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22 novembro, 2016

"Homem na escuridão" - Paul Auster


A mente tem uma mente que é só dela.
“Sozinho na escuridão, revolvo o mundo na minha cabeça enquanto me debato com mais uma insónia, com mais uma noite em branco na imensidão da natureza selvagem da América. Lá em cima, a minha filha e a minha neta estão a dormir nos seus quartos, sozinhas também elas, Miriam, a minha única filha, que tem quarenta e sete anos e que tem dormido sozinha nestes últimos cinco anos, e Katya, filha única de Miriam, que tem vinte e três anos e que costumava dormir com um jovem chamado Titus Small, mas Titus está morto agora, e Katya dorme sozinha com o seu coração destroçado.”
Logo no primeiro parágrafo de “Homem na escuridão” conhecemos quatro das cinco personagens da história principal deste romance: o narrador/personagem August Brill, Miriam, Katya, Titus. Apenas falta Sonia, companheira de uma vida de Brill, mãe de Myriam, avó de Katya.
Eu disse «personagens da história principal» porque neste romance há outras histórias (com outras personagens) “dentro” da história dita principal. Histórias de amor, dor, perda, angústia, solidão, culpa, violência, sobrevivência. E há filmes. Os filmes estão a transformar-se numa droga. Creio que devíamos reduzir o número de sessões – ou mesmo parar por um bocado. Diz Brill à neta depois de mais uma maratona de filmes.
August Brill, 72 anos, viúvo(?), crítico literário reformado, vive em casa de Miriam no Vermont, há mais de um ano. Recupera de um acidente de viação. Depois da saída do hospital, não conseguiu recusar o convite da filha: pai, não está a perceber. Eu preciso de ti. Sinto-me tão horrivelmente sozinha naquela casa…Não sei até quando é que aguentarei tanta solidão…
Brill é o “ homem na escuridão”, que nas noites de insónia e angústia inventa histórias. Histórias onde a América não está em guerra com o Iraque; as Torres Gémeas não caíram; as eleições presidenciais de 2000 conduziram a uma sangrenta guerra civil. Podem não ser nada de especial, mas, enquanto estou dentro delas, impedem-se de pensar nas coisas que preferiria esquecer.
Acontece que por vezes a mente mistura a ficção com a realidade, e Brill é obrigado a lembrar o que quer esquecer:
- a morte recente de Sonia, a mãe da sua filha, a mulher que amou, que não valorizou, que trocou por outra, que voltou a recebê-lo quando a tal outra o trocou por outro. Brill e Sonia não voltaram a casar (porque ela não quis) mas viveram juntos e felizes até que a morte os separou. 
- a triste solidão de Miriam, que canaliza todas as energias para o ensino e para a escrita, desde que há cinco anos foi abandonada pelo marido. Miriam e Richard cometeram o mesmo erro que Sonia e eu: casaram-se demasiado novos.
- o sofrimento indescritível de Katya, desde a execução de Titus no Iraque, para onde foi como voluntário. Ela tinha dezoito anos e estudava Cinema na universidade quando os pais se divorciaram. Absorveu bem o choque. Agora, aos vinte e três anos, está desfeita. Culpa-se pela morte do jovem que a amava mas que ela não conseguia amar.
August Brill, deitado na cama, de olhos fixos na escuridão, conta histórias a si próprio, enquanto o bizarro mundo continua a girar…
“Pigarreio e, passado um segundo, estou a tossir de novo e a vomitar gordas escarretas e, claro a tapar a boca para abafar o ruído… de maneira que engulo em seco e deixo que esta porcaria viscosa deslize pela minha garganta, e digo para mim mesmo pela quinquagésima vez nos últimos cinquenta dias que tenho de deixar de fumar, aí está uma coisa que eu sei que nunca acontecerá, mas mesmo assim continuo a dizer para mim mesmo que tenho de deixar de fumar, só para me torturar com a minha própria hipocrisia.”

Leia e… veja filmes: “Ladrões de Bicicletas”, “Viagem a Tóquio”… Há certos filmes que são tão bons como livros, tão bons como os melhores livros.
Leia e… apaixone-se pela vida.
A noite ainda é uma criança…

Homem na escuridão, de Paul Auster
Tradução de José Vieira de Lima
Edições ASA, 2008
160 págs.

25 novembro, 2014

Money, money, money... em "Da mão para a boca" - Paul Auster

O dinheiro falava, e na medida em que o escutássemos e obedecêssemos aos seus argumentos, aprenderíamos a linguagem da vida.
Imagina Paul Benjamin Auster (n.1947) – um dos nomes grandes da literatura norte-americana - a “apertar o cinto”? Não?
Pois isso aconteceu mesmo, como ele conta neste relato autobiográfico intimista, comovente e muito divertido.

"Entre os meus vinte anos e o início dos trinta, atravessei um período de vários anos em que tudo aquilo em que tocava se transformava num fracasso: o meu casamento terminou em divórcio, o meu trabalho como escritor soçobrou e vivi assoberbado por problemas de dinheiro. Não estou a falar de uma simples e ocasional escassez de fundos ou de alguma necessidade periódica de apertar o cinto, mas sim de uma falta de dinheiro contínua, crónica, opressiva, quase asfixiante, que me envenenava a alma e me mantinha num estado de pânico interminável.
Não podia culpar ninguém a não ser a mim próprio."
Leia mais.
"Provenho de uma família da classe média. A minha infância foi desafogada e nunca conheci nenhuma das carências e privações que afligem a maior parte dos seres humanos que vivem nesta terra. Nunca passei fome, nunca passei frio, nunca me senti em perigo de perder as coisas que tinha. (…) O meu pai era agarrado; a minha mãe esbanjadora. Ela gastava; ele não."
E ainda mais.
"Em rapaz, enquadrei-me no papel do fura-vidas clássico. Ao primeiro sinal de neve, começava a tocar às campainhas e perguntava às pessoas se queriam contratar-me para lhes desimpedir a entrada (…) Em Outubro, quando as folhas caíam, lá estava eu com o meu ancinho: tocava às mesmas campainhas e perguntava se queriam que limpasse os relvados (…) No verão, vendia limonada a dez cêntimos o copo no passeio defronte da minha casa."

Paul Auster, o escritor de sucesso, no seu melhor!
(Voltarei a este livro.)

16 setembro, 2011

"A noite do oráculo" - Paul Auster

Um marido sai para pôr uma carta no marco do correio e não volta a casa. O que é que a sua mulher vai pensar?
Sidney Orr, escritor, casado com Grace, 34 anos, a recuperar de uma doença quase fatal, é o protagonista e narrador desta viagem pelo labirinto da imaginação.
No dia 18 de Setembro de 1982, um sábado cinzento, durante o seu passeio matinal pelas ruas de Brooklyn, chega à papelaria “Paper Palace”. Nunca a tinha visto antes.
Decidido a voltar ao trabalho, entra para se abastecer de material e eis que descobre quatro daqueles cadernos portugueses que tanto o fascinam: capas duras, linhas quadriculadas, sólidos, imunes a todo o tipo de borrões. Compra o único caderno de cor azul.
Regressa a casa e abre o caderno na primeira página mas não sabe o que escrever. Não se preocupa porque o objectivo não é escrever nada de especial mas sim provar que ainda é capaz de escrever.
Recorda a conversa que teve com um amigo acerca de um homem que abandona a vida que leva e desaparece, e eis que a história para o seu romance surge e as palavras começam a ser alinhadas no caderno azul: Nick Bowen, um jovem assistente editorial numa grande editora de Nova Iorque, vive momentos de insatisfação no trabalho e no casamento.
Um dia chega à editora um pacote com o manuscrito de um romance com o sugestivo título de "A Noite do Oráculo", supostamente escrito por Sylvia Maxwell, uma popular autora falecida há cerca de duas décadas. A seguir conhece Rosa Leightman, a neta da autora. É uma mulher interessante, que o deixa perturbado.
Certa noite em que Nick sai para colocar umas cartas no marco do correio, a cabeça de uma gárgula de pedra cai de um décimo primeiro andar e despenha-se a escassos centímetros da sua cabeça. Aturdido, desorientado, cheio de medo, decide abandonar o seu passado e… desaparecer.
Mas há outra história para escrever - “A Noite do Oráculo”. Sidney Orr, tinha de urdir toda a intriga, mas sabia que seria um breve romance filosófico em torno da predição do futuro, uma fábula sobre o tempo.
Li este romance pela primeira vez em 2004. Na altura estranhei a ligação das três histórias. Desconcentrava-me. Como seguir a leitura? Complicado. Não me entusiasmou.
Agora, entendi melhor a sequência das histórias, mas… voltei a estranhar e a não me entusiasmar.
As boas pessoas fazem coisas más.

A noite do oráculo, de Paul Auster
Edições ASA, 2004
Tradução de José Vieira de Lima
201 págs.

27 junho, 2011

"As loucuras de Brooklyn" - Paul Auster

Eu andava à procura de um sítio sossegado para morrer. Houve alguém que me recomendou Brooklyn, de maneira que, na manhã seguinte, viajei de Westchester até Brooklyn para fazer uma espécie de reconhecimento do terreno.

Eis o início deste interessante livro de Paul Auster, que li em 2006 e agora reli com bastante agrado.
Nathan, narrador e personagem principal deste romance, “quase a bater à porta dos sessenta”, divorciado, vendedor de seguros reformado, a recuperar de um cancro nos pulmões, regressa a Brooklyn, para encontrar uma maneira de começar a viver de novo e fugir à rotina.
Idealiza vários projectos e decide-se pela escritura e compilação de pequenas histórias, para um livro que chamará “O Livro da Loucura Humana”, sobre “todas as asneiras, todos os lapsos humilhantes, todas as situações embaraçosas, todos os disparates que marcaram a minha longa e acidentada carreira como homem”.
Uma dessas histórias é sobre o reencontro, numa livraria de Brooklyn, com o seu sobrinho Tom - a promessa de um especialista em literatura norte-americana que, depois de conduzir um táxi, acabou a vender livros usados.
“Ambos estávamos sós, nenhum de nós andava com uma mulher, e nenhum de nós tinha muitos amigos (no meu caso nem um só)”.
Esse reencontro irá mudar a vida de ambos. E de que forma…
Paul Auster brinda-nos, depois, com um rol de personagens inesquecíveis, numa narrativa cativante, precisa e por vezes hilariante, sobre as relações humanas, no intervalo temporal da polémica eleição de Bush e o dia em que “o fumo de três mil corpos incinerados seria levado pelo vento até Brooklyn”.
Depois de “O Livro da Loucura Humana” Nathan tem uma nova ideia “a mais importante de todas as ideias que jamais tivera”: criar uma empresa que publicaria biografias pequenas e privadas sobre os esquecidos, para evitar que depois da morte de uma pessoa, todos os traços dessa vida, todas as histórias, factos e documentos desapareçam.
Era loucura sonhar com a concretização de um projecto tão ousado? A mim não me parecia.
Nunca se deve subestimar o poder dos livros.
Paul Auster – genial!

As loucuras de Brooklyn, de Paul Auster
Edições ASA, 2006
Tradução de José Vieira de Lima
299 págs.