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02 dezembro, 2017

"O ruído do tempo" - Julian Barnes

A arte pertence a toda a gente e a ninguém. A arte pertence a todo o tempo e a nenhum tempo. A arte pertence àqueles que a criam e àqueles que a usufruem. (…) A arte é o murmúrio da História, ouvido sobre o ruído do tempo.
O ruído do tempo", que ficciona a vida e obra do compositor e pianista russo Dmitri Chostakovich (1906-1975), foca-se particularmente na complexa relação do poder Estalinista com o atormentado e perseguido compositor.
Julian Barnes divide a narrativa, carregada de ironia, em três partes e chama ao protagonista: Dmitri Dmitrievich.
Um: No Patamar
Um homem, como centenas de outros pela cidade, à espera, noite após noite, de ser preso.
Dmitri Dmitrievich, ainda há três dias um compositor e pianista de sucesso, sem temperamento nem vocação para a política, um homem convencional, tímido e ansioso, espera pela polícia política no patamar e assim evita que a mulher e o filho de um ano o vejam ser arrastado para fora de casa. Espera junto ao elevador, de pé, com uma pequena mala que contém cigarros, roupa interior e pó dentífrico. Espera, vazio de memórias e cheio de medo.
Dmitri vê pela primeira um teclado aos nove anos. O encantamento é imediato. Na sua primeira apresentação pública, ainda estudante de música, conhece aquele que virá a ser o seu amigo e patrono: o Marechal Tukkachevski.
Aos trinta anos, Dmitri é o maior compositor da União Soviética. Aclamado pelo Poder e pelo povo, é o orgulho da Pátria.
Cai em desgraça em Janeiro de 1936, quando Estaline abandona a meio do terceiro acto, visivelmente desagradado, uma apresentação da aclamada ópera Lady Macbeth de Mtsenk, no Teatro Bolshoi e dois dias depois o jornal Pravda arrasa o espectáculo com um texto anónimo intitulado “Chinfrim em vez de Música”, provavelmente escrito pelo próprio Estaline; o Poder passa a dar atenção à sua música e a ele próprio.
Seguem-se perseguições, ameaças, censura e conversas com o Poder. Na Primeira das três Conversas, na primavera de 1937, Dmitri é acusado de conspiração contra o camarada Estaline. Incrédulo e assustado pede ajuda ao amigo Marechal mas este não lhe pode valer pois é acusado de cabecinha da conspiração. Mas tarde acaba detido e fuzilado e Dmitri percebe que também a sua hora está perto.
Dois: No Avião
Medo: o que sabiam aqueles que o infligiam?
Em 1949 o compositor integra a delegação russa que nos Estados Unidos participa num congresso para a Paz Mundial. O seu nome é a estrela da delegação. Dmitri lê um discurso preparado pelo  Poder; critica e chama traidor ao amigo Stravinsky; responde com medo a perguntas; posa para fotografias. O êxito foi público e a humilhação... a maior da sua vida.
No voo de regresso, sente nojo e desprezo por si próprio.
Três: No carro
Em vez de o matarem, permitiram-lhe viver e, permitindo-lhe viver, mataram-no. Era a derradeira, irrefutável ironia da sua vida: permitindo-lhe viver, mataram-no.
Estaline morre, mas o compositor perseguido, dominado pelo medo, atormentado e derrotado, continua a afundar-se no desespero. Em 1960, durante a presidência de Krushchev e depois de aderir ao partido, sentado no carro conduzido por um motorista, interroga-se:
Lenine achava a música deprimente.
Estaline pensava que entendia e apreciava a música.
Krushchev desprezava a música.
O que é pior para um compositor?

Tudo ficou por dizer. Acredite!
Não é fácil ler (nem escrever sobre) este romance de Julian Barnes, uma reflexão inteligente sobre  a relação da arte com o poder. Mas é perfeito e eu recomendo-o.
Leia com tempo, sem ruído... vá lá, com um som musical muito suave...

O ruído do tempo, de Julian Barnes
Tradução de Helena Cardoso
Ed. Quetzal, 2016
197 págs.

04 julho, 2017

A arte pertence a toda a gente e a ninguém...


"A arte pertence a toda a gente e a ninguém. A arte pertence a todo o tempo e a nenhum tempo. A arte pertence àqueles que a criam e àqueles que a usufruem. (...) A arte é o murmúrio da História, ouvido sobre o ruído do tempo. A arte não existe pela arte: existe pelas pessoas. Mas que pessoas, e quem as define?

Escrevia  música para toda a gente e para ninguém. Escrevia música para os que melhor apreciavam a música que ele escrevia, sem olhar à condição social. Escrevia música para os ouvidos que eram capazes de ouvir. E sabia, por isso, que todas as verdadeiras definições de arte são circulares e que todas as definições não verdadeiras de arte lhe atribuem uma função específica.

Havia muito a dizer sobre o silêncio, esse lugar onde as palavras se esgotam e a música começa; e também, onde a música se esgota."


Julian Barnes, escritor inglês (n.1946), in "O ruído do tempo", Ed. Quetzal, 2016
Foto da net.

09 maio, 2014

"Os níveis da vida" - Julian Barnes

Todas as histórias de amor são potenciais histórias de dor. Se não no princípio, depois. Se não para um, para o outro. Às vezes para ambos.
Então por que aspiramos continuamente a amar? Porque o amor é o ponto onde se encontram a verdade e a magia.
Bem, fiquei completamente aturdida com a leitura deste livro de Julian Barnes, sobre juntar duas coisas ou duas pessoas e depois separá-las.
O romance está dividido em três partes. Estranham-se as duas primeiras - sobre o balonismo no séc. XIX - mas quando chegamos à terceira, ao impressionante testemunho do autor sobre amor, dor, morte, luto, compreendemos a ligação entre as três partes.
1ª - O pecado da altitude
Juntamos duas coisas que ainda não se tinham juntado. E o mundo transforma-se.
O mistério e a magia de voar num balão, de desafiar a gravidade dentro de um cesto.
Numa mistura perfeita de realidade e ficção, Julian Barnes escreve sobre homens e mulheres que num balão visitaram o espaço de Deus e descobriram uma paz que estava para além da compreensão.
O balonista, inventor e fotógrafo Félix Tournachon (Nadar), juntou, em 1958, duas coisas que ainda não se tinham juntado – fotografia (verdade) e o balonismo (magia) - e o mundo transformou-se.
2ª – Ao nível
Juntamos duas pessoas que ainda não se tinham juntado; e às vezes o mundo transforma-se, outras vezes não.
A paixão do inglês Fred Burnaby pela inconstante actriz francesa Sarah Bernard. São ambos balonistas, boémios, viajantes, livres e desprendidos.
Case comigo. Case comigo. Propunha ele.
Eu não sou feita para a felicidade. Pense que sou uma pessoa incompleta. Respondia ela.
Madame Sarah, somos todos incompletos. Eu também sou incompleto. Por isso procuramos outra pessoa. Para nos completar.
Não resultou.
3ª – A perda de profundidade
Juntamos duas pessoas que ainda não se tinham juntado.
Então, a dada altura, mais cedo ou mais tarde, por esta ou aquela razão, um deles é levado. E aquilo que é levado é maior do que a soma do que lá estava.
O testemunho do autor  sobre o seu amor por Pat (Pat Kavanagh, sua agente literária durante quarenta anos), a mulher com quem casou em 1979 e viu partir em 2008, vítima de cancro.
Em tom intimista, Barnes conta como "sobreviveu" à perda, ao desgosto, à solidão, às lágrimas, à tentação do suicídio, à imensa dor.
A dor mostra que não esquecemos; a dor realça o sabor da memória; a dor é uma prova de amor.
Impressionante! Brilhante!
Mais não escrevo, porque esta "prova de amor" merece ser lida. Por todos.
A sério!
 
Os níveis da vida, de Julian Barnes
Tradução de Helena Cardoso
Ed. Quetzal, 2013
109 págs.

15 fevereiro, 2014

O dia dos namorados já passou, mas...

… não consigo deixar de reproduzir o que li ontem, já altas horas, e me lembrou que “devemos celebrar o amor, todos os dias”:
 
“Vivemos uma vida normal, verdadeira, e no entanto – e por isso – temos aspirações. Terráqueos, conseguimos às vezes chegar tão longe como os deuses. Alguns elevam-se com a arte, outros com a religião; a maioria com o amor. Mas quando subimos também podemos despenhar-nos. Há poucas aterragens suaves.
Todas as histórias de amor são potenciais histórias de dor. Se não no princípio, depois. Se não para um, para o outro. Às vezes para ambos.
 
Estão por que aspiramos continuamente a amar?
Porque o amor é o ponto onde se encontram a verdade e a magia.”

Em “Os Níveis da Vida”, de Julian Barnes.

20 julho, 2012

"A mesa limão" - Julian Barnes

Para os chineses o limão é o símbolo da morte.
Acabei de ler onze histórias maravilhosas sobre o envelhecimento. Onze pequenas mas profundas histórias sobre a velhice e a morte, histórias enternecedoras, histórias belas, histórias tristes e divertidas, histórias de amores e desamores, histórias de subversão, de arrependimento e resignação, muito bem contadas pelo grande Julian Barnes.
A sua leitura foi puro deleite. No final … queria mais e mais.
Gostei das onze histórias mas gostei um pouco mais das seguintes:
- Breve História do Penteado
Curto atrás e aos lados e em cima um bocado menos, disse a mãe ao barbeiro, na primeira vez que Gregory foi à barbearia.
A história conta essa primeira ida ao barbeiro e duas outras, em idades diferentes, sempre com o medo aterrador da “cadeira da tortura”. Humor e terror conjugados na perfeição.
- A História de Mats Israelson
Anders e Barbro são os protagonistas de uma relação de amor não consumada, porque durante vinte e três anos não encontraram o "tom" certo para falar sobre ela.
- As coisas que tu sabes
Há já três anos que Merrill e Janice, ambas viúvas, tomam o pequeno-almoço no hotel Harborviez, na primeira terça-feira de cada mês.
Serão amigas?
O que têm elas em comum, para além dos sapatos rasos de camurça, com sola anti-derrapante?
- Reviver
Ele tem sessenta anos e quer fazer a sua última viagem, a viagem do coração.
Para ele, todo o amor é simbolicamente uma viagem, e essa viagem precisa de se concretizar.
Ela tem vinte e cinco.
Ele viajou. Ela viajou. Mas eles não viajaram.
Podiam ter viajado. Se…
- Saber francês
Caro Dr. Barnes (Eu, mulher idosa, a caminho dos oitenta e um):
Bom, leio OBRAS sérias mas, para uma leitura mais ligeira à noite, que ficção se pode arranjar numa Casa de Velhos?
Sylvia, a mulher idosa, solteira, francófona, bilingue, dona de uma excelente memória e considerada a vida e alma do lar de idosos “Pilcher House”, remete, durante três anos, cartas a Julian Barnes. Nelas, fala com entusiasmo da língua francesa, do seu passado e do dia-a-dia na Casa de Velhos - um lugar onde não há ninguém com quem falar da morte.
- Apetite
Ele tem setenta e cinco anos, perdeu a memória, tornou-se malcriado e gosta que a mulher lhe leia livros de culinária.
- A gaiola da fruta
O amor tardio.
Porquê supor que o coração se atrofia como os órgãos genitais?
Gostei!
Aconselho, como leitura "fresca" de verão.

A mesa limão, de Julian Barnes
Tradução de Helena Cardoso
Ed. ASA, 2008
200 págs.

13 abril, 2012

"O sentido do fim" - Julian Barnes

Quantas vezes contamos a história da nossa vida? Quantas vezes adaptamos, embelezamos, fazemos cortes matreiros? E, quanto mais a vida avança, menos são os que à nossa volta desafiam o nosso relato, para nos lembrar de que a nossa vida não é a nossa vida, é só a história que contámos sobre a nossa vida. Que contámos aos outros mas – principalmente – a nós próprios.
Começo por dizer que me é difícil opinar sobre este livro. Por quê?
Porque merece ser lido por todos. Porque não devo desvendar a trama da história. Porque é um autêntico tratado de psicologia, e eu não sou especialista. Porque me fez reflectir sobre a minha (insignificante) história de vida.
Enfim, porque não encontro palavras para escrever sobre ele de forma adequada.
Digo apenas que é o relato assombroso e surpreendente da vida de um homem de meia-idade, desde o tempo do liceu e das amizades juradas para sempre, até à idade da reforma, quando todas as memórias são atraiçoadas pelo tempo. Tony Webster, o narrador, casado, divorciado, pai de uma rapariga, vive uma solidão tranquila, até ao dia em que uma carta lhe vai mostrar que o seu passado não é o que ele sempre imaginou e que vai ter de se confrontar com as imperfeições da memória.
O meu eu mais jovem voltara para chocar o meu eu mais velho com aquilo que tinha sido, ou era, ou era às vezes capaz de ser.
E fico por aqui.
Do autor li apenas este romance, vencedor com mérito do Man Booker Prize 2011.
O enredo da história é surpreendente e a sua escrita perfeita, delicada e muito acessível.
Aproximamo-nos do fim da vida – não, não da vida em si, mas de outra coisa: o fim de qualquer probabilidade de mudança nessa vida.
Perfeito!
Corram a lê-lo (e não desvendem o desenlace da história).

O sentido do fim, de Julian Barnes
Quetzal, 2012
Tradução de Helena Cardoso
152 págs.