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16 maio, 2017

"Lavoura arcaica" - Raduan Nassar

Sinopse: A crescer numa pequena fazenda no Brasil, o jovem André ama a terra e desafia os sermões do pai em virtude dos sentimentos pela irmã Ana. Dividido entre o afecto desmedido da mãe e a severa autoridade do pai, André tem de escolher entre cumprir o destino do filho pródigo ou ser a ovelha tresmalhada. Confrontado entre o corpo e a alma, entre o dever filial e a liberdade, a única saída é deixar a casa da família.
… o amor na família pode não ter a grandeza que se imagina…
Lavoura arcaica” é uma belíssima e comovente história de família.
Retrato íntimo, duro e dramático  do quotidiano entre as quatro paredes do lar, onde não falta afecto, amor, sofrimento, revolta, silêncios, confissões impossíveis, revelações incómodas.
A família é a do jovem André, o filho arredio, acometido, revoltado, tresmalhado; revoltado com a agressividade, austeridade e excessiva disciplina do progenitor; enfastiado das homilias contra as tentações e dos sermões do pai à cabeceira da mesa.
"Meu pai sempre dizia que o sofrimento melhora o homem, desenvolvendo o seu espírito e aprimorando a sua sensibilidade; ele dava a entender que quanto maior fosse a dor tanto ainda o sofrimento cumpria sua função mais nobre; ele parecia acreditar que a resistência de um homem era inesgotável; que o mundo das paixões é o mundo do desequilíbrio; é através do recolhimento que escapamos ao perigo das paixões mas ninguém no seu entendimento há de achar que devamos sempre cruzar os braços, pois em terras ociosas é que viceja a erva daninha: ninguém em nossa casa há de cruzar os braços quando existe a terra para lavrar, ninguém em nossa casa há de cruzar os braços quando existe a parede para erguer, ninguém ainda em nossa casa há de cruzar os braços quando existe o irmão para socorrer."
André deixa a casa da família (1ª parte do romance) para conhecer mundo. No coração leva o afecto desmedido da mãe e o amor -milagre que viveu com Ana.
Ana, me escute, é só o que te peço (…) foi um milagre o que aconteceu entre nós, querida irmã; foi um milagre descobrirmos acima de tudo que nos bastamos dentro dos limites da nossa própria casa, confirmando a palavra do pai de que a felicidade só pode ser encontrada no seio da família.”
André acabou por ser encontrado por Pedro, o irmão mais velho, e convencido a voltar para junto da família. A "ovelha tresmalhada" retorna a casa (2ª parte do romance) para confrontar o pai.
"- Ninguém vive só de semear, pai.
- Claro que não, meu filho; se outros hão de colher do que semeamos hoje, estamos colhendo por outro lado do que semearam antes de nós. É assim que o mundo caminha, é esta a corrente da vida.
- Isso já não me encanta, sei hoje do que é capaz esta corrente; os que semeiam e não colhem, colhem contudo do que não plantaram; deste legado, pai, não tive o meu bocado. Por que empurrar o mundo para a frente? Se já tenho as mãos atadas, não vou por minha iniciativa atar meus pés também; por isso, pouco me importa o rumo que os ventos tomem…
- É muito estranho o que estou ouvindo.
- Estranho é o mundo, pai, que só se une se desunindo;"
(pobre família nossa, prisioneira de fantasmas tão consistentes!)

É triste o fim desta assombrosa história. Mas sobre isso, nada desvendo.
Lavoura arcaica” - a parábola do filho pródigo, invertida - não é para ser contada, mas lida.
Se ainda não conhece, corra a uma livraria, procure, compre, leia.
Eu, li-o de uma assentada, cativa da inteligência e sensibilidade da linguagem do escritor. Nem os enormes parágrafos derramados em duas, três, quatro páginas seguidas me fizeram desistir desta fascinante e bem contada história.  Acreditem, penetrar na intimidade da família do André foi uma experiência inesquecível.

Lavoura arcaica, de Raduan Nassar
Companhia das Letras, 2016
175 págs.
Raduan Nassar, filho de emigrantes libaneses, nasceu em 1935 em Pindorama, no interior do estado de S. Paulo, Brasil.
Estudou  Direito e Filosofia.
Nos anos sessenta escreveu o seu primeiro conto "Menina a Caminho"; viajou pelo Canadá e Estados Unidos. Regressou ao Brasil em 1962 e terminou o curso de Filosofia. Dois anos depois viajou para a Alemanha, onde estudou alemão. Visitou a aldeia dos pais, no Líbano.
Nos anos setenta publicou três livros: o romance "Lavoura Arcaica" (1975), a novela “Um copo de cólera" (1978) e o livro de contos "Menina a caminho" (1997).
Visitou Portugal em 1974, pouco após a revolução de Abril.
Nos anos oitenta, já com algum sucesso editorial no Brasil e no estrangeiro, abandonou a literatura e retirou-se para a sua fazenda, para se dedicar à criação de galinhas e coelhos.
Em 2011 distribuiu as terras pelos seus funcionários, doou a fazenda à Universidade Federal de S. Carlos e foi morar para S. Paulo.
Em 2016, foi-lhe atribuído, por unanimidade, o Prémio Camões, o mais importante prémio literário destinado a autores de língua portuguesa.