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04 fevereiro, 2020

Palavras sublinhadas - Julian Barnes


"À medida que envelhecemos, o coração deixa cair as folhas como uma árvore. Nada resiste contra certos ventos. Cada dia arranca umas folhas mais; e depois há as tempestades, que de uma só vez partem vários ramos. E enquanto o verde da natureza cresce na primavera seguinte, o do coração não volta a crescer."


JULIAN BARNES, escritor inglês (1946-), in “O papagaio de Flaubert”, Ed. Quetzal, 2019




Queridas amigas(os), a minha filhota apareceu para passar connosco poucos, pouquíssimos dias: chegou domingo, regressa a Inglaterra já na quinta-feira.
Eu regressarei ao vosso convívio logo no dia seguinte.
O meu coração de mãe palpita de amor, alegria, emoção.
Beijos e abraços.
(fotos da net)

17 janeiro, 2020

"O papagaio de Flaubert" - Julian Barnes


O artista deve conseguir fazer a posteridade acreditar que nunca existiu. (Flaubert)
O papagaio de Flaubert”, publicado originalmente em 1984, foi o primeiro grande sucesso literário de Julian Barnes, escritor inglês vencedor do Man Booker Prize 2011, pelo romance “O sentido do fim”.
Reeditado pela Quetzal há dois meses, foi a minha última leitura de 2019. E, porque aprendi muito sobre Gustave Flaubert (1821-1880), autor de “Madame Bovary” (por muitos considerado «o romance dos romances») e me diverti com o palavreado desempoeirado do narrador protagonista (a voz do escritor), escolhi-o para primeira postagem sobre livros, de 2020.
Trata-se de um romance fascinante sobre literatura, escritores, crítica literária¸ arte, talento, ficção e realidade; sobre política, morte, amor, amizade, ciúme, adultério, dedicação, solidão, loucura, família; sobre vestidos de mulher, beleza, estilo, compotas de groselha, comboios, animais, e muito, muito mais.
Vou ser um rei, ou apenas um porco? (Flaubert)
Geoffrey Braithwaite (narrador protagonista) - médico inglês reformado, viúvo recente -, viaja para a terra natal de Gustave Flaubert com a intenção de ver o papagaio embalsamado que o romancista manteve na sua mesa de trabalho enquanto escrevia “Um Coeur Simple”, e que serviu de modelo para Lulu, o papagaio de Félicité, a personagem principal do conto. «Félicité + Lulu = Flaubert?»
Após a viagem, Braithwaite (biógrafo amador) atenua a solidão recolhendo dados sobre a vida, obra e época de Flaubert, seus desfeitos, manias, tiques, segredos, vaidades e medos. Assim preenche as horas de solidão. «Os livros não são a vida, por mais que gostássemos que fosse.»
Atraio os loucos e os animais. (Flaubert)
O resultado é este ensaio/biografia/romance genial sobre Gustave Flaubert. Uma mistura encantadora de realidade com ficção. Duas histórias de vida: do biografado e do biógrafo. Duas histórias de amor: entre Flaubert e Louise Colet; entre Braithwaite e a mulher Ellen. Um repositório fantástico de citações de Flaubert, de outros escritores e pensadores. Uma narrativa alucinante e confusa, mas ao mesmo tempo harmoniosa, feita de histórias desconexas (parecem), humor e sátira, que me manteve interessada  e divertida da primeira à última página.
Este é um livro incomum, impossível de resumir. Um livro sedutor que terminei  de ler e logo me apeteceu reler.
“Um entretenimento literário levado a cabo com muito brio”, (The New York Times Book Review).

Levar a vida a sério será magnífico ou estúpido? (Flaubert)

(“Flaubert ensina-nos a olhar para a verdade e a não temer as suas consequência; ensina-nos, como Montaigne, a dormir na almofada da dúvida; ensina-nos a não nos aproximarmos de um livro em busca de pílulas morais ou sociais; ensina a superioridade da Verdade, da Beleza, do Sentimento e do Estilo. E, se estudarmos a sua vida privada, ensina a coragem, o estoicismo, a amizade; a importância da inteligência, do ceticismo e da imaginação; a palermice do patriotismo barato; a virtude de ser capaz de ficar sozinho no quarto; o ódio à hipocrisia; a desconfiança nas teorias; a necessidade de falar com simplicidade.”) 

Recomendo, claro!
(Agora... vou reler "Madame Bovary".)

"O papagaio de Flaubert", de Julian Barnes
Tradução de Ana Maria Amador
Quetzal Editores, 2019
247 págs.

19 novembro, 2019

E qual é a palavra, qual é? SOLIDÃO, pois então!


Hoje são 7 + 1 as frases desta publicação.
As seis primeiras sublinhei-as em livros que li.
A sétima é minha (logo se nota, pois me falta saber, engenho e arte para dar voz a sentimentos).
A oitava será a sua frase, se aqui a quiser deixar. Prometo, que lá de baixo voará para o meu jardim de  "Pétalas de Sabedoria".
E qual é a palavra, qual é? Solidão, pois então!


1. "Há dois géneros essenciais de solidão: a de não termos encontrado ninguém a quem amar, e a de termos sido privados das pessoas que amávamos. A primeira é pior."
(Julian Barnes, escritor inglês (1946-), in “Os níveis da vida”, Ed. Quetzal, 2013)


2. "O amor salva-nos da solidão, a pior condenação da velhice."
(Isabel Allende escritora chilena (1942-), in “De amor e de sombra”, Ed. Difel, 1984)


3. "A característica daquilo a que chamamos loucura é a solidão, mas uma solidão monumental."
(Rosa Montero, escritora espanhola (1951-) in “A ridícula ideia de não voltar a ver-te”, Porto Editora, 2015)


4. "O ser humano não é mais do que solidãoUma solidão rodeado de solidões."
(Milan Kundera, escritor checo (1929-), in “A festa da insignificância”, Ed. D. Quixote, 2014)


5. "Associa-te às pessoas mais nobres que puderes encontrar; 
lê os melhores livros; convive com os poderosos; 
mas aprende em solidão a ser feliz."
(Saul Bellow, escritor americano (1915-2005), in “Ravelstein”, ed. Teorema, 2001)
Prémio Nobel de Literatura, 1976


6. "solidão é difícil de evitar. Seja em que sítio for."
(Michael Cunningham, escritor norte-americano (1952-), in “Uma casa no fim do mundo”, Ed. Gradiva, 2001)


7. "Solidão eu não defino, mas sinto. Rói meu coração!" 
(Teresa Dias)


8. ....
"Solidão é quando olhando para dentro de nós mesmas, não vemos nenhuma voz para conosco conversar, nem mais somos capazes de ver as belezas dos céus, das flores e do SOL interior... Essa é fatal!"  

"Quando a noite acontece nos meus olhos e uma estrela vem morrer na minha mão acendo os sonhos e canto a enganar a solidão enquanto não amanhece. No olhar de uma mulher a lua não adormece…"
(Graça Pires, http://ortografiadoolhar.blogspot.com/)

"A solidão nem sempre reflete a ausência de pessoas, mas sim a falta de conexão com elas. Por isso algumas pessoas se sentem sós no meio de uma multidão."
(Catarinahttp://contempladoraocidental.blogspot.com/)

"Solidão é aquela florzinha, débil, triste e sozinha, mas que um dia, contra tudo e contra todos, ergue a cabeça, floresce e sorri ao sol logo que aparece."
(Emília Pintohttp://comecardenovopt.blogspot.com/)

"Quando estamos de bem com nós próprios, a SOLIDÃO é a benção de um deus desconhecido... e de grande criatividade‼"
(Teresahttp://ematejoca-ematejoca.blogspot.com/)

"A solidão é lugar de duas faces. Há solidão apetecida, o tempo de silêncio só nosso, lugar, mental ou real, onde descansamos do mundo e de nós no mundo. Essa é a solidão fértil, que equilibra e potencia, de onde renascemos. E há a solidão vulgar do desapreço e esquecimento, solidão que não dói apenas por ser sozinha; é o facto de ser perene e excluir a esperança que a envenena. É o lado da tristeza sem horizonte."
(Beahttp://erva-principe.blogspot.com/)

"Solidão da alma é uma morte prematura da alegria de viver."
(Roselia Bezerra, https://espiritual-marazul.blogspot.com/)

"(Solidão) A pior "doença" do Mundo !!!"
(Ricardo Santoshttps://opactoportugues.blogspot.com/)

"Solidão é a sensação de amputação de um órgão que me faz limitar."
(Toninhohttps://mineirinho-passaredo.blogspot.com/)


(Fotos da net.)

01 novembro, 2019

Em busca de algum conforto...


Há dias em que sentimentos como saudade, tristeza, desgosto, perda, consolo, se misturam e provocam em mim uma dor desigual, uma dor imensa, que nem a lembrança do amor que recebi dos que já perdi atenua. Hoje é um desses dias.
E só por isso, escolhi preencher este espaço com frases e imagens que recolhi aqui e ali, em busca de algum conforto
Encontrei, claro! Nos livros encontro sempre! Conforto, sabedoria, e algum alívio de preocupações, medos, ansiedades e tristezas. Reparem que eu disse "algum". O que falta para o "todo" está dentro de mim. Mas eu nem sempre consigo desatar amarras. Coisas da vida!
Sejam felizes! Eu sou feliz! Mas hoje estou tristinha! 


“Há uma eternidade que não chorava, tinha ensinado a saudade a ter os olhos secos.”
(Herta Müller, escritora romena (1953-), in “Tudo o que eu tenho trago comigo”, Ed. D. Quixote, 2010
Prémio Nobel de Literatura, 2009)


“A tristeza é a dor silenciosa.” 
(Santo António, citado por Agustina Bessa-Luís, escritora portuguesa (1922-), in “Memórias Laurentinas”, 
Guimarães Ed., 1996)


“O desgosto é uma condição humana e não médica e, se há comprimidos para nos ajudar a esquecê-lo – e tudo o resto – não há comprimidos para o curar.” 
(Julian Barnes, escritor inglês (1946-), in “Os níveis da vida”, Ed. Quetzal, 2013)


“… acreditava que a morte era apenas um fenómeno do corpo; mas agora sei que é meramente uma função da mente – e das mentes daqueles que sofrem a perda.” 
(William Faulkner, escritor americano (1897-1962), in “Na minha morte”, Ed. Dom Quixote, 2003 Prémio Nobel de Literatura, 1949)


“A verdadeira dor é inefável, deixa-nos surdos e mudos, está para além de qualquer descrição e qualquer consolo.” 
(Rosa Montero, escritora espanhola (1951-) in “A ridícula ideia de não voltar a ver-te”, Porto Editora, 2015)



(Flores - fotos da net.)

04 dezembro, 2018

À terça - imagens e palavras: "histórias de amor"


"Todas as histórias de amor são potenciais histórias de dor. Se não no princípio, depois. Se não para um, para o outro. Às vezes para ambos. Então por que aspiramos continuamente a amar? Porque o amor é o ponto onde se encontram a verdade e a magia."


Frase de Julian Barnes, escritor inglês (1946-), in “Os níveis da vida”, Ed. Quetzal, 2013

Leia mais sobre este brilhante romance aqui.
(Foto da net.)

02 dezembro, 2017

"O ruído do tempo" - Julian Barnes

A arte pertence a toda a gente e a ninguém. A arte pertence a todo o tempo e a nenhum tempo. A arte pertence àqueles que a criam e àqueles que a usufruem. (…) A arte é o murmúrio da História, ouvido sobre o ruído do tempo.
O ruído do tempo", que ficciona a vida e obra do compositor e pianista russo Dmitri Chostakovich (1906-1975), foca-se particularmente na complexa relação do poder Estalinista com o atormentado e perseguido compositor.
Julian Barnes divide a narrativa, carregada de ironia, em três partes e chama ao protagonista: Dmitri Dmitrievich.
Um: No Patamar
Um homem, como centenas de outros pela cidade, à espera, noite após noite, de ser preso.
Dmitri Dmitrievich, ainda há três dias um compositor e pianista de sucesso, sem temperamento nem vocação para a política, um homem convencional, tímido e ansioso, espera pela polícia política no patamar e assim evita que a mulher e o filho de um ano o vejam ser arrastado para fora de casa. Espera junto ao elevador, de pé, com uma pequena mala que contém cigarros, roupa interior e pó dentífrico. Espera, vazio de memórias e cheio de medo.
Dmitri vê pela primeira um teclado aos nove anos. O encantamento é imediato. Na sua primeira apresentação pública, ainda estudante de música, conhece aquele que virá a ser o seu amigo e patrono: o Marechal Tukkachevski.
Aos trinta anos, Dmitri é o maior compositor da União Soviética. Aclamado pelo Poder e pelo povo, é o orgulho da Pátria.
Cai em desgraça em Janeiro de 1936, quando Estaline abandona a meio do terceiro acto, visivelmente desagradado, uma apresentação da aclamada ópera Lady Macbeth de Mtsenk, no Teatro Bolshoi e dois dias depois o jornal Pravda arrasa o espectáculo com um texto anónimo intitulado “Chinfrim em vez de Música”, provavelmente escrito pelo próprio Estaline; o Poder passa a dar atenção à sua música e a ele próprio.
Seguem-se perseguições, ameaças, censura e conversas com o Poder. Na Primeira das três Conversas, na primavera de 1937, Dmitri é acusado de conspiração contra o camarada Estaline. Incrédulo e assustado pede ajuda ao amigo Marechal mas este não lhe pode valer pois é acusado de cabecinha da conspiração. Mas tarde acaba detido e fuzilado e Dmitri percebe que também a sua hora está perto.
Dois: No Avião
Medo: o que sabiam aqueles que o infligiam?
Em 1949 o compositor integra a delegação russa que nos Estados Unidos participa num congresso para a Paz Mundial. O seu nome é a estrela da delegação. Dmitri lê um discurso preparado pelo  Poder; critica e chama traidor ao amigo Stravinsky; responde com medo a perguntas; posa para fotografias. O êxito foi público e a humilhação... a maior da sua vida.
No voo de regresso, sente nojo e desprezo por si próprio.
Três: No carro
Em vez de o matarem, permitiram-lhe viver e, permitindo-lhe viver, mataram-no. Era a derradeira, irrefutável ironia da sua vida: permitindo-lhe viver, mataram-no.
Estaline morre, mas o compositor perseguido, dominado pelo medo, atormentado e derrotado, continua a afundar-se no desespero. Em 1960, durante a presidência de Krushchev e depois de aderir ao partido, sentado no carro conduzido por um motorista, interroga-se:
Lenine achava a música deprimente.
Estaline pensava que entendia e apreciava a música.
Krushchev desprezava a música.
O que é pior para um compositor?

Tudo ficou por dizer. Acredite!
Não é fácil ler (nem escrever sobre) este romance de Julian Barnes, uma reflexão inteligente sobre  a relação da arte com o poder. Mas é perfeito e eu recomendo-o.
Leia com tempo, sem ruído... vá lá, com um som musical muito suave...

O ruído do tempo, de Julian Barnes
Tradução de Helena Cardoso
Ed. Quetzal, 2016
197 págs.

04 julho, 2017

A arte pertence a toda a gente e a ninguém...


"A arte pertence a toda a gente e a ninguém. A arte pertence a todo o tempo e a nenhum tempo. A arte pertence àqueles que a criam e àqueles que a usufruem. (...) A arte é o murmúrio da História, ouvido sobre o ruído do tempo. A arte não existe pela arte: existe pelas pessoas. Mas que pessoas, e quem as define?

Escrevia  música para toda a gente e para ninguém. Escrevia música para os que melhor apreciavam a música que ele escrevia, sem olhar à condição social. Escrevia música para os ouvidos que eram capazes de ouvir. E sabia, por isso, que todas as verdadeiras definições de arte são circulares e que todas as definições não verdadeiras de arte lhe atribuem uma função específica.

Havia muito a dizer sobre o silêncio, esse lugar onde as palavras se esgotam e a música começa; e também, onde a música se esgota."


Julian Barnes, escritor inglês (n.1946), in "O ruído do tempo", Ed. Quetzal, 2016
Foto da net.

09 maio, 2014

"Os níveis da vida" - Julian Barnes

Todas as histórias de amor são potenciais histórias de dor. Se não no princípio, depois. Se não para um, para o outro. Às vezes para ambos.
Então por que aspiramos continuamente a amar? Porque o amor é o ponto onde se encontram a verdade e a magia.
Bem, fiquei completamente aturdida com a leitura deste livro de Julian Barnes, sobre juntar duas coisas ou duas pessoas e depois separá-las.
O romance está dividido em três partes. Estranham-se as duas primeiras - sobre o balonismo no séc. XIX - mas quando chegamos à terceira, ao impressionante testemunho do autor sobre amor, dor, morte, luto, compreendemos a ligação entre as três partes.
1ª - O pecado da altitude
Juntamos duas coisas que ainda não se tinham juntado. E o mundo transforma-se.
O mistério e a magia de voar num balão, de desafiar a gravidade dentro de um cesto.
Numa mistura perfeita de realidade e ficção, Julian Barnes escreve sobre homens e mulheres que num balão visitaram o espaço de Deus e descobriram uma paz que estava para além da compreensão.
O balonista, inventor e fotógrafo Félix Tournachon (Nadar), juntou, em 1958, duas coisas que ainda não se tinham juntado – fotografia (verdade) e o balonismo (magia) - e o mundo transformou-se.
2ª – Ao nível
Juntamos duas pessoas que ainda não se tinham juntado; e às vezes o mundo transforma-se, outras vezes não.
A paixão do inglês Fred Burnaby pela inconstante actriz francesa Sarah Bernard. São ambos balonistas, boémios, viajantes, livres e desprendidos.
Case comigo. Case comigo. Propunha ele.
Eu não sou feita para a felicidade. Pense que sou uma pessoa incompleta. Respondia ela.
Madame Sarah, somos todos incompletos. Eu também sou incompleto. Por isso procuramos outra pessoa. Para nos completar.
Não resultou.
3ª – A perda de profundidade
Juntamos duas pessoas que ainda não se tinham juntado.
Então, a dada altura, mais cedo ou mais tarde, por esta ou aquela razão, um deles é levado. E aquilo que é levado é maior do que a soma do que lá estava.
O testemunho do autor  sobre o seu amor por Pat (Pat Kavanagh, sua agente literária durante quarenta anos), a mulher com quem casou em 1979 e viu partir em 2008, vítima de cancro.
Em tom intimista, Barnes conta como "sobreviveu" à perda, ao desgosto, à solidão, às lágrimas, à tentação do suicídio, à imensa dor.
A dor mostra que não esquecemos; a dor realça o sabor da memória; a dor é uma prova de amor.
Impressionante! Brilhante!
Mais não escrevo, porque esta "prova de amor" merece ser lida. Por todos.
A sério!
 
Os níveis da vida, de Julian Barnes
Tradução de Helena Cardoso
Ed. Quetzal, 2013
109 págs.

15 fevereiro, 2014

O dia dos namorados já passou, mas...

… não consigo deixar de reproduzir o que li ontem, já altas horas, e me lembrou que “devemos celebrar o amor, todos os dias”:
 
“Vivemos uma vida normal, verdadeira, e no entanto – e por isso – temos aspirações. Terráqueos, conseguimos às vezes chegar tão longe como os deuses. Alguns elevam-se com a arte, outros com a religião; a maioria com o amor. Mas quando subimos também podemos despenhar-nos. Há poucas aterragens suaves.
Todas as histórias de amor são potenciais histórias de dor. Se não no princípio, depois. Se não para um, para o outro. Às vezes para ambos.
 
Estão por que aspiramos continuamente a amar?
Porque o amor é o ponto onde se encontram a verdade e a magia.”

Em “Os Níveis da Vida”, de Julian Barnes.

20 julho, 2012

"A mesa limão" - Julian Barnes

Para os chineses o limão é o símbolo da morte.
Acabei de ler onze histórias maravilhosas sobre o envelhecimento. Onze pequenas mas profundas histórias sobre a velhice e a morte, histórias enternecedoras, histórias belas, histórias tristes e divertidas, histórias de amores e desamores, histórias de subversão, de arrependimento e resignação, muito bem contadas pelo grande Julian Barnes.
A sua leitura foi puro deleite. No final … queria mais e mais.
Gostei das onze histórias mas gostei um pouco mais das seguintes:
- Breve História do Penteado
Curto atrás e aos lados e em cima um bocado menos, disse a mãe ao barbeiro, na primeira vez que Gregory foi à barbearia.
A história conta essa primeira ida ao barbeiro e duas outras, em idades diferentes, sempre com o medo aterrador da “cadeira da tortura”. Humor e terror conjugados na perfeição.
- A História de Mats Israelson
Anders e Barbro são os protagonistas de uma relação de amor não consumada, porque durante vinte e três anos não encontraram o "tom" certo para falar sobre ela.
- As coisas que tu sabes
Há já três anos que Merrill e Janice, ambas viúvas, tomam o pequeno-almoço no hotel Harborviez, na primeira terça-feira de cada mês.
Serão amigas?
O que têm elas em comum, para além dos sapatos rasos de camurça, com sola anti-derrapante?
- Reviver
Ele tem sessenta anos e quer fazer a sua última viagem, a viagem do coração.
Para ele, todo o amor é simbolicamente uma viagem, e essa viagem precisa de se concretizar.
Ela tem vinte e cinco.
Ele viajou. Ela viajou. Mas eles não viajaram.
Podiam ter viajado. Se…
- Saber francês
Caro Dr. Barnes (Eu, mulher idosa, a caminho dos oitenta e um):
Bom, leio OBRAS sérias mas, para uma leitura mais ligeira à noite, que ficção se pode arranjar numa Casa de Velhos?
Sylvia, a mulher idosa, solteira, francófona, bilingue, dona de uma excelente memória e considerada a vida e alma do lar de idosos “Pilcher House”, remete, durante três anos, cartas a Julian Barnes. Nelas, fala com entusiasmo da língua francesa, do seu passado e do dia-a-dia na Casa de Velhos - um lugar onde não há ninguém com quem falar da morte.
- Apetite
Ele tem setenta e cinco anos, perdeu a memória, tornou-se malcriado e gosta que a mulher lhe leia livros de culinária.
- A gaiola da fruta
O amor tardio.
Porquê supor que o coração se atrofia como os órgãos genitais?
Gostei!
Aconselho, como leitura "fresca" de verão.

A mesa limão, de Julian Barnes
Tradução de Helena Cardoso
Ed. ASA, 2008
200 págs.

13 abril, 2012

"O sentido do fim" - Julian Barnes

Quantas vezes contamos a história da nossa vida? Quantas vezes adaptamos, embelezamos, fazemos cortes matreiros? E, quanto mais a vida avança, menos são os que à nossa volta desafiam o nosso relato, para nos lembrar de que a nossa vida não é a nossa vida, é só a história que contámos sobre a nossa vida. Que contámos aos outros mas – principalmente – a nós próprios.
Começo por dizer que me é difícil opinar sobre este livro. Por quê?
Porque merece ser lido por todos. Porque não devo desvendar a trama da história. Porque é um autêntico tratado de psicologia, e eu não sou especialista. Porque me fez reflectir sobre a minha (insignificante) história de vida.
Enfim, porque não encontro palavras para escrever sobre ele de forma adequada.
Digo apenas que é o relato assombroso e surpreendente da vida de um homem de meia-idade, desde o tempo do liceu e das amizades juradas para sempre, até à idade da reforma, quando todas as memórias são atraiçoadas pelo tempo. Tony Webster, o narrador, casado, divorciado, pai de uma rapariga, vive uma solidão tranquila, até ao dia em que uma carta lhe vai mostrar que o seu passado não é o que ele sempre imaginou e que vai ter de se confrontar com as imperfeições da memória.
O meu eu mais jovem voltara para chocar o meu eu mais velho com aquilo que tinha sido, ou era, ou era às vezes capaz de ser.
E fico por aqui.
Do autor li apenas este romance, vencedor com mérito do Man Booker Prize 2011.
O enredo da história é surpreendente e a sua escrita perfeita, delicada e muito acessível.
Aproximamo-nos do fim da vida – não, não da vida em si, mas de outra coisa: o fim de qualquer probabilidade de mudança nessa vida.
Perfeito!
Corram a lê-lo (e não desvendem o desenlace da história).

O sentido do fim, de Julian Barnes
Quetzal, 2012
Tradução de Helena Cardoso
152 págs.