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16 outubro, 2020

"Essa gente" - Chico Buarque


20 de fevereiro de 2019
…existe a categoria dos sonhos lúcidos, quando você sabe que o sonho é sonho, mas não consegue ver a saída. Ou vê, mas não quer sair, ou sai e já volta porque aqui fora é o absurdo… 
Essa gente”, sexto romance do escritor e músico Chico Buarque (Prémio Camões 2019tem por protagonista narrador Manuel Duarte, escritor que enfrenta uma crise criativa (desespera por terminar um livro que devia ter entregue três anos antes), sentimental (dividido entre duas ex-mulheres, a tradutora Maria Clara  Duarte  e  a  arquitecta e designer Rosane Duarte) e financeira ("espartilhado" por pesadas dívidas).
Autor de vários livros, entre eles “O Eunuco do Paço Real”, romance histórico que fez furor nos anos 1990, Manuel Duarte, o escritor, que depende do seu trabalho para sobreviver, narra com fina ironia a história da sua vida. Vida que se esvai no deambular sem rumo nas ruas do Leblon, na tentativa  de aproximação ao filho fruto do primeiro casamento, na leitura e releitura dos seus livros em busca de inspiração, no implorar ao editor adiantamento de royalties de um livro condenado a nunca ser escrito. 
Ao escritor desinspirado, solitário e desalentado com «o que estão fazendo» com o seu país, juntam-se outras personagens, outra «gente» cujas vidas são desvendadas em cartas, bilhetes, conversas telefónicas, notificações, comunicações, notícias de jornais, pensamentos, alinhadas/desalinhadas como se de entradas de um diário se tratasse, numa narrativa engenhosa, tragicómica, que ora avança, ora recua, e por vez nos confunde. 
A acção decorre entre 30 de Novembro de 2018 (dias depois da eleição de Jair Bolsonaro) e 29 de Setembro de 2019, com alguns recuos a 2016, num Rio de Janeiro que sangra e estrebucha sob o flagelo de feridas sociais a cada dia mais ostensivas.

«30 de novembro de 2018 
Meu caro, Não pense que me esqueci das minhas obrigações, muito me aflige estar em dívida com você. (…) passei ultimamente por diversas atribulações: separação, mudança, seguro-fiança para o novo apartamento, despesas com advogados, prostatite aguda, o diabo. Não bastassem os perrengues pessoais, ficou difícil me dedicar a devaneios literários sem ser afetado pelos acontecimentos recentes do nosso país. (...)»

«25 de Janeiro de 2019
Apartamento de alto luxo na quadra de praia do Leblon, amplo, salão em 3 ambientes e sol matinal, sala de jantar, lavabo, 4 suites sendo uma master, sala íntima, copa-cozinha-gourmet, área de serviço com 2 dependências de empregada, 8 vagas de garagem, R$ 16700000,00.
Visto aqui do alto, o Bairro não difere muito de uma favela. A barafunda de edifícios sem telhas lembra um amontoado de caixas de sapato destampadas, numa sapataria em dia de liquidação. (...)»

«20 de fevereiro de 2019 
Há manhãs em que desço as persianas para não ver a cidade, tal como outrora recusava encarar minha mãe doente. (...) Não preciso ver para saber que pessoas se jogam de viadutos, que urubus estão à espreita, que no morro a polícia atira para matar. (…)»

«15 de abril de 2019
- Transmissão de pensamento!
Ao abrir a porta, a Maria Clara diz que me me ia convocar para vê-la hoje mesmo (...) está a par  do ultimato que recebi da companhia de seguros e não vai deixar o pai do seu filho na rua da amargura. (...) Sem alternativa, aceitarei resignado a hospitalidade de Maria Clara, ciente de que entrar livremente em sua casa será como ter a chave de uma porta que não abre por dentro. A partir de amanhã vou trazer pouco a pouco a minha tralha, mas para esta noite comprei um garrafão de vinho gaúcho que estava em promoção. (...)»

«(20 de junho de 2019
(...) Em noites de abandono vou às putas, que pago em dobro para transar sem camisinha, quando não pago o triplo para não transar e fazê-las ouvir literatura. (...)»

15 de janeiro de 2019
(...) a partir de hoje, por decreto presidencial, posso ter quatro armas de fogo em casa.
 
Como termina esta narrativa engenhosa e magnificamente bem escrita?
Eu sei, mas não digo!
Recomendadíssimo!

Essa gente, de Chico Buarque 
Companhia das Letras, 2019 
194 págs.
(foto net)

15 maio, 2020

"Leite derramado" - Chico Buarque

A memória é uma vasta ferida.
É belíssimo o quarto romance de Chico Buarque. Uma saga familiar caracterizada pela decadência social e económica, uma sucessão de monólogos contraditórios, uma triste, enternecedora, divertida fusão das memórias de um velho – Eulálio Montenegro d’Assunpção «e não Assunção, como em geral se escreve» – com factos dos últimos 200 anos da História do Brasil.
Eulálio, protagonista de “Leite derramado”, viúvo de Matilde, uma morena «de pele quase castanha», solitário, frágil, pobre (mas mantendo os tique de superioridade social), está deitado na enfermaria de um hospital «infecto», e sendo tratado por  «gente desqualificada». Com «a cara amassada e a barba por fazer» e a cabeça «meio embolada» espera ansiosamente pela filha Matilde «você nem vai me dar um beijo? É desagradável ser abandonado assim...», desespera por morfina, barafusta com os médicos «saiba o doutor que meu pai foi um republicano de primeira hora, íntimo de presidentes», implica com as enfermeiras «lá vem você com a seringa...», enquanto vai repetindo histórias da sua vida.
Eulálio nasceu em 1907, no seio de uma família tradicional brasileira próxima da elite e do poder. O pai foi senador da Primeira República; o avô foi um «figurão do Império, grão-maçon e abolicionista radical», o bisavô um barão negreiro; o trisavô desembarcou no Brasil com a corte portuguesa; o tetravô lutou contra as tropas de Napoleão.
Depois dele, vem o declínio da família: a filha casa com um imigrante italiano; o neto morre nas prisões da Ditadura; o tetraneto trafica drogas.
«… todo o dia é isso, acordo com o sol na cara, a televisão aos berros, e já compreendi que não estou em Copacabana, foi-se o chalé há mais de meio século», e o palacete em Botafogo, o apartamento na Tijuca, a fazenda na «raiz da serra, a...
«Hoje sou da escória igual a vocês, e antes que me internassem, morava com minha filha de favor numa casa de um só cômodo nos cafundós...».

E fico por aqui, sabendo que deste romance - admiravelmente bem escrito - muito ficou por desvendar. E que tal ser você a escutar o tanto que Eulálio tem para contar?
As pessoas não se dão o trabalho de escutar um velho, e é por isso que há tantos velhos embatucados por aí, o olhar perdido, numa espécie de país estrangeiro.
Lido em 2009, relido em 2020 com igual entusiasmo. Lido ou ouvido? Eu sei lá!
Recomendadíssimo!
(Encontra mais frases sublinhadas neste livro, no "pétalasdesabedoria".)

Leite derramado, de Chico Buarque
Ed. Dom Quixote, 2009
223 págs.

Responda se quiser: Você escuta os seus «velhos»?


(fotos da net)