfera que eu admiro muito.
A Graça, pela sensibilidade poética e beleza dos versos que falam de amor, solidão, mar, pássaros, casas, lugares da infância, das «coisas da vida», como ela diz.
A Gracinha, pelo perspicaz olhar fotográfico, garra de viajante incansável, generosa partilha de momentos seus. Com ela já «olhei» lugares belíssimos de Portugal, e elaborei roteiros para próximos passeios meus.

(Gracinha, 11 Dezembro 2019 )

Foram embora os pássaros.
Foram embora,
procurando um tempo
onde a luz deflagre em suas asas.
O seu inevitável regresso 
há-de acompanhar
a rotação dos ventos.
E quando, nos seus ombros, 
nenhum excesso de solidão
me mutilar os braços,
eles hão-de chegar, de novo,
como um incêndio.
Os pássaros.
(In "Uma extensa mancha de sonhos", 2008)

(Gracinha,  24 Novembro 2019 )

Gosto de objectos geométricos desenhados
a compasso por mãos intransigentes.
A multiplicidade dos traços povoa
e despovoa a beleza dos lugares
que nos pendem como se fôssemos árvores.
Preciso e exacto será o momento
 em que regressaremos ao silêncio
com passos de cinza.
Calados nos hão-de vigiar os deuses e os homens.
(In "O silêncio: Lugar habitado", 2008)

(Gracinha,  31 Outubro 2018)

Desenrola-se em nossos olhos
a vertigem transparente
que agride o declínio do dia
quando a lua se encosta nos vidros
e temos o nevoeiro da espera colado nos sonhos.
Há muito que sabemos como é intocável a luz
do orvalho na raiz da mágoa.
Palavras em estilhaços flutuam sobre os móveis
como fantasmas ou como as fadas
da mais antiga infância.
Respiramos devagar o sopro errante do vento.
(In "A incidência da luz", 2011)

A escolha dos poemas e olhares para esta publicação não foi tarefa fácil: todos os poemas da Graça merecem destaque; as centenas de fotos da Gracinha também.
Para quem ainda não as conhece, deixo aqui os seus cativantes blogues:
Graça - http://ortografiadoolhar.blogspot.com/
Gracinha - https://crocheteandomomentos.blogspot.com/

"O fotógrafo tem a mesma missão do poeta: eternizar o momento que passa."
Mário Quintana, poeta brasileiro (1906-1004).

Obrigada, amigas!

02 novembro, 2019

Estranhei a diferença...

No retrato que me faço
- traço a traço -
Às vezes me pinto nuvem
Às vezes me pinto árvore...
Mário Quintana, poeta brasileiro (1906-1994)


Encontrei-a numa rua em Matosinhos.
Estranhei a diferença, 
Olhei, mirei, contornei, fotografei,
Em silêncio, sem pedir licença.
Entalada entre viaturas
Ao cimento encostada
Perfume não tinha, flores também não,
Apenas folhagem de vários verdes,
Quadrada, em vez de redonda.
Ainda assim, gostei de a conhecer.
Não a elogiei, nem afaguei
Ela deixou-se fotografar.
Penso que só por acanhamento
Angústias não confessámos
Nem ela a mim as suas
Nem eu a ela as minhas.
Mas...
Num silêncio absoluto 
Em rua de movimento
O nome ela não disse,
E eu não lho perguntei.
Se você souber
Por favor, desvende.
Eu, claro, agradeço!


Bom sábado. Fiquem bem!
Respeitem as árvores. Eu não danifiquei, apenas fotografei!