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09 junho, 2015

Tentava ler aleatoriamente… em “Stoner”, de John Williams


"Tentava ler aleatoriamente, para seu próprio prazer e indulgência, muitos dos livros que esperara anos para poder ler. Mas a sua mente não se deixava levar até aonde ele queria. A sua atenção desviava-se das páginas que tinha diante de si e, com frequência cada vez maior, dava por si a olhar fixamente em frente, para o vazio. Era como se, aos poucos, a sua mente se esvaziasse de tudo o que sabia e a força se lhe esvaísse da vontade. Por vezes, sentia-se como uma espécie de vegetal e ansiava por qualquer coisa – nem que fosse a dor – que o trespassasse, que o insuflasse de vida.
Chegara àquela idade em que lhe ocorria, com crescente intensidade, uma pergunta de uma simplicidade tão avassaladora que não tinha como a enfrentar. Dava por si a perguntar-se se a sua vida valeria a pena, se alguma vez valera a pena. Era uma pergunta, desconfiava ele, que assolava todos os homens a dada altura; perguntou-se se os assolaria com uma força tão impessoal como o assolava a ele. A pergunta acarretava uma tristeza, mas era uma tristeza geral que (pensava ele) pouco tinha que ver consigo ou com o seu destino em particular. Nem sequer tinha a certeza se a pergunta surgia das causas mais imediatas e óbvias, daquilo que a sua própria vida se tornara."

30 maio, 2015

"Stoner" - John Williams

Na sua mocidade, Stoner imaginara o amor como um estado absoluto do ser ao qual uma pessoa, se tivesse sorte, podia aceder um dia; na idade adulta, decidira que era o paraíso de uma falsa religião, que uma pessoa devia encarar com uma divertida incredulidade, um suave desprezo familiar e uma nostalgia embaraçada (…) Na meia-idade começava a perceber que não era nem um estado de graça, nem uma ilusão; via-o como um ato humano de transformação, uma condição que era inventada e alterada de momento para momento e de dia para dia, através da vontade, da inteligência e do coração.
Poucos romances me empolgaram tanto como este. E já li muitos, muitos.
É triste. É cruel. É desconcertante. É fascinante. É surpreendente. É cativante. É inteligente. É intimista. É viciante. É inesquecível.
É perfeito, pronto!
Começa assim:
William Stoner entrou para a Universidade do Missouri em 1919, aos dezanove anos. Oito anos depois, no auge da Primeira Guerra Mundial, doutorou-se e aceitou um cargo de docente nessa mesma universidade, onde lecionou até morrer, em 1956 (…) Nasceu em 1981, numa pequena quinta no centro do Missouri (…) Desde que se lembrava, William Stoner tinha tarefas para cumprir. Aos seis anos ordenhava as vacas escanzeladas, alimentava os porcos na pocilga a uns metros de casa e recolhia os pequenos ovos de um bando de galinhas magricelas.(...) Era uma família solitária, da qual ele era o único filho, unida pelo imperativo da faina.
Segue-se o relato de toda uma vida.Vida cinzenta, narrada de forma nua e crua. Vida comovente, triste e angustiante, vida feita de muitos  fracassos, que de tão real aqui e ali nos molha os olhos.
Stoner, frágil, humilde como a terra que a família dele arava, discreto, íntegro, um simples filho da terra, um obscuro professor de Literatura Inglesa, zeloso, empenhado, mas nunca reconhecido pelos alunos, nunca estimado pelos colegas.
Apaixonou-se e casou com uma rapariga de vinte anos, alta, esguia e loura, que tocava piano. Eram ambos virgens e tinham ambos a noção da sua inexperiência.
- Vou tentar ser uma boa esposa para ti, Stoner. Vou tentar. Não foi! Grace Stoner nasceu e durante o primeiro ano de vida conheceu apenas o toque do pai, e a voz dele, e o amor dele. Cresceu e tornou-se distante e retraída como a mãe.
Aos quarenta e dois anos, Stoner não conseguia ver nada diante de si de que lhe apetecesse desfrutar e para trás também pouco havia que lhe interessasse recordar.
Aos quarenta e três anos viveu uma curta mas intensa aventura amorosa. 
Aos sessenta e três anos ele percebeu que lhe restava, no máximo, quatro anos de carreira. Tentou ver para além desse limite. Não conseguiu, nem tinha vontade de o fazer.
Aos...
Acabou, não divulgo mais nada.
Leia este romance, por favor.

“Stoner”, o quarto romance de John Williams (1922-94), também professor universitário, passou despercebido aquando da sua publicação em 1965.  Passadas quase cinco décadas, uma tradução para francês da escritora Anna Gavalda resgatou-o do esquecimento. Ainda bem!

Stoner, de John Williams
Tradução de Tânia Ganho
Ed. Dom Quixote, 2014
263 págs.

12 maio, 2015

Uma semana em Cabo Verde - sol, mar, areia, vento e... livros

Regressei de uma semana de férias no Sal, uma das menores ilhas habitadas de Cabo Verde, e principal foco de atracção turística do arquipélago.
A ilha do Sal é muito árida e plana, tem extensas praias de areia branca, um mar azul-turquesa, um clima ameno com pouca variação da temperatura, chuva escassa, e… e muito vento quente e seco, que chega do deserto do Sara.
Senti falta de mais calor (a temperatura não ultrapassou os 25 graus) e de mais banhos de mar (a água estava, vá lá, um pouco fria e agitada).
Aproveitei para visitar os pontos de maior interesse da ilha, caminhar na praia, apreciar a hospitalidade, alegria e simpatia do povo cabo-verdiano, ginasticar o corpo ao ritmo do funaná, ginasticar a mente em demoradas e excelentes leituras.
Comigo levei três livros:
Stoner - Na viagem de Lisboa para o Sal "entrei", meio às escuras, na história de vida do professor de literatura,William Stoner. História feita de desilusões, fracassos, tristezas.
Cemitério de pianos  - No areal, "espreitei", com óculos de sol, o quotidiano da família de Francisco. História cativante desde a primeira frase: "Quando comecei a ficar doente, soube logo que ia morrer".
Mataram a cotovia - Ainda no Sal, "mergulhei" nas primeiras páginas da história de Scout, a menina rebelde que cresce numa sociedade racista. Como não pude ler na viagem de regresso, cheguei ao fim da história já "derramada" no meu sofá.

No Sal, mesmo sem o sofá habitual, senti-me em casa.
A sério!