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08 abril, 2016

"Número zero" - Umberto Eco

Não são as notícias que fazem o jornal, mas o jornal que faz as notícias.
A sinopse promete muita acção (e quase desvenda tudo…):
Um redactor paranóico que, circulando por uma Milão alucinada (ou alucinado por uma Milão normal), reconstrói uma história com cinquenta anos, tendo como pano de fundo um plano diabólico arquitectado em torno do cadáver putrefacto de um pseudo-Mussolini.E, na sombra, o Gladio, a P2, o assassino do Papa Luciani, a CIA, os terroristas vermelhos manobrados pelos serviços secretos, vinte anos de massacres e de pistas falsas, um conjunto de factos inexplicáveis que parecem inventados, até que uma transmissão da BBC vem provar que são verdadeiros ou, pelo menos, são agora confessados como tal pelos seus autores. Depois, um cadáver entra subitamente em cena na mais estreita e mal-afamada rua de Milão. (...)

“Número zero” é um romance irónico que critica-denuncia o actual jornalismo italiano, a corrupção na política, a impunidade das influentes e poderosas organizações criminosas.
A história, narrada na primeira pessoa por um protagonista barricado em casa com medo de morrer, principia Sábado, 6 de Junho de 1992 (1º capítulo) e termina Quinta-feira, 11 de Junho de 1992 (18º capítulo). Os restantes dezasseis capítulos, igualmente datados, são memórias de factos ocorridos em Abril e Maio do mesmo ano, com algumas incursões pela História do Século XX.
"Doutor" Colonna, o protagonista, é um perdedor compulsivo, tradutor de alemão, escritor falhado, ghost writer de um autor de livros policiais, cinquentão, infeliz no amor, que sonha com o que sonham todos os perdedores: escrever um livro que lhe desse glória e riqueza.
Como o medo de morrer dá fôlego às memórias, no tempo de clausura forçada ele reconstitui a história bizarra de um jornal sem leitores de Milão, criado para nunca passar do número zero.
Tudo começou quando aceitou escrever as memórias do jornalista Simei sobre o processo de criação desse jornal, dito independente de qualquer pressão, e disposto a dizer a verdade sobre tudo.
“Amanhã”, é o título, porque, ao contrário dos jornais tradicionais que falam do que aconteceu ontem, este falará do que poderá acontecer amanhã.
“Amanhã: Ontem”, é o título do livro que, recomenda Simei,  deverá dar a ideia de um outro jornal, mostrar como, durante um ano, eu me esforcei para realizar um modelo de jornalismo independente de qualquer pressão, dando a entender que a aventura acabou mal porque não era possível dar vida a uma voz livre. Para isso, preciso que você invente, idealize, escreve uma epopeia, não sei se me faço entender.
Ou seja, «O livro dirá o contrário daquilo que aconteceu…»
Nem mais, «será assinado por mim, você, depois de o ter escrito, deverá desaparecer.»
«Porque não o escreve você? É jornalista, não é? Pelo menos, visto que está em vias de dirigir um jornal…?»
«Ser director não quer dizer saber escrever. Ser ministro da Defesa não quer dizer saber atirar uma granada…»
Estranho?!
Sim, estranho, mas seis milhões/mês (por fora) durante um ano de trabalho (humilhante) na redacção do "Amanhã", a registar o ali que passa e a rever os artigos dos redactores, convenceram o deprimido/falido "Doutor" Colonna.
Doze números zero sairão da redacção. Doze números, feitos de reportagens ignóbeis, destinados a favorecer a chantagem do financiador do jornal, um Comendador milionário, que pretende entrar no salão reservado da finança, dos bancos, e mesmo dos grandes jornais, e que fará com que sejam vistos por certas pessoas. 
«Só eu e você é que estamos a par desta história… Se o comendador usa os nosso números zero para assustar alguém ou para limpar o rabo, isso são assuntos seus, não nossos.»
Terça-feira, 7 de Abril (3º Capítulo)
Primeira reunião de Simei (director) e Colonna (assistente de direcção) com os seis redactores do jornal.
(à porta fechada, logo, nada vou desvendar... )

Leia este romance corajoso, hilariante, surpreendente e saiba que ... nunca se deve acreditar no que nos é contado.

Número Zero, de Umberto Eco
Tradução de Jorge Vaz de Carvalho
Ed. Gradiva, 2015
163 págs.

21 fevereiro, 2016

Umberto Eco (1932-2016)


«Um livro?». perguntei-lhe.
«Um livro. As memórias de um jornalista, o relato de um ano de trabalho para preparar um diário que nunca sairá. Por outro lado, o título do jornal deveria ser Amanhã, parece um lema para os nossos governos, falaremos disso amanhã. Portanto, o título do livro deverá ser Amanhã:Ontem. Bonito, não é?»
«E quer que seja eu a escrevê-lo? Porque não o escreve você? É jornalista, não é? Pelo menos, visto que está em vias de dirigir um jornal...»
«Ser director não quer dizer saber escrever. Ser ministro da Defesa não quer dizer saber atirar uma granada. Naturalmente que, durante todo o ano que vem, discutiremos o livro dia após dia - terá de lhe pôr o estilo, a pimenta, mas as grandes linhas controlo-as eu.»
Em "Número zero", ed. Gradiva, 2015 

UMBERTO ECO (5 de Janeiro, 1932 / 19 de Fevereiro, 2016), filósofo, medievalista e semiólogo italiano, estreou-se na narrativa com o "Nome da Rosa" em 1980, a que se seguiram "O Pêndulo de Foucault", "A Ilha do Dia Antes", "Baudolino", "A Misteriosa Chama da Rainha Loana", "O Cemitério de Praga" e "Número  Zero", em 2015.

Estou decidida a ler, ou reler, todos os romances (e os "Diários Mínimos") de Umberto Eco, até ao final de 2016.
Vou cumprir!

21 abril, 2015

Vale a pena ler... Umberto Eco

Quando descobriu em si o impulso narrativo, a vontade de contar?
Escrevi a primeira novela aos 15 anos. E passei a adolescência a escrever novelas, que começava e não acabava porque era tão meticuloso que queria que parecessem impressas. Fiz também alguma banda desenhada e escrevi poesia, mas isso não conta porque a poesia entre os 16 e os 20 anos é como a masturbação. De facto, tive sempre este impulso narrativo e quando apresentei a minha tese de doutoramento – sobre a Estética de São Tomás de Aquino – um dos meus professores disse que havia nela algo de curioso: quando alguém faz uma pesquisa, chega a certas conclusões e fixa-as no papel. Eu, pelo contrário, estava a contar a história da minha pesquisa como se fosse uma história de detetives. Para ele isto era uma falha para mim é uma virtude. Todos os meus ensaios tinham esta estrutura narrativa e, num sentido, estava a escrever romances sem o saber. Provavelmente comecei a escrever romances porque os meus filhos cresceram e já não podia contar-lhes histórias. Arranjei outra maneira.

Só aos 48 anos publicou “O Nome da Rosa”.
Adiei o momento de contar histórias porque tinha outras coisas para fazer. Só depois de ter feito tudo o que queria – o meu lugar na universidade, os ensaios publicados, dois filhos – perguntei-me: “O que vou fazer agora?”. Vou contar histórias.


Na entrevista concedida a Luciana Leiderfarb, e publicada na “E”, revista do jornal Expresso de 18 Abril 2015, Umberto Eco fala sobre a  infância, a escrita, a Europa e... o novo romance "Número Zero" (sobre os limites do jornalismo), em Maio nas livrarias portuguesas. 
Vale a pena ler na íntegra.