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15 novembro, 2016

Vivemos com uma pessoa…


Vivemos com uma pessoa dois, dez, vinte anos. Surpreende-nos a quantidade de coisas que esquecemos? Há porções inteiras da nossa vida que desaparecem pura e simplesmente; as nossas recordações confundem-se. O que andámos a fazer durante todo esse tempo? De que maneira passámos o tempo como casal?
Podem tornar a emergir fragmentos dispersos aqui e além, mas nunca esquecemos aquele primeiro encontro. Aquelas mãos a atraírem-nos para mais perto, a fecharem-nos os olhos à medida que saboreamos a doçura da boca daquela pessoa estranha. Vislumbres de pele, olhos, cabelos a meterem-se de premeio, ombros. Enfiámos todas essas imagens naquele glorioso encadeado, e a cadeia nunca se quebrou, as contas nunca se soltaram do fio. Ficarei contigo para sempre. E surpreender-nos-emos ao perceber que, muitas vezes, é tudo quanto conseguimos guardar do outro.”

“Esforçamo-nos toda a vida por esquecer as pessoas que nos magoaram, mas, ao ficarmos mais velhos e mais fracos, a sua lembrança vem novamente à tona, como uma bolha de água. Temos de nos render, porque nos sentimos demasiado fatigados para lutar e tornar a afundá-la. E talvez, inesperadamente, descubramos que, em lugar de nos reavivar a ira, essas recordações produzem um inesperado encanto.”

Tirei daqui: 
Texto de “Casa Rossa”, de Francesca Marciano, Ed. Dom Quixote, 2006
Foto da net - pintura de Romero Britto.

05 novembro, 2016

"Casa Rossa" - Francesca Marciano


Há qualquer coisa que foi transmitida de mulher para mulher na minha família. Não sei como lhe chamar. Um segredo, um legado tácito - precisa de se manter oculta, é uma coisa que envergonha. A sua carga modelou cada uma de nós, deformou-nos para sermos o que hoje somos, tal como as videiras são lentamente forçadas pelo arame.
Enquanto lia “Memórias laurentinas”, de Agustina Bessa-Luís, veio-me à memória este romance de Francesca Marciano, que li em 2006 e não mais esqueci.
Agora não o reli, apenas folheei as páginas em busca de frases sublinhadas para desvendar um pouquinho da comovente e fascinante história de uma família italiana, do século XX.
História reconstituída por Alina com fragmentos do passado da família, que também é sua, com segredos da família e do país, que há muito deviam estar enterrados, com mistérios da vida de três extraordinárias mulheres que habitaram Casa Rossa, a magnífica casa de campo dos Strada, em Puglia:
Renée Strada (avó) - uma bela tunisina, mulher e musa de um pintor que abandonou por uma mulher e fugiu para a Alemanha nazi;
Alba Strada (mãe) - viveu a dolce vita na Roma dos anos cinquenta e casou-se com um guionista melancólico que morreu em circunstâncias misteriosas;
Isabella Strada (neta) - juntou-se às Brigadas Vermelhas nos anos 70.
Comprada pelo avô Strada, nos finais dos anos 20, setenta anos depois Casa Rossa foi vendida.
... completamente despida numa só manhã, voltará a emudecer. Uma tela branca, onde outras pessoas escreverão a sua história.
Alina Strada, irmã de Isabella, filha de Alba e neta de Renée, fecha a porta e... conta-nos uma história apaixonante, acerca do que se perde no caminho.
Casa Rossa lê-se e não se esquece.
Verdade!

Casa Rossa, de Francesca Marciano
Tradução de J. Teixeira de Aguilar
Ed. Dom Quixote, 2006
398 págs.