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03 abril, 2018

À terça - imagens e palavras: "espelho"


“Pode estar-se vezes sem fim diante do espelho sem realmente uma pessoa se ver.”

Frase de John Steinbeck, escritor norte-americano (1902-68), in "O inverno do nosso descontentamento", Ed, Circulo de Leitores, 1993
Prémio Nobel de Literatura, 1962

(Veja mais no blogue “Pétalas de Sabedoria”)
Foto da net.

01 abril, 2017

"A Pérola" - John Steinbeck


Não é bom desejar muito uma coisa. Pode arredar a sorte. Basta desejá-la um pouco, porque é preciso muito tato com Deus ou com os deuses.
Esta novela conta a história de uma pérola grande, bela, perfeita como a Lua – a “Pérola do mundo”.
Conta também a história de amor e solidariedade de uma humilde família índia: Kino o pescador que apanhou a pérola, a sua mulher Juana e o seu filho Coyotito.
Viviam num aglomerado de cabanas junto ao mar. Mar que Kino gostava de ouvir, de escutar a sua música sempre que fechava os olhos. O seu povo tinha sido outrora grande cultor de canções, de tal modo que tudo o que via ou pensava, ou fazia e ouvia, se transformava numa canção.
Sempre que olhava para a mulher e o filho, Kino ouvia na sua cabeça uma canção pura e doce, a Canção da Família.
Porém, no dia em que Coyotito foi picado por um escorpião Kino passou a ouvir na sua cabeça a música do inimigo, de qualquer inimigo da família, uma melodia selvagem e perigosa, a Canção do Mal.
O médico da cidade, um homem racista, cruel, ignorante e oportunista, recusa tratar Coyotito por considerar que as oito minúsculas pérolas defeituosos, feias e cinzentas que Kino lhe mostrava não valiam o suficiente para pagamento dos seus serviços.
Kino corre para o mar. Tem de apanhar uma pérola grande e bela para salvar o filho. Corajoso, mergulha fundo e vê uma ostra isolada, com a concha parcialmente aberta. O seu coração bateu mais forte e a Canção da Pérola Ambicionada soou estridente nos seus ouvidos. Dentro da concha estava uma pérola grande, perfeita como a lua. Kino tinha encontrado a "Pérola do Mundo". Quanto valeria?
A notícia de que Kino tinha apanhado a grande pérola chegou célere aos ouvidos dos compradores de pérolas. E aos ouvidos do médico. E as bolsas de veneno da cidade começaram a produzir a sua peçonha.
Kino sabia que tinha que arranjar uma couraça que o protegesse contra a maldade do mundo. Mas estava feliz. Na sua cabeça a música da pérola tinha-se fundido com a música da família.
- Que vais fazer, agora que és um homem rico?
- Vamos casar-nos… na igreja.
- Vamos ter roupas novas.
- Uma espingarda.
- O meu filho há de ir à escola.
- O meu filho há de ler e abrir os livros, e o meu filho há de escrever e conhecer a escrita. O meu filho há de fazer números e essas coisas hão de libertar-nos, porque ele há de saber, há de saber e nós havemos de saber através dele.
- É isso que a pérola há de fazer.
Inesperadamente, Kino começou a ouvir na sua cabeça a Canção do Mal e um medo descontrolado cresceu no seu peito. E com o medo veio a raiva. E muita dor e tristeza e vergonha. 
O que se passou? 
Revelo apenas que a pérola volta para o fundo do mar...

Baseada num conto popular mexicano, “A Pérola” (1947) é uma parábola poética sobre as grandezas e as misérias do mundo em que vivemos.
Uma história pequenina, linda, comovente e inesquecível, para ler e reflectir.

A Pérola, de John Steinbeck, Prémio Nobel de Literatura, 1962
Tradução de Clarisse Tavares
Ed. Livros do Brasil, 2015
79 págs.

01 julho, 2014

Primeiro de Julho



"Primeiro de Julho. O dia que divide o ano como uma risca ao meio divide o cabelo."



Em  “O inverno do nosso descontentamento”, de John Steinbeck, Ed. Circulo de Leitores, 1993
(Foto tirada da net)

18 maio, 2014

"O Inverno do nosso descontentamento" - John Steinbeck

Now is the winter of our discontent
Made glorious summer by this sun of York.
(Em “Ricardo III”, de Shakespeare)
Meu pai era um tolo por vezes brilhante, amável, bem informado e mal avisado. Sem o auxílio de ninguém, perdeu terras, dinheiro, prestígio e futuro.
Só conservou o nome, de resto a única coisa que lhe interessava.
Quem o diz é o narrador-personagem deste romance, Ethan Allen Hawley, descendente de duas das mais antigas e ricas famílias de New Baytown, uma pequena cidade portuária, outrora um burgo fundado por marinheiros, piratas e pescadores de baleias.
O pai de Ethan perdeu quase tudo o que os Allen e os Hawley acumularam ao longo de séculos. Da ruína salvaram-se várias casas e um estabelecimento comercial, que deixou ao único filho. Também este conhecerá o sabor da ruína.
Regressado da guerra, sem dinheiro e sem experiência profissional, Ethan decide vender algum património para abrir uma mercearia-frutaria na loja herdada. A falência acontece menos de dois anos depois e ele tem de vender o que lhe restava para liquidar dívidas. Consegue ficar com a velha casa de família, onde vive com a mulher Mary e os filhos adolescentes Allen e Mary Ellen.
A mercearia é vendida a Marullo, um siciliano de sessenta e oito anos, estranho e ausente. Ethan passa a caixeiro do estabelecimento. É ele é que abre e fecha o estabelecimento, contacta com os fornecedores, gere o dinheiro de caixa, faz a contabilidade.
Ao fim do dia, depois da porta fechada e da cortina corrida, na penumbra silenciosa, cansado, Ethan “desabafa"  com as latas, frascos, caixas, frutas e legumes.
Ele é um homem íntegro, simples e feliz. Não tem ressentimentos. Aceita a sua nova condição social. Já a família...
Ele convive bem com a troça, a crítica, as tentações e a pressão de todos, para que se empenhe na recuperação da fortuna perdida.
Quando aparece na loja, o patrão instiga-o a enganar os clientes: Ensinar-te-ei a fazer bons negócios. Pensa nos truques. Tens ainda muito que aprender, rapaz. Tu és esperto, rapaz, mas és honesto.
A mulher, que ele ama apaixonadamente, critica-o: Toda a gente se ri de ti. Um senhor muito distinto mas sem vintém é um falhado.
A filha pergunta-lhe: Quando te decides a tornar-te rico? Estou farta de ser pobre.
Baker, o banqueiro, propõe que ele invista o dinheiro herdado por Mary: Perca-o se for preciso, mas arrisque-o. Dê mostras de um pouco de coragem. Os homens não se deixam prostrar.
Biggers, o caixeiro-viajante propõe-lhe um esquema de luvas: Não seja idiota. Toda a gente o faz. Ele (o patrão) não perde nada e você recebe umas boas luvas.
Margie Young-Hunt, a vidente amiga da mulher, predestina: Você está destinado a um grande futuro.
(São poucas, mas "enormes" as personagens deste romance.)
À noite, quando não consegue dormir - Para mim, dormir é um esforço enorme... Quando durmo canso-me. Os meus sonhos são os problemas do dia deformados até ao absurdo. - Ethan caminha pelas ruas da cidade, sempre em direcção ao Porto Velho, o seu lugar de eleição para lembrar o passado e reflectir sobre o presente.
Na América do pós-guerra, onde a hipocrisia e o dinheiro minavam o que no homem existia de mais puro e autêntico, o íntegro Ethan começa a vacilar entre a ordem moral e a ambição.
Um homem deve viver guiado pelos seus princípios ou deixar-se arrastar?
Aposto que quer saber como reagirá o íntegro Ethan a tanta pressão. Alcançará o sucesso financeiro? A que custo?
Eu sei tudo sobre a gradual transformação de Ethan. Sobre as manobras, esquemas e golpes sujos. Sobre a amargura, a tristeza e a infelicidade que se seguiu ao sucesso financeiro e mundano. Eu sei tudo… mas não conto.
Se quiser saber - Em que patife um homem pode tornar-se! – “oiça” a história de Ethan.
É admirável!
 
O inverno do nosso descontentamento, de John Steinbeck
Tradução de João Belchior Viegas
Ed. Círculo de Leitores, 1993
325 págs.

"O Inverno do nosso descontentamento" de John Steinbeck (curiosidades)

Por vezes encontro nas histórias que leio, detalhes deliciosos que gosto de sublinhar.
Neste romance, foi o rol infindo de nomes ternurentos que Ethan chama a Mary, a mulher amada.
Eu diverti-me. Divirta-se também. Memorize alguns. Use-os.
Há ocasiões em que uma simples palavrinha muda tudo... para melhor.
Verdade!
 
- ratinha
- pintainho em flor
- joaninha
- pulgão
- navio de luxo
- querida
- esposa sem mácula
- torrãozinho de açúcar
- coelhinho
- amorzinho
- pézinho de flor
- raminho de feto
- caracolinho
- rapariguinha em flor
- botão de rosa
- mulherzinha querida
- pãozinho com mel
- dorminhoca
- patinho
- passarinho
- pequenina
- filha de príncipe
- pintainha
- pomba
- doçura
- encanto
- carícias
- queridinha
- esquilo voador
- deliciosa mulherzinha
- pombinha
- madona
- ablativo absoluto
- miss ratinha
- amor
- vossa alteza
- pequenina desavergonhada
- flor dos campos.
 
Será que os puristas se zangam por eu "brincar" com um clássico?