31 julho, 2018

À terça - imagens e palavras: "vida"

“- Adia tudo. Nunca se deve fazer hoje o que se pode deixar para amanhã. Nem mesmo é necessário que se faça qualquer coisa, amanhã ou hoje.
- Nunca penses no que vais fazer. Não o faças.
- Vive a tua vida. Não sejas vivido por ela. Na verdade e no erro, na dor e no bem-estar, sê o teu próprio ser. Só poderás fazer isso sonhando porque a tua vida-real, a tua vida humana é aquela que não é tua, mas dos outros. Assim, substituirás o sonho à vida e cuidarás apenas em que sonhes com perfeição. Em todos os teus atos da vida-real, desde o de nascer até ao de morrer, tu não ages: és agido; tu não vives: és vivido apenas.
Torna-te para os outros, uma esfinge absurda. Fecha-te, mas sem bater a porta, na tua torre de marfim. E a tua torre de marfim és tu próprio.
E se alguém te disser que isto é falso e absurdo, não o acredites. Mas não acredites também no que eu digo, porque se não deve acreditar em nada.
- Despreza tudo, mas de modo que o desprezar te não incomode. Não te julgues superior ao desprezares. A arte do desprezo nobre está nisso.”

Palavras de FERNANDO PESSOA, poeta português (1888-1935), in “Livro do desassossego”, Ed. Tinta da China, 2014

(Leiam mais frases/pensamentos no meu "Pétalas de Sabedoria".)
Agosto chega já amanhã e eu vou de  férias do meu "rol de leituras".
Voltarei em Setembro.
Abraço muito amigo para todos.
Leiam, leiam MUITO!

27 julho, 2018

"O Ministério da Felicidade Suprema" - Arundhati Roy

Como contar uma história destroçada?
Tornando-me lentamente todos.
Não.
Tornando-me lentamente tudo.
Finalmente acabei de ler "O Ministério da Felicidade Suprema", segundo romance de Arundhati Roy, publicado vinte anos após o enorme sucesso de “O Deus das Pequenas Coisas”, Booker Prize, 1997.
É um romance intenso, denso, duro, "pesado". Uma viagem íntima pelo subcontinente indiano, desde os bairro superlotados da Velha Deli e os centro comerciais reluzentes da nova metrópole às montanhas e os vales de Caxemira.
Na trama narrativa, salpicada de detalhes autobiográficos, encaixam 12 histórias de amor e provocação, contadas num sussurro, num grito, com lágrimas e gargalhadas. Histórias mágicas marcadas por personagens inesquecíveis apanhadas pela maré da História, que carregam consigo uma forte carga de sofrimento e buscam um porto seguro. Como Anjum, uma transexual que vive num cemitério e dorme no tapete persa puído que desenrola entre duas campas; ou o doutor Azad Bhartiya, "tão magro que quase se podia dizer que era bidimensional", em greve de fome contra "o Império Capitalista, e contra o Capitalismo dos EUA, Terrorismo Estatal Indiano e Americano/Todo o tipo de Armas Nucleares e Crime..."; ou Tilo, uma mulher sozinha, uma lutadora pela independência de Caxemira que quer ter "a liberdade de morrer de forma irresponsável, sem aviso e sem razão", ou... ou...
Da terceira história "A Natividade" retirei o  excerto que compartilho para entusiasmar quem por aqui passar para a leitura de um romance avassalador, que a autora dedica a «Os Desconsolados».

“Ela apareceu de repente, pouco depois da meia-noite. Não houve anjos a cantar, nem sábios nem oferendas. Mas um milhão de estrelas nasceu a leste para anunciar a sua chegada. Num momento não estava lá e no momento seguinte… ali estava ela, no pavimento de betão, num berço feito de lixo; pratas de maços de tabaco, alguns sacos de plástico e pacotes vazios de Uncle Chipps. Estava deitada numa poça de luz, sob uma coluna de mosquitos esvoaçantes iluminados pelos neons, nua. A sua pele era negro-azulado, reluzente como a de uma foca bebé. Estava acordada, mas perfeitamente imóvel, coisa invulgar em alguém tão pequenino. Talvez, naqueles primeiros curtos meses de vida, já tivesse aprendido que as lágrimas, pelo menos as lágrimas dela, eram inúteis. (…)
À sua volta, a cidade estendia-se por quilómetros. (…) Os corpos adormecidos dos sem-abrigo cobriam os passeios altos e estreitos, cabeça com pés, cabeça com pés, até desaparecerem à distância. Havia velhos segredos escondidos nas dobras da pele solta e fina da cidade. Cada ruga era uma rua, cada rua uma feira de diversões. Cada articulação artrítica era um anfiteatro em ruínas, onde se representavam há séculos histórias de amor e loucura, de estupidez, de prazer e crueldade indizíveis. Esta, porém, seria a alvorada da sua ressurreição. (…)
Foi aí, ao lado das Mães dos Desaparecidos, que a nossa bebé silenciosa apareceu. As Mães demoraram algum tempo a dar por ela, porque era da cor da noite (…) As Mães dos Desaparecidos não sabiam o que fazer com um bebé que tinha aparecido.
Especialmente um bebé preto.
Kruhun kaal
Especialmente uma menina preta.
Kruhun kaal hish
Especialmente uma menina preta enrolada em lixo.
Shikas ladh
De quem é esta criança?
Silêncio.
O que fazer com a bebé?
Talvez consciente de que se tornara o centro das atenções, ou por estar assustada, a bebé silenciosa começou finalmente a chorar. (…)"

Onde é que os pássaros velhos vão morrer?
Sabe a resposta?

Sensacional!
E mais não digo. Leia, por favor!

O Ministério da Felicidade Suprema, de Arundhati Roy
Tradução de Elsa T. S. Vieira,
ASA Ed., 2017
463 págs.

24 julho, 2018

À terça - imagens e palavras: "crueldade"


"A crueldade tem coração humano; a inveja, cara humana; o terror, corpo humano; 
os segredos, a roupagem dos humanos.”


Frase de William Blake, poeta e pintor inglês (1757-1827)
Foto da net.

20 julho, 2018

Viajando e aprendendo: Brasil (de Natal a Fortaleza)

“Viajar é nascer e morrer a todo o instante”.
Victor Hugo, escritor francês (1802-1885)

Em 2002 viajámos para o nordeste do  Brasil. 
Ali, esperava-nos "uma emocionante aventura": fazer Natal - Fortaleza de jipe, sobre o areal de 85 praias paradisíacas. Uma aventura plena de luz, cor, sabor, ritmo, cultura e deslumbrantes cenários naturais.
Natal é a capital do estado do Rio Grande do Norte.
A cidade, que cresceu nas margens do rio Potenji e do Forte dos Reis Magos, no extremo nordeste do Brasil, é a terceira capital de estado com melhor qualidade de vida e a mais próxima do continente europeu. Tem cerca de um milhão de habitantes.
Foi aqui que iniciámos a aventura pelas praias do Rio Grande do Norte e Ceará (e não só!), cerca de 800 quilómetros percorrido quase na totalidade sobre o areal de exóticas  e luxuriantes praias de areia branca e água límpida e quente.
O grupo era reduzido: eu, o Carlos e um casal de jovens do norte de Portugal, que não conhecíamos mas com quem gostámos de partilhar a aventura.
O jipe foi conduzido por dois guias simpáticos e competentes, que souberam mostrar-nos os locais  e indicar-nos os momentos de maior deslumbramento, como o magnífico pôr-do-sol que vi sentada numa duna, em Canoa Quebrada, e que nunca será esquecido.
Admirámos Genipabu e as suas lagoas situadas entre as dunas.
Passámos pelo Cabo de São Roque (ponto mais próximo do Continente Africano), Caraúbas (exuberante com os seus coqueirais), Maracajaú (com água cristalina), deserto de Alagamar, Dunas do Rosado.
Chegámos à Ponta do Mel, onde o sertão chega ao mar. As suas dunas móveis e falésias gigantes deixaram-nos extasiados.
Descobrimos a exótica e mística Canoa Quebrada, onde a animação é permanente e a beleza natural uma inesgotável fonte de inspiração. Gostei particularmente "desta canoa". 
Degustámos o melhor peixe e marisco, em esplanadas no areal.
Deixámo-nos embalar pelo ritmo do forró.
Dormimos em pousadas rústicas mas acolhedoras.
Em função das marés,controlámos o tempo das paragens para fotografar, mergulhar e almoçar . 
Subimos e descemos dunas de buggy (o que eu gritei…).
Brincámos em dunas de areia branca e fina.
Admirámos arquitectura colonial.
Percorremos, sózinhos, quilómetros e quilómetros no areal de praias desertas. Sem medos, e só por isso esta viagem é inesquecível!
Sempre que o litoral era demasiado acidentado desviámos para estradas de asfalto.
Num desses desvios parámos em Mossoró (principal cidade do interior nordestino, a 280 km de Natal) e dormimos, uma noite, no Thermas Hotel & Resort. O que nos divertimos nas 12 piscinas de águas termais, cada uma delas com temperatura  da água e tema de diversão diferente. Na piscina dos 51 graus nenhum de nós entrou. Claro!
Entre Canoa Quebrada e Fortaleza conhecemos 21 belas praias. Destaco Morro Branco, Diogo e das Fontes, onde nascentes de água fresca se lançam das falésias rosadas sobre o mar.
Por fim chegámos a Fortaleza.
Fortaleza, capital do estado brasileiro do Ceará, está localizada no litoral Atlântico.
Com uma superfície de 313,8 km2 é a capital com maior densidade geográfica do país - tem cerca de 2,5 milhões de habitantes.
Ali o medo não deixou que saíssemos do perímetro de segurança do hotel, localizado frente à praia.
A visita à cidade foi rápida e poucas vezes saímos do jipe.
Passeámos no movimentado calçadão, em frente ao hotel,  e comprámos artesanato numa feirinha de simpáticos vendedores.
De Fortaleza voámos Natal.
Restavam dois dias de aventura.
De Natal demos um saltinho a Pirangi, para admirar o maior cajueiro do mundo, com uma copa superior a um campo de futebol. Isto porque os galhos crescem para os lados e não para cima e ao tocarem no chão criam novas raízes. O cajueiro de Pirangi foi plantado por um pescador, em 1888.
Extra programa visitámos a famosa Praia da Pipa, localizada a cerca de 85 quilómetros de Natal. Foi um dia bem passado: mergulhos no mar, almoço de marisco no areal, compras na lojinha de artesanato de um português...  Saímos da Praia da Pipa desejando lá voltar.
Esta "emocionante aventura", extremamente bem organizada, deixou saudades. 
Recomendo!

(Mais fotos aqui.)

17 julho, 2018

À terça - imagens e palavras: "mar"


"A dentadas de sal e de espuma
o mar apaga-me os últimos passos..."


"Pablo Neruda, poeta chileno (1904-73), in "Crepusculário", 1923
Prémio Nobel da Literatura, 1971
Foto da net.

13 julho, 2018

"Os Loucos da Rua Mazur" - João Pinto Coelho

Os judeus contavam-se já às centenas e ocupavam a praça inteira. A toda a volta, estava o resto da cidade, os gentios que se apertavam para não deixar escapar ninguém. Na primeira fila, os cristãos mais valentes, homens e rapazes munidos com bastões; logo atrás, em maior número, os curiosos mais os gritos de incentivo...
É poderoso o segundo romance de João Pinto Coelho, justamente distinguido, em 2017, com o Prémio Leya - prémio atribuído a uma obra inédita escrita em língua portuguesa.
Poderoso pela forma diferente e inteligente como trata um assunto controverso: a perseguição e assassínio de judeus, na Polónia da Segunda Guerra Mundial.
O escritor parte de um caso real - o massacre de 600 a 1600 judeus fechados e queimados vivos por vizinhos cristãos, numa cidade de 2.500 habitantes (nunca identificada no romance) do nordeste da Polónia, em Julho de 1941 - e cria uma história extraordinária feita de pequenos/grandes apontamentos do quotidiano de cristãos e judeus de uma comunidade polaca. Um quotidiano pacífico apesar das desigualdades sociais e religiosas, que se torna violento depois da invasão de alemães e soviéticos. Do nada, um rasto de brutaliade varreu as ruas da cidade: os gentios acusavam os judeus, os judeus culpavam os cristãos, e as denúncias arremessadas de um lado ao outro da cidade apanhavam sempre alguém, enchendo com mais inocentes as salas do manicómio e meia dúzia de caves escolhidas pelos russos para lhes soltar a língua.
Tudo o que ali se passou antes, durante e depois da guerra, é desvendado por dois amigos de infância, Yankel, judeu e Eryk, católico, que próximo do fim da vida, depois de muitos anos sem se verem, se encontram em Paris para mergulhar no passado, recuperar memórias e escrever um livro sobre o que realmente se passou na cidade de cristãos e judeus, de sãos e de loucos, onde não ardeu um celeiro, mas ardeu um manicómio.
Em Paris, a cidade onde Yankel, só mais um judeu a escapar das cinzas, o livreiro cego, que pedia às amantes que lhe lessem na cama, gostava de morrer, resumia todos os dias a sua vida mas nela não incluía os anos de juventude nem a tragédia que o fizera fugir.

Esta história é assombrosa, bem engendrada, extremamente bem escrita (é espantoso o conhecimento que o escritor tem da língua portuguesa), e com um leque de personagens credíveis e inesquecíveis, mas…
… lê-la não é tarefa fácil, dada a seriedade do tema, a densidade da trama e os constantes saltos narrativos por lugares e tempos diferentes : Paris (2001 e 2002) e Nordeste da Polónia (1934 a 1941).
Como não é uma história para ser contada mas sim lida, fico por aqui.
Se recomendo? Claro, vivamente!
… a Rua Mazur era acanhada, todos se conheciam...

(A minha amiga F. tem na mesa de cabeceira um dicionário da língua inglesa, pois eu, depois de ler este livro, envergonhada, vou colocar na minha um dicionário da Língua Portuguesa.)

Os Loucos da Rua Mazur, de João Pinto Coelho
Ed. Leya, 2017
311 págs.

10 julho, 2018

À terça - imagens e palavras: "tempo"


Uma semana!
Durante uma semana fui avó a tempo inteiro da minha pequenina de 22 meses.
Por ela, retornei à infância e brinquei, cantei, dancei, pulei, rebolei. 
E mimei, mimei muito a pequenina. Mimei e fui mimada, com beijos babados, abraços apertados e risinhos de alegria.
Por ela, alterei rotinas, cozinhei papinhas, vi desenhos animados, escondi livros, canetas, lápis. A rapariga não lê mas rasga, não escreve mas enche de "grafites" portas, paredes, mesas e sofás.
E olhei, minuto a minuto, por ela e para ela. Olhava embevecida aquele ser pequenino, e sentia o coração pular de gratidão. 
A semana passou e logo os papás e a mana a vieram buscar. E a casa silenciou e entristeceu.
Então, agradeci a Deus a semana maravilhosa e pedi-lhe TEMPO, tempo para ver crescer a Madalena.
Ser avó é bom demais!

06 julho, 2018

"O sono que desce sobre mim" - Fernando Pessoa


O sono que desce sobre mim,
O sono mental que desce fisicamente sobre mim,
O sono universal que desde individualmente sobre mim –
Esse sono
Parecerá aos outros o sono de dormir,
O sono da vontade de dormir,
O sono de ser sono.

Mas é mais, mais de dentro, mais de cima:
É o sono da soma de todas as desilusões,
É o sono da síntese de todas as desesperanças,
É o sono de haver mundo comigo lá dentro
Sem que eu houvesse contribuído em nada para isso.

O sono que desce sobre mim
É contudo como todos os sonos,
O cansaço tem ao menos brandura,
O abatimento tem ao menos sossego,
A rendição é ao menos o fim do esforço,
O fim é ao menos o já não haver que esperar.

Há um som de abrir um a janela,
Viro indiferente a cabeça para a esquerda
Por sobre o ombro que a sente,
Olhos pela janela entreaberta:
A rapariga do segundo andar de defronte
Debruça-se com os olhos azuis à procura de alguém,
De quem?,
Pergunta a minha indiferença,
E tudo isso é sono.

Meu Deus, tanto sono!...

Poema de Álvaro de Campos, heterónimo de Fernando Pessoa (1888-1935)

Sabia que (3):
1899 - Em Abril (Fernando Pessoa) ingressa na Durban High School onde permanecerá durante três anos, revelando-se um dos melhores alunos do curso. (...)
Cria o heterónimo Alexander Search.
1901 - Em Junho é aprovado com distinção no seu primeiro exame o «Cape School Higher Certificate Examination».(…)
Primeiras poesias em inglês.
Em Agosto parte com a família para Portugal em viagem de férias.
1902 - Em Maio visita com a mãe, o padrasto e os irmãos, a Ilha Terceira, nos Açores, onde vive a família materna. Escreve a poesia Quando ela passa.
Em Junho regressam a Durban a mãe, o padrasto e os irmãos (…)
Em Setembro Fernando Pessoa volta sozinho para a África do Sul no vapor alemão Herzog.
Matricula-se na Commercial School. Tenta escrever romances em inglês.”
("Fernando Pessoa, uma fotobiografia", de Maria José de Lancastre).

Não sabia? Eu também não!
O que importa é que agora sabemos.
Prometo partilhar mais informações sobre a vida do poeta do desassossego.

(Foto de Pierre Verger, fotógrafo franco-brasileiro (1902-1996)

03 julho, 2018

À terça - imagens e palavras: "professor"


"O professor medíocre descreve, o professor bom explica, o professor óptimo demonstra e o professor fora de série inspira."


Frase de William Arthur Ward, escritor norte-americano (1921-1994)
Foto da net.