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17 janeiro, 2012

Poema de... Nuno Júdice


DICÇÃO
Vou falar em português,
com cada vogal no seu lugar, dita
com toda a clareza,
uma de cada vez. Assim,
não comendo os és nem os is,
e pondo cada ó, aberto
ou fechado, dentro da sílaba
que lhe cabe, o português
fica com os pontos nos is,
para que o ouvido perceba
o que é dele,
e quem o escreva saiba
que a letra escrita
não vai ser letra morta
na boca
de quem lhe abra a porta.

Poema de Nuno Júdice, Portugal (1949-)
Pintura de António Carmo, Portugal (1949-)

24 janeiro, 2011

"A matéria do poema" - Nuno Júdice

Não encontro palavras para falar deste livro de Nuno Júdice.
Fico-me pelo silêncio...

O silêncioPego num pedaço de silêncio. Parto-o ao meio,
e vejo saírem de dentro dele as palavras que
ficaram por dizer. Umas, meto-as num frasco
com o álcool da memória, para que se
transformem num licor de remorso; outras,
guardo-as na cabeça para as dizer, um dia,
a quem me perguntar o que significam.
Mas o silêncio de onde as palavras saíram
volta a espalhar-se sobre elas. Bebo o licor
do remorso; e tiro da cabeça as outras palavras
que lá ficaram, até o ruído desaparecer, e só
o silêncio ficar, inteiro, sem nada por dentro.

“A matéria do poema” , de Nuno Júdice
Dom Quixote, 2008
140 págs.